SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

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domingo, 15 de março de 2020

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA



O DEMÔNIO MUDO

S. Lucas XI, 14-28

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Muitos são os pontos de meditação que nos oferece o Evangelho deste domingo; mas, como a consideração de todos eles nos levaria muito longe, excedendo demasiadamente os limites de um artigo, limitar-me-ei em falar sobre o "demônio mudo".

Caríssimos, sabemos que os anjos são  puros espíritos criados por Deus para sua glória e seu serviço. Mas muitos deles, levados pelo mau exemplo de Lúcifer, se rebelaram contra Deus e se tornaram ESPÍRITOS MAUS. Tornaram-se demônios e todos são maus. Podemos concluir, no entanto, por palavras do próprio Jesus Cristo (... volta com sete espíritos PIORES que o primeiro; ... há uma espécie de demônio que só se expulsa com jejum e oração), que há uns piores. E certamente este "demônio mudo" é um destes piores.

"Expulsou Jesus um demônio, e ele era mudo". É chamado MUDO  porque ele é que causa a mudez espiritual, que é um mal terrível. O que tornava mudo aquele infeliz homem, era a presença e a ação deste demônio que o possuía. Tanto assim, que, expulso que foi este demônio, o homem recobrou o uso da palavra. Os Judeus não contestaram o milagre: mas atribuíram-no à Beelzebub, príncipe dos demônios. Mas, Jesus tritura tão indigna interpretação, interpretação esta que só podia nascer da má-fé.

Caríssimos, o que, no entanto, queremos ressaltar aqui é o sentido moral escondido neste prodígio. A finalidade direta que Jesus tinha em vista ao fazer milagres era confirmar sua missão de Messias e manifestar sua bondade. Mas, é óbvio que o divino Mestre visava, outrossim, um ensinamento moral e alegórico. Assim, este homem que o demônio tornava mudo, nos mostra um dos efeitos que o pecado produz em nossas almas. O pecado nos torna mudos, prendendo nossa língua naqueles usos para os quais Deus no-la deu como meios de ganharmos o Céu: orar, dar testemunho da verdade e confessar nossos faltas no Sacramento da Penitência. Quão terrível é este demônio mudo! pois nos pode tirar os grandes meios de salvação: pois, quem não reza se condena, sem confissão não há salvação (mesmo no arrependimento perfeito deve haver o desejo da Confissão) e quem não confessa a verdade e não dá testemunho de Jesus Cristo, no dia do Juízo será igualmente rejeitado pelo Supremo Juiz.   

O primeiro e principal uso que Deus quer que façamos da palavra em relação a Ele, é a ORAÇÃO. Quer que por ela primeiramente O glorifiquemos e O adoremos. Deus quer que nos sirvamos da palavra para falarmos com Ele mesmo, Criador de todas as coisas, Mestre soberano do universo, o Ser eterno, a própria Sabedoria, a própria Bondade, o Onipotente. Deus quer que nos dirijamos a Ele como Pai: "Pater Noster". E além do culto de latria só devido a Deus, a língua é- nos dada também para, na oração, agradecermos as graças recebidas, pedir novas graças e pedir perdão dos nossos pecados. Caríssimos, devemos nos sentir singularmente honrados em poder entrar em conversação com Deus, com o Ser tão grande, sendo nós tão pequenos! Este era o pensamento de Abraão quando dizia do fundo de sua pequenez: "Falarei ao meu Senhor, ainda que eu seja pó e cinza" (Gen. XVIII, 27).

Pois bem, o demônio mudo, quando reina numa alma pelo pecado, fecha-lhe a boca, torna-a muda em relação a Deus. A oração, que faz as delícias dos justos, torna-se uma como carga pesada para tais pecadores dominados pelo demônio mudo. Para eles a oração é causa de desgosto e enjoo; e, a medida que se afundam na iniquidade, eles negligenciam mais e mais a oração e terminam mesmo abandonando-a completamente. Mais do que ninguém precisavam usar a língua para implorar misericórdia, mas o demônio mudo, à exemplo do lobo, lança-se na garganta destes infelizes impedindo-os de pedir o socorro divino. 

Outro uso para o qual a palavra nos foi dada por Deus, é a de DAR TESTEMUNHO DA VERDADE. Fazer conhecer Deus a nossos semelhantes, de o louvarmos nas reuniões dos fiéis, sustentar e defender a religião quando ela é atacada, confessar, então,  nossa fé por nossos discursos bem como o devemos fazer por nossos atos. Tudo isto é um dever para todos nós, e, caríssimos, poderíamos melhor testemunhar a Deus nosso reconhecimento por este dom magnífico da palavra do que empregando-o para a glória de Deus?

Quero, no entanto, salientar a obrigação dos Eclesiásticos. Na verdade, é o respeito e os interesses humanos que impedem que os superiores eclesiásticos se declarem publicamente por Deus, por Jesus realmente presente na Hóstia Consagrada. Lamentam talvez internamente os sacrilégios, mas não falam contra eles. Mantêm a verdade cativa, e não ousam confessar publicamente a sua fé, ainda mesmo quando o silêncio é uma espécie de apostasia. Os estragos do demônio mudo nunca são tão deploráveis como quando exerce a sua tirania sobre os mesmos Pastores. O maior triunfo deste demônio terrível é encadear a palavra sacerdotal. Ou fecha a boca aos ministros do Senhor, ou não lhes permite que falem senão com timidez, quando deviam falar com energia. Pastores, "cães mudos", quando não corrigis, com prudência é verdade, mas também com a santa liberdade que vos convém, os pecadores escandalosos que pervertem o povo, os libertinos, os blasfemos, os profanadores do Santíssimo Sacramento; quando, na administração dos sacramentos, não ousais advertir quanto seria necessário, para que os recebam com respeito e fruto; quando no sagrado tribunal poupais a delicadeza dos culpados, à custa da sua salvação, deixando-os na ignorância das graves obrigações que só vós podeis ensinar-lhes, então concedeis ao demônio mudo um funesto triunfo; e mereceis esta censura de São Cipriano: "Que cruel misericórdia é essa, que consiste, não em curar o ferido, mas em esconder a sua ferida, para nela, encerrar a morte? O Pastor de almas deve ser prudente e circunspecto, mas ao mesmo tempo deve ser firme e animoso. "Deus dissipará os ossos daqueles que procuram agradar aos homens" (Sl. LII, 6). "Deus castigará os tímidos tanto como os mais criminosos" ( Apoc. XXI, 8).

Um terceiro uso que devemos fazer da palavra é  CONFESSAR NOSSAS FALTAS no Sacramento da Penitência. Na verdade Deus não se recusa a nos dar o perdão de nossos pecados. Mas como condição deste perdão Ele exige expressamente que o homem reconheça sua falta; e, pela confissão o homem reconhece seu pecado, e reconhece-o pelo meio mais solene, mais autêntico que está em seu poder, pela palavra que lhe foi dada para manifestar seu pensamento, isto é, pela palavra que não é, ou pelo menos, não deve ser senão a expressão, a manifestação, a veste do pensamento e assim podemos dizer que a alma mesma se torna de alguma maneira visível.
 Mas, caríssimos e amados irmãos, em se tratando do mutismo em relação a confissão, podemos dizer que é aqui que o demônio mudo triunfa. Vejam: uma pessoa desejava aliviar-se do peso que a oprimia; sentia-se vivamente incitada  a ser sincera; tinha começado bem; uma palavra mais, e tem o Céu seguro, e na vida presente uma paz que sobrepuja todo o entendimento; uma palavra menos, e merece o inferno, e desde já o remorso que a dilacera. Que poder oculto fez morrer em seus lábios essa palavra indispensável? - O demônio mudo - .Ah! quantas almas o demônio mudo conserva encadeada pelo mutismo! Um grande número de almas, por tentação do demônio, por falta de humildade, ocultam os seus pecados em confissão ou porque se envergonham deles ou porque não querem corrigir-se.

 O Sacerdote que ouve os pecados faz as vezes de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele tem para os penitentes um coração de pai; não se admira porque sabe as misérias em que o homem pode cair; não os envergonha nem despreza, mas ama-os, ajuda-os, consola-os e cura-os. Sente uma alegria celestial, mas que levará para o túmulo. Oh! almas remidas com o Sangue de Jesus Cristo, por amor de Deus, não consintais por mais tempo sobre vós o jugo deste demônio mudo, se é que tendes feito confissões sacrílegas. Mas também não vos lanceis no desespero como Judas. Vinde, antes como Pedro e Madalena lançar-vos aos pés de Jesus Cristo, vosso doce Salvador, que vos chama, vos espera e vos receberá como ao filho pródigo.

   Caríssimos, pedi a Deus luz e força para que, livres da escravidão do demônio, sejais fiéis a Deus em tudo, servindo-O e amando-O como filhos queridos e esperando a eterna recompensa na Pátria do repouso eterno. Amém!

HOMILIA DOMINICAL - 3º Domingo da Quaresma



  Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Efésios, V, 1-9.
                    Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas, XI, 14-28: 




 "Naquele tempo, expulsou Jesus a um demônio, e ele era mudo. E tendo lançado fora o demônio, o mudo falou e as multidões se admiraram. Alguns deles, porém, disseram: É por Belzebu , príncipe dos demônios, que ele expulso os demônios. E outros para tentá-Lo, pediam um sinal do céu. Conhecendo, porém, os seus pensamentos, Jesus disse-lhes: Todo reino dividido em si mesmo será destruído e uma casa cairá sobre outra. Se, pois, satanás está em desacordo em si mesmo, como subsistirá seu reino? Dizeis que é por Belzebu que expulso os demônios. Ora, se é por Belzebu que expulso os demônios, vossos filhos por quem os expulsam? Por isso eles próprios serão os vossos juízes. Se, entretanto, é pelo dedo de Deus que expulso os demônios, é evidente que chegou para vós o Reino de Deus. Quando um poderoso guarda armado a entrada de sua casa, em paz está tudo o que possui. Se sobrevier, porém, outro mais forte do que ele e o vencer, tirar-lhe-á todas as suas armas, em que confiava, e repartirá os seus despojos. Quem não está comigo é contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa. Quando o espírito imundo sai de um homem, anda por lugares secos, buscando repouso, e não encontrando diz: Voltarei para minha casa de onde saí. E quando vem, e encontra-a varrida e ornada, vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, e, entrando, aí fazem habitação. E o último estado desse homem torna-se pior do que o primeiro. Quando Ele assim falava, uma mulher, levantando a voz, do meio do povo, disse-Lhe: Bem-aventurado o ventre que Te trouxe e os seios que Te amamentaram. Ele, porém, respondeu: Bem-aventurados, antes, aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Este demônio mudo, ou seja, aquele que provoca nas almas o mutismo espiritual, é terrível! Nosso Senhor Jesus Cristo diz, no Santo Evangelho de hoje, que, quando o demônio é expulso de uma alma, ele procura voltar, e, se o consegue, já não volta só, mas com sete espíritos piores do que ele. Na explicação da primeira imagem postada na explanação  do Evangelho do domingo passado, também vimos que Jesus disse para seus Apóstolos que há certa espécie de demônio que só se expulsa com jejum e oração. Donde concluímos que, embora, todos sejam espíritos malignos, invejosos e perversos, há uns piores do que outros. E este demônio mudo talvez seja do número dos piores, porque, constatamos que ele perde muitas e muitas almas. Na verdade o mutismo espiritual é muito perigoso.

   É um perigo não só para a oração, como também para o cumprimento dos deveres de caridade e do nosso estado e para a acusação dos pecados na confissão.

   Assim como o lobo ao apanhar uma ovelha a pega pelo pescoço, assim o demônio mudo torna as almas mudas para que não orem, isto é, para que não gritem pelo socorro divino. Sem oração não pode haver virtude sólida, santidade, nem salvação. Aquele, pois, que não ora está desarmado, torna-se inevitavelmente presa do demônio. Caríssimos, infeliz da alma que assim está muda para Deus e não sabe nem quer orar. No entanto, infelizmente, quantos cristãos, que nunca oram, nem a sós, nem em família; e se alguma vez se dão à oração fazem-na tão mal, com tantas distrações voluntárias, com tanto tédio que nem Deus é louvado, e o demônio consegue seu intento.

   O mutismo espiritual é também um perigo para os deveres de caridade e para os do nosso estado. Isto diz respeito principalmente aos deveres de instrução e correção fraterna que pertencem aos bispos, aos párocos, pais, patrões e outros superiores encarregados de corrigir e educar os que lhes estão confiados. Se os superiores só se preocupam em salvaguardar os seus direitos pessoais e se tornam cúmplices do demônio e das paixões, contraem perante Deus uma culpabilidade, segundo as circunstâncias, e tornam-se responsáveis pela perda das almas. Assim diz o profeta Isaías: Ai de vós, cães mudos!... De vossas mãos, pedirei contas de seu sangue!

   Não é a verdadeira humildade que prende a língua, mas o demônio que fecha a boca. Quantos pecados não podíamos evitar, quantas almas não podíamos conduzir à salvação ou tornar mais perfeitas!

  Embora este dever obrigue primeiramente os superiores, no entanto, devemos dizer que todos, sem exceção têm o dever de avisar caridosamente o seu próximo, e, podendo, com toda prudência, deve livrar o seu próximo do pecado.

   Caríssimos, quero, no entanto, salientar a obrigação dos eclesiásticos. Na verdade, é o respeito e os interesses humanos que impedem que os superiores eclesiásticos se declarem publicamente por Deus, por Jesus realmente presente na Hóstia Consagrada. Lamentam talvez internamente os sacrilégios, mas não falam contra eles. Mantêm a verdade cativa, e não ousam confessar publicamente a sua fé, ainda mesmo quando o silêncio é uma espécie de apostasia. Os estragos do demônio mudo nunca são tão deploráveis como quando exerce a sua tirania sobre os mesmos Pastores. O maior triunfo deste demônio terrível é encadear a palavra sacerdotal. Ou fecha a boca aos ministros do Senhor, ou não lhes permite que falem senão com timidez, quando deviam falar com energia. Pastores, "cães mudos", quando não corrigis, com prudência é verdade, mas também com a santa liberdade que vos convém, os pecadores escandalosos que pervertem o povo, os libertinos, os blasfemos, os profanadores do Santíssimo Sacramentos; quando, na administração dos sacramentos, não ousais advertir quanto seria necessário, para que os recebam com respeito e fruto; quando no sagrado tribunal poupais a delicadeza dos culpados, à custa da sua salvação, deixando-os na ignorância das graves obrigações que só vós podeis ensinar-lhes, então concedeis ao demônio mudo um funesto triunfo; e mereceis esta censura de São Cipriano: "Que cruel misericórdia é essa, que consiste, não em curar o ferido, mas em esconder a sua ferida, para nela, encerrar a morte? 

   O Pastor de almas deve ser prudente e circunspecto, mas ao mesmo tempo deve ser firme e animoso. "Deus dissipará os ossos daqueles que procuram agradar aos homens" (Sl. LII, 6). "Deus castigará os tímidos tanto como os mais criminosos" ( Apoc. XXI, 8).

   Mas, caríssimos e amados irmãos, em se tratando do mutismo em relação a confissão, podemos dizer que é aqui que o demônio mudo triunfa. Vejam: uma pessoa desejava aliviar-se do peso que a oprimia; sentia-se vivamente incitada  a ser sincera; tinha começado bem; uma palavra mais, e tem o Céu seguro, e na vida presente uma paz que sobrepuja todo o entendimento; uma palavra menos, e merece o inferno, e desde já o remorso que a dilacera. Que poder oculto fez morrer em seus lábios essa palavra indispensável? - O demônio mudo - .Ah! quantas almas o demônio mudo conserva encadeada pelo mutismo! Um grande número de almas, por tentação do demônio, por falta de humildade, ocultam os seus pecados em confissão ou porque se envergonham deles ou porque não querem corrigir-se.

   Caríssimos e amados irmãos, o Sacerdote que ouve os pecados faz as vezes de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele tem para os penitentes um coração de pai; não se admira porque sabe as misérias em que o homem pode cair; não os envergonha nem despreza, mas ama-os, ajuda-os, consola-os e cura-os. Sente uma alegria celestial mas que levará para o túmulo. Oh! almas remidas com o Sangue de Jesus Cristo, por amor de Deus, não consintais por mais tempo sobre vós o jugo deste demônio mudo, se é que tendes feito confissões sacrílegas. Mas também não vos lanceis no desespero como Judas. Vinde, antes como Pedro e Madalena lançar-vos aos pés de Jesus Cristo, vosso doce Salvador, que vos chama, vos espera e receberá como ao filho pródigo.

   Caríssimos, pedi a Deus luz e força para que, livres da escravidão do demônio, sejais fiéis a Deus em tudo, servindo-O e amando-O como filhos queridos e esperando a eterna recompensa na Pátria do repouso eterno. Amém!

   

domingo, 8 de março de 2020

HOMILIA DOMINICAL - 2º DOMINGO DA QUARESMA

Leituras: Primeira Epístola de São Paulo Apóstolo aos Tessalonicenses 4, 1-7.
                Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 17, 1-9: 

Pintor: Rafaello Sanzio (1483-1520). Vaticano - Pinacoteca.
Na parte superior o pintor representa a Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em baixo: vemos no sopé do Monte Tabor, um menino possesso que os seus pais
apresentam aos 9 Apóstolos (S. Pedro, S. João e S. Tiago estavam no alto do Tabor
presenciando a Transfiguração). Mas os Apóstolos não conseguiram expulsar o
demônio do menino. Após a Transfiguração, Jesus desceu do monte e, a pedido do
pai do menino, expulsou o demônio. Os Apóstolos que não conseguiram expulsar
o demônio, perguntaram a Jesus, por que não conseguiram? Jesus disse: Há uma
espécie de demônio que só se expulsa com jejum e oração. 
   "Naquele tempo, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os de parte a um monte muito alto. E transfigurou-se diante deles. Seu rosto resplandeceu como o sol. e suas vestes tornaram-se brancas como a neve. E eis que apareceram Moisés e Elias, falando com Ele. Então Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: "Senhor, é bom estarmos aqui; se quiserdes, faremos aqui três tendas, uma para Vós, outra para Moisés e outra para Elias". Ainda falava ele, quando uma nuvem brilhante os envolveu, e da nuvem soou uma voz que dizia: "Este é o meu Filho muito amado em quem pus toda a minha complacência: ouvi-O". Ouvindo isto, os discípulos caíram com a face em terra e ficaram muito atemorizados. Aproximou-se, porém, Jesus, e, tocando-os, disse-lhes: Levantai-vos e não temais. E erguendo eles os olhos, não viram ninguém a não ser Jesus só. E enquanto descia com eles do monte, ordenou-lhes Jesus dizendo: A ninguém digais o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos".

   Caríssimos a amados fiéis em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   A primeira observação que fazemos é que Jesus Cristo escolheu para presenciar sua Transfiguração os mesmos três apóstolos privilegiados que presenciariam Sua agonia no Getsêmani: São Pedro, que seria o primeiro Papa, São Tiago que seria o primeiro apóstolo a morrer mártir, São João que era, pela sua virgindade, o discípulo que Jesus mais amava. 


Monte Tabor
São Pedro e São João guardaram sempre uma recordação tão indelével, quanto deliciosa, da Transfiguração de Jesus. O mistério se realizou, segundo a autoridade de São Cirilo e de São Jerônimo, na montanha do Tabor, onde Santa Helena edificou, mais tarde, um belo templo.
   Deixando por um instante, a forma de servo, Jesus se mostra o que realmente é no esplendor da sua glória, o Filho de Deus vivo. Segundo Santo Tomás, a Transfiguração foi menos um milagre que a cessação momentânea de um milagre. Com efeito, o mistério da Encarnação supunha dois milagres concomitantes - um , pelo qual o Filho de Deus se encerrava no corpo de um homem; outro, pelo qual a divindade, que naturalmente devia jorrar através da humanidade, se escondia sob os véus de uma carne mortal. 

   Jesus tem a seus lados os dois corifeus do Antigo Testamento e diante de si os Apóstolos do Novo. Moisés é a Lei, Elias os Profetas, os Apóstolos os Evangelhos. 

   A Transfiguração se realizou , ao que parece, durante a noite, e é de notar que os Apóstolos tenham sucumbido ao sono, enquanto Jesus orava, tanto no Tabor, como no Getsêmani. 

  Jesus pediu segredo sobre a Transfiguração certamente porque tal divulgamento teria aumentado o perigoso fanatismo dos que contavam erradamente com o reino temporal do Messias. 

   Caríssimos irmãos, talvez a pergunta mais provável sobre o evangelho deste segundo domingo da Quaresma seria: qual a razão de a Igreja colocar para nossa meditação um mistério de alegria em plena Quaresma? 

 
Igreja construída por Santa Helena, no alto do Tabor
onde se deu a Transfiguração.
  É que Jesus falava com Moisés e Elias sobre sua próxima saída da cidade de Jerusalém, o que significa sua morte no monte Calvário que ficava fora dos muros. Embora, pois, não pareça a primeira vista, na verdade, os mistérios da Transfiguração e da Paixão têm entre si íntima relação. É no meio dos resplendores da sua Transfiguração que Jesus Cristo fala da sua morte, com dois de seus ministros do Antigo Testamento, e na presença de três do Novo. Que havia de comum entre o Tabor e o Calvário? No primeiro destes mistérios tudo é glória e delícias para Jesus Cristo; no segundo tudo é opróbrio e sofrimento. No Tabor o seu rosto é refulgente como o sol, suas vestiduras se fazem brancas como a neve; no Calvário está despido, desfigurado, ensanguentado. Lá o Pai Eterno reconhece-O por seu Filho amado; aqui o Filho queixa-se de ser desamparado e desconhecido de seu Pai. 
   Hoje seus Apóstolos não podem separar-se dele; no dia da sua morte, todos o abandonarão! Todavia estes dois mistérios têm entre si íntima relação e lançam luz um sobre o outro para a sua compreensão. Um mostra-nos a coroa que nos é destinada; o outro ensina-nos por que preço a alcançaremos. A sua união faz-nos conhecer que neste mundo a doçura e a amargura, a glória e a ignomínia não podem estar separadas muito tempo. Modera a nossa alegria na prosperidade, consola-nos na adversidade, a anima-nos com a esperança. Tem principalmente uma admirável força para abrasar nossos corações no amor divino. Sem a Transfiguração comover-nos-ia menos a Paixão. Depois de contemplar as grandezas do Filho de Deus, apreciamos melhor a caridade que o fez descer por nós ao último grau de humilhação.
    Se não tivesse o cuidado de revelar-nos suas grandezas, pensaríamos nós no sacrifício que fez delas por amor de nós, não durante algumas horas somente, ou alguns dias, mas durante toda a vida? Como vimos acima, Sua Transfiguração foi a interrupção momentânea de um milagre de amor, sem o qual não teria podido humilhar-se, nem padecer, nem morrer por nós. No jardim das Oliveiras suspendeu o efeito da visão beatífica, para que sua alma fosse oprimida de tristeza; durante toda a vida, suspendeu o efeito da união hipostática, para que sua santa humanidade estivesse sujeita às humilhações, aos sofrimentos e à morte. 

  Mas, caríssimos e amados irmãos, quantos cristãos e até sacerdotes, procuram separar estes dois mistérios. Querem ficar só no Tabor; e fogem do Calvário! São todos os partidários de uma devoção cômoda. Querem estar com Jesus Cristo, contanto que seja nas honras e delícias. Como é possível que não vejam que uma piedade sem incômodo, sem sacrifício, sem penitência, está em contradição com a piedade própria do espírito de Jesus Cristo? Que ensinou Ele? Como viveu? Sua doutrina resume-se em três coisas: negar-se a si mesmo; tomar a sua cruz e segui-Lo. Uma só palavra resume todos os seus exemplos: padecer. Entremos finalmente com valor e constância neste caminho de cruz, onde nos precederam os homens apostólicos e todos os santos. 

  Caríssimos, no meio das vossas tribulações lembrai-vos do Céu. Estremecei de alegria, pensando nessa glória incomparável que vos está reservada na Pátria do repouso eterno!. Tende paciência! Como diz São Paulo: não há comparação entre as tribulações que sofremos agora no tempo, com o peso imenso de glória que nos está reservado no Céu! Pensai assim muitas vezes nas íntimas relações que há entre a Transfiguração e a Paixão, entre o Tabor e o Calvário, entre a Cruz e o Céu. Amém!

     
      

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

   "És pó em em pó te hás de tornar" (Gênesis III-19). Estas palavras dirigidas a Adão em consequência do pecado cometido, a Santa Madre Igreja repete-as a cada cristão para nos lembrar do nosso nada e da nossa morte: "Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar". Ao pronunciar estas palavras, o sacerdote impõe as cinzas. A cinza é símbolo de penitência pelos pecados que trouxeram o morte para este mundo. As orações da bênção e imposição dos cinzas e as da Missa nos fazem penetrar no espírito da penitência cristã; humilde submissão, unida a uma grande confiança na misericórdia de Deus. "Ouvi-nos, Senhor, diz o Introito da Missa, porque é benigna a vossa misericórdia; segundo a multidão de vossas comiserações, olhai para nós, Senhor".

  A Epístola nos põe diante dos olhos um exemplo comovente de penitência, o jejum. Eis a Epístola (Joel II-12-19): "Eis o que disse o Senhor: Convertei-vos de todo o vosso coração em jejuns, em lágrimas e gemidos. Rasgai vossos corações e não vossos vestidos; convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, que é benigno e compassivo, paciente e rico em misericórdia, e pronto a perdoar a maldade. Quem sabe se Ele não se voltará para vós, se vos perdoará, e não deixará uma bênção atrás de Si [para apresentardes novamente] sacrifício e libação ao Senhor, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, guardai um jejum sagrado, convocai a assembléia, reuni o povo, santificai a Igreja, reuni o povo, santificai a Igreja, reuni os velhos, congregai os pequeninos e os meninos de peito; saia o esposo de seu aposento e a esposa do seu leito nupcial. Os Sacerdotes, ministros do Senhor, chorem entre o vestíbulo e o altar, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, e não deixeis cair a vossa herança no opróbrio, expondo-a aos insultos das nações. Porque se diria entre as nações: Onde está o seu Deus? O Senhor zela por sua terra e perdoa o seu povo. E o Senhor responde e diz a seu povo: Eis que vou enviar-vos trigo, vinho e azeite, deles ficareis abastecidos, e nunca mais vos entregais aos insultos das nações. Assim disse o Senhor Onipotente". 

   E Jesus nos ensina no Evangelho que este jejum deve ser antes de tudo interior, feito com coração reto diante de Deus. Eis o Evangelho segundo São Mateus VI-16-21: "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Quando jejuardes, não tomeis um ar tristonho, como o fazem os hipócritas, que desfiguram suas faces, para que os homens vejam como jejuam. Em verdade, eu vos digo: já receberam a recompensa. Mas, quando tu jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para que não mostres aos homens que estás jejuando, mas só a teu Pai, que está presente ao que há de mais secreto; e teu Pai, que vê no oculto, de dará a recompensa. Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça consomem e onde os ladrões desenterram e roubam. Ajuntai, porém, tesouros no céu, onde não há ferrugem nem traça que consomem, nem ladrões que desenterram e roubam. Porque onde está o teu tesouro, está também aí o teu coração". 

   Nos quarenta dias da Santa Quaresma, os cristãos se unem intimamente aos sofrimentos e à morte do Divino Salvador, a fim de ressuscitarem com Ele para uma vida nova, nas grandes solenidades pascais. É preciso que os Cristãos sacudam a poeira do mundo. A sabedoria da Santa Igreja estabeleceu este tempo propício de quarenta dias, a fim de que as nossas almas se pudessem purificar, e por meio de boas obras e jejuns, expiassem as faltas. Inúteis seriam, porém, os nossos jejuns, se neste tempo os nossos corações se não desapegassem do pecado. 
   As práticas exteriores que devem desenvolver em nós o espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo e unir-nos a seus sofrimentos, são o jejum, a oração e a esmola. 

   Jejum: Seria um engano pernicioso não reconhecer a utilidade desta mortificação corporal. Seria menosprezar o exemplo do próprio Jesus. O Prefácio da Quaresma nos descreve os efeitos salutares do jejum: ..."pelo jejum corporal reprimis os vícios, elevais a inteligência, concedeis a virtude e o prêmio dela...".

    Oração: Assim como a palavra "jejum" abrange todas as mortificações corporais, da mesma maneira compreende a palavra "oração" todos os exercícios de piedade feitos neste tempo, com um recolhimento particular, como sejam: a assistência à Santa Missa, a Comunhão frequente, a leitura de bons livros, a meditação especialmente da Paixão de Jesus Cristo, a Via Sacra e a assistência às pregações quaresmais. 
    Esmola: Compreende as obras de misericórdia para com o próximo. Já no Antigo Testamento está dito: "Mais vale a oração acompanhada do jejum e da esmola do que amontoar tesouros" (Tobias XII-8).

PRÁTICAS DA SANTA QUARESMA



 A Quaresma existe desde os apóstolos, que limitaram sua duração a quarenta dias, em memória do jejum de Jesus Cristo no deserto.

   No intuito de encaminhar-nos para o Divino Redentor e Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Madre Igreja estabeleceu: 
  1. os domingos de Setuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, que nos aproximam mais e mais desse período de penitência. Durante essas três semanas, a Igreja usa paramentos roxos, suprime o Gloria in Excelsis, a Aleluia, o Te Deum, cânticos de alegria, e incita-nos, pelos evangelhos que escolhe, a trabalharmos com mais empenho no cultivo e amanho da nossa alma, e a ouvirmos, mais assíduos e mais piedosos, a palavra de Deus. 
  2. as preces da Quarenta Horas. Enquanto o mundo, ao aproximar-se a quaresma, procura distrações e divertimentos pecaminosos no carnaval, a Igreja convida seus filhos aos pés dos altares, para, no retiro ouvir a Palavra de Deus e também para adorar a Jesus Eucarístico. Pede-lhes o recolhimento e a oração, quer para prepará-los à quaresma, quer para implorar o perdão de Deus pelos pecados que se cometem. 
  3. a cerimônia das Cinzas. Na quarta-feira em que começa a santa quaresma, faz-se a imposição das Cinzas. Com solenidade, o celebrante benze cinzas no altar; depois de as santificar pela oração, a água benta e o incenso, põe na cabeça do clero e do povo, e a cada um dirige esta palavra: "Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar!" ("Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris"). Logo é o pensamento da morte, e também uma lição de penitência que se evoca aos fiéis. De fato, as cinzas sempre foram entre os antigos, símbolo de luto e dor profunda. Davi, no extremo da mágoa, cobriu-se de cinzas, e os Ninivitas, ouvindo o convite do profeta Jonas, fizeram penitência com cinza e cilício. Nos primeiros séculos cristãos, a Igreja introduziu o costume de pôr cinzas na fronte dos pecadores, especialmente dos penitentes públicos. Por humildade e sinal de arrependimento, todos os fiéis quiseram participar dessa cerimônia, que ficou como preparação eloquente para a penitência da quaresma.
  4. observar segundo suas forças a abstinência e o jejum que a Igreja prescreve. - Com efeito, todos nós precisamos de penitência pelos numerosos pecados que temos cometido durante um ano inteiro de indiferença, esquecimento, e muitas vezes de fraqueza criminosa. Ora, o melhor desagravo é o que a Igreja nos pede. Humildemente devemos reconhecer a necessidade que temos de fazer mais penitências além das estritamente obrigatórias pelas leis da Igreja. Estas penitências, no entanto devem ser sempre humildes, discretas e obedientes. 
  5. empregar mais tempo na oração e nas boas obras. Os ofícios da Igreja ouvidos com mais atenção, a Santa Missa alguma vez na semana, leituras piedosas, o exercício da Via-Sacra, esmolas mais abundantes aos pobres e às obras de caridade, são outras tantas práticas úteis, junto com o trabalho e as penas da vida, religiosamente aceitas e suportados por amor a Jesus Crucificado.
  6. enfim, a Santa Igreja, no santo tempo da quaresma, estabeleceu práticas mais frequentes e especialíssimas, seguidas geralmente da bênção do Santíssimo; convém assistir a essas instruções, e assim reanimar-se na fé e na vida cristã; padres zelosos costumam pregar retiros fechados e também abertos para todo povo. Tudo isto serve também de preparação para à comunhão pascal através de uma confissão, a melhor possível.
     Nosso Senhor Jesus Cristo dizia aos seus discípulos: "O mundo se há de alegrar e vós estareis na tristeza; mas a vossa tristeza mudar-se-á em alegria e esta alegria ninguém vo-la poderá tirar" (São João, XVI, 20, 22). Ai vai, pois, um sinal de predestinação e penhor de felicidade eterna: chorar e gemer com Cristo no Calvário para podermos regozijar-nos e reinar com Cristo ressuscitado. Os verdadeiros cristãos não o ignoram; por isso, santificam no recolhimento, na oração e nas lágrimas da penitência, o santo tempo da Quaresma , e mais especialmente os dias da Semana Santa; sepultam com Nosso Senhor Jesus Cristo, no túmulo, seus pecados e sua concupiscência, e levantam-se com Ele, na alegria, nos transportes da sua Ressurreição. 

domingo, 31 de março de 2019

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA



S. João VI, 1-15
A Multiplicação dos Pães é Imagem da Multiplicação do Pão Eucarístico

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Estando próximos à Festa da Páscoa, a Santa Madre Igreja vem nos preparando para a confissão e comunhão santas. No domingo p. p. nos deu ensejo para falarmos sobre a confissão e, especificamente, chamando-nos à atenção contra o perigo do demônio mudo; neste domingo (4º da quaresma), oferece-nos ocasião para meditarmos sobre a Comunhão. Pois, na verdade o prodígio da multiplicação dos pães contado no evangelho de hoje, é figura de um outro prodígio muito mais brilhante e de uma ordem mais elevada, isto é, a multiplicação do pão eucarístico que deve servir de alimento das nossas almas. Não é pois sem razão que antes de contar o milagre que nos ocupa, o evangelista faz notar que a Páscoa dos Judeus estava próxima; não é,  outrossim, sem motivo que a Santa Igreja coloca a leitura deste evangelho (S. Jo VI, 1-15) nas proximidades  do tempo pascal. É fácil, com efeito, perceber à luz do fato da multiplicação dos pães e das circunstâncias que a acompanham, o grande fato da instituição da Santíssima Eucaristia. Com a multiplicação dos pães Jesus Cristo já nos quis dar não só uma imagem mas também um como ante-gosto da Pão Eucarístico.

Do alto de sua misericórdia, de sua sabedoria, de suas perfeições, no meio das quais estava assentado como sobre uma montanha, Nosso Senhor Jesus Cristo avista uma grande multidão, isto é,  toda humanidade, fatigada, faminta e não encontrando no deserto da vida nada que pudesse saciar sua fome. Jesus tem dela compaixão, e, após tirar da boca dos homens, dos doutores, dos mestres da ciência representados pelos apóstolos, a confissão formal de sua incapacidade para nutrir estas almas, para as saciar, para lhes dar a luz, a força de que necessitam, Ele ordena  esta multidão que se assente, como para um grande festim; e a multidão assenta-se embora nada veja diante de si que seja capaz de satisfazer sua fome. Dócil e confiante, esta multidão se assenta por grupos ( segundo o texto dum outro evangelista), isto é, por grandes famílias espirituais, por cristandades, por igrejas, por paróquias, e ela aguarda, calma e segura de que o poder divino multiplicará para ela e lhe distribuirá este alimento sagrado do Corpo de Jesus Cristo. E há uma profecia de que o Sacrifício nunca faltará e assim também nunca deixará de existir no vale de lágrimas, no deserto da vida, este Pão sagrado que é o próprio Jesus como Deus e como Homem. E os ministros do Salvador, os bispos e os padres, executam sem hesitar  as ordens do Mestre, tomam o Pão sagrado e distribuem-No. Fazem mais. Estabelecidos para fazer as vezes de Jesus Cristo entre os povos, eles benzem o pão, eles dão graças a Deus, à exemplo do Salvador, e eles mesmos, em virtude de seu sacerdócio, deste sacerdócio que é uma derivação do de Jesus Cristo, eles fazem o milagre, eles multiplicam sem medida este alimento divino e dão-No aos fiéis.

Caríssimos, seríamos muito ingratos e cegos se recusássemos este Pão sagrado, este festim esplêndido que a divina munificência nos oferece! Não vemos um sequer daqueles que seguiam a Jesus no deserto, recusar sua parte do pão miraculosamente multiplicado e abundantemente distribuído à multidão. Seríamos mais descuidados em se tratando do alimento de nossa alma? Quantos que se dizem católicos e muito mal se contentam com a comunhão pascal, e, o que é mais triste, muitos nem esta fazem.

Reconhecemos pela fé, a superioridade incomparável do pão eucarístico sobre aquele pão material multiplicado e distribuído no deserto. Mas é esta mesma superioridade que assusta muitos e os afastam da mesa eucarística, porque não querem destruir os pecados mortais que levam à comunhões sacrílegas; e, lembrados das palavras inspiradas da Sagrada Escritura: "... todo aquele que comer este pão... indignamente, come para si a condenação" (Cf. 1 Cor. XI, 27-31) preferem se abster do Pão divino a se abster dos pecados e das ocasiões próximas dos mesmos. Hoje infelizmente tem acontecido algo pior: entendendo a Eucaristia como simples símbolo, isto é, não tendo fé na presença real de Jesus Eucarístico, tomam a comunhão sem deixar o pecado e, às vezes, pecados gravíssimos e públicos, como o ódio e o adultério. E assim dão um terrível escândalo, inclusive aos pequeninos que se preparam para o primeira Comunhão.

Caríssimos, devemos observar que Jesus Cristo não esperou, para nutrir a multidão faminta, que ela Lhe pedisse o alimento de que tinha premente necessidade. Jesus foi o primeiro a perceber esta necessidade, como também o primeiro em procurar os meios de a satisfazer. E, em se tratando de nossas necessidades corporais, somos tão prontos em as sentir, e tão prontos em procurar satisfazê-las. O mesmo não acontece atinente às nossas necessidades espirituais: ordinariamente são-nos menos presentes e menos manifestas. É mister que Deus mesmo, na sua bondade paternal, no-las faça perceber e nos avise de sua necessidade. Isto Jesus faz mostrando a necessidade de comermos a Sua Carne e bebermos o Seu Sangue para podermos  ser ressuscitados no último dia para a Vida eterna. E não só Nosso Senhor nos adverte quanto à necessidade de recebermos o Pão Eucarístico, que afinal, é Ele mesmo como Homem e como Deus: Corpo, Sangue, Alma e Divindade. O Salvador faz da Comunhão uma obrigação, pois, sem a qual não poderíamos ter a Vida Eterna. E o que a Igreja liga na terra, Jesus liga no Céu: daí o mandamento da Igreja quanto à Comunhão Pascal.

É evidente que nunca nos tornaremos dignos de receber Jesus; nem os Anjos seriam dignos! Mas, o que o divino Salvador exige é que nos purifiquemos de todo pecado mortal e, seria louvável, que também não tivéssemos nenhum pecado venial na alma. Quanto aos pecados veniais, no entanto,  caso não seja possível confessá-los, não impedem a pessoa de comungar, mas é necessário que façamos a comunhão com esta intenção de recebermos forças da própria Comunhão para eliminarmos de nossa vida também os pecados veniais. E com a comunhão frequente é forçoso que isto aconteça.

Terminemos com uma oração de Santo Agostinho: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que, sobre a cruz, com os braços abertos, bebestes o cálice de inenarráveis dores para a redenção de todos os homens, dignai-Vos hoje vir em meu auxílio. Eis-me aqui: pobre, venho a Vós que sois rico; miserável, apresento-me a Vós que sois misericordioso. Ah! fazei que não me afaste de Vós vazio e desiludido. Faminto, venho a Vós, não permitais que volte em jejum; esfomeado, aproximo-me, que eu não me retire sem ter sido por Vós saciado; e se antes de comer suspiro, concedei-me que depois dos suspiros eu possa ser alimentado". Amém!