SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 16 de fevereiro de 2020

DOMINGO DA SEXAGÉSIMA - HOMILIA DOMINICAL

   Leituras: Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios, 11, 19-33 e 12, 1-9.
              Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas, 8, 4-15.

  "Naquele tempo, tendo-se reunido uma grande multidão, como tivessem ido a Jesus os habitantes de várias cidades, propôs-lhes Ele esta parábola: Saiu o semeador a semear sua semente; e ao semeá-la, parte caiu junto ao caminho e foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra parte caiu sobre a pedra, e quando nasceu, secou logo, por não haver umidade. Outra parte caiu entre espinhos, e os espinhos, nascendo com ela, a sufocaram. E outra parte caiu em boa terra, e depois de nascer, deu fruto, cento por um. Dito isto, clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Seus discípulos perguntaram-Lhe, pois, que significava essa parábola. E Ele lhes respondeu: A vós é dado conhecer o Mistério do Reino de Deus, porém aos outros se fala em parábolas, para que olhando, não vejam, e ouvindo, não entendam. Este é, pois, o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão ao longo do caminho, são os que a ouvem, mas vindo depois o diabo, tira-lhes a palavra do coração, para que se não salvem, crendo nela. Os de sobre a pedra, são os que recebem com gosto a palavra, quando a ouviram. porém estes não têm raízes: até certo tempo creem, mas, no tempo da tentação, desviam-se. A que caiu entre os espinhos: são estes os que ouviram, porém indo, afogam-se com cuidados, riquezas e deleites da vida, e não dão fruto. E a que caiu em boa terra: são os que, ouvindo a palavra, guardam-na com o coração bom e perfeito e dão fruto na paciência". 

   Caríssimos e amados leitores em Nosso Senhor Jesus Cristo!


  É a parábola do semeador. De todas as parábolas de Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma das mais importantes e instrutivas; porque contém em figura o mistério da Encarnação, a obra da pregação evangélica e toda a economia da nossa salvação. Faz-nos ver, de um lado, a bondade inefável de Deus abaixando-se até nós, e semeando a sua palavra e a sua graça com uma liberalidade sem limites; e, do outro lado, a dureza e ingratidão dos homens, dos quais a maior parte são infiéis e inutilizam os dons de Deus. Mostra ainda a sua importância o cuidado caritativo de Nosso Senhor em explicá-la por si mesmo aos seus discípulos, o que só fez com esta e com a parábola da cizânia.
   Quem é o semeador? É o próprio Verbo, o Filho de Deus. Desceu à terra para semear em nossos corações e fecundá-los, para lançar neles a semente do seu Evangelho, isto é, para   revelar-nos os mistérios do reino dos Céus, para derramar em nós as suas graças e as suas misericórdias e para transformar os homens, de terrenos estéreis que eram, em homens celestes, capazes de produzirem frutos de santidade dignos da vida eterna.


   Qual é a semente? Jesus no-lo diz: É a palavra de Deus. É Nosso Senhor, pois que o Verbo de Deus é, ao mesmo tempo, semeador e semente depositada nos sulcos das nossas almas. Ele se semeia por assim dizer a si mesmo em nós, pela sua doutrina divina, pelas suas santas inspirações, pelos seus Sacramentos, sobretudo pela adorável Eucaristia. Nosso Senhor é ainda semeado pela pregação dos Apóstolos e de todos os seus sucessores legítimos de todos os tempos e de todos os lugares, isto é, pelo ensino, legislação e Liturgia da Igreja Católica; pelos bons livros e pelos exemplos dos santos. Quem poderia exprimir o preço e a virtude desta divina semente? que graça e que força íntima e oculta ela possui para regenerar o mundo e santificar os homens! foi por esta palavra que Deus tudo criou do nada. Foi ela que extirpou os vícios grosseiros do paganismo e que fez florir por toda a parte as belas virtudes do Cristianismo. Ela conserva sempre a mesma eficácia soberana; e, se é mais ou menos frutuosa, isso provém das nossas disposições.
   Justamente os diferentes terrenos significam os corações dos homens que recebem a palavra divina, com muito diversas disposições. A semente que cai ao longo do caminho, segundo explica o próprio Jesus, designa aqueles que ouvem a palavra; mas em seguida vem o demônio e lhes retira essa palavra do coração.
  Essa classe de pessoas é a das almas dissipadas, levianas, frívolas, preguiçosas; corações indiferentes, semelhantes a uma estrada larga, onde o ruído é  ensurdecedor, o terreno muito batido e endurecido sob os pés dos viandantes que passam em todos os sentidos. A palavra de Deus depressa é calcada e esmagada pelas paixões más, o orgulho, os ressentimentos, os ódios, etc... Ou não é acolhida por essas almas dissipadas e endurecidas, ou só é ouvida com desdém e indiferença. O demônio rouba esta semente, semelhante nisto às aves do céu, que, no tempo das sementeiras, comem os grãos que não ficam cobertos pela terra. 
   A semente que cai sobre terreno pedregoso, explica Jesus, designa aqueles que, tendo ouvido a palavra de Deus, a recebem com alegria; mas, como não têm raízes, não creem senão por algum tempo e, no momento da tentação, retiram-se e sucumbem.
   Essa classe de homens é a das almas superficiais que, ouvindo a palavra de Deus, a recebem com alegria, isto é, começam a converter-se, formam as mais belas e úteis resoluções, e parecem prontas a tudo para Deus. Mas falta-lhes vontade firme e séria: não há nelas senão veleidade, presunção e inconstância; não têm raízes bastante profundas; não são bem arraigadas na fé. Não têm suficiente fundo de humildade, de desconfiança de si mesmas e de confiança em Deus. Por isso, a mais pequena tentação as abala; as cruzes desta vida, as tribulações, algumas leves perseguições pela justiça e pela fé, as prostram e fazem perecer a sua virtude sem raízes; sucumbem, deixam o caminho direito, e acabam por se afastar miseravelmente.
   A semente que cai entre os espinhos, explica Jesus, figura aqueles que ouviram a palavra, mas indo, em pouco tempo esta palavra é abafada pelos cuidados e embaraços do mundo, pela ilusão das riquezas, pelos prazeres do mundo e pelas outras paixões, de sorte que não produzem fruto nenhum.
   Esta categoria é a das almas divididas, embaraçadas pelos prazeres e pelos cuidados excessivos dos bens da terra; que quereriam servir ao mesmo tempo a Deus,  ao prazer e ao  dinheiro. Esta sede insaciável das riquezas, das honras e dos prazeres abala a boa semente nestes corações carnais ou terrestres, isto é, destrói neles todos os bons sentimentos, a vontade de trabalhar na salvação, e mesmo todos os pesares ou remorsos que a palavra de Deus faz brotar neles.
   A semente que cai em terra boa, segundo a explicação de Nosso Senhor Jesus Cristo, são aqueles que tendo ouvido a palavra, a conservam num coração bom e excelente, e produzem frutos pela paciência.
   A esta categoria pertencem as almas bem preparadas, as almas humildes e piedosas, libertas dos laços do pecado, cheias de generosidade, desapegadas das coisas do mundo e ávidas de agradar a Deus, de O servir e de O glorificar. Estas almas ouvem a palavra de Deus com atenção, respeito e amor.
   Produzem frutos pela paciência, isto é, são obrigados, para se santificarem, a vigiar, trabalhar, sofrer, combater sem cessar, porque esta é a nossa condição neste mundo.
   Umas  produzem trinta por um, outras sessenta, outras cem, segundo a proporção dos talentos e das graças recebidas, ou segundo a perfeição da cultura, ou segundo os diversos graus da sua caridade para com Deus.
   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Tomemos a resolução de ler e escutar doravante a palavra divina sempre com mais atenção e devoção a fim de que nos guarde, nos santifique e nos torne dignos da recompensa do Céu. Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática! Amém!

  

domingo, 9 de fevereiro de 2020

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO DA SEPTUAGÉSIMA

 
             S. Mateus, 20, 1-16.

   "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã a contratar operários para a sua vinha. Tendo ajustado com alguns por um dinheiro ao dia, mandou-os para a sua vinha. Saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça. E disse-lhes: Ide vós também, para minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Saiu outra vez perto da sexta e da nona hora, fez o mesmo. E saindo quase à undécima hora, ainda achou outros por ali, e disse-lhes: por que ficais aqui ociosos todo o dia? Responderam-lhe eles: porque ninguém nos contratou. Ele lhes disse: Ide vós também para a minha vinha. Caindo já a tarde, disse o Senhor da vinha a seu feitor: Chama os trabalhadores e paga-lhes a diária, a começar dos últimos até os primeiros. Chegando, pois, os que tinham vindo perto da undécima hora, cada um recebeu um dinheiro. vindo, depois, os primeiros, julgaram que haviam de receber mais; receberam, porém, um dinheiro cada um. Tomando-o murmuravam contra o pai de família, dizendo: Estes últimos trabalharam uma hora, e os igualastes conosco que suportamos o peso e o calor do dia. Ele, porém, respondendo a um deles, disse: Amigo, não te faço injustiça: não te ajustaste comigo por um dinheiro? Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura não é lícito a mim fazer o que eu quiser [dos meus bens]? Ou é invejoso o teu olho porque eu sou bom? Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos, porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Neste mundo nos manda Deus trabalhar na sua vinha para merecermos o salário, isto é, a recompensa prometida, a felicidade do Céu. Esta vinha do Senhor é a nossa alma, que Ele pode seguramente chamar sua, porque ela Lhe pertence por todos os títulos. Foi Ele quem a plantou. Tendo-a o demônio assolado e devastado, Ele resgatou-a, não com ouro ou prata, mas com o seu sangue precioso e restaurou-a com infinitos cuidados. Deus plantou-a e regou-a, resta-nos cooperar e acabar o resto do trabalho para que produza frutos.

   A vinha, sendo a mais preciosa das árvores pelo seu fruto, e dele tirando o seu valor, é também de todas as árvores a que exige mais cuidados e trabalhos. A nossa alma em virtude da sua origem divina e do seu destino sublime, é a mais preciosa coisa do mundo.

   Os cuidados que exige a vinha são a figura dos cuidados que devemos ter com a nossa alma:
1º - Cavá-la e adubá-la. Relativamente à alma, quer isto dizer que deve ser cultivada com a prática das virtudes: humildade, compunção e penitência.

2º - Podá-la, isto é, libertá-la de todos os ramos inúteis que absorvem e esgotam a seiva sem proveito. Para a alma é renunciar a tudo o que é supérfluo e prejudicial, quer para ela, quer para os outros com quem se convive. É o trabalho custoso da mortificação, da abnegação e do sacrifício. E é um trabalho de sempre.

3º - Especá-la, isto é, escorá-la para evitar que as tempestades a derrubem, tanto mais que as cepas, por sua natureza, não têm consistência para se conservarem direitas. Para a alma o Senhor dignou-se multiplicar-lhe os sustentáculos, ou sejam, a fé e confiança em Deus, a lembrança da Cruz e Paixão de Jesus e os Sacramentos.

4º - Cercá-la com um muro para a preservar do assalto dos ladões e dos animais. Para a alma isso significa a observação da lei de Deus, a vigilância contínua, a fuga das ocasiões perigosas, a modéstia, a mortificação dos sentidos, a oração, a devoção a Nossa Senhora.

5º - Chuva e o sol que dependem não da vontade do viticultor, mas do céu. Do mesmo modo é necessário que desça até à alma o orvalho celeste, isto é, a graça de Deus, a suave influência do sol, isto é, a infusão do Espírito Santo, do amor divino. E isto depende da nossa vontade, do nosso fervor na oração e na frequência dos Sacramentos.

   Em compensação, o Pai de família nos dará, na tarde do nosso dia, o justo salário que merecemos.
   Ao contrário, a vinha estéril, quer dizer, a alma infiel, deve recear que Deus execute a sua ameaça e lhe recuse a chuva fecunda da sua graça e das suas bênçãos.

   Uma vinha abandonada enche-se em pouco tempo de silvas e só dá cachos azedos. Assim é a alma; se é mal cultivada ou abandonada, depressa se enche de defeitos, de vícios, de toda a espécie de pecados e ficará incapaz de produzir bom fruto.

   Ao contrário, uma vinha bem cultivada dá uvas suculentas, o melhor talvez de todos os frutos. Do mesmo modo, uma alma bem cuidada produz a virtude por excelência, a caridade, que é o vínculo da perfeição e a plenitude de toda a lei. Depois a caridade, por sua vez, produz todas as virtudes cristãs.

   Irmãos caríssimos, possivelmente passamos muitos anos em dissipação espiritual, apressemo-nos a recuperar e reparar algum deste tempo perdido. Talvez que esta homilia seja o supremo apelo divino, o convite da undécima hora.

   Pelas entranhas de misericórdia do Senhor Deus, reflita cada um, vença as suas repugnâncias e queira, com a graça poderosa e infalível de Deus, ser do pequeno número dos eleitos. Amém!
  

  

HOMILIA DOMINICAL - Domingo da Septuagésima - Explicação da Epístola

   Tradução literal da Primeira Epístola de São Paulo Apóstolo aos Coríntios, IX, 24-27 e X, 1-5, da Vulgata Latina de São Jerônimo:


   "Irmãos: Não sabeis que os que correm no estádio, todos correm em verdade, mas um só leva o prêmio? Correi, pois, de tal maneira que o alcanceis. Todos aqueles que lutam na arena, de tudo se abstêm. E eles em verdade o fazem só para receberem uma coroa corruptível, e nós uma incorruptível. Eu pois assim corro, não como ao acaso: assim combato, não como ferindo o ar: antes castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que não suceda que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo seja reprovado. Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais todos estiveram debaixo da nuvem e todos passaram o mar, e todos foram batizados em Moisés, na nuvem, e no mar, todos comeram o mesmo manjar espiritual, e beberam a mesma bebida espiritual (porque bebiam da pedra espiritual que os seguia, e a pedra era Cristo), mas da maior parte deles não se agradou Deus".

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

 Vamos dar agora a tradução explicativa desta mesma Epístola da Santa Missa deste Domingo da Septuagésima: 

O quadro catequético representa em cima a alma que se converte e luta contra
suas paixões para se conservar na graça de Deus; em baixo a alma que não se
converte e/ou não luta contra suas paixões e defeitos e assim vive no pecado
mortal. 
   Meus irmãos, não sabeis que de todos aqueles que se alistam nas corridas do estádio, um só é que recebe o prêmio de campeão? Assim também não penseis que todos os que entram a fazer parte da Igreja serão salvos, mas somente aqueles que fizerem por onde o merecerem. Comportai-vos, portanto, de tal modo que possais conseguir o prêmio eterno no Céu. Ainda. Que fazem aqueles que lutam na arena? Eles abstêm-se de todos os prazeres, para alcançar uma honra de campeão que afinal acaba, uma coroa de louros que murcham. Quanto mais nos devemos abster nós, os cristãos, de todas os prazeres do mundo e da carne, em vista de uma glória eterna, uma coroa de perfeição e santidade que dura para sempre. Tal é também o meu procedimento. Eu não corro ao acaso, sem conhecer a meta à qual me dirijo; nem luto batendo no ar; e, sim, como um lutador que deseja derrubar o seu adversário. Ora, o meu adversário é o meu corpo com sua concupiscência. Por isso, castigo-o, com penitência e o reduzo à obediência do espírito, receando que, depois de haver pregado aos outros o caminho da salvação, eu mesmo seja condenado. É inútil, portanto, esquivar-se a essa luta contra si mesmo, apenas confiando nos dons de Deus. Deus exige também a nossa parte, a nossa colaboração. Com efeito, observai os antigos judeus no deserto. Todos foram protegidos, sob a nuvem  que os defendia contra os raios do sol durante o dia e os iluminava durante a noite, todos receberam uma espécie de batismo de Moisés representado na nuvem e no mar; todos comeram do prodigioso maná e todos beberam da água milagrosa que jorrou da pedra (a qual era figura de Jesus que na Pessoa do Filho de Deus estava entre eles, acompanhando-os). Pois bem, a maior parte deles pereceram no deserto, sem entrarem na terra prometida. (O mesmo vos poderá acontecer, negando-vos Deus a entrada no reino dos céus se, apelando unicamente para os dons de Deus, e pelo único fato de pertencerem a única verdadeira Igreja, vos recusardes a lutar contra os maus instintos do vosso corpo). 

  Caríssimos e amados fiéis, terminemos com esta oração: Infundi em nós, ó Jesus, nova força a fim de recomeçarmos com mais coragem a marcha que nos deve levar à conquista da incorruptível coroa da santidade. Com as palavras de Santa Teresa Margarida do Coração de Jesus a Vós me dirijo: "Para vencer a repugnância da minha natureza, prometo-Vos declarar uma guerra sem tréguas contra mim mesmo; as armas para o combate serão: a oração, a presença de Deus e o silêncio. Mas, ó meu Amor, Vós conheceis bem a minha incapacidade no manejo destas armas. Não obstante, armar-me-ei com as armas duma confiança absoluta em Vós, paciência, humildade e conformidade ao Vosso querer divino, unidas a uma suma diligência... E quem me ajudará a combater numa guerra contínua contra tantos inimigos que pelejam contra mim? Ah! bem vejo que Vós, ó meu Deus, quereis ser o meu capitão e, arvorando o estandarte da cruz, amorosamente me dizeis: - Vem após mim e não duvides" (Espiritualidade, páginas. 323 e 324). Amém!

   

   

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

SERMÃO: NOSSA SENHORA, CONSOLADORA DOS AFLITOS

Consolatrix aflictorum! Ora pro nobis!
Consoladora dos aflitos! Rogai por nós!

   Consoladora dos aflitos! A quem não arrebata este título que soa tão bem e sempre soará aos ouvidos humanos! Porque na verdade, caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, quem há que não precise de consolação ou que presuma que não há de vir a precisar dela um dia? A aflição, a dor, o sofrimento apresentam-se-nos a todas as horas e debaixo de mil formas e é este o apanágio mais seguro e certo da humanidade. Desde que pelo pecado original se converteu em vale de lágrimas para o homem a terra que devia começar a ser o seu paraíso de flores, os espinhos são a primeira coisa que o infeliz colhe durante sua breve passagem por ela. Calca -os picantes e dolorosos, o potentado como o mendigo, o sábio como o rude, sem que nesse ponto haja condição de pessoas que possam considerar-se privilegiadas.
   Quem não buscar na Religião a sua única consolação e alívio, em vão os procurará noutra parte. Vejamos, então, segundo o ensinamento das Sagradas Escrituras a origem e a razão de ser do sofrimento. Desde o momento em que da fronte do primeiro homem rolou o diadema da justiça original com o primeiro pecado, entrou o sofrimento no mundo. A grande sentença da justiça eterna de Deus retumbou pelos horizontes do Éden: "De ora em diante, disse Deus a Adão, comerás com o suor de teu rosto o pão de cada dia. A dor misturar-se-á com todos os dias da tua existência. Tu és pó, e em pó tu hás de tornar".
   A dor! Eis a estranha palavra que de agora em diante ressoará na vida de todos os homens. Eis a origem universal da dor - o pecado. O homem que recebeu de Deus a liberdade para ser mais feliz merecendo para o céu, abusou desta liberdade e tornou-se infeliz pelo pecado. Mas Deus, como Pai amoroso que se inclina sobre seus filhos para derramar-lhes bálsamo nos corações dilacerados, ofereceu logo remédio para a dor, não eliminando-a da face da terra, mas transformando-a em meio de purificação e consecução da felicidade eterna. Logo depois da culpa de nossos primeiros pais, prometera um Salvador, que veio ao mundo não para eliminar a dor, mas Ele mesmo sofreu e morreu antes de entrar na Glória e assim nos deu a possibilidade, de sofrendo juntamente com Ele, podermos entrar também no céu.
   Caríssimos e amados irmãos, a dor tem, portanto, a sua razão de ser: É meio de purificação, é meio de conversão, é meio de aperfeiçoamento pela semelhança que nos dá com Jesus Cristo, e outrossim, é graça de predileção. Consideremos estes vários pontos.
   Primeiramente, o sofrimento, as doenças, as aflições, podem ser um castigo de pecados pessoais, e um meio de purificação e conversão. Eis um fato evangélico: o paralítico da piscina Probática. Subiu Jesus a Jerusalém. E lá ao lado do Templo havia uma piscina probática, chamada Betsaida, que quer dizer "das ovelhas", porque era aí que se lavavam as ovelhas e demais vítimas destinadas ao sacrifício. Era cercada de cinco pórticos e sob estes pórticos jazia uma grande multidão de enfermos, cegos, coxos e paralíticos que esperavam o movimento das águas, porque um anjo do Senhor descia a esta piscina em certos tempos e a água se agitava. Aquele que nela entrasse primeiro, depois do movimento da água, ficava curado de qualquer enfermidade que padecesse. Ali se achava um homem que estava enfermo havia 38 anos. Jesus vendo-o disse-lhe: "Queres ficar são?" "Senhor, respondeu-Lhe o enfermo, não tenho ninguém que me lance na piscina quando a água se agita, e enquanto eu vou indo, desce outro antes de mim". Disse-lhe Jesus: "Levanta-te, toma o teu leito e anda". E este homem ficou curado no mesmo instante. O paralítico vai depois ao templo dar graças a Deus por ter sido curado e recebido o perdão de seus pecados. Jesus o encontrou lá no templo e disse-lhe: "Eis que estás curado, mas não tornes a pecar, para que te não suceda alguma coisa pior". Estas palavras de Jesus provam que a longa enfermidade daquele homem era um castigo de seus pecados precedentes. Aliás, a Sagrada Escritura no livro do Eclesiástico capítulo XXXVIII, 15 diz:"Aquele que peca na presença de quem o criou,  virá a cair nas mãos do médico".
   Todavia, nem sempre se pode dizer que a doença é um castigo, mas é uma provação, uma ocasião para Deus Nosso Senhor mostrar o seu poder, sua bondade e por conseguinte sua Glória como aconteceu a Jó, Tobias e ao cego de nascimento. Sobre este último, lemos no Evangelho de São João IX, 1 e seguintes: Passando Jesus, viu um homem cego de nascimento. Perguntaram os discípulos: "Mestre quem pecou? Este homem ou os seu pais, para nascer cego?" Uma pergunta meio sem pé e sem cabeça. Mas Jesus bondosamente como sempre, respondeu: "Não nasceu cego porque ele ou seus pais tivessem pecado, mas para que se manifestassem nele as obras de Deus".
   Na verdade, para todos os homens, o sofrimento não deixa de ser uma graça de purificação. Quem pode gabar-se de ser inocente? Todos nós deveríamos dizer com Santo Agostinho: "Aqui, Senhor, na terra, queimai, cortai, mas poupai-me na eternidade".
   Nas provações devemos ver não a mão dos homens que nos afligem mas a mão de Deus que se serve deles para nos afligir. Vede Jó, a perda dos bens, a morte dos filhos, a doença, foram a consequência da malícia do demônio. No entanto, Jó não diz: o demônio me tirou tudo, mas Deus me despojou de tudo. Lemos na Bíblia que um servo do Rei Davi, chamado Semei, atirou-lhe pedras e o insultou. Abissai outro servo de Davi, indignado disse: "Eu irei e matarei este cão morto, qu insulta o meu rei. Davi respondeu: "Deixai-o maldizer conforme a permissão do Senhor, talvez o Senhor olhe para minha aflição e me dê bens pelas maldições que sofri neste dia".
   Deus, caríssimos irmãos, condena a malícia da má obra, mas reverte o efeito desta malícia em benefício de seus escolhidos.
   O sofrimento é também muitas vezes uma graça de conversão. Há realmente muitos que se convertem na doença. Para muitos pecadores, é o último recurso da misericórdia divina para dobrá-los.
   O sofrimento é também uma graça de aperfeiçoamento. "A tribulação, diz São Paulo, produz a paciência, a paciência produz a constância, e a constância produza a  fé e a caridade". (Rom. V, 3).
   Para ser justo e por ser justo Deus manda sofrimento. É o que Deus declara ao santo homem Tobias através do anjo São Rafael: " Porque eras agradável a aceito do Senhor, foi preciso seres provado pela aflição."
   Donde o sofrimento é uma graça de predileção. Que herança Deus preparou neste mundo a seu amantíssimo Filho? A pobreza, a humilhação, a morte mais cruel. Que herança Nosso Senhor deixou aos Apóstolos? "Sereis perseguidos e chorareis. Felizes sereis quando vos perseguirem, vos caluniarem. Alegrai-vos porque será grande a vossa recompensa no céu". Por uma curta e passageira tribulação um peso imenso de glória e felicidade por toda a eternidade.
   Que herança deixa Jesus à Sua Mãe Santíssima? Ele deixou os momentos tristes do Calvário. Reserva para ela esta hora de supremas amarguras. Ah! compreendemos: É porque Ele desejava dar muito maior glória à sua Mãe no seio da eternidade!.
  
   Deus como Pai cheio de misericórdia e bondade que é, mesmo permitindo os sofrimentos para nosso bem, não deixa de nos prodigalizar um consolo para nossas aflições. Como um pai que se sente forçado a castigar o filho para o seu bem, mas depois, sente pena e procura, de alguma maneira, suavizar o castigo, recorrendo ao carinho da mãe, assim, comparando dentro das devidas proporções, Deus age para conosco. E como está tão alto, infinitamente acima de nós, seu coração misericordioso dá-nos a Virgem Mãe, para consolação de nossas almas. E o provamos pelas Sagradas Escrituras e a experiência no-lo confirma.
   Abramos as primeiras páginas da Bíblia: Sobre aquele quadro fatídico e tenebroso em que Deus castigou nossos primeiros pais e amaldiçoou a serpente infernal, causadora do pecado, Deus lançou um raio de luz e de esperança. "Porei inimizades, disse Deus à serpente, entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. E ela te esmagará a cabeça". (Gen. III, 15). E quem poderá ser esta mulher privilegiada, vencedora eterna da serpente e do pecado, senão Aquela que trouxe à terra o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo!
    Consideremos outra passagem da Sagrada Escritura (Is. VII, 1 e seg.): Quando Acaz, rei de Jerusalém, e todo o seu povo ficou com o coração agitado como se agitam as árvores das selvas com o ímpeto do vento por causa da ameaça de  guerra dos reis de Israel aliados com o rei da Síria, Deus, através do profeta Isaías, mandou dizer a Acaz que ele com o seu povo não se afligisse porque os inimigos seriam vencidos. E Deus mandou Acaz pedir um sinal como prova desta vitória e da paz. Algo extraordinário que lhe garantisse a tranquilidade. Por causa de sua incredulidade Acaz não quis pedir. Então, Deus mesmo lhe deu o grande sinal, algo extraordinário: "Eis que uma Virgem conceberá e dará a luz um filho e o seu nome será Emanuel". Quem é esta Virgem que deu a luz ao Príncipe da paz, senão a Sempre Virgem Maria Santíssima como atesta o próprio Evangelista São Mateus, I, 22. É a consoladora dos aflitos.
    Há outra passagem da Sagrada Escritura muito conhecida dos todos os carmelitas: 1 Reis, XVIII, 41 e segs. Houve em Israel uma terrível seca de três anos e meio e a consequente fome. O profeta Elias sobe o monte Carmelo e lobriga ao longe uma nuvenzinha, nuvem esta que vai crescendo e logo se desfaz em copiosa chuva. De quem esta nuvem é figura? Senão de Maria Santíssima, pois que os santos patriarcas da Antiga Lei, na aflição em que viviam entre o paganismo pediam ansiosamente a Deus, que as nuvens chovessem o justo, o Salvador: "Rorate coeli desuper, et nubes pluant justum". ( Isaias, XLV, 8): "Derramai, ó céus, lá dessas alturas o vosso orvalho, e as nuvens façam chover o Justo". Qual é esta benéfica nuvem que nos trouxe o Salvador: Maria Santíssima. Nossa Senhora do Monte Carmelo! Consoladora dos aflitos! Rogai por nós!
   Mas esta mística nuvem se desfez em uma chuva de lágrimas no alto de um outro monte: no Monte Calvário. Foi ali que Maria mereceu em toda plenitude o título de consoladora das nossas dores. Ninguém poderá consolar realmente aos que sofrem se não houver provado o cálice das amarguras humanas. Não houve decepção humana, não houve angústia humana, não houve ingratidão humana, não houve incompreensão humana, não houve sofrimento que a Virgem não provasse desde Belém até o alto do Calvário. As coroas todas que cingiram a sua fronte augusta a colocaram imensamente acima de nós, mas a coroa de espinhos que o Calvário lhe teceu a aproximou imensamente de nós. Fez com que ela fosse nossa Mãe pelo dom do sofrimento. Vendo extinguir-se a Vida que ela gerou sem dor, deu-nos a vida, gerando-nos na dor.
   Ah! caríssimos e amados irmãos, como é real o papel de Nossa Senhora na missão augusta de lenir os sofrimentos e consolar as aflições. Todos nós que sofremos, podemos abrir o coração como um livro de testemunhos e ler o depoimento de nossa alma escrito com a tinta das próprias lágrimas. Ter Nossa   querida Mãezinha do Céu no fundo do coração é rasgar o manto tenebroso do próprio infortúnio para que o seu olhar materno derrame bálsamo nas feridas mais ocultas e pungentes das nossas almas.
   Há quase 63 anos uma senhora   muito devota da Virgem Mãe de Deus teve o seu segundo filhinho quando o primogênito ainda não tinha  completado 11 meses. Sentiu grande aflição em ver a criança tão pequena e fraquinha. E mais aflição ainda ao ver que suas orelhinhas eram sem nenhuma consistência e portanto caídas. Fez de uma meia uma toquinha bem apertada. Mas qual não era sua angústia em ver que, ao tirar a toquinha, as orelhinhas do filho caím novamente. Foi aos médicos. Hoje não teriam dificuldade nenhuma; mas há  60 anos atrás a medicina neste ponto não tinha muito recurso. Disseram, para grande tristeza daquela angustiada mãe, que não havia jeito. Confiando em Nossa Senhora, Consoladora dos aflitos, fez uma novena a Nossa Senhora das Graças. No último dia da novena o menino estava curado, com as orelhinhas normais. Este menino, 26 anos depois, foi ordenado padre. E não teria podido sê-lo se Nossa Senhora não o tivesse curado. Hoje, pela graça de Deus este padre é usuário de dois blogs onde procura fazer o maior bem possível às almas. E este padre, é  o  mesmo que vos escreve. Ó minha Mãe do Céu, puxai minhas orelhas por eu não corresponder devidamente a tantos benefícios, ajudai-me e protegei-me!
   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Navegamos num grande e tenebroso mar, que é o mundo, à procura do novo mundo que é o céu, a pátria do repouso eterno. Mas não esqueçamos nunca que Maria Santíssima é a ponte mística por Deus mesmo estendida entre o paraíso que perdemos e o Paraíso que esperamos. Na verdade a viagem é longa e penosa. Quantas tempestades, quantos naufrágios. Caríssimos fiéis, no meio dos perigos, das angústias, consoante o conselho de São Bernardo, recorramos sempre à Maria.
   Se as tempestades das tentações se levantarem, se os escolhos das tribulações vos ameaçarem, erguei os olhos para a Estrela do Mar.
Digamos, inspirados em S. Bernardo:
   Se as vagas da soberba, da cólera, da inveja vos sacudirem, se os prazeres da carne agitarem o barco de vossa alma, se a enormidade de vossos pecados vos perturbar, pensai em Maria, ou antes, lançai-vos em seus braços. Levados e protegidos por Ela, triunfareis de todos os perigos, vencereis todos os obstáculos, saireis incólumes de todas as tentações, e chegareis seguramente às praias de Eterna Bem-aventurança. Assim seja!
  
  
  
  

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

MATÉRIA E FORMA, EFEITOS, MINISTRO E SUJEITO DO SACRAMENTO DA ORDEM

   I - MATÉRIA E FORMA:
   1º) Matéria: A) Na Igreja Latina, confere-se a Ordem - a) por meio da IMPOSIÇÃO DAS MÃOS, e b) por meio da apresentação dos objetos a serem utilizados nas funções sagradas da Ordem que se recebe: livro dos Evangelhos para o diaconato; cálice e patena para o Presbiterato; oferta da Cruz, do anel e da mitra para o Episcopado. B) Na Igreja Grega, faz-se apenas a imposição das mãos.
   2º) Forma: A forma consiste nas palavras que o Bispo pronuncia, enquanto impõe e faz o ordenando tocar os objetos que hão de servir para as funções da ordem conferida.

   II - EFEITOS DO SACRAMENTO DA ORDEM:
   1) A Ordem confere "o poder de consagrar, de oferecer e de administrar o Corpo e o Sangue de Cristo, de perdoar e reter os pecados" (Conc. de Trento ses. XXIII, cap. I) - "Todo pontífice, diz São Paulo, foi estabelecido em favor dos homens no que diz respeito ao culto de Deus, a fim de oferecer dons e sacrifícios pelos pecados". (Heb. V, 1). Ora, já que em o Novo Testamento há somente um sacrifício, o do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, é sobretudo para celebrar a Eucaristia que os padres recebem o Sacerdócio.
   2) A Ordem concede um aumento da graça santificante, visto ser sacramento de vivos.
 3) Graça sacramental própria deste sacramento: o direito de receber os socorros atuais necessários para o bom desempenho das funções sagradas. Estes auxílios hão de variar conforme as disposições do sujeito.
   4) Finalmente a Ordem imprime na alma caráter indelével. Um padre nunca deixará de ser padre. A pena de suspensão, deposição, ou degradação tira-lhe o direito de exercer suas funções, mas não pode apagar o caráter que recebeu, nem o priva do poder de ordem, inseparável do caráter. Portanto, o padre interdito, suspenso, consagraria validamente o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. Um bispo apóstata ou deposto administraria validamente os sacramentos da Confirmação e da Ordem. Procederiam, no entanto, de modo gravemente ilícito, cometendo sacrilégios.

   III - MINISTRO:
   1º) Para a validade: a) só o Bispo é ministro ordinário do Sacramento da Ordem. b) Um simples sacerdote, com delegação do Sumo Pontífice, pode ser ministro extraordinário da tonsura, da ordens menores e do subdiaconato.
    2º) Para a liceidade, o bispo deve: a) ter jurisdição sobre os candidatos que ordena; b) observar todas as normas canônicas, sendo que as principais fixam o tempo, o lugar e o sujeito da ordenação.

   IV - SUJEITO DO SACRAMENTO DA ORDEM:
   1º) SUJEITO: Só o homem batizado pode receber as Ordens.
   2º) CONDIÇÕES EXIGIDAS: A) Para a validade: a) pertencer ao sexo masculino; b) Ter sido batizado. Além disso, devem ter a intenção, pelo menos habitual, de receber o sacramento.
                                                     B) Para a liceidade: será ordenado licitamente apenas o sujeito que, além do estado de graça, necessário para qualquer sacramento de vivos, a) tiver as devidas qualidades, a juízo do Bispo (por exemplo: ter a vocação sacerdotal, ter sido crismado, possuir a ciência e piedade requeridas, ter recebido as ordens inferiores, ter observado os intervalos entre a recepção de cada ordem); b) estiver isento de toda a irregularidade e impedimento.

"DEPOIS DE DEUS, O SACERDOTE É TUDO... DEIXAI UMA PARÓQUIA VINTE ANOS SEM  PADRE E AÍ SE ADORARÃO OS ANIMAIS" (Santo Cura d'Ars).

domingo, 2 de fevereiro de 2020

HOMILIA DOMINICAL - 4º Domingo depois da Epifania

   Leituras: Epístola aos Romanos, 13, 8-10; Evangelho segundo São Mateus, 8, 23-27.

   Caríssimos e amados leitores em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Esta barca agitada pela tempestade é uma das mais perfeitas imagens da Igreja, que transporta sobre o mar deste mundo os discípulos e servos de Jesus. O divino Mestre está lá também, realmente presente, mas oculto e parecendo dormir.
   Quantas e quantas vezes, desde 20 séculos, a Igreja tem visto a sua existência ameaçada pelas tempestades! Quantas perseguições, ou cruentas e declaradas, ou surdas e hipócritas! Mas devemos ter fé porque Jesus disse: "Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos". De fato, a Igreja conhece o poder d'Aquele que vela, quando parece dormir. A Igreja é indefectível, malgrado todas as borrascas: perseguições sangrentas e/ou heresias e cismas. As portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja de Cristo!
   Esta barca é também figura de nossa pobre alma, tantas vezes batida por toda espécie de tempestades, durante a viagem no mar perigoso deste mundo. Abandonados a nós mesmos, pereceríamos infalivelmente. Mas se Jesus está conosco e é a nosso favor, que receio podemos ter? Felizes as almas que trazem Jesus consigo e sabem recorrer a Ele!
   Caríssimos e amados irmãos, as tempestades que acometem a nossa alma são muitas e variadas. São exteriores ou interiores. Entre as exteriores podemos enumerar: as doenças mais imprevistas, longas, dolorosas, dispendiosas; o luto, a perda dos que nos são caros, cuja morte nos enche de grande tristeza; a perda dos bens de fortuna, que nos precipita na miséria ou em dificuldades; calúnias, ódios, processos injustos, vinganças a que nos encontramos expostos, ainda que inocentes etc., etc.
   Tempestades interiores: as tentações; e mais ordinariamente o demônio deixa em paz os seus escravos. "Os cães não mordem nas pessoas da casa" diz São Francisco de Sales. Podemos ainda enumerar: os escândalos, as seduções do mundo, com as suas máximas falsas, as suas ilusões e os seus prazeres; as nossas paixões que rugem no íntimo do nosso ser e tentam revoltar-se contra o espírito, para nos arrastar ao mal, principalmente o orgulho, a ira, a ambição, a impureza.
   O espírito de fé diz-nos, entretanto, que qualquer luta ou tempestade da vida é sempre querida, permitida ou pelo menos não impedida por Deus. Como dizia Santa Teresinha: "Tudo é graça, tudo é fruto do amor infinito de Deus". Deus é Pai que nos prova unicamente porque nos ama.

Lago de Genesaré, 13km de largura e 20 km de comprimento

   As tempestades da nossa vida fazem que reconheçamos a nossa fraqueza e nos obrigam a recorrer a Jesus; porque sem Ele o que seria de nós?!  No meio das tempestades rezamos com mais fervor; praticamos as virtudes mais sublimes: a fé, a confiança em Deus, a submissão à Sua vontade, a paciência e a caridade. As provações servem para, nesta vida, expiarmos as nossas faltas e as nossas imperfeições e merecermos uma coroa melhor no céu. E sobretudo nos tornam mais semelhantes a Jesus.
   Assim, fazendo da nossa parte o que pudermos, ponhamos toda a nossa confiança em Jesus e apressemo-nos a recorrer a Ele com fé e amor. Caríssimos, não deixemos passar uma tão bela ocasião de praticar a humildade, a penitência, a paciência e de aumentar assim os nossos méritos para o céu.
   Irmãos caríssimos, não esqueçamos que, mesmo nestas tempestades, Jesus não teve em vista senão um maior bem para nós; agradeçamos-Lhe com toda a nossa alma; conservemo-nos sempre em união com Ele e seremos auxiliados. Jesus, o importante é que estejais no coração de cada um de nós! Amém!

EXPLICAÇÃO DA EPÍSTOLA DO 4º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA


Romanos XIII, 8-10
"A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor mútuo, porque aquele que ama o próximo, cumpriu a lei. Em verdade, estes mandamentos: - "Não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não cobiçarás" - e qualquer outro mandamento, todos se resumem nesta palavra: amará o teu próximo com a ti mesmo. O amor do próximo não faz o mal. Logo, o amor é o complemento da lei".


Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

São Paulo começa ensinando que, quem ama o próximo por amor a Deus cumpre, não somente a lei da caridade, senão também toda a lei de Deus, isto é, cumpre todos os mandamentos.

Na verdade, o amor do próximo, longe de ser de natureza diferente do amor de Deus é, uma única e mesma coisa. Não há, pois, separação entre esse dois sentimentos, sendo o amor do próximo o transbordar do próprio amor de Deus.  Como já ensinara o Divino Mestre, o amor verdadeiro se manifesta sobretudo em relação aos inimigos. Portanto o motivo do amor  verdadeiro ao próximo não pode se basear em motivos puramente humanos, ou seja, simpatia, beleza, interesse, liame de sangue etc. Seria amor puramente humano. E como disse Jesus: isto até os pagãos fazem. Portanto o amor verdadeiro é sobrenatural porque tem por motivo o amor de Deus. Por exemplo como fazer o bem a estranhos, e mais, como perdoar e fazer bem aos inimigos que nos odeiam. Só o amor de Deus nos pode levar a isto! Foi assim que Jesus fez, e assim os santos O imitaram. É o amor de Deus que me impele a amar o que o mundo rejeita. É o amor de Deus que me mostra em cada coração um templo do Espírito Santo, ou que possa vir a sê-lo. Assim o amor de Deus e o amor do próximo vêm, pois, a ligar-se de tal forma que lá não existe o primeiro onde falta o segundo. É no amor de Deus, que o amor do próximo tem seu motivo e sua fonte. E se quisermos saber se temos o lídimo amor a Deus, é só verificarmos se amamos o próximo verdadeira e desinteressadamente.


O afeto que liga dois corações não se revela apenas na íntima satisfação por ele experimentada  ou, então, na tristeza que os martiriza na separação, e sim, acima de tudo, no respeito, nos favores, nos sacrifícios, nos auxílios mutuamente dados e recebidos. Hoje infelizmente reina o egoísmo. Mas ama verdadeiramente quem deseja o bem da pessoa amada, e até se sacrifica em benefício dela, sempre por amor a Deus e para imitar a Jesus Cristo, Nosso Senhor. Quem tem este amor sobrenatural ao próximo cumpre toda lei, isto é, observa todos os mandamentos. Amém! 

domingo, 26 de janeiro de 2020

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 3º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA


S. Mateus VIII 1-13

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Havendo Jesus descido do monte, grande multidão de povo O seguiu. Após o sermão da montanha, Jesus Cristo opera dois milagres: a cura do leproso e a de um paralítico, servo do Centurião de Cafarnaum. Diremos uma palavra de cada um deles e procuraremos tirar as lições que nos oferecem. Devemos sempre dar ações de graças pela descida de Jesus do mais alto dos Céus para nossa salvação! O VERBO DE DEUS SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS.

Este leproso é a humanidade repugnante e desfigurada para a qual o Salvador se digna descer. Na verdade, é para ela que o Filho de Deus, o Verbo Eterno, saindo das profundezas de sua eternidade, se inclina ao vir à terra. Se Ele não tivesse descido, jamais a humanidade teria podido subir até lá.

A lepra foi sempre considerada pelos Santos Padres e oradores sacros como a imagem do pecado. Objeto de horror pelos homens, os leprosos eram isolados da humanidade (hoje, graças a Deus, com o tratamento, é uma doença controlável e não mais contagiosa). O pecador também é objeto de horror para Deus e para os anjos. Separado da comunhão dos Santos nesta vida,  ver-se-á separado na outra, de sua bem-aventurada companhia. No entanto, ó cristãos, se sois acometidos desta horrível lepra do pecado, não deveis desesperar. Vamos considerar o duplo exemplo que o Evangelho deste domingo põe diante de nossos olhos, exemplo de humildade e de confiança da parte do leproso, exemplo de bondade e de misericórdia da parte do Salvador. E que a cura miraculosa do doente, vos faça pressagiar para vós uma cura semelhante.

O leproso vem a Jesus e se lança aos seus pés dizendo-Lhe: "Senhor, se quereis, podeis curar-me". Que humildade! Ele se ajoelha, adora, mostra suas chagas a Jesus, e isto diante de uma multidão que não tem por ele senão horror e aversão. Que confiança! Pede com um inteiro abandono à vontade de Deus. É como se ele dissesse: Sei, Senhor, que o vosso poder é grande e a vossa misericórdia também. Não quero senão o que Vós quereis. Sois o médico celeste; sabeis o que convém a este pobre doente: "Si vis, potes me mundare". Devemos observar que o leproso não pede que Jesus o toque. Mas Jesus em sua bondade vai além do desejo do pobre doente: toca-o e diz-lhe: "Eu quero, sê limpo". E incontinente ficou o leproso  curado.

Jesus tocou a lepra física para mostrar que Ele veio para tocar também a lepra moral, para colocar a mão sobre nossas chagas, sobre as chagas que o pecado nos fez. Sob a impressão desta mão divina, a graça se espalha pelo mundo todo, aos pagãos como aos Judeus, aos pecadores mas também aos justos. Jesus Cristo cura todas nossas enfermidades morais como cura outrossim nossas enfermidades físicas. Para a cura das enfermidades físicas, Ele exige uma fé grande e firme; para a cura das enfermidades morais, exige, além da fé, uma grande humildade e um arrependimento sincero e profundo. E neste último caso exige que mostremos nossa lepra, isto é, nossos pecados aos sacerdotes através de uma confissão sincera e íntegra.

Caríssimos, meditemos agora no segundo milagre: a cura do paralítico, servo do Centurião. Quando Jesus entrou em Cafarnaum, um Centurião aproxima-se d'Ele e diz-Lhe: "Senhor, um servo meu jaz em casa paralítico e sofre cruelmente". Jesus diz-lhe: "Eu irei e o curarei". Mas o Centurião Lhe respondeu: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei somente uma palavra e meu servo recuperará a saúde. Eu sou um homem que devo obedecer a autoridade superior e tenho soldados sob meu comando. Se digo a este: Vai, ele vai; ou a outro: Vem, e ele vem; ou a meu servo: Faze isto, ele faz".

Centurião era um oficial  que comandava 100 soldados. O procedimento deste oficial, embora pagão, faz sobressair três virtudes: a humildade, julgando-se indigno de receber Jesus em sua casa. Sua fé no poder sobre-humano do Salvador: acredita que do mesmo modo como ele obedece à palavra dos oficiais superiores e com sua palavra de centurião dá ordens aos simples soldados, também a palavra extraordinária de Jesus tem o poder de operar as transformações que quiser. E finalmente brilham neste Centurião as virtudes da caridade e compaixão para com seu empregado. O quadro patético que ele faz do estado do doente parece indicar que ele fala de seu filho e não de seu simples servo. Caríssimos, diante de sentimentos tão virtuosos e excelentes, Jesus imediatamente se dispõe a ouvir sua súplica: "Eu irei e o curarei".

Este Centurião está mais próximo da verdade do que os próprios Judeus. Era gentio e, no entanto, mostra mais fé do que  o povo escolhido de Israel. "Ele merece, diz S. Agostinho, receber, já neste mundo, na casa de seu coração Aquele que ele não ousa receber em sua casa de pedra e barro. Não há dúvida que o Centurião tenha se tornado um dos mais fiéis e dos mais zelosos discípulos de Jesus". 

Jesus, ouvindo as palavras do Centurião, enche-Se de admiração e disse: "Na verdade vos digo: Não encontrei fé tão grande entre os filhos de Israel". E Jesus depois acrescenta: "Digo-vos também que virão muitos do Oriente e do Ocidente e se assentarão à mesa junto com Abraão, Isaac e Jacó, no reino do céu. Mas os filhos do reino serão lançados às trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes". Jesus compara aqui o Reino do Céu a um banquete posto em sala profusamente iluminada. A ele são chamados todos os povos, ao passo que muitos descendentes de Abraão, filhos da casa, serão, por sua incredulidade, expulsos de lá e lançados às trevas que reinam do lado de fora. Estas trevas são a imagem do inferno com seus tormentos, sobretudo da privação da visão beatífica de Deus, que é a Luz, a Beleza e o Bem infinitos.   

Caríssimos, a Santa Madre Igreja também admira a fé e a humildade do Centurião. Na presença do Salvador na Eucaristia, no momento em que Ele está prestes em fazer sua entrada nas almas pela comunhão, a Igreja emprega as palavras do oficial romano e as coloca nos lábios de seus padres e de seus milhares de fiéis: "Domine, non sum dignus ut intres sub tectum meum, sed tantum dic verbum et sanabitur anima mea". Que honra para o Centurião que não tinha recebido as promessas, nem as preparações, nem as graças especiais do povo judeu, e cuja fé se mostrara no entanto tão superior àquela desta nação rebelde em um tão grande número de seus filhos!

Nós somos, caríssimos, pela antiguidade da fé, dada uma vez por todas (S. Judas Tadeu, vers. 3), pela multidão inumerável de benefícios com que Deus nos favoreceu em todos os países onde brilhou a pregação do Evangelho no decurso destes 2000 mil anos, que foram regados pelo sangue dos mártires, nós, digo, estamos de alguma maneira em uma situação análoga àquela em que se encontraram os Judeus no tempo de Nosso Senhor. As graças de Deus nos preveniram e fomos delas cumulados. Podemos verdadeiramente ser considerados OS FILHOS DO REINO. Pois bem! Devemos temer merecer por causa de nossas infidelidades reiteradas, por nossas resistências obstinadas, que os estrangeiros vindos do Oriente e do Ocidente, nos sejam preferidos. Devemos temer que eles sejam admitidos ao reino do céu, e nós rejeitados.


Ó Senhor, que a vossa misericórdia nos preserve de tamanha desgraça! Sim, é verdade que nossa alma está enferma na casa de nosso corpo. Ela  está doente da doença do pecado, doença do orgulho, doença da luxúria, doença da avareza, doença da inveja, doença do ódio. Ela perdeu suas forças sob a ação dessas paixões funestas, dessas febres cruéis; ela está paralítica, tetânica e sofre horrivelmente, sem movimento para o bem, sem vida para a virtude. Senhor, uma só palavra vossa poderá curá-la. Não somos dignos, mas por vossa misericórdia, todos os obstáculos serão retirados, e Vós podeis vir à nossa alma e ela estará salva. Amém!

HOMILIA - 3º Domingo depois da Epifania

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos, XII, 16-21.
                    

   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus segundo São Mateus, VIII, 1-13:

Na parte superior, vemos o Centurião
pedindo a Jesus a cura de seu servo
paralítico.
   Depois que Jesus desceu do monte, muita gente o acompanhou. E eis que, vindo um leproso, o adorava dizendo:  "Senhor, se queres, podes limpar-me".E Jesus estendendo a mão, tocou-o, dizendo: "Pois, eu quero, fica limpo". E logo ficou limpa toda a sua lepra. Então lhe disse Jesus: "Vê, não o digas a ninguém; mas vai mostra-te ao sacerdote, e faze a oferta que ordenou Moisés, para lhes servir de testemunho a eles". E tendo entrado em Cafarnaum, chegou-se ao pé dele um centurião, fazendo-lhe esta súplica e dizendo: "Senhor, o meu criado jaz em casa doente duma paralisia, e padece muito com ela". E Jesus respondeu-lhe: "Eu irei e curá-lo-ei". E respondendo o centurião disse: "Senhor, eu não sou digno de que entres na minha casa; dize, porém, uma só palavra, e o meu criado será salvo. Pois também eu sou homem sujeito a outro, que tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: Vai acolá, e ele vai; e a outro: Vem cá, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele faz". E Jesus ouvindo-o falar assim, admirou-se e disse para os que o seguiam: "Em verdade, vos afirmo que não achei tamanha fé em Israel. Digo-vos, porém, que virão muitos do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão e Isaac e Jacó no reino dos Céus; e os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes". Então disse Jesus ao Centurião: "Vai, e faça-se segundo tu creste". E naquela mesma hora ficou são o criado. 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!


   O Santo Evangelho de hoje relata-nos dois milagres: a cura de um homem leproso; e a do servo do Centurião. Com a graça de Deus, vamos fazer algumas reflexões sobre ambos.

   O pobre leproso do Evangelho, tendo ouvido falar dos milagres de Jesus, foi ao seu encontro e prostrando-se humildemente a seus pés, diz-lhe com fé admirável: "Senhor, se quereis, podeis curar-me". Súplica breve, simples, comovente, cheia de fé, de humildade e de submissão à vontade de Jesus. Eis o comentário de São João Crisóstomo: "Ele não diz: se pedires a Deus; mas se quereis, podeis curar-me. Também não diz: Senhor, curai-me; mas abandona-se inteiramente a Jesus, considerando-o como Senhor e Mestre soberano de todas as coisas, que conhece, muito melhor do que ele próprio, os seus verdadeiros interesses".

   Caríssimos, oh! se soubéssemos orar como este leproso! Quantas graças alcançaríamos!

   Quanto às graças espirituais, isto é, quando pedimos coisas que se referem à glória de Deus e à salvação da nossa alma, tenhamos confiança firme e inteira de que seremos ouvidos por Jesus. Quando se trata de graças temporais, peçamos; mas, quanto à oportunidade, entreguemo-nos à vontade de Deus: "Senhor, se quereis..."

   Jesus estende a mão em sinal do seu poder; e toca o leproso com essa mão divina para nos mostrar como é que a sua humanidade santa, unida à divindade, se torna o instrumento abençoado das maiores maravilhas. E ao mesmo tempo afirma-lhe: "Eu o quero, fica limpo!" O efeito é produzido imediatamente: "e naquele instante as sua lepra foi curada".


   Passemos ao segundo milagre: A súplica do Centurião (que era pagão, mas admirava a religião e até tinha edificado à sua custa, a sinagoga da cidade) é perfeita sob o ponto de vista da fé e confiança na bondade e no poder de Jesus. Observemos que ele não pede a Jesus, como outros, que vá a sua casa e imponha as mãos sobre o seu servo e o cure. Mas, como tinha feito Maria Santíssima nas bodas de Caná, como farão mais tarde as irmãs de Lázaro, limita-se a expor ao Salvador o miserando estado do seu doente.

   E este Centurião dá-nos um exemplo belíssimo de caridade: ensina aos amos como devem tratar paternalmente os seus servos, a solicitude e bondade de que os devem cercar nas suas doenças.

   E disse-lhe Jesus: "Eu irei e curá-lo-ei". E é aqui que resplandecem a humildade e a fé deste Centurião diante de tanta condescendência e bondade de Jesus: "Senhor,eu não sou digno de que entreis em minha casa; mas dizei uma só palavra e meu servo ficará curado..." Ele, pobre pecador e pagão, não se julga digno de receber em sua casa a visita de Jesus, que considera como um grande Profeta, como um Deus. E além disto ele julga desnecessária a ida de Jesus; porque basta um simples ato da vontade de Jesus, uma simples palavra sua, para que seu servo seja curado. Assim comenta Santo Agostinho: "Este bom centurião proclamando-se indigno, tornou-se digno de receber Jesus Cristo, não somente em sua casa, mas em seu coração"  - "E por esta admirável humildade, acrescenta São João Crisóstomo, mereceu o reino do Céu". Podemos acrescentar que mereceu também que a sua piedosa resposta, inserida pela Santa Madre Igreja nas preces litúrgicas, fosse recitada todos os dias no Santo Sacrifício da Missa, antes da comunhão do sacerdote e antes da dos fiéis.

  Um dia, Santa Catarina de Sena, absorta na sua profunda indignidade, não ousava aproximar-se da santa Mesa e dizia a seu divino Esposo: "Senhor, bem vedes, eu não sou digna de vos receber em meu pobre coração". "É certo, respondeu-lhe Jesus com amor inefável, mas eu sou digno de entrar nele"!

   Ó bom Jesus, tende compaixão da minha triste miséria! Com mais fundamento do que a vossa serva, eu reconheço que não sou digno de vos receber. Mas vós sois infinitamente bom e misericordioso; dizei uma só palavra: "Quero limpar-te", e minha pobre alma será purificada. Depois vinde fortificá-la, consolá-la, enchê-la da vossa graça e do vosso amor, a fim de que seja transformada em vós, e não mais viva senão para Vós! Amém!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

20 de janeiro: São Sebastião - Mártir (+ 287)

Extraído do Livro "NA LUZ PERPÉTUA", autor: Pe. João Batista Lehmann, S. V. D.

   Nascido em Narbone, na Gália, recebeu Sebastião a educação em Milão, terra natal de sua mãe. Cristão, nunca se envergonhou de sua religião. Vendo as grandes tribulações que os cristãos sofriam, as perseguições atrozes de que eram vítimas, alistou-se nas legiões do imperador, com a intenção de mitigar os sofrimentos dos seus irmãos em Cristo. A figura imponente, a prudência e bravura do jovem tanto agradaram ao imperador, que o nomeou comandante da guarda imperial. Nesta posição elevada, Sebastião se tornou o grande benfeitor dos cristãos encarcerados. Tendo entrada franca em todas as prisões, lá ia visitar as pobres vítimas do rancor e ódio pagão, e com palavras e dádivas consolava e animava os candidatos ao martírio. Dois irmãos, Marco e Marceliano, não se acharam com coragem de afrontar os horrores da tortura e, aconselhados pelos pais e parentes, resolveram-se a sacrificar aos deuses. Mal teve ciência disto, Sebastião procurou-os e com sua palavra cheia de fé, reanimou os desfalecidos e vacilantes, levando-os a perseverar na religião e antes sacrificar tudo que negar a fé. Profunda comoção apoderou-se de todos que assistiram a esta cena. Marco e Marcelino cobraram ânimo e prometeram a Sebastião fidelidade na fé até à morte. Uma das pessoas presentes era Zoé, esposa do funcionário imperial Nicostrato. Esta pobre mulher estava muda há seis anos. Impressionada pelo que presenciara, prostrou-se aos pés de Sebastião, procurando por sinais interpretar o que lhe desejava dizer. Sebastião fez o sinal da Cruz sobre ela e imediatamente Zoé recuperou o uso da língua. Ela e o marido converteram-se ao Cristianismo. Este exemplo foi imitado pelos pais de Marco e Marceliano, pelo carcereiro Cláudio e mais dezesseis pessoas. Todos receberam o santo Batismo das mãos do sacerdote Policarpo, na casa de Nicostrato.
   A conversão destas pessoas, em circunstâncias tão extraordinárias, chamou a atenção do prefeito de Roma, Cromâncio. Sofrendo horrivelmente de reumatismo, e sabendo que o pai de Marco e Marceliano pelo Batismo tinha ficado curado do mesmo mal, manifestou o desejo de conhecer a religião cristã. Sebastião deu-lhe as instruções necessárias, batizou-o, com seu filho, Tibúrcio e curou-o da doença. Tão grato ficou Cromâncio, que pôs em liberdade os cristãos encarcerados seus escravos, e renunciou ao cargo de prefeito. Retiraram-se da cidade para sua casa de campo, deu agasalho aos cristãos, acossados pela perseguição. 
   Esta recrudesceu de uma maneira assustadora. O santo Papa Caio aconselhou os cristãos que se sentiam com pouco ânimo de sofrer o martírio, que se retirassem da cidade antes da tempestade se desencadear. O mesmo conselho deu a Sebastião. Este, porém, nada disto quis saber e declarou preferir ficar em Roma, para animar e defender os irmãos nas grandes aflições. "Pois bem, meu filho - disse-lhe o Papa - fica na arena da luta, representando o defensor da Igreja de Cristo, sob o título de capitão imperial".
   Muito tempo não levou, e Diocleciano soube, por uns cristãos apóstatas, que Sebastião era cristão, e grandes serviços prestava aos outros cristãos encarcerados. Diocleciano repreendeu-o, e apelou para os sentimentos de honra de capitão, pois que tão mal agradecia os benefícios e distinções recebidas. Sebastião com respeito, mas também com franqueza se defendeu, apresentando os motivos que o determinaram a seguir a religião cristã e a socorrer os pobres perseguidos. O imperador, porém, insistiu na exigência, recorrendo a promessas, elogios e ameaças, para conseguir de Sebastião que abandonasse a religião de Cristo. Todas as argumentações e tentativas de Diocleciano esbarraram de encontro à vontade inflexível do militar. Sem mais delongas, deu ordem aos soldados que amarrassem os chefe a uma árvore e o asseteassem. A ordem foi cumprida imediatamente. Os soldados despiram-no, ataram-no a uma árvore e atiraram-lhe setas em tanta quantidade quanto acharam necessárias, para matar um homem e deixaram a vítima neste mísero estado, supondo-o morto.
  Alta noite chegou-se Irene, mulher do mártir Castulo, ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com grande admiração, encontrou-o ainda com vida. Sem demora deu providências para que o mártir fosse levado para sua casa, onde o tratou com todo o desvelo.
   Apenas restabelecido, o herói procurou o imperador e, sem pedir audiência, apresentou-se-lhe, acusando-o de grande injustiça, por condenar inocentes, como eram os cristãos, a sofrer e morrer. Diocleciano, a princípio, não sabia o que pensar e dizer pois tinha por certo que Sebastião não mais existia entre os vivos. Perguntando-lhe quem era, Sebastião disse-lhe: "Sou Sebastião e do fato de eu estar vivo, devias concluir que é poderoso o Deus, a quem adoro, e que não fazes bem em perseguir-lhe os servos". Diocleciano enfureceu-se com esta resposta e ordenou aos soldados que levassem a Sebastião ao foro e lá, na presença de todo o povo, o matassem com paus e bolas de chumbo. Os algozes cumpriram também esta ordem e, para subtrair o cadáver à veneração dos cristãos, atiraram-no à cloaca máxima. Uma piedosa mulher, Santa Luciana, porém, achou-o, tirou-o da imundície, e sepultou-o aos pés de São Pedro e São Paulo. Assim aconteceu em 287. Mais tarde, no ano de 680, as relíquias foram solenemente transportadas para uma basílica, construída por Constantino. Naquela ocasião grassava em Roma a peste, que vitimou muita gente. A terrível epidemia desapareceu na hora daquela transladação, e esta é a razão por que os cristãos veneram em São Sebastião o grande padroeiro contra peste. Em outras ocasiões se verificou o mesmo fato; assim no ano de 1575 em Milão, e 1599 em Lisboa, ficando estas duas cidades livres da peste pela intercessão do glorioso mártir São Sebastião.

REFLEXÕES
   São Sebastião vivia no meio de pagãos. Soldados e oficiais do exército romano eram sua companhia cotidiana. Inabalável na fé, não se deixava influir pelas opiniões, sarcasmos, críticas e calúnias daqueles que não eram cristãos. O mundo contemporâneo tem muitos sinais característicos do paganismo. Difícil é para um católico que pela posição social deve estar em contato contínuo com os pagãos modernos, conservar-se firme na fé e nos bons costumes. Muitos transigem, não achando força bastante para resistir às tentações perturbadoras, ou para enfrentar opiniões e ataques contra a religião. Preferem curvar-se, intimidados pelo respeito humano. Não imites este exemplo. Se todos forem adorar os bezerros de ouro, deves ir a Jerusalém, para adorar teu Deus, como fez o piedoso Tobias, que forçosamente havia de viver entre os infiéis. Se os outros querem trilhar o caminho do pecado, fica firme na prática da virtude, ou dize com o virtuoso Matatias: "Ainda que todas as gente obedeçam ao rei Antíoco, de tal sorte que cada um se aparte do jugo da lei do país e consinta nos mandamentos do rei: eu e meus filhos e meus irmãos obedeceremos à lei do nosso país. Deus de tal sorte nos defenda: nenhuma conveniência temos em deixar a lei, e as ordenanças de Deus". (1Macabeus, II, 19). 

domingo, 19 de janeiro de 2020

2º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA

   Leituras: Epístola de São Paulo aos Romanos, 12, 6-16; 
                   Evangelho segundo São João, 2, 1-11.

 
"Naquele tempo, celebraram-se umas bodas em Caná de Galileia, e achava-se ali a Mãe de Jesus. E também Jesus foi convidado, com seus discípulos, para as bodas. Faltando o vinho, a Mãe de Jesus disse-lhe: Eles não têm mais vinho. Respondeu-lhe Jesus: Senhora, que nos importa isso, a Mim e a ti? Ainda não chegou a minha hora. Disse sua Mãe aos servidores: Fazei tudo quanto Ele vos disser. Ora, havia ali seis talhas de pedra destinadas às purificações usadas entre os judeus, cada uma das quais comportando duas ou três medidas [cerca de 40 litros]. Disse-lhe Jesus: enchei de água estas talhas. E encheram-nas até às bordas. E Jesus disse-lhes: Tirai agora e levai ao mestre-sala. E levaram. Assim que o mestre-sala provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era, embora o soubessem os serventes que haviam tirado a água, chamou o mestre-sala o esposo, e disse-lhe: Todo homem põe primeiro o bom vinho, e quando já se tem bebido, põe então o inferior; mas tu guardaste o bom vinho até agora. Este foi o primeiro dos milagres que Jesus fez em Caná de Galileia; e manifestou sua glória e seus discípulos creram n'Ele". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Atual Caná da Galileia
   A Liturgia da Santa Madre Igreja começa a falar da vida pública de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o primeiro milagre de Jesus, que se deu numas bodas em Caná, pequena aldeia que fica a cerca de 15 km de Nazaré.
   A primeira coisa que o Santo Evangelista ressalta é que nestas bodas se achavam presentes Maria Santíssima e seu divino Filho Jesus acompanhado de alguns discípulos.
   Jesus queria honrar com a sua presença o casamento, futuro sacramento, que purificará a fonte da vida e fundará a família cristã; e ensinar-nos que ele vem de Deus, é bom, digno de respeito e santo; e glorificá-lo com o seu primeiro milagre.
   Infelizmente, quantos cristãos, ou que se dizem tais, repelem a presença de Jesus, recusam a intervenção de Maria Santíssima, no ato aliás tão solene do casamento, e que tantas graças requer para completa felicidade da família! Todo casamento contraído fora da presença de Jesus, e sem a intervenção da sua Igreja, é não somente escandaloso e infeliz, mas ainda fonte perene de inúmeros pecados.

   Felizes os cristãos que têm o cuidado de convidar Jesus e Maria para as suas bodas, preparando-as e celebrando-as em santas disposições! Serão cumulados das graças e das bênçãos mais abundantes. Mas, ai! quantos consideram o matrimônio como um negócio inteiramente humano; quantas más intenções, imodéstias, quantos pecados lamentáveis que precedem, acompanham e seguem este ato tão importante da sua vida! É por isso que são tão poucos os casamentos verdadeiramente abençoados por Deus, e que uma maldição divina parece pesar sobre tantas famílias.
   Caríssimos e amados irmãos, consideremos agora Maria Santíssima nestas santas bodas de Caná da Galiléia. Mãe solícita,  percebe que o vinho vai faltar; e na sua bondade compassiva quer poupar aos esposos a vergonha e aos convivas a privação. Ela sabe que seu filho é o Filho de Deus, e assim cheia de fé, dirige-se a Jesus, cujo poder conhece. Expõe o embaraço iminente daqueles noivos e daquela pobre gente Àquele cuja bondade iguala o poder: "Eles não têm vinho". Palavra, ou antes prece misteriosa, cheia de eficácia sobre o Coração de Jesus, que, em atenção a sua Mãe, vai antecipar a hora dos seus milagres.
   Jesus entende que sua Mãe confia que Ele sendo o Messias, o Filho de Deus, pode fazer um milagre. E Jesus vai fazê-lo. Deixa claro, no entanto, que ainda não era a hora determinada pelo Seu Pai para dar início aos seus milagres. Disse isto para ressaltar o poder de intercessão de Sua Mãe Santíssima. Mas não havia dito no templo entre os doutores que Ele devia obedecer a Seu Pai, ocupando-se em fazer as coisas em obediência a Ele? Sim. Se Jesus antecipa a sua hora de começar a fazer milagres é porque o Seu Pai também determinou que Ele não negasse nada a Sua Mãe. Aqui, portanto, estava igualmente obedecendo ao Seu Pai. É da vontade de Deus que Jesus ceda sempre à intercessão de Maria Santíssima.
   Esta explicação se harmoniza, não somente com outras passagens similares da Escritura, mas ainda com o Espírito de São João, cujo fim era provar a Divindade de Jesus. Além disso o procedimento da Santíssima Virgem mandando aos servos que obedecessem a Jesus, não obstante sua resposta aparentemente negativa, confirma esta explicação que, aliás, só encontra oposição na má fé e ignorância de certos hereges.
   Que felicidade para os esposos de Caná o terem convidado Maria! Ela começa, então, em favor deles, aquele inefável mistério de intercessão, cujos resultados são tão proveitosos para nós, e que, de resto, é tão conforme ao plano divino, segundo a feliz expressão de São Bernardo: "Assim foi da vontade de Deus que tudo recebêssemos através de Maria Santíssima".
   Qual de nós hesitará, pois, em pôr sua confiança em Maria Santíssima e em implorá-la em todas as necessidades? Se ela intercedeu com tanta bondade por estes esposos, sem ter sido rogada, que não fará por aqueles seus filhos que recorrem a ela com tanta fé e amor?
   Ó Maria, boa e terna Mãe, vede a minha profunda miséria espiritual e dizei por mim a Jesus: "Ele não tem vinho", só tem a água da tibieza. Jesus que nada pode recusar-nos, fará em meu favor um novo milagre; dar-me-á graça e perdão, luz e força, mudará a minha água de tibieza no vinho delicioso da devoção e amor!
   Outro resultado deste primeiro milagre de Jesus foi fortalecer a fé nascente dos seus discípulos. Alguns, com efeito, já O seguiam mais ou menos, reconhecendo nele um profeta como João Batista. Mas, depois deste prodígio, consideraram-no como o Messias predito pelos Profetas; sentiram crescer a sua fé e ficaram mais bem dispostos para aceitar a doutrina de Jesus e pô-la em prática.
   Graças Vos dou, ó Jesus, por todas estas lições preciosas, que Vos dignastes dar-nos hoje. Ajudai-nos com a Vossa santa graça a aproveitá-las bem, a amar-Vos cada vez mais, e a viver unicamente para Vós. Amém!
  

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 2º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA


S. João II, 1-11

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Aldeia de Caná na atualidade
Celebraram-se umas bodas em Caná de Galileia, e achava-se ali a Mãe de Jesus. E também Jesus foi convidado, com seus discípulos, para as bodas. Logo após o Batismo e os 40 dias de recolhimento, oração e penitência numa montanha perto de Jericó, depois de permitir ao demônio que O tentasse por três vezes, Jesus Cristo inicia sua vida pública que vai prolongar-se por três anos apenas. Já tinha em torno de si alguns discípulos, levados a Ele pelo testemunho de Seu Precursor, João Batista. Estando assim nos inícios de sua carreira evangélica, não havia feito ainda nenhum milagre para atestar sua missão. Jesus começa na pequena aldeia de Caná, perto de Nazaré, a série brilhante e ininterrupta de milagres que doravante encherá sua vida, e oferecerá ao mesmo tempo sólidos fundamentos à nossa fé e úteis instruções para nossos costumes.

Caríssimos, afim de melhor acolher e compreender os ensinamentos desta narração evangélica, consideremos sucessivamente os diversos personagens desta cena de Caná.

Primeiramente consideremos os ESPOSOS. Sua conduta é inteiramente digna de elogio. Pois convidam a Jesus e Maria para seu casamento. Hoje, infelizmente são raríssimos os noivos que convidam Jesus e Maria para suas núpcias. Em se tratando de algo tão sério, tão importante do qual depende a sorte da vida inteira e até de gerações futuras, quantos são aqueles noivos que levam em conta os conselhos, os mandamentos e a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo? O Divino Mestre santificou a virgindade ao abraçá-la Ele mesmo e nascendo de uma virgem. Santificou, outrossim, o matrimônio elevando-o à dignidade de sacramento, honrando-o com Sua presença e com o seu primeiro milagre, com o qual aliás, mostra o poder de intercessão de sua Mãe Santíssima, e confirma seus primeiros discípulos na fé. Com a presença de Jesus e Maria, tudo nestas bodas é inteiramente puro, calmo, digno e santo. Nada de enfeites imodestos, nada de modas imorais, nada de palavras licenciosas, nada de gritos desordenados, nada de danças, nada de dissipação extravagante. Tudo transcorre com ordem, paz e caridade. Os convivas sabem que Jesus e Maria estão lá, vêem-Nos, ouvem sua voz e se edificam com Sua conversação. Mas nos casamentos em que Jesus e Maria são simplesmente banidos, reina, ao invés, o espírito pagão e assim, como aconteceu com os sete primeiros esposos de Sara, filha de Raguel, quem tem todo poder é o Asmodeu, inimigo das almas.

Consideremos agora, MARIA SANTÍSSIMA. O que nela aparece em primeiro lugar é sua bondade, bondade esta que brilha  com uma espontaneidade e um desvelo admiráveis. Sem que ninguém disso se advertisse, Maria percebe onde se encontra a necessidade e conseqüente vexame dos noivos. E sem que ninguém o peça, solícita, bondosa, compassiva, volta-se para seu Filho e Lhe diz ao ouvido estas palavras: "Não têm vinho". Jesus deixa claro que não é ainda chegada a hora de Ele começar a fazer milagres: "Mulher (em aramaico: 'já mara' que quer dizer SENHORA) que temos Eu e tu com isso? (Outra expressão tipicamente hebraica e que se encontra em várias passagens do Antigo Testamento). E assim poder-se-ia traduzir: "Senhora, que motivo nos leva a ti e a mim a falar deste assunto?' E devemos levar em conta o gesto, o tom de voz e outras circunstâncias que a completavam, os quais desconhecemos, mas podemos supor. Aliás, pela ordem que Maria dá aos serventes logo em seguida, mostra que ela bem entendeu que seu Filho iria fazer o milagre. Quem melhor poderia penetrar no Coração de Jesus senão sua Mãe Santíssima!  O fato é que não podemos concordar com aqueles protestantes que concluem que o próprio Jesus tratava Maria como uma mulher como as outras. Isto constitui inclusive uma grande ofensa ao próprio Jesus: sendo Deus não foi Ele que deu os dez mandamentos, inclusive o quarto? Infelizmente o desconhecimento da língua hebraica e aramaica da parte da maioria dos protestantes aumenta o perigo de falsas interpretações da Bíblia.

Por outro lado as palavras de Jesus foram ditas com toda certeza para fazer sobressair o poder de intercessão de sua Mãe amabilíssima. No Templo depois de recordar os direitos do Pai celeste, Jesus obedece aos pais terrenos; aqui, depois de recusar atender ao apelo de Sua Mãe, antecipa sua hora e faz o milagre, transformando a água em vinho. A primeira vista parece haver uma contradição entre  o que o Menino Jesus disse à sua Mãe lá no Templo e o que realiza aqui. É óbvio que não pode haver contradição no falar e agir de Jesus. O fato é que Jesus, como Ele mesmo declarou alhures, nunca fazia sua própria vontade mas sim a de Seu Pai Eterno. Assim a explicação é que o Pai havia determinado deste toda eternidade que Jesus não deveria negar nada à sua Mãe Santíssima.

Disse sua Mãe aos servidores: Fazei tudo o que Ele (Jesus) vos disser. Maria Santíssima quer nos ajudar com seus pedidos e com seu crédito junto de seu Filho. Ela quer mesmo prevenir muitas vezes, nossos pedidos, mas com uma condição: que façamos tudo o que o Seu Filho mandar, isto é, que executemos Sua vontade. E o que Ele quer é que façamos tudo que depende de nós, que nos apliquemos à obra de nossa salvação o concurso de nossa fraqueza, que coloquemos a água nas talhas de nossos corações, nestes corações de pedra (como os chama a S. Escritura) a água de nossas lágrimas, a água insípida da mortificação, do trabalho constante, do dever obscuro. E esta água transformar-se-á em vinho, e esta fraqueza será transformada em força, e nós mesmos, como os convivas de Caná, ficaremos admirados de encontrar em nós, em lugar de nossa miséria e de nossa covardia , uma fortaleza e uma generosidade das quais nunca nos julgaríamos capazes.

Além da bondade, vemos em Maria um poder extraordinário junto ao Coração de seu Filho. Ela pede um milagre de primeira ordem e para simplesmente livrar os esposos de Caná de um vexame. Pede sem ansiedade, sem inquietação, mesmo sem insistência, tão segura está do poder e do beneplácito de Seu Filho para com ela. Na verdade, Nossa Senhora não pede propriamente, apenas demonstra o desejo que tem em ver o seu Filho operar um milagre para livrar de um embaraço os neo-esposos de Caná.

Em Caná, além da bondade e poder, vemos brilhar em Maria a sua glória. Assim, não é pelo pedido de Maria que Jesus, escondido durante trinta anos na obscuridade de uma vida humilde e comum, se mostra enfim o que é, e manifesta este poder divino que estava até então tão cuidadosamente oculto n'Ele? Não é, pois, pelo prece de Maria que Ele começa as funções de seu ministério público; deste ministério que vai se tornar tão fecundo em ensinamentos e prodígios; que Ele estabelece sua missão, que Ele ganha a confiança de seus discípulos e os prende definitivamente à sua pessoa?

Agora, caríssimos, contemplemos JESUS! Aqui nas Bodas de Caná Jesus nos ensina uma coisa, a maior, a mais bela, a mais augusta que possamos aprender: é que Ele é Deus, Filho de Deus. Com efeito, tudo em seu semblante, em suas palavras, em sua conduta, atesta Deus todo poderoso e a própria sabedoria. Ele diz: "Minha hora não é ainda chegada". Se faz o milagre é porque, como ficou explicado acima,  para obedecer a um decreto do Pai, isto é, que nada negasse à Sua Mãe. Fala com calma e dignidade: "Enchei de água estas talhas até às bordas e levai-a ao mestre-sala". Jesus queria que seus milagres provassem a sua missão divina e contribuíssem para a estabelecer aos olhos dos homens. Para tanto Ele dá ao milagre de Caná todas as garantias e toda autenticidade de que é susceptível. Ele espera para que a necessidade seja bem constatada. Ele faz encher as talhas de água até às bordas, afim de que a água apareça aos olhares dos convivas; Ele ordena aos servidores que busquem a água e a levem ao mestre-sala. A este último, com efeito, é que pertence o direito de constatar oficialmente a qualidade do licor que o poder de Jesus tinha substituído à água das talhas, e atestar assim solenemente o milagre.

Caríssimos, o milagre de Caná figura o milagre mais retumbante e sobretudo mais cheio de amor que nos oferece a Eucaristia. Nela Jesus opera a mais maravilhosa mudança, pois transforma o pão e o vinho em seu Corpo e em seu Sangue, e isto sem que Ele visivelmente coloque a mão, mas pelo ministério de seus servidores e de seus padres.


Onipotente e eterno Deus, que governais igualmente o céu e a terra, com a vossa Providência, escutai, benigno, as súplicas de vosso povo, e concedei às famílias de  nossos tempos, a vossa paz; e que a indissolubilidade que estabelecestes para o sacramento do matrimônio não seja destruída pelos homens. Amém! 

domingo, 12 de janeiro de 2020

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA


 SAGRADA FAMÍLIA

S. Lucas II, 42-52  (Para não me alongar demais, não transcrevo aqui o Evangelho).

"Tendo Jesus completado doze anos, subiu com seus pais a Jerusalém etc.: Todos os homens deviam apresentar-se no Templo, três vezes por ano, isto é, por ocasião da Páscoa, de Pentecostes e da festa dos Tabernáculos. As mulheres, ainda que não fossem obrigadas pela Lei, costumavam ir ao Templo por devoção, ao menos pela festa da Páscoa. Os filhos começavam a ser obrigados na idade dos doze anos, época em que se tornavam "filhos da Lei".

Assim, tendo atingido os doze anos, Jesus, para nos dar exemplo de submissão às prescrições divinas, foi a Jerusalém com seus pais. Enquanto Deus, Jesus não estava obrigado, mas submete-se com humildade, para edificação nossa, à observância da lei. Seguindo a vontade de Deus Pai, Jesus ia tornar célebre para sempre esta primeira Páscoa histórica da sua vida. Ia erguer uma ponta do véu que nos ocultava a sua sabedoria infinita e a sua divindade; ia, outrossim, santificar sua Mãe e S. José por uma provação de três dias; e finalmente, com sua obediência inefável e a sua vida de trabalho, ia pôr os fundamentos da sociedade e das famílias cristãs.

Eis o que disse o Papa Leão XIII ao instituir a festa da Sagrada Família neste domingo (1º depois da Epifania): "Os pais de família têm em S. José um modelo admirável de vigilância e solicitude paterna; as mães podem admirar na Virgem Santíssima um exemplo insigne de amor, de respeito e de submissão; os filhos têm em Jesus, submisso a seus pais, um exemplo divino de obediência; os nobres aprenderão, olhando para esta família de sangue real, a moderação na prosperidade e a dignidade nas aflições; os ricos aprenderão a ter mais em conta as virtudes do que as riquezas; os operários e todos os que sofrem, devido à sua condição pobre, terão motivo e ocasião de alegrar-se pela sua sorte em vez de entristecer-se, porque têm de comum com a Sagrada Família as fadigas e os cuidados da vida cotidiana".

Acabados os dias da festa, quando voltaram, ficou o Menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem etc. Geralmente os habitantes de um mesmo lugar iam em caravana composta de dois grupos: um de homens e outro de mulheres e quando saíam do Templo, faziam-no por duas portas diferentes.  Os meninos podiam ir em um ou em outro. Por isto pôde acontecer que, ao saírem de Jerusalém, não notassem que Jesus não estava no meio da caravana de Nazaré.  Mas, fazemos a mesma pergunta que sua Mãe Santíssima Lhe fez: Por que é que Jesus agiu desta maneira? É óbvio, Jesus procede assim, não por desobediência, mas para cumprir a vontade de seu Pai e cuidar dos seus interesses. Deus resolvera manifestar desde então seu Filho aos sacerdotes e doutores da lei.  Queria, outrossim, ensinar-nos a renunciar à carne e ao sangue, a pôr de lado a afeição dos pais, apesar das dores do sacrifício recíproco, desde que se trate de obedecer a Deus e de consagrar-se ao seu serviço.
Podemos também indagar o porquê da aflição de Maria Santíssima: afinal ela sabia que seu Filho era Deus, infinitamente sábio e todo poderoso. Todavia, esta ausência súbita e inesperada era para ela um mistério, cujo verdadeiro motivo não podia penetrar. Caríssimos, admiremos este secreto e maravilhoso proceder de Deus com Maria e José. Aflige-os, não para os punir, porque não são culpados de qualquer falta, mas porque os ama. Era como se lhes dissesse ainda com mais verdade do que o Arcanjo Rafael disse a Tobias: "Porque eras aceito a Deus, por isso foi necessário que a tribulação te provasse".

Quantas vezes, miseráveis pecadores como somos, perdemos a Jesus por nossa culpa, pelo pecado; ou então, por vezes, em castigo de alguma negligência ou infidelidade às graças, Jesus retira-se ou esconde-se. E quantos não sentem dor por isso e não procuram a Jesus. E por que não nos humilhamos profundamente, e não redobramos de devoção e de fervor para procurar a Jesus? Ó Maria Santíssima aumentai em mim a amor ao vosso divino Filho!

E aconteceu que, depois de três dias, encontraram-No no Templo, sentado entre os doutores, ouvindo-os e interrogando-os etc. Comumente os discípulos ficavam sentados em esteiras aos pés dos doutores que ficavam orgulhosamente em seus tronos. Mas, provavelmente, estupefatos e maravilhados da sabedoria e das respostas daquele menino, os doutores deram-Lhe a honra de se assentar no meio deles. Jesus, que é a fonte de toda a ciência, de toda a luz, assim nos ensina a humildade e a modéstia como diz S. Gregório: "O Menino Jesus é encontrado entre os doutores não ensinando". Interrogava também aos doutores, parecendo querer instruir-se a si mesmo, e também para nos ensinar a consultar a Igreja. S. Lucas não diz qual foi o assunto ali tratado. Mas declarará a sua Mãe que deve empregar-se nos negócios de seu Pai. Certamente falava do Messias, da época da sua vinda já que os doutores não aproveitaram das consultas bíblicas e da solução transmitida  por eles mesmos aos Reis Magos. Mostraram o verdadeiro caminho, mas eles mesmos não o seguiram. Agora Jesus mesmo antes de sua vida pública já quer mostrar-lhes que Ele é o Messias. Evidentemente, Jesus queria dispor os corações dos sacerdotes e dos doutores a desejarem e a receberem esse Messias cujo nascimento já sabiam e cuja sabedoria divina perceberam naquele Menino muito acima dos comuns dos homens. Caríssimos, tenhamos cuidado em utilizar melhor as graças de Deus.

Disse-Lhe sua Mãe: Filho, por que nos fizeste isto? Eis que teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição". José e Maria ficaram admirados porque Jesus ainda não havia manifestado assim em público sua sabedoria. Mas José não fala. Maria, porém, com a autoridade e ternura de mãe é que fala. Admiramos o respeito e a deferência de Maria para com seu santo Esposo, nomeando-o em primeiro lugar e dando-lhe o título de pai de Jesus e de chefe da família. Na verdade, José, externa e legalmente era considerado como pai de Jesus Cristo.  A palavra da santíssima Mãe de Jesus não é de censura; é um grito do coração, todo cheio de confiança e de abandono, de humildade e de ternura; é uma espécie de queixa afetuosa sobre a longa ausência de Jesus, para exprimir a sua pena e a de José.
Respondeu-lhes Ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?  É evidente que a resposta de Jesus não inclui censura, mas apenas admiração. Se Maria e José sabiam que Ele era o Messias, Filho de Deus, que veio ao mundo cumprir a vontade de seu Pai, era natural que O encontrassem no Templo, ocupado nas coisas referentes a Deus. Estas são as primeiras palavras de Jesus, conservadas nos evangelhos. Nelas manifesta diretamente sua divindade. Por elas dá a conhecer àqueles que O cercam no Templo, e a nós todos, o fim da sua missão sobre a terra, e ensina-nos que os interesses de Deus e o seu agrado devem estar acima de qualquer consideração humana. Algumas vezes Deus fala à alma dos filhos e os chama para si. Nesse caso os pais não devem opor-se à vocação celeste, nem têm o direito de fazê-lo.

E eles (Maria e José) não entenderam o que lhes disse: Porque, na verdade, ainda não sabiam que Jesus devia abandonar tudo, para cuidar unicamente da glória de seu Pai.

Desceu com eles e veio para Nazaré, e lhes era submisso. Sua Mãe conservava todas estas coisas em seu coração. Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e diante dos homens: Sendo Deus, Jesus obedecia a seus pais. Que exemplo para os filhos! Por sua vez, Sua Mãe conservava todas estas coisas no coração, para meditá-las, e pautar por elas todos os atos da sua vida. Jesus crescia em sabedoria ... e em graça: Como Deus, possuía todos os conhecimentos e a plenitude da graça. Crescendo, ia aos poucos manifestando estes dons, o que causava aos homens a impressão de desenvolvimento progressivo. Enquanto homem, Jesus Cristo foi adquirindo conhecimentos experimentais do mundo que o cercava e neste sentido houve verdadeiro crescimento.


JESUS, MARIA E JOSÉ, SALVAI AS FAMÍLIAS! Amém!