SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 21 de julho de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 6º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos 6, 3-11.
   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 8, 1-9:

   "Naquele tempo, estava com Jesus uma grande multidão, e não tinha o que comer. Jesus chamou os discípulos e lhes disse: Tenho compaixão deste povo: porque já estão comigo há três dias e não têm o que comer. Se eu os mandar em jejum para as suas casas, desfalecerão no caminho, porque alguns vieram de longe. Seus discípulos responderam-Lhe: De onde poderá alguém fartá-los de pão, aqui no deserto? Perguntou-lhes Jesus: Quantos pães tendes? Responderam: sete. Então Ele ordenou à multidão que se assentasse no chão. E tomando os sete pães, deu graças, partiu-os e deu-os a seus discípulos, para que distribuíssem ao povo. Havia também alguns peixinhos, e Ele os abençoou e mandou que os distribuíssem. Comeram pois, e ficaram fartos, e dos pedaços que tinham sobrado, levaram sete cestos. E os que comeram eram perto de quatro mil. E Jesus os despediu". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Ouçamos, no Evangelho, as palavras bondosas de Jesus: "Tenho compaixão deste povo". Jesus tem compaixão de nós, das nossas fraquezas, da nossa debilidade, da indecisão da nossa vontade. Vê as nossas almas cansadas, famintas, necessitadas de auxílio e, como outrora às turbas que vinham para O ouvir, repete-nos também a nós: "Tenho compaixão". A compaixão de Jesus volta-se primeiro para as nossas necessidades espirituais; com a Sua Paixão e Morte já proveu com liberalidade a essas necessidades, mas deseja continuar a cuidar delas todos os dias de um modo mais pessoal e direto, oferecendo-Se como alimento às nossas almas. O Evangelho fala-nos da segunda multiplicação dos pães, mas para nós, mais afortunados que as multidões da Palestina, Jesus reservou um pão infinitamente mais nutritivo e mais precioso: a Eucaristia.

   Fascinadas pela palavras de Jesus, as turbas haviam-no seguido, esquecendo até as próprias necessidades: andavam com Ele há três dias e não tinham nada para comer. Que lição para nós, muitas vezes mais solícitos pelo pão material do que pelo espiritual! E Jesus, depois de ter provido largamente às necessidades do espírito, pensa também nas do corpo. Os discípulos, por sua vez, ficam admirados: "como poderá alguém saciá-los de pão aqui no deserto?" Já tinham assistido à primeira multiplicação dos pães, mas agora parece não terem dela a menor lembrança e ficam desconfiados. Quantas vezes palpamos nós de igual modo os milagres da graça, os milagres da divina Providência! Porém, não é raro ficarmos perplexos em face de novos casos difíceis e obscuros, como se puséssemos em dúvida a onipotência de Deus. Pensemos, por exemplo, na nossa vida espiritual: existem ainda pontos por vencer, por superar... experimentamo-lo  tantas vezes e talvez agora não tenhamos já coragem para recomeçar de novo. Oh! se tivéssemos fé, se nos lançássemos em Deus com maior confiança! Bastaria talvez um belo ato de confiança total para conseguir a vitória. Jesus olha-nos e repete-nos: " Tenho compaixão deste povo; e a sua compaixão não é estéril. É ação vital, é auxílio e graça atual para a nossa alma; por que não temos, pois, mais confiança n'Ele?
   (Extraído do Livro "INTIMIDADE DIVINA" do P. Gabriel de Sta M. Madalena, O.C.D.).

 Terminemos com palavras de Santa Teresinha do Menino Jesus, Doutora da Igreja: "Ah, Senhor meu! Tenho necessidade da Vossa ajuda, porque sem ela nada posso fazer. Por Vossa misericórdia não consintais que a minha alma seja enganada, deixando o caminho começado. Dai-me luz para que veja como está nisto todo o meu bem...
  Fazei-me compreender que a minha fé em Vós deve apoderar-se da minha miséria e não me devo espantar... se me acontecer sentir temor e fraqueza. Devo deixar que a carne faça o seu ofício, lembrando-me de que Vós, ó Jesus, dissestes na oração do horto: 'a carne é fraca'... Se a vossa carne divina e sem pecado é enferma, como quererei que a minha seja tão forte que não sinta temor? Portanto não me quero queixar de temores nem desanimar por ver fraco o meu natural. Quero confiar na Vossa misericórdia desconfiando das minhas forças, porque toda a minha fraqueza está em me apoiar nelas". 

   Ó JESUS, SENHOR E MEU PAI, TENDE COMPAIXÃO DA MINHA POBRE ALMA E SUSTENTAI-A COM A VOSSA GRAÇA. AMÉM!

EVANGELHO DO 6º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



S. Marcos VIII, 1-9
Fome da Eucaristia, Fome da Palavra de Deus

Atitude exemplar a da multidão que, por três dias havia seguido a Jesus no deserto, ávida unicamente em alimentar suas almas e despreocupada com o alimento corporal. Exemplo  muito mais para se admirar  hoje quando o mundo, com raras exceções, só tem ânsia em enriquecer e gozar. Infelizmente, os lugares de divertimento e de tráfico refervem dia e noite, ao passo que Jesus Eucarístico é abandonado nos Tabernáculos. Os sacerdotes zelosos em vão repetem as palavras de Deus.

Felizes, no entanto, os que têm fome da Eucaristia, porque quem não come deste Alimento morrerá para sempre. Felizes os que têm fome da palavra de Deus, porque não só de pão material vive o homem, ma também, e sobretudo, da palavra que sai da boca de Deus, através de seus fiéis ministros: "Quem vos ouve, a mim ouve".

FOME DA EUCARISTIA: Nas primeiras décadas do século XV, piratas de terra e de mar haviam invadido a Groenlândia, passado a fio de espada uma parte da população cristã, e reduzido o resto à escravidão. Todas as igrejas tinham sido arrasadas até o solo, e todos os sacerdotes mortos. Muitas vezes os pobres Groenlandeses tinham recorrido a Roma, onde era Papa Inocêncio VIII, mas inutilmente. O mar em toda a volta da sua inóspita praia gelara, de modo que, havia oitenta anos, nenhuma nau estrangeira ali tinha podido aproar. Privados de bispo e de sacerdotes, muitos já haviam esquecido a fé de seus pais, retornando aos vícios do paganismo. Só poucos tinham sabido conservar-se fiéis á religião. Esses tinham achado um corporal, aquele sobre o qual repousara o Corpo do Senhor na última Missa celebrada pelo último padre groenlandês. Todo ano eles o expunham à veneração pública: em torno dele os velhos, tremendo e chorando, rezavam, em torno dele as mães conduziam seus filhos para aprenderem a conhecer Jesus. Em torno dele todos se comprimiam como famintos em torno de uma branca mesa sobre a qual não tinha ficado mais do que o perfume da comida. E exclamavam: "Senhor! envia-nos depressa o sacerdote que consagre, dá-nos ainda, uma vez ao menos, a tua Carne a comer e o teu Sangue a beber, do contrário também nós perderemos a fé e morreremos como pagãos" (L. PASTOR, HISTÓRIA DOS PAPAS, v. III, pag. 448 e 449).

Caríssimos, nós temos Jesus sempre perto de nós. Contudo, pensai em quantas igrejas ficam desertas o dia todo! Pensai no número tão grande de cristãos que esqueceram até o fazer a Páscoa ou, então pensai naqueles que fazem a comunhão, sem vontade, com o coração frio e imerso nos desejos mundanos e mesmo pecaminosos. Pensai em todos aqueles que poderiam participar das Santas Missas, receber a Eucaristia e não o fazem e isto, por motivos fúteis, ou melhor sem nenhuma explicação senão a falta de fé e de amor a Jesus!

Os homens não têm mais fome do Pão de vida: como farão para viver na graça de Deus e um dia ressuscitar para a vida eterna?!

FOME DA PALAVRA DE DEUS: Lemos na vida de Santo Efrém o seguinte fato que muito ilustra este ponto que ora tratamos. Este santo, estando em oração, ouviu uma voz que dizia; "Efrém, toma alimento". Pasmado com essa ordem, e não sabendo de onde vinha, o santo respondeu: "E que comida me darás?" Então a voz replicou: "Vai ter com Basílio: ele te instruirá, e te oferecerá o alimento eterno". Imediatamente ele correu em busca do bispo Basílio, e achou-o na igreja, orando. Então conheceu que a palavra de Deus era a comida que ele devia tomar. E foi instruído na palavra de Deus pelo santo e sábio Bispo Basílio.

Caríssimos, assim como o pão material é necessário para sustentar o corpo, assim também a palavra divina é necessária para sustentar a alma. Uma alma sem este alimento espiritual consome-se de fome, e vai perecer miseravelmente. A fé é absolutamente necessária para a salvação, pois, sem ela, como afirma S. Paulo, é impossível alguém agradar a Deus. E a fé, como assegura o mesmo Apóstolo, vem pelo ouvido "fides ex auditu", ou seja, a fé é alimentada nas almas pela audição da palavra de Deus. Por que é que em tantos cristãos a fé é lânguida, e por isso, morta, porque não tem a força necessária para dar frutos para a vida eterna. É uma árvore com a folhas amareladas; ou é qual lamparina bruxuleante cujo azeite está se extinguindo. É porque muitos e muitos não têm fome da palavra de Deus. 

A palavra de Deus é necessária não só para iluminar a mente mas também para fortalecer a nossa vontade no bem. A terra, quando não é banhada pelas águas, esteriliza-se e não produz senão espinhos; assim também o nosso coração quando o celeste orvalho da palavra de Deus não o fecunda mais. Como é triste a gente ver católicos (que na verdade, só trazem o nome) nem sequer se incomodam em ouvir ou ler a Explicação do Evangelho dos domingos e dias santos! A estes valem as palavras terríveis de Santo Hilário: quando este santo subia ao púlpito, percebendo que algumas pessoas saíam da igreja para não se aborrecerem com o sermão que ele ia fazer, deteve-se à porta da igreja e gritou: "Agora bem podeis fugir da igreja, mas um dia já não podereis sair do lugar de tormentos".

Caríssimos, imitemos as turbas cujo exemplo nos comove e anima na leitura do Evangelho de hoje. Procuremos primeiro ter fome de Jesus na Eucaristia, ter fome da palavra de Deus, e obteremos o seu reino e o pão material ser-nos-á dado por acréscimo. Amém!


terça-feira, 16 de julho de 2019

NOSSA SENHORA DO CARMO

NOSSA SENHORA DO CARMO

                                                                                                                         Dom Fernando Arêas Rifan*

        Ontem celebramos uma data importante do mês de julho: a festa de Nossa Senhora do Carmo, uma das mais antigas e conhecidas invocações de Nossa Senhora.
        Quase na divisa com o Líbano, o monte Carmelo, com 600 metros de altitude, situa-se na terra de Israel. “Carmo”, em hebraico, significa “vinha” e “El” significa “Senhor”, donde Carmelo significa a vinha do Senhor. Ali se refugiou o profeta Elias, que lá realizou grandes prodígios, e depois o seu sucessor, Eliseu. Eles reuniram no monte Carmelo os seus discípulos e com eles viviam em ermidas. Na pequena nuvem portadora da chuva após a grande seca, Elias viu simbolicamente Maria, a futura mãe do Messias esperado.
        Assim, Maria foi venerada profeticamente por esses eremitas e, depois da vinda de Cristo, por seus sucessores cristãos, como Nossa Senhora do Monte Carmelo ou do Carmo.
       No século XII, os muçulmanos conquistaram a Terra Santa e começaram a perseguir os cristãos, entre eles os eremitas do Monte Carmelo, muitos dos quais fugiram para a Europa. No ano 1241, o Barão de Grey da Inglaterra retornava das Cruzadas com os exércitos cristãos, convocados para defender e proteger contra os muçulmanos os peregrinos dos Lugares Santos, e trouxe consigo um grupo de religiosos do Monte Carmelo, doando-lhes uma casa no povoado de Aylesford. Juntou-se a eles um eremita chamado Simão Stock, inglês de família ilustre do condado de Kent. De tal modo se distinguiu na vida religiosa, que os Carmelitas o elegeram como Superior Geral da Ordem, que já se espalhara pela Europa.
       No dia 16 de julho de 1251, no seu convento de Cambridge, na Inglaterra, rezava o santo para que Nossa Senhora lhe desse um sinal do seu maternal carinho para com a Ordem do Carmo, por ela tão amada, mas então muito perseguida. A Virgem Santíssima ouviu essas preces fervorosas de São Simão Stock, dando-lhe, como prova do seu carinho e de seu amor por aquela Ordem, o Escapulário marrom, como veste de proteção, fazendo-lhe a célebre e consoladora promessa: “Recebe, meu filho, este Escapulário da tua Ordem, que será o penhor do privilégio que eu alcancei para ti e para todos os filhos do Carmo. Todo aquele que morrer com este Escapulário será preservado do fogo eterno. É, pois, um sinal de salvação, uma defesa nos perigos e um penhor da minha especial proteção”.
       O Papa Pio XII, em carta a todos os carmelitas (11/2/1950), escreveu que entre as manifestações da devoção à Santíssima Virgem “devemos colocar em primeiro lugar a devoção do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo que, pela sua simplicidade, ao alcance de todos, e pelos abundantes frutos de santificação, se encontra extensamente divulgada entre os fiéis cristãos”. Mas faz uma advertência sobre sua eficácia, para que não seja usado como superstição: “O sagrado Escapulário, como veste mariana, é penhor e sinal da proteção de Deus; mas não julgue quem o usar poder conseguir a vida eterna, abandonando-se à indolência e à preguiça espiritual”.

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

NOSSA SENHORA DO CARMO

   Bem podemos dizer que a veste da graça foi tecida pelas mãos benditas de Maria Santíssima. A Santa Madre Igreja proclama-a Corredentora. Se deu inteiramente a si mesma, em união com o seu Filho, pela nossa redenção. Uma tradição popular fala da túnica inconsútil que a sempre Virgem Maria teceu para Jesus; mas para nós fez realmente muito mais: cooperou para nos conseguir a veste da nossa salvação eterna. Maria Santíssima nunca deixou de nos seguir com o seu olhar maternal para proteger em nós a vida da graça. Cada vez que nos convertemos a Deus, nos levantamos de uma culpa - grande ou pequena - ou progredimos na graça, sempre o fazemos por intermédio de Maria Santíssima. O escapulário que a Senhora do Carmo nos oferece não é mais do que o símbolo exterior desta sua incessante solicitude maternal; símbolo, mas também sinal e penhor de salvação eterna. "Recebe, amado filho - disse Nossa Senhora a São Simão Stock - este escapulário... quem morrer com ele não padecerá o fogo eterno". A sua poderosa intercessão maternal dá-lhe direito a repetir em nosso favor as palavras de Jesus: "Pai Santo... conservei os que me deste e nenhum deles se perdeu". 
   O Carmelo é o símbolo da vida contemplativa, vida toda dedicada à busca de Deus, toda dirigida para a intimidade divina; e quem melhor realizou este ideal altíssimo foi a Virgem, Rainha e Decoro do Carmelo. Diz o profeta Isaías XXXII, 16-18: "No deserto habitará a equidade, e a justiça terá o seu assento no Carmelo. A paz será a obra da justiça e o fruto da justiça é o silêncio e a segurança para sempre. O meu povo repousará na mansão da paz, nos tabernáculos da confiança". Estas palavras do profeta mostram o espírito contemplativo e retratam a alma de Maria Santíssima. Carmelo em hebreu significa jardim. A alma de Nossa Senhora é um jardim de virtudes, é um oásis de silêncio e de paz, onde reina a justiça e a santidade, oásis de segurança, todo cheio de Deus. 
   São as paixões e os apegos que fazem barulho dentro de nós, tirando a paz da nossa alma. Só uma alma completamente desprendida e que domina inteiramente as suas paixões, poderá, como Maria Santíssima, ser um "jardim" solitário e silencioso, um verdadeiro Carmelo, onde Nosso Senhor Jesus Cristo encontre suas delícias. 
   "Ó Maria, flor do Carmelo, vinha florida, esplendor do céu, Virgem fecunda e singular, Mãe bondosa e intacta, aos carmelitas dai privilégios, Estrela do mar!" Em latim: "Flos Carmeli, vitis florigera, splendor Coeli, Virgo puerpera, singularis! Mater mitis, sed viri nescia, Carmelitis da privilegia, Stella Maris!"

domingo, 14 de julho de 2019

EPÍSTOLA DO 5º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES


1 S. Pedro, III, 8-15
"Sede todos de um mesmo coração, compassivos, amantes dos irmãos, misericordiosos, modestos, humildes, não retribuindo mal por mal, nem maldição por maldição, mas pelo contrário, bendizendo, pois para isto fostes chamados, a fim de que possuais a bênção como herança. O que quer amar a vida e viver dias felizes, refreie a língua do mal, e os seus lábios não profiram engano. Aparte-se do mal e faça o bem; busque a paz e vá após ela, porque os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos estão atentos às suas orações, mas o seu rosto está contra os que fazem o mal. E quem vos fará mal se fordes zelosos pelo bem? Mas se também padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não tenhais medo deles nem vos turbeis: antes bendizei  Senhor Jesus Cristo em vossos corações".

Caríssimos, os primeiros cristãos, como demonstra a própria Sagrada Escritura, viviam exatamente segundo estas orientações do primeiro Papa da Santa Igreja. Viviam como se todos fossem um só coração e uma só alma. Eram compassivos, misericordiosos, modestos, humildes, sabiam perdoar as ofensas e até fazer bem aos malfeitores. Foram perseguidos atrozmente pelos pagãos, e, no entanto não retribuíam o mal com o mal, mas pelo contrário, perdoavam e, na medida do possível procuravam ter paz com todos. Não usavam nenhum engano para prejudicar o próximo. Viviam em paz, porque procuravam imitar o Divino Mestre. Só temiam o pecado.

Todos nós desejamos a paz, mas poucos, como diz o Livro da Imitação de Cristo, buscam os meios da verdadeira paz. E quais são estes meios? Primeiramente o temor de Deus, temor de O ofender. E devemos, em segundo lugar, confiar na Providência divina: "Não cai um cabelo da nossa cabeça, como disse Jesus, sem permissão de Nosso Pai do Céu". De Deus e d'Ele somente depende a nossa vida presente e futura. Ninguém nos poderá causar algum mal, sem a  permissão de Deus. Este pensamento de que Deus vela sobre nós, dar-nos-á aquela resignação, que vem a ser o primeiro elemento da paz. Devemos dispensar os nossos cuidados apenas aos bens do Céu. Os santos, os primeiros cristãos ficavam tranquilos  em meios às maiores perseguições. Tinham fé e sabiam que Deus, nosso Pai, só quer o nosso bem e faz com que tudo concorra para o bem dos seus escolhidos, daqueles que O amam.

Na verdade, os vícios contrários às virtudes acima inculcadas pelo primeiro Papa, ou seja, a inveja, o egoísmo, a vingança, os sentimentos de ódio, o orgulho, todos estes vícios, digo, são justamente a causa das desavenças, e são os elementos perturbadores daquela harmonia que deveria reinar na convivência com o próximo. Assim, pois, quem quiser verdadeiramente ter um vida feliz terá que combater todos aqueles vícios e, além disso, deverá domar a sua língua, que, como diz S. Tiago, é envenenada pelo inferno.


O segredo desta paz de Jesus, paz esta que o mundo não pode dar, pertence apenas aos artigos da lei de Jesus Cristo. Ó Jesus, dai-me a vossa graça, o vosso amor, a vossa paz, e serei feliz e bastante rico. Amém!

HOMILIA DOMINICAL - 5º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Primeira Epístola de São Pedro Apóstolo 3, 8-15.
   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 5, 20-24:

   "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se vossa justiça não vai além da justiça dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus. Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás; e quem matar, será réu em juízo. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será levado ao tribunal do juízo; e o que chamar a seu irmão: tolo, será réu diante do Conselho. E o que lhe chamar louco, será condenado ao fogo da geena. Portanto, se trouxeres a tua oferenda ao altar, e te lembrares que o teu irmão tem contra ti alguma coisa, deixa a tua oferenda diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e depois vem fazer a tua oblação".

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

  Tive a inspiração de resumir o sermão que  Santo Agostinho fez sobre o Evangelho deste 5º Domingo depois de Pentecostes. 

   O Santo Evangelho cuja leitura acabamos de ouvir, muito nos fez tremer, se temos fé. Não tremem aqueles que não têm fé. Na verdade, para se chegar a segurança na vida sem fim, deve-se tremer agora nesta vida que tem fim. E nós trememos. E como não tremer quando se ouve a própria Verdade dizer: "Quem chamar a a seu irmão 'louco', será réu do fogo da geena". Por outro lado diz São Tiago na sua  Epístola: "Nenhum homem é capaz de domar a sua língua" (Tiago III, 7 e 8).  

   Que faremos então, irmãos meus? Se Jesus disse: "Quem chamar a seu irmão 'louco' será réu do fogo eterno" e se a Sagrada Escritura também diz: "O homem não tem capacidade de domar a sua língua", logo estamos todos condenados? De modo nenhum! Porque diz também o Espírito Santo na Bíblia Sagrada: "Senhor, Vós fostes nosso refúgio de geração em geração" (Conf. Salmo 89, 1). Vossa ira é justa, ó Senhor! A ninguém mandais injustamente para o fogo eterno. Entendemos, caríssimos, que, se o homem não tem capacidade para domar a sua língua, deve se refugiar em Deus para domá-la. Tomemos o exemplo dos próprios animais que nós homens domamos. Nem o cavalo, nem o camelo, nem o elefante, nem a serpente, nem o leão se domam a si mesmos. Para domá-los, lança-se mão do homem. Logo, para domar o homem.  é mister recorrer a Deus. Refugiemo-nos n'Ele!
                              
   Sim, Senhor, "Vós fostes nosso refúgio". Sem dúvida, Deus nos domará se nós nos refugiarmos n'Ele. Se nos deixarmos domar por Ele. O homem doma um leão que não é obra de suas mãos; e não há de domar a ti quem te tirou do nada pelo poder de Suas mãos? Olhai, caríssimos, para os animais ferozes. Ruge um leão e nós trememos. Contudo, o homem se sente capaz de domá-lo. Não pela força física, mas pela inteligência. Nisto o homem é mais forte que o leão, porque foi feito à imagem de Deus. Assim o homem, que é imagem de Deus, doma a fera. E não domará Deus a Sua imagem, que é o homem? 

   Em Deus, pois, está nossa esperança; sujeitemo-nos a Ele e imploremos Sua misericórdia; ponhamos n'Ele nossa confiança; e, tanto nos doma, amansa e nos faz perfeitos quanto nos submetemos a Ele e n'Ele nos refugiamos. Ás vezes Deus, nosso Domador,  também lança mão do chicote e da vara. São as provações e humilhações a que nos submete. Tu, ó homem, domas um cavalo para que uma vez manso te seja adjutório, conduzindo-te sobre ele. E, no entanto, quando morre, tu o abandonas às aves. No entanto, quando Deus te doma é para dar-te uma recompensa, que não é outra senão Ele mesmo. Depois de uma morte passageira, ressuscita-te, devolvendo a ti a carne sem faltar sequer um cabelo. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados, disse Jesus. Ele te ressuscita, para te colocar entre os anjos para sempre. Ali já não necessitas mais de ser domado, porque serás posse deste mesmo Pai, infinitamente doce. Então será Deus tudo em todos. Não haverá então infelicidade que nos prove, senão felicidade que nos satisfaça plenamente. Só Deus será nosso pastor; nosso Deus será nossa bebida; nosso Deus será nossa glória; nosso Deus será nossa riqueza. Toda variedade de bens que andas buscando aqui na terra, tê-los-á todos juntos n'Ele, em Deus. Buscai, caríssimos, não os bens, mas o Bem supremo que contém em Si todos os bens.

  Nosso Deus e Redentor e Pai nos doma, castiga e às vezes emprega até o chicote, mas tudo isto é para nos entregar uma herança que será Nosso mesmo Pai. Com este fim  nos corrige, e ainda há quem murmura e chega até a blasfemar! Um blasfemo, porém, não açoitado, não encontrará um Juiz irado? Não é, porventura, preferível que Deus te açoite, ó homem, mas te receba por filho, do que não te castigue mas te abandone?

   Digamos, pois, ao Senhor, Nosso Deus: "Senhor, Vós fostes nosso refúgio de geração em geração. Na primeira geração e na segunda, Vós fostes nosso refúgio. Refúgio para que nascêssemos, quando ainda não existíamos; refúgio para que renascêssemos, quando éramos pecadores; refúgio para nos sustentar, quando fugíamos de Vós; refúgio para nos levantar e guiar, quando éramos vossos filhos; sempre fostes nosso refúgio. Não voltaremos a deixar-Vos quando nos haveis curado de nossos males, quando haveis domado nossa carne, nosso orgulho, nossa ira e assim nos enriquecido de vossos bens; bens estes que nos dais entre carícias para evitarmos as fadigas do caminho. E quando nos corrigis, açoitais e bateis, é para que não nos afastemos do caminho. Vós, ó Senhor, serás nosso refúgio! Amém! 

  

   

domingo, 7 de julho de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 4º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos 8, 18-23.
   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 5, 1-14:

   "Naquele tempo, cercado pela multidão que viera ouvir a palavra de Deus, viu Jesus, que estava nas margens do lago de Genesaré, duas barcas paradas à borda desse lago. Os pescadores haviam descido e lavavam as redes. Entrou [Jesus] em uma daquelas barcas, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Sentou-se, então, e da barca pôs-se a ensinar às turbas. Quando cessou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para a pesca. Respondendo, Simão disse-Lhe: Mestre, trabalhamos toda a noite, e não apanhamos nada; mas por vossa palavra, lançarei a rede. Feito isto, apanharam tão grande quantidade de peixes, que a rede se rompia. E acenaram aos companheiros, que estavam na outra barca, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram as duas barcas, de modo que estas se submergiam. Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Afastai-Vos de mim, Senhor, que sou homem pecador. Porque estava atônito como todos os que com ele se achavam, pela pesca que haviam feito. E igualmente os estavam Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E disse Jesus a Simão: Não temas; daqui em diante serás pescador de homens. E conduzidas as barcas para a terra, eles deixaram tudo e O seguiram". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Uma noite inteira de trabalho e nem um só peixe! Por que? Aí não estava Jesus... Os pescadores não trabalharam sob as ordens, sob a Sua direção, sob a Sua assistência...Trabalharam confiados só na sua arte... na sua experiência. 

   Assim, caríssimos irmãos, o Santo Evangelho de hoje nos oferece oportunidade para falarmos sobre o trabalho frutuoso e não frutuoso. 

   O meio mais acessível de santificação é tudo fazermos à luz de Deus, com Jesus, por Jesus e em Jesus, porque, unidos a Ele, todas as nossas ações serão frutuosas, meritórias. 

   'Trabalhamos durante toda a noite, disse São Pedro, e nada apanhamos'. 
 
   O que é trabalhar sem Jesus?
  • É trabalhar sem a graça, sem a verdadeira luz, em cegueira espiritual, em estado de pecado mortal, sob o império de determinadas paixões. Ai! quantos cristãos trabalham assim infrutuosamente, consumindo a vida no pecado. 
  • É trabalhar para o mundo, pela terra. São aqueles que se extenuam e sofrem mil cuidados para adquirir riquezas ou honras. E tudo isto é vaidade e aflição de espírito. "Que adianta ao homem, disse Jesus, ganhar o mundo todo, se vier a perder a sua alma?" E contudo é esta a vida da maioria dos homens, mesmo de cristãos!
  • É trabalhar sem pureza de intenção, conforme a nossa própria vontade, sem procurar, nem a glória, nem a vontade divinas. O que assim se faz é sem mérito e sem fruto. Ai! e são muitos os que assim trabalham com prejuízo total, mesmo entre as pessoas religiosas, porque se age por leviandade, por rotina e com negligência. 
       Como se trabalha com Jesus?

  • Conservando sempre o estado de graça, vivendo na amizade de Jesus, para que ainda as menores das nossas ações sejam santas: "Aquele que me segue, disse Jesus, não anda nas trevas".
  • Nada fazendo senão conforme a vontade de Deus, na ordem por Ele estabelecida: "A pessoa obediente cantará vitória" (Prov. XXI, 28).
  • Não perdendo jamais de vista, em todas as nossas ações, a santa presença de Deus. Disse Deus a Abraão: "Anda na minha presença e serás perfeito" (Gen. XVI, 1). 
  • Executando todas as coisas só por amor de Deus e para Sua glória e referindo-Lhe tudo: "Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1 Cor. X, 31). 
  • Conservando-se sempre, e em tudo, em união com Nosso Senhor. Sem Nosso Senhor Jesus Cristo não podemos fazer nada de bom: "Sem mim, disse Jesus, nada podeis fazer". Com Ele, porém, tudo é abençoado!
      Terminemos ouvindo Santa Teresinha do Menino Jesus: "Senhor, Vós o vedes, caio em tantas fraquezas, mas não me admiro... Entro dentro de mim e digo: estou ainda no mesmo ponto que antes! Mas digo isto com uma grande paz e sem tristeza, porque sei que conheceis perfeitamente a fragilidade da nossa natureza e estais sempre pronto a socorrer-nos. Portanto, de que poderei ter medo? Apenas me vedes convencida do meu nada, ó Senhor, logo me estendeis a mão; mas se eu quisesse fazer alguma coisa de grande, mesmo sob o pretexto de zelo, imediatamente me deixaríeis só. Basta, pois, que me humilhe e suporte de boa vontade as minhas imperfeições; é nisto que consiste para mim a verdadeira santidade". Amém!

   

segunda-feira, 1 de julho de 2019

FESTA DO PRECIOSÍSSIMO SANGUE

 

Esta meditação é muito própria para nos santificar. Este foi um dos pontos de meditação assídua de Santa Catarina de Sena. Este o grito incessante desta santa extraordinária: "Banhai-vos no Sangue, mergulhai no Sangue, revesti-vos do Sangue de Cristo!"... "A alma que se inebria e se submerge no Sangue de Cristo, veste-se de verdadeiras e reais virtudes".  

   Mas, evidentemente, nada mais próprio para nos excitar a amar a Jesus do que as palavras do próprio Divino Espírito Santo nas Sagradas Escrituras: "Cristo amou-nos e lavou-nos dos nossos pecados no Seu Sangue" (Apoc. I, 5). "Mas Cristo, vindo como pontífice dos bens futuros, [passando] pelo meio de um tabernáculo mais excelente e perfeito, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação, e não com o sangue dos bodes ou dos bezerros, mas com o seu próprio sangue, entrou uma só vez no Santo dos Santos, depois de ter adquirido uma redenção eterna." (Hebreus IX, 11 e 12). 

   Caríssimos, devemos ter o "sentido" do Sangue de Cristo, do Sangue que Ele derramou por nós até à última gota. Sangue que, por meio dos sacramentos - da confissão, em particular - jorra continuamente para lavar as nossas almas, para as purificar e enriquecer com os méritos infinitos da Redenção na Cruz. Este Sangue Preciosíssimo que o Verbo, ao encarnar, tomou da nossa natureza humana, todo no-lo devolveu como preço do nosso resgate. E Jesus o fez livremente, ou melhor dizendo, obrigado por seu amor por nós. : "Amou-nos e lavou-nos dos nossos pecados no seu Sangue". Na verdade, todos os mistérios da nossa redenção são mistérios de amor e todos, por isso, nos incitam ao amor; mas o Mistério do Sangue de Jesus Cristo particularmente nos comove: contemplar a efusão do Sangue de Jesus, que corre do Calvário tingindo de púrpura o mundo inteiro, rociando todas as almas!!! Nada mais comovente e capaz de nos obrigar a amar a Jesus sem reservas: "Sic nos amantem, quis non redamaret?" 

   Conclusão melhor não poderíamos fazer do que empregando as palavras de São Paulo: "... deixando todo o peso que nos detém e o pecado que nos envolve, corramos com paciência na carreira que nos é proposta, pondo os olhos no autor e consumador da fé, Jesus, o qual, tendo-lhe sido proposto gozo, sofreu a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus. Considerai, pois, aquele que sofreu tal contradição dos pecadores contra si, e não vos deixareis cair no desânimo. Pois ainda não resististes até derramar o sangue, combatendo contra o pecado..." (Hebreus XII, 1-5). 

  Caríssimos, rezemos com muita devoção a Ladainha do Preciosíssimo Sangue. 

  

   

domingo, 30 de junho de 2019

EVANGELHO DO 3º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



S. Lucas XV, 1-10
Haverá mais júbilo no céu por um pecador que fizer penitência.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

"Aproximaram-se de Jesus os publicanos e os pecadores paro o ouvir. Os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe os pecadores e come com eles. Jesus, propôs-lhes, então esta parábola": a parábola da ovelha tresmalhada, a parábola da dracma perdida (como narra o evangelho seg. S. Luc. XXV, 1-10); em seguida Jesus propõe-lhes ainda a parábola do filho pródigo. Três parábolas para mostrar a misericórdia divina e como ela se exerce. Delas consta todo o capítulo XV de S. Lucas.

Caríssimos, era mui natural que os publicanos e os pecadores se aproximassem de Jesus para O ouvir. Pois, anunciava uma tão bela doutrina! Jesus pregava uma tão santa moral! Por ser pecadores, estes homens não deixavam de ser também sensíveis ao verdadeiro, ao justo e ao belo. Na verdade, esta doutrina era elevada e sublime; esta moral era grave e austera. Mas a doçura de Jesus, sua bondade, sua afabilidade temperavam tão bem o que sua doutrina e sua moral pudessem oferecer de severo! Os pecadores sabiam que Jesus era um médico que veio para curar nossas doenças, e eles não se iludiam sobre o lamentável estado de suas almas e sentiam que eram doentes; e justamente por isso vinham a Jesus do qual esperavam a sua cura. "E assim, diz Santo Ambrósio, toda alma deve aproximar-se de Jesus Cristo, porque Ele é tudo para nós. Tendes uma ferida a cicatrizar? Ele é remédio. Estais presos ao fogo da febre? Ele é uma fonte refrescante. Estais curvados sob o peso da iniquidade? Ele é a justiça. Tendes necessidade de socorro? Ele é a força. Temeis a morte? Ele é a Vida. Desejais o céu? Ele é o caminho que para lá conduz. Fugis das trevas? Ele é a Luz. Procurais alimento? Ele é um alimento" (Lib., III, de Virginibus).

Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e Ele espera-os com paciência, procura-os com solicitude e recebe-os com alegria quando arrependidos se voltam para Ele. É justamente para justificar esta Sua conduta que Nosso Senhor Jesus Cristo propõe aos orgulhosos fariseus e escribas as três parábolas da misericórdia. Com a graça de Deus, meditemos um pouco sobre a primeira.

"Qual de vós, tendo cem ovelhas, se perde uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai procurar a que se tinha perdido, até que a encontre? E, tendo-a encontrado, a põe sobre os ombros todo contente; e, indo para casa, chama os seus amigos e vizinhos, dizendo;lhes: Congratulai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha, que se tinha perdido". A ovelha é um animal simples e tímido, que, procurando sua pastagem, afasta-se facilmente do caminho que ela deve seguir e do rebanho ao qual ela deve permanecer unida; e quando se perde é incapaz de reencontrar o seu caminho. É preciso, portanto, que o pastor a ajude e procure-a com cuidado. É bem a nossa imagem. "Todos nós andamos desgarrados como ovelhas errantes; cada um se extraviou por seu caminho" (Isaías LIII, 6). Correndo após o pecado, e levados pelo atrativo da concupiscência, nós caímos nos abismos do mal, e não pensamos mais nem em Deus, nem na salvação, nem no céu. Eis porque Jesus Cristo desceu do Céu. Deixou lá no alto as noventa e nove ovelhas fiéis, isto é, os anjos, para vir aqui em baixo, e correr em socorro da humanidade representada pela ovelha infiel.

"E quando a encontra, coloca-a sobre seus ombros todo contente". Fatigado o bom Pastor, por suas caminhadas à procura da ovelha errante; tinge as estradas com seu sangue; deixa pedaços de sua carne nos espinheiros da estrada. Ele é que teria necessidade de ser levado depois dos trabalhos penosos que Lhe custaram a procura de sua ovelha. Mas não, Ele não se importa consigo, só pensa na sua ovelha que a põe aos ombros, embora ela se tenha transviado por culpa própria. Ela merecia ser punida, e o pastor indignado teria todo direito de a castigar com seu bastão, fazendo-a caminhar à sua frente. Mas, ao contrário, o bom Pastor além de não a repreender, toma-a amorosamente em seus braços e coloca-a aos ombros, sobre seu pescoço, e leva-a até ao redil, isto é, da terra ao céu. Esta imagem da bondade de Jesus tocou de tal modo os cristãos dos primeiros séculos, que eles não deixaram de O representar sob este tocante símbolo, um pastor levando sua ovelha; encontra-se este símbolo entre as pinturas que ornam ainda as paredes das catacumbas de Roma.

"E Indo para casa , chama os seus amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Congratulai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha, que se tinha perdido". Caríssimos, observai bem esta linguagem: congratulai-vos COMIGO, e não: congratulai-vos com a OVELHA. Explica são Gregório: "A nossa vida, faz Sua alegria. Esta alegria é tão grande que não a pode conter dentro de si. É mister que ela se manifeste para fora, é preciso que ela se expanda, é necessário que dela tome parte os seus amigos, os anjos, que gozam continuamente com sua vista e são mais vizinhos d'Ele que todas as outras criaturas".

"Digo-vos que do mesmo modo, haverá mais júbilo no céu por um pecador que fizer penitência, que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência". Portanto, lá no alto do céu, os anjos se interessam por nós. Eles se alegram com a conversão dos pecadores. E Deus se compraz em lhes notificá-la como um bem que lhes toca de perto. Na verdade, os anjos são amigos dos homens. Eles vêem em nós, amigos, criaturas de Deus como eles, espíritos inteligentes como eles, embora mesclados aos corpos; eles sabem que nós somos chamados a participar um dia de sua glória, a ocupar os tronos que a deserção dos anjos rebeldes deixou vacantes. É normal que eles fiquem felizes com o nosso retorno ao bem, com a nossa conversão. De um lado, amam a Deus  e desejam vivamente sua glória e congratulam-se com tudo aquilo que a pode procurar. E a conversão de um pecador é uma vitória alcançada por Deus sobre o mal, é uma alma arrancada às garras do demônio, é um cativo preso ao carro de Jesus  que o conduz ao céu.

A conversão dum pecador, é portanto o objeto duma grande alegria por parte dos anjos, alegria esta muito maior do que aquela sentida por eles por causa da perseverança de noventa e nove justos; não obviamente porque a perseverança de noventa e nove justos não seja em si mesma um bem muito maior do que a conversão de um só pecador; mas o retorno de um pecador é um bem novo, e por conseguinte mais sensível, mais  comovente que aquele que se tem o costume de gozar por muito tempo, e cuja doçura é por isto mesmo um pouco enfraquecida. A conversão de um pecador é de alguma maneira um novo elemento acrescido à felicidade já tão grande dos anjos.

Como esta meditação deve alentar os pecadores a se converterem e os pastores a se dedicarem inteiramente, bondosamente, incansavelmente à conversão dos pecadores e hereges.

Jesus termina a parábola da dracma perdida com o mesmo ensinamento moral com que terminou a da ovelha tresmalhada. Esta repetição e esta insistência indicam bem a verdade, a sinceridade, a vivacidade da alegria causada aos anjos e a Deus mesmo pela conversão dos pecadores.

Eis alguns lições destas reflexões que acabamos de fazer: 1- Deus não rejeita "a priori" os pecadores, mas os chama a Ele, os instrui, Ele se esforça para os tocar com a sua graça e os reconduzir à virtude, ao bem: "Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência". 2- Se estas parábolas nos ensinam a misericórdia de Deus, outrossim nos faz ver claramente como e quando ela é exercida. "HAVERÁ MAIS JÚBILO NO CÉU POR UM PECADOR QUE FAZ PENITÊNCIA".  Os Fariseus no tempo de Jesus e os Jansenistas em nossos tempos, não pensam em misericórdia para os pecadores. Só pensam em JUSTIÇA. Por outro lado, os progressistas em nossos dias, só pensam em misericórdia e esta de tal modo deturpada que vem a ser antes impunidade e parece que para eles não há Justiça. Querem acolher e abraçar os pecadores e hereges sem conversão, sem mudança de vida, ou seja, sem penitência. A "misericórdia dos progressistas" não visa tirar o pecado mas tranquilizar o pecador no mesmo. Devemos fazer como o Divino Mestre, procurar a conversão dos pecadores com um zelo cheio de bondade e mansidão; mas acolher com alegria, e admitir à mesa eucarística apenas os que realmente se convertem e fazem penitência. A parábola do filho pródigo que Jesus contou logo em seguida a estas duas, mostra bem isto. Amém!

sábado, 29 de junho de 2019

O SACERDÓCIO COMUM DOS FIÉIS

   Expliquemos, de acordo com a Tradição, a expressão de São Pedro na 1ª Epístola, II, 9 que chama o povo cristão de "sacerdócio régio". O próprio Apóstolo mostra que se trata do sacerdócio que implica, por parte dos fiéis, o dever de apresentar vítimas espirituais , e em primeiro lugar a si mesmos transformados em vítima pela imitação de Jesus Cristo, renúncia do amor próprio, mortificação, prática da virtude, etc. (cf. 1 Ped. II, 5).
   Santo Tomás de Aquino declara que o CARÁTER BATISMAL confere ao que se batiza uma assimilação ao sacerdócio de Jesus Cristo. Este sacerdócio comum a todos os membros da Igreja, dá-lhes a capacidade de se beneficiarem das graças com que Jesus enriqueceu a sua Igreja, especialmente os sacramentos, que os não batizados não podem receber. Neste sentido, podem eles se beneficiar dos frutos do Sacrifício Eucarístico, que é o Sacrifício da Igreja. Além disso, em virtude do caráter batismal que se lhes imprime na alma, são deputados para o culto divino: têm, por isso, a possibilidade de participar ativamente nesse mesmo sacrifício, enquanto são membros da Igreja, e portanto fazem parte do Corpo Místico de Cristo, em cujo nome Jesus oferece sua oblação sacrifical na Santa Missa. Tomam assim parte no Sacrifício do Altar, o que é proibido aos que se acham fora da sociedade eclesiástica. Mas tomam parte do modo conveniente ao seu estado de leigos.
   
SACERDÓCIO HIERÁRQUICO (dos padres) e SACERDÓCIO COMUM (dos fiéis)

   Há uma diferença essencial entre o Sacerdócio hierárquico, o sacerdócio daquele que foi ungido com o Sacramento da Ordem, e o sacerdócio comum dos fiéis, que é participação muito limitada no sacerdócio de Jesus Cristo, efeito do sacramento do Batismo. O padre, pela Ordem, é: MINISTRO  de Jesus Cristo; os fiéis, pelo BATISMO, são membros de Cristo.
   Na Missa, Jesus é a um tempo Sacerdote e Vítima; ou, mais explicitamente: é um Sacerdote que se oferece a si mesmo como Vítima. De ambas as funções de Cristo, o padre e o leigo participam, mas DIVERSAMENTE, cada qual segundo a sua condição.

   1º) O padre imola e oferece a Vítima; o fiel não imola, só pode unir-se ao sacerdote e a Jesus Cristo no oferecimento. Com efeito, a Missa consiste essencialmente na consagração transubstanciadora do pão e do vinho. Ora, só o padre, que recebeu a unção sagrada no Sacramento da Ordem, faz do pão e do vinho o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só ele, marcado pelo caráter sacramental da Ordem, representa a pessoa de Jesus Cristo, mediador entre Deus e os homens. Por isso, só ele pode repetir o rito da Última Ceia. O povo, ao contrário, não representa de modo algum o Redentor, logo não é mediador entre si e Deus, não pode consagrar os elementos eucarísticos.
   Os fiéis não podem equiparar-se aos sacerdotes, que na Igreja lhes são superiores e, como tais, se aproximam do altar, inferiores a Cristo e superiores ao povo.
   Na consagração, o sacerdote imola a Vítima divina e oferece-A ao Pai Celeste. Transubstancia como INSTRUMENTO EXCLUSIVO de Cristo, mas oferece em nome do Corpo Místico, todo inteiro, Cabeça e membros. Nessa oblação participam os fiéis, mas não na atividade transubstanciadora.

   2º) "Para que a oblação com que, neste Sacrifício, os fiéis oferecem ao Pai a celeste Vítima tenha o seu pleno efeito, outra coisa se requer ainda: é necessário que eles se imolem a si mesmos como vítimas".
   O elemento essencial da participação do fiel consiste em unir os próprios sentimentos de adoração, ação de graças, expiação e impetração aos que teve Jesus Cristo ao morrer por nós, e que devem animar o sacerdote que oferece o Sacrifício da Missa. 

domingo, 23 de junho de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 2º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Primeira Epístola de São João Apóstolo 3, 13-18.
   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 14, 16-24:

   "Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus esta parábola: Um homem preparou um grande banquete, para o qual convidou muitas pessoas. E, à hora do banquete, mandou um de seus servos dizer aos convidados que viessem, porque já estava tudo pronto. Todos, porém, unanimemente, começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei uma quinta e preciso ir vê-la; rogo-te que me dês por escusado. Um outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; peço-te que me dispenses. Disse um terceiro: Casei-me, e por isso não posso ir. Voltando o servo referiu estas coisas a seu senhor. Então, indignado, o pai de família disse a seu servo: Sai já pelas praças e ruas da cidade, traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. E disse o servo: Senhor, está feito o que me mandaste, e ainda há lugar. Respondeu o senhor ao servo: Vai pelos caminhos e cercados, e obriga a gente a entrar para que se encha a minha casa. Eu vos digo, porém, que nenhum daqueles que foram convidados, provará a minha ceia."

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Esta meditação foi extraída do Livro "INTIMIDADE DIVINA" do P. Gabriel de Sta. M. Madalena, da Ordem dos Carmelitas Descalços. 

 1.   O Evangelho deste domingo (Lc. 14, 16-24) harmoniza-se perfeitamente com a festa do Corpo de Deus. "Um homem fez uma grande ceia e convidou a muitos". O homem que faz a ceia é Deus, e a grande ceia é o Seu reino onde as almas encontrarão na terra toda a abundância de bens espirituais e, na outra vida, a felicidade eterna. É este o sentido próprio da parábola, mas nada obsta a que também se possa entender num sentido mais particular, vendo na ceia o banquete eucarístico e no homem que o ofereceu, Jesus, que convida os homens a alimentarem-se da Sua Carne e do Seu Sangue.. "A mesa do Senhor está pronta para nós, canta a Igreja. - A Sabedoria [ou seja o Verbo Encarnado] preparou o vinho e pôs a mesa" (Breviário). O próprio Jesus, ao anunciar a Eucaristia, dirige a todos o Seu convite: "Eu sou o pão da vida; o que vem a mim não terá jamais fome e o que crê em mim não terá jamais sede... Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que aquele que dele comer não morra" (Jo. 6, 35-50). Jesus não se limita, como os outros homens, a preparar-nos uma ceia, a fazer numerosos convites e a apresentar iguarias excelentes; mas o fato singularíssimo - que nenhum homem por mais rico e poderoso que seja poderá imitar - é que Ele próprio Se oferece como alimento. São João Crisóstomo a quem pretende ver Cristo na Eucaristia com os olhos do corpo, diz: "Pois bem, já O vês, tocas e comes. Tu queres ver as Suas vestes e Ele, ao contrário, concede-te não só vê-Lo, mas até tomá-Lo como alimento, tocá-Lo e recebê-Lo dentro de ti... Aquele a quem os anjos olham temerosos e não ousam contemplar livremente devido ao Seu deslumbrante esplendor, faz-se nosso alimento; nós unimo-nos a Ele e formamos com Cristo um só corpo e uma só carne" (Breviário). 

   2. Jesus não podia oferecer ao homem uma mesa mais rica do que o banquete eucarístico. E de que modo correspondem os homens ao Seu convite para esta mesa? Muitos, como os judeus incrédulos, encolhem os ombros e retiram-se com um sorriso cético nos lábios: "Como pode este dar-nos a comer a sua carne?" (Jo. 6, 53). Mas o que afasta da Eucaristia não é só a falta de fé; esta é muitas vezes acompanhada e não raramente deriva das causas morais de que fala o Evangelho de hoje. "Comprei uma quinta e é-me necessário ir vê-la, rogo-te que me dês por escusado", respondeu um; e outro: "Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las: rogo-te que me dês por escusado". A excessiva preocupação com os bens terrenos e o apego aos mesmos, o mergulhar-se totalmente nos negócios, são os motivos pelos quais tantos recusam o convite de Jesus. Porém, ainda não é tudo: "Casei-me e por isso não posso ir", respondeu um terceiro. Este representa aqueles que, submersos nos prazeres dos sentidos, perderam a sensibilidade para as coisas do espírito e, em presença delas, continuam o seu caminho, não se lembrando sequer de se desculpar.

   É impossível não estremecer em face da grande cegueira do homem que antepõe ao dom de Cristo, Pão dos anjos e penhor de vida eterna, os interesses terrenos, os vis prazeres dos sentidos, que muito depressa se dissipam como o nevoeiro aos raios do sol. 

   Terminemos com Santo Agostinho: "Ó Senhor, aproximar-me-ei com fé da Vossa mesa, participando dela para ser por ela vivificado. Fazei, Senhor, que eu seja inebriado pela abundância da Vossa casa, e dai-me a beber da torrente das Vossas delícias... Fazei que eu me aproxime e me fortaleça; deixai que me aproxime embora mendigo, fraco, aleijado e cego. À Vossa ceia não vêm os homens ricos e saudáveis que julgam caminhar bem e possuir a agudeza de vista, homens muito presunçosos e por consequência, tanto mais incuráveis quanto mais soberbos. Aproximar-me-ei qual mendigo, porque me convidais Vós que, de rico, Vos fizestes pobre por mim, para que a Vossa pobreza enriquecesse a minha mendicidade. Aproximar-me-ei como fraco, porque o médico não é para os que têm saúde senão para os doentes. Aproximar-me-ei como aleijado e Vos direi: 'Dirigi Vós os meus passos pelas Vossas veredas'. Aproximar-me-ei como cego e Vos direi: 'Iluminai os meus olhos, a fim de que eu jamais durma o sono da morte'". Amém!

sexta-feira, 21 de junho de 2019

São Luiz de Gonzaga - Jesuíta


 Pertencia à família dos duques de Mântua (Itália) e era príncipe do Sacro Império, sendo herdeiro do feudo soberano de Castiglione. Foi batizado apenas nascido e depois educado santamente. Desde o primeiro uso da razão, ofereceu-se a Deus, e levou uma vida cada vez mais santa. Com nove anos, estando em Florença diante do altar da Santíssima Virgem, fez o voto de castidade perpétua ao qual foi inteiramente fiel até a morte. Por ser príncipe esteve muito tempo entre os soldados e era inevitável os ouvisse pronunciar palavras pouco decentes, que, na sua inexperiência, começou a repetir sem lhe saber a significação. Luiz chorou esta falta durante toda a vida, como se fossem gravíssimos pecados. A vida edificante, a prática das virtudes, importou-lhe o apelido de anjo. Foi aí em Florença que Luiz fez a primeira confissão, e fê-la com tanta dor de arrependimento. que caiu sem sentidos aos pés do confessor. 
   São Carlos Borromeu, Arcebispo de Milão, preparou-o para o primeira Comunhão, que recebeu com uma devoção comovedora. Recebendo depois a Santa Comunhão aos domingos, dedicava três dias para preparar-se e outros três dias para fazer a ação de graças. 
   Luiz guardava tão bem os sentidos, em particular o da vista, que não olhava jamais para o rosto da princesa da Espanha da qual era pajem. À guarda dos sentidos, ajuntava as mortificações corporais. Jejuava três dias na semana, usava a disciplina, dormia sobre tábuas. E isto com o fito de ter facilidade para acordar mais cedo e poder rezar. Passava horas de joelhos em oração e contemplação das coisas celestes. Tinha como lema em tudo que ia fazer: "Que vale isto para a eternidade?!" 

S. Luiz na corte de Espanha
  Como filho mais velho era herdeiro do trono, mas a tudo renunciou depois de uma luta árdua para conseguir licença paterna, e chamado por Deus à vida religiosa escolheu a Companhia de Jesus fundada por Santo Inácio de Loiola. Luiz contava 17 anos quando foi aceito como noviço no Colégio de Roma. Modelo de virtude, que era no mundo, muito mais o fora no convento. Desejoso de regular a vida pelas obrigações da vida comum, pediu aos Superiores não usassem com ele de nenhuma consideração, querendo ser tratado com um dos últimos da casa. Nunca falou uma palavra sobre sua origem nobre. De acordo com o espírito religioso, reconhecia na obediência o fundamento de toda a virtude. Sem dar o menor sinal de ostentação, o exterior traduzia-lhe a modéstia, a humildade, a caridade e movia à devoção a quantos o viam. 
   Como grassavam em Roma a peste e a fome, Luiz ia, de casa em casa, pedir esmola aos ricos para os pobres. Não satisfeito com isso, pediu aos Superiores licença para diretamente acudir às necessidades dos empestados e prestar-lhes serviços nos hospitais. Obtida a licença, a dedicação e caridade do jovem não tiveram mais limites. Mas a fraca constituição de Luiz não resistiu às grandes fadigas e esforços verdadeiramente sobre-humanos que fazia no serviço hospitalar. Contraiu aí a peste contagiosa. A morte, porém, não podia amedrontar o angélico jovem. Quando soube que tinha chegado a hora de preparar-se para a última viagem, exclamou com emoções de alegria: "Eu me alegrei do que me foi dito: irei à casa do Senhor" (Salmo 121). Durante os últimos três dias segurava constantemente o crucifixo e o terço. De vez em quando beijava a imagem de Jesus, e os olhos se lhe enchiam de lágrimas de amor. No rosto se lhe via estampada uma paz celestial - reflexo de sua alma pura e cândida. 
   Em 21 de junho de 1591, com a idade de 24 anos começados, sobre uma tábua, como pediu, entregou a alma ao Criador. As últimas palavras que disse, foram invocações dos nomes de Jesus e Maria. Treze anos depois de sua morte, foi beatificado. Sua mãe ainda vivia, e pôde invocá-lo sobre os altares. Feliz mãe! 
   Felizes também todas as pessoas que fazem aniversário no dia deste santo patrono da juventude e modelo de pureza! Meus parabéns a todas!

   Oração a São Luiz de Gonzaga

   Ó Luiz santo, adornado de costumes angélicos, eu, indigníssimo devoto vosso, vos recomendo particularmente a castidade da minha alma e do meu corpo. Peço-vos, pela vossa angélica pureza, me apresenteis ao Cordeiro imaculado Jesus Cristo e a Sua Mãe santíssima, a Virgem das virgens, Maria, e me preserveis de todo o pecado. Não permitais que se implante em minha alma qualquer mancha de impureza; mas, quando me virdes em tentação ou perigo de pecar, afastai para longe de mim os pensamentos e afetos imundos, despertando em minha alma a lembrança da eternidade e de Jesus crucificado. Calai-me profundamente no coração um sentimento do santo temor de Deus, e abrasando-me no amor divino, fazei que vos imite na terra, para que possa gozar convosco de Deus no céu. Amém. 

domingo, 16 de junho de 2019

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE - I Domingo depois do Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos 11, 33-36.
   Continuação do Santo Evangelho de N. S. Jesus Cristo segundo S. Mateus 28, 18-20:

   "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, ensinai a todos os povos, e batizai-os em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinai-lhes a observar tudo o que vos mandei. E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Pelo P. Gabriel de Sta. M. Madalena, LIVRO "INTIMIDADE DIVINA".
  

 
 "Desde o Advento até hoje a Igreja levou-nos a considerar as magníficas manifestações da misericórdia de Deus para com os homens: a Encarnação, a Redenção e o Pentecostes; agora dirige os nossos olhares para a fonte de tais dons, a Santíssima Trindade, da qual tudo provém, de modo que brota espontaneamente dos lábios o hino de reconhecimento expresso no Introito da Missa: 'Bendita seja a Santíssima Trindade, e a Sua indivisível Unidade. Cantemos-Lhe louvores pela Sua misericórdia para conosco'. Misericórdia de Deus Pai 'que amou de tal maneira o mundo que lhe enviou o Seu Unigênito' (cfr. Jo. 3, 16); misericórdia de Deus Filho que, para nossa redenção, encarnou e morreu na cruz; misericórdia do Espírito Santo que Se dignou descer aos nossos corações para nos comunicar a caridade de Deus, para nos tornar participantes da vida divina. Muito a propósito a Igreja inseriu no Ofício Divino de hoje a bela antífona de inspiração paulina: 'O Pai é caridade, o Filho é graça e o Espírito Santo é a comunicação', quer dizer, a caridade do Pai e a graça do Filho são-nos comunicadas pelo Espírito Santo que as derrama nos nossos corações. Não se poderia sintetizar melhor a maravilhosa obra da Trindade a favor das nossas almas. O Ofício Divino e a Missa do dia são, na verdade, um hino de louvor e de agradecimento à Santíssima Trindade, são como que um Glória Patri e um Te Deum prolongados. E estes dois hinos, um na sua compendiosa brevidade, e outro na sua majestosa sucessão de louvores, são verdadeiramente os hinos do dia destinados a despertar nos nossos corações um eco profundo de louvor, de ação de graças e de adoração.

   2 - A festa de hoje leva-nos a louvar e a engrandecer a Santíssima Trindade, não só pelas imensas misericórdias que tem concedido aos homens, mas também e sobretudo em Si mesma e por Si mesma. Pelo Seu Ser supremo que jamais teve princípio e jamais terá fim; pelas Suas perfeições infinitas, pela Sua majestade, beleza e bondade essenciais; pela sublime fecundidade de vida, pela qual o Pai incessantemente gera o Filho e do Pai e do Filho procede o Espírito Santo (todavia o Pai não é anterior nem superior ao Verbo, nem o Pai e o Verbo são anteriores ou superiores ao Espírito Santo, mas as três Pessoas divinas  são coeternas e iguais entre Si); pela Divindade e por todas as perfeições e atributos divinos que são únicos e idênticos no Pai, no Filho e no Espírito Santo. O que pode dizer e compreender o homem em face de um tão sublime mistério? Nada! No entanto, aquilo que sabemos é certo, porque o mesmo Filho de Deus 'o Unigênito que está no seio do Pai, Ele mesmo é que o deu a conhecer' (Jo. 1, 18); mas o mistério é tão sublime e superior à nossa compreensão que não podemos senão inclinar a cabeça e adorar em silêncio'. 'Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus; quão incompreensíveis são os Seus juízos e imperscrutáveis os Seus caminhos!', exclama São Paulo na Epístola do dia (Rom, 11, 33-36), ele que 'tendo sido arrebatado ao terceiro céu' não soube nem pôde dizer outra coisa senão que ouviu 'palavras inefáveis que não é lícito a um homem proferir' (II Cor. 12, 2-4). Em presença do altíssimo mistério da Trindade, sente-se realmente que o mais belo louvor é o silêncio da alma que adora, reconhecendo-se incapaz de exprimir um louvor adequado à Majestade divina".

   Ó Santíssima Trindade, revesti-me de Vós mesma, para que eu passe esta vida mortal na verdadeira obediência e na luz da fé santíssima que inebriou a minha alma! Amém!

domingo, 9 de junho de 2019

O PENTECOSTES E A IGREJA



A Santa Igreja é um edifício cuja pedra angular é Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, sendo embora Jesus Cristo  o Mestre por excelência, antes de subir aos céus, quis deixar na terra seus representantes na pessoa dos Apóstolos  e de seus sucessores: "Quem vos ouve, a Mim ouve" (S. Lucas X, 16); outrossim, Jesus é Deus e só Ele pode perdoar pecados, e, no entanto, quis transmitir este poder divino também aos seus discípulos e aos seus sucessores, isto é, aos bispos e sacerdotes: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (S. João XX, 21-23). Assim também, embora seja Ele a pedra angular do edifício da Igreja, quis colocar uma pedra visível, ou seja, o Apóstolo Pedro e seus sucessores que são os Sumos Pontífices, que chamamos hoje PAPAS. Neste intuito é que Jesus já havia trocado o nome daquele que seria o chefe dos apóstolos: chamava-se Simão, e Jesus disse-lhe que seria chamado  Pedro, que em hebraico Kéfas significa PEDRA, como no idioma francês, Pierre é Pedro e pedra. "Tu és Pedro (=Kéfas = pedra, rocha) e sobre esta PEDRA edificarei a minha Igreja" (S. Mateus XVI, 18). E assim estava fundada a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, edifício sólido que nunca seria destruído pelas forças inimigas. Mas a Santa Igreja deveria ser  UNA, isto é, uma só, a única verdadeiramente de Jesus Cristo: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a MINHA Igreja". Jesus não disse as MINHAS, no plural. Assim como S. Paulo diz aos Efésios (IV, 5) que há "um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo", assim só uma Igreja verdadeira deveria existir sobre a terra. As Seitas são invenções dos homens. O Catecismo romano demonstra a unidade intrínseca e a extrínseca da Igreja.  Jesus Cristo quis ainda que sua Igreja fosse Apostólica, Santa e Católica. Se Deus quiser, falarei em outro artigo sobre as notas características da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo; agora quero explicar como esta única Igreja de Jesus Cristo, Seu Corpo Místico, se tornou  CATÓLICA (isto é, do mundo inteiro) segundo o mandato de Jesus: "Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei" (S. Mateus XXVIII, 19 e 20).

Caríssimos, esta outra nota característica da Santa Madre Igreja se concretizou no Pentecostes por virtude do Divino Espírito Santo. Eis a descrição de S. Lucas nos Atos dos Apóstolos: "Quando se completaram os dias do Pentecostes, estavam todos no mesmo lugar; e, de repente, veio do céu um estrondo como de vento que soprava impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, e pousou sobre cada um deles. Foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Estavam então residindo em Jerusalém judeus, homens religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. Logo que se deu este ruído, acudiu muita gente e ficou pasmada, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. Estavam, pois, todos atônitos e admiravam-se, dizendo: Porventura não são galileus todos estes que falam? Como é que os ouvimos cada um de nós falar a nossa língua, em que nascemos? Partos, medos, elamitas , os que habitam a Mesopotâmia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito e várias partes da Líbia, que é vizinha de Cirene, e os vindos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes; (todos) os ouvimos falar nas nossas línguas das maravilhas de Deus" (Atos II, 1-11) E Pedro fez seu primeiro sermão e com ele converteu três mil pessoas que foram batizadas com o Batismo que Jesus instituíra. Depois,  o Apóstolo Pedro fez outro sermão e o número de pessoas que se converteram elevou-se a cerca de cinco mil. E caríssimos, e sem contar outros milhares que se converteram com as pregações dos outros dez Apóstolos. E S. Lucas diz no mesmo livro dos Atos V, 14: "Cada vez aumentava mais o número dos homens e mulheres que criam no Senhor".

Por conseguinte, vemos que com a descida do Espírito Santo no Pentecostes a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo se espalhou  pelo mundo todo até então conhecido, e assim com toda justeza podemos afirmar que a Santa Igreja já se tornara CATÓLICA. Esta é a Igreja de Jesus Cristo, a única verdadeira e divina. As seitas são falsas porque puramente humanas. Assim devemos crer e confessar, quer agrade, quer desagrade. Nada de "subsistit in" do Concílio Vaticano II, façam lá o malabarismo que quiserem para justificar tão desastrosa expressão ambígua!!! Os frutos desta árvore são maus, logo esta árvore é má; é de inspiração modernista, envenenada em sua raiz.  

Termino com um trecho da Profissão de Fé do Concílio de Trento: "Condeno ao mesmo tempo, rejeito e anatematizo as doutrinas contrárias e todas as heresias condenadas, rejeitadas e anatematizadas pela Igreja". Amém!

HOMILIA DO DOMINGO DE PENTECOSTES

   Leituras: Epístola: Leitura dos Atos dos Apóstolos, 2, 1-11.
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, 14, 23-31: 

 


 "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos morada. Quem não me ama, não guarda as minhas palavras. A palavra que ouvis não é doutrina minha, mas de meu Pai, que me enviou. Estas coisas vos tenho dito, permanecendo convosco. Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai há de enviar em meu nome, vos ensinará tudo, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. A paz vos deixo; a minha paz vos dou. Não vo-la dou, como o mundo vo-la dá. Não se turbe o vosso coração, nem se assuste. Ouvistes o que eu vos disse: Vou e volto a vós. Se me amásseis, certamente vos alegraríeis de eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que eu. Eu vo-lo disse agora, antes que isso suceda, para que, quando acontecer, tenhais fé. Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo. Em mim não terá parte alguma. Mas é para que o mundo conheça que amo o Pai, e que faço assim como meu Pai me ordenou".

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Antes de morrer, Jesus tinha feito esta promessa aos Apóstolos: "O Pai, em meu nome, vos enviará o Espírito Santo, o Consolador. Ele vos ensinará tudo, vos sugerirá tudo". 

   Eram passados apenas dez dias desde que Jesus subira ao Paraíso, e eis que um ímpeto veemente de vento desce do céu e abala toda a casa onde os discípulos estavam reunidos em oração com a Mãe, a Santíssima Sempre Virgem Maria. E foram vistas umas línguas de fogo pousar sobre a cabeça de cada um. Todos se sentiram habitados pelo Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, de modo que os estrangeiros que estavam em Jerusalém naqueles dias os ouviram pregar na sua própria língua, e ficaram maravilhados com isso.

   Caríssimos e amados irmãos, também nós cristãos havemos recebido o Espírito Santo no Batismo, e mais copiosamente na Crisma, quando o Bispo impôs as mãos sobre a nossa cabeça. 

   Na vida de Santa Ângela de Foligno lê-se que a santa foi, um dia, em peregrinação ao túmulo de São Francisco de Assis. E eis que uma voz lhe ressoa ao ouvido: "Tu recorreste ao meu servo Francisco, mas agora far-te-ei conhecer um outro apoio. Eu sou o Espírito Santo, que vim a ti e quero dar-te uma alegria que ainda não experimentaste. Acompanhar-te-ei, estarei presente em ti... falar-te-ei sempre... e, se me amares, nunca te abandonarei".
   Comparando os seus pecados com este favor infinito, Santa Ângela hesitava em crer. E, aquela voz continuou: "Eu sou o Espírito Santo, que vive interiormente em ti". Então a santa foi invadida por uma alegria celestial. 

   Isso que o Espírito Santo, por uma graça especial revelava a essa alma, a Igreja ensina-o a todos os cristãos. "Então - diz-nos São Paulo - não sabeis que o Espírito Santo habita em vós? Que os vossos membros são o seu templo e que a nossa alma é selada com o seu selo?

   O Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, igual ao Pai e ao Filho, Deus com o Pai e com o Filho, habita em nós. É o Doce Hóspede de nossa alma. Imaginai que grande graça e que profundo mistério! 

   Nós temos deveres preciosos para com Espírito Santo, doce Hóspede de nossa alma. 
  1. Não expulsar o Divino Espírito Santo (1 Tessalonicenses, V, 19).
  2. Não contristar o Espírito Santo (Efésios, IV, 30).
  3. Não queirais resistir ao Espírito Santo (Atos, VII, 51). 
   1. Não extingais o Espírito Santo.
   
   Toda vez que se comete um pecado mortal, o pecador expulsa da sua alma o Divino Espírito Santo. Onde há o espírito do mundo e do demônio, não pode estar o Espírito de consolação e de verdade. Sobretudo onde há o pecado imundo da sensualidade, aí não pode habitar o Espírito de Deus. 

   2. Não contristeis o Espírito Santo.

   Mas, sem chegarmos ao excesso de extinguir em nós o Espírito Santo pelo pecado mortal, podemos amargurar-Lhe de muitos modos a sua permanência no nosso coração. Em geral, os atos que contristam o Espírito Santo são todos aqueles a que, com demasiada desenvoltura, nós chamamos pecados veniais. Certas palavras de murmuração, levianas, certas imprecações de impaciência, certas mentiras, desobediências em coisas não graves etc.. Por exemplo este jovem que desperdiça tantas horas na ociosidade, que dá inteira liberdade aos seus olhos, que na igreja mantém uma atitude aborrecida e distraída, não sabe que contrista o Espírito Santo? Não o sabe aquela mãe que só cuida de adornar os cabelos ou o vestido sem seriedade, que não vela sobre a alma de seus filhos para que cresçam inocentes, bastando-lhe somente que sejam sadios no corpo? Não o sabem todos estes cristãos que vivem uma vida tíbia, sem entusiasmo pelo bem, sem fervor pela oração, sem amor à Eucaristia? Não sabem que o Espírito Santo que está neles se contrista? 

   3. Não resistais ao Espírito Santo.

   O Espírito Santo está sempre agindo em nós. E faz-se sentir de dois modos: impelindo-nos ao bem ou repelindo-nos do mal. Quantas vezes o Doce Hóspede de nossas almas nos convida docemente a fazermos o bem, e os seus esforços ficam vãos porque nós Lhe resistimos! Quantas vezes Ele nos tem dito, como a Filipe na estrada de Gaza: "Aproxima-te daquela família, ajuda-a no que puderes, dize-lhe uma boa palavra de religião e de esperança"; e nós, ao invés, sacudimos os ombros. 
   Há uma pessoa que te ofendeu e a quem tens ódio. Aproxima-te dela, concede-lhe o perdão, esquece o passado. 
   Há talvez uma pessoa afastada do Senhor ou que vive escandalosamente: vós a conheceis, podeis, com a vossa amizade, dizer-lhe uma advertência carinhosa, arrancá-la da trilha infernal. Não resistais ao Espírito Santo. Não resistais, tão pouco, quando Ele vos sugere rezardes mais, mortificar-vos mais, vos tornardes santos, fazendo uma santa confissão. 

   Vou contar-vos um fato, do qual, embora indigno, fui ministro do Espírito Santo. Há 39 anos atrás, eu era Capelão dos Hospitais de Campos, RJ..  Atendia todos os dias três hospitais: Santa Casa da Misericórdia, Beneficência Portuguesa e Plantadores de Cana. Como a Santa Casa era maior, eu atendia das 8 h até 12 h.  E à tarde a partir das 14 h atendia os outros dois. 
   Um dia terminei de percorrer toda a Santa Casa e estava saindo e olhando o relógio vi que faltavam 15 minutos para às 12 h. O Divino Espírito Santo assim me inspirou: aproveita estes 15 minutos e dá uma passada no hospital da Beneficência Portuguesa. Pela graça de Deus, obedeci a esta inspiração interior. Fui. Logo na entrada há duas alas. Sem titubear tomei a da direita. Logo no início vi um quarto com a porta semi-aberta e percebi que havia ali uma doente muito mal. Entrei. A doente, com voz fraca e comovida, assim me falou chorando: senhor padre, eu estava nestes momentos dizendo a Jesus: Meu Jesus, fiz as nove primeiras sextas-feiras, e tenho certeza que ireis cumprir a vossa grande promessa: terei um padre na hora da morte, que vejo está se aproximando. E eis que o senhor, padre, chega. Como Jesus é bom!!! - Dei-lhe todos os sacramentos, e a moribunda com sorriso nos lábios entregou sua alma a Deus. Ó Divino Espírito Santo, não mereço tamanha alegria!!!

   O Espírito Santo também nos repele do mal. 
   Na parede da sela de uma prisão, um condenado deixou escrito: "Eu sou aquele que não está contente". Caríssimos e amados irmãos, muitos cristãos, se quisessem ser sinceros, no término do seu dia poderiam repetir essas desconsoladas palavras: "Eu sou aquele(a) que não está contente". Mas quem é que lhes difunde no coração este terrível tédio e implacável remorso? É o Espírito Santo. E por que? para repelir o pecador do mal em que vive e levá-lo a fazer uma boa confissão. 

   Oh! se alguém, hoje que é Pentecostes, considerando a sua alma percebesse já não ser mais templo de Deus, não ser mais filho de Deus, por haver o pecado mortal entrado em si, reacenda no seu coração o fogo do amor de Deus, aproxime-se da Sagrada Confissão, purifique-se. Depois diga com a Santa Igreja: Vinde, ó Espírito Santo, e tornai a consagrar-me templo de Deus. Vinde, ó Espírito Santo, e tornai a fazer-me filho de Deus. Amém!

   

quarta-feira, 5 de junho de 2019

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

O SOPRO DIVINO

Dom Fernando Arêas Rifan*
       Domingo próximo será a festa do DIVINO, ou seja, a solenidade de Pentecostes, na qual celebraremos a vinda do Divino Espírito Santo sobre os Apóstolos reunidos com Nossa Senhora: a inauguração da Igreja de Cristo, seu Corpo Místico vivo, pela ação do Espírito Santo.
       Deus, ao criar Adão, o primeiro homem, após formar o seu corpo do pó do solo, soprou sobre ele um “sopro de vida”, surgindo assim o ser humano completo, corpo e alma (Gn 2, 7). Jesus, durante sua vida pública, formou o corpo da Igreja: convocou os Apóstolos, a quem deu a sua autoridade, escolheu Pedro para o chefe, a “pedra”, e deu-lhes o poder de transmitir a graça e os seus ensinamentos. Estava formada a hierarquia, a Igreja docente, que, junto com os outros discípulos, a Igreja discente, formava o corpo da Igreja. Faltava agora a alma, o sopro da vida. Sopro em latim é “spiritus”. Sopro divino, a alma da Igreja, é o Espírito Santo, que Jesus enviou sobre os Apóstolos, sobre a sua nascente Igreja. Agora a obra está completa. 
        Assim o Espírito Santo completou a obra de Cristo, santificando os Apóstolos, transformando-os de fracos em fortes, de medrosos em corajosos, de ignorantes em sábios, para assim pregarem o Evangelho de Jesus a todos os povos, enfrentando a sabedoria pagã, as perseguições e até a morte, pela causa de Cristo. E até hoje, é o Espírito Santo que dá força aos mártires, testemunhas do Evangelho até o derramamento do sangue, o vigor aos missionários e pregadores, a ciência aos doutores, a pureza às virgens, a perseverança aos justos e a conversão aos pecadores. É o Espírito Santo que garante a indefectibilidade e a infalibilidade à Igreja, até ao fim do mundo. Nenhuma sociedade humana sobreviveria a tantas perseguições, tantas heresias e cismas, tantos inimigos externos e internos, tanta gente ruim no seu seio (nós, por exemplo!), leigos, padres, Bispos e Papas ruins, tantos escândalos da parte dos seus membros, tantas dificuldades, se não fosse a ação do Espírito Santo que a mantém incólume no meio de todas essas tempestades, até a consumação dos séculos. 
        É essa ação do Espírito Santo que produziu os santos, que fazem a glória da Igreja, e são milhares e milhares. Conhecemos alguns por nome, respeitados por todo o mundo, mesmo pelos não católicos e não cristãos: quem não respeita e admira a santidade de um São Francisco de Assis, a ciência de um Santo Agostinho, um São Jerônimo e um Santo Tomás de Aquino, a firmeza de São Sebastião, a pureza de Santa Inês e Santa Cecília, a candura de Santa Teresinha do Menino Jesus, a caridade de Santa Teresa de Calcutá e da Beata Dulce dos Pobres, etc. É o Espírito Santo, presente na Igreja, que cumpre a promessa de Jesus: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).
        A Igreja reproduz a condição do seu Divino Fundador, Jesus, Deus e homem. Como Deus, perfeitíssimo como o Pai, como homem, sujeito a fraquezas como nós, exceto no pecado. Também a Igreja, humana e fraca nos seus membros, que somos todos nós, é divina nos seus ensinamentos, graça e perfeição, pela presença do Espírito Santo, continuador da obra de Jesus.  

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/