SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

FESTA DE SÃO MIGUEL ARCANJO

 
 São Miguel Arcanjo é um dos sete espíritos que assistem ao trono do Altíssimo. É o Príncipe da Milícia Celeste a quem Deus conferiu poderes extraordinários para proteger as almas.
  São Miguel defendeu vitoriosamente os direitos de Deus contra as arrogâncias de Lúcifer e de seus companheiros. 
   Consta pela Sagrada Escritura, que a soberba foi a causa da queda de Lúcifer; mas não se pode dizer com tanta certeza em que consistiu esta soberba. Crê-se geralmente (e Santo Tomás é desta opinião) que, como os Anjos foram criados na graça e justiça, Deus quis que eles merecessem a felicidade eterna pelo uso da sua liberdade. Durante este tempo de prova, Deus descobriu-lhes alguns desígnios da sua Providência, especialmente a Encarnação do Verbo, e ordenou-lhes que O adorassem, em sua união hipostática com a natureza humana. 
   Cativado da sua própria excelência, Lúcifer ressente-se com semelhante ordem. É-lhe penoso humilhar-se diante de um homem. Pensa que, se a Divindade deve unir-se intimamente a uma de suas criaturas, nenhuma pode haver que mereça essa honra tanto como ele. O profeta Ezequiel fala na verdade da soberba do rei de Tiro, mas a Santa Igreja aplica a passagem também a Lúcifer: "O teu coração se elevou no teu esplendor; perdeste a tua sabedoria por causa do teu brilho" (Ezequiel XXVIII, 17). O dragão, diz São João, arrastou com a sua cauda a terça parte das estrelas do céu... (Apocalipse XII, 4). 
   O grande Arcanjo Miguel indigna-se com a ofensa feita ao supremo Senhor. "Quis ut Deus?" exclama ele; quem é comparável a Deus? Quem pode desobedecer , quando Ele manda? A sua fidelidade consolida a dos Anjos bons; com ele declaram-se a favor de Deus, repetindo: "Quem como Deus?" Combatem contra Lúcifer, e vencem-no. A sua prova acaba e São Miguel  com os Anjos fiéis são confirmados em graça. A partir de então Deus descobre-lhes toda a magnificência dos seus encantos; veem-No face a face; possuem-No. 
   Como não ser devoto de São Miguel! É nosso protetor! Para tanto, Deus lhe deu grande poder e bondade. Quando o demônio quer arrastar o povo de Israel à idolatria, a pretexto de honrar o corpo de Moisés, ele opõe-se-lhe escondendo esse corpo num lugar desconhecido. Quando Faraó persegue o povo de Deus, ele afoga no mar Vermelho o príncipe infiel e todo o seu exército. É outrossim, reservada a São Miguel, a missão de exterminar o Anti-Cristo nos últimos dias do mundo. Assim, São Miguel, primeiro ministro da Providência, protege todos os fiéis que o honram com um culto especial. Debaixo das suas ordens, todos os Anjos, participando do seu poder e bondade, trabalham na salvação dos homens e combatem juntos o inimigo do gênero humano. Dirigidos por ele, os nove coros dos Anjos cumprem cada um a missão ligada ao nome que o Espírito Santo lhe deu na Sagrada Escritura. Cada um dos Anjos nos assiste em particular; os Arcanjos prestam-nos uma proteção mais alta e em casos extraordinários; as Virtudes obram os prodígios que entram nos desígnios de Deus a respeito da nossa salvação; as Potestades amparam-nos nos combates da vida; os Principados governam os reinos para bem da religião; as Dominações defendem o supremo domínio de Deus sobre a Terra; os Tronos vigiam o reino de Deus nas almas; os Serafins e Querubins procuram infundir nos nossos corações as ardentes chamas da caridade. 
   
   Inimigo do orgulho e da mentira à exemplo de São Miguel, a Santa Madre Igreja quer que o católico seja militante; que coopere diretamente nesta luta contra o mal e o erro. Na verdade, Deus não carece da criatura para sua defesa. Com um ato de vontade podia esmagar os seus inimigos. Mas como na grande revolução que houve no mundo invisível, entre os anjos, não entrou na liça pessoalmente, mas confiou na ação dos anjos bons, assim agora sabe Ele muito bem porque nos entrega à luta e permite que de todos os lados soframos vitupérios, descomposturas e injúrias por causa da Santa Religião. Diz São Paulo: "Os que querem viver piedosamente com Jesus Cristo, hão de sofrer perseguições". Nós não podemos ser do mundo cujo príncipe é o Maligno, por isso o mundo nos odiará. Este é o sinal dado pelo próprio Divino Mestre. E ai daquele que se envergonhar de Nosso Senhor Jesus Cristo! A luta que São Miguel teve de sustentar, em tudo se iguala à nossa. Seus adversários eram os anjos revoltosos, que não mais queriam prestar homenagem a Deus. Hoje são os homens que desenrolam a bandeira da guerra contra Deus, contra os seus mandamentos, mandamentos estes que nunca mudam porque foram feitos na justiça e equidade. São perfeitas as Leis de Deus. Temos que defendê-las: "Quem como Deus?"?
   Caríssimos, a revolução de hoje também chefiada por Lúcifer e seus asseclas - espíritas, maçons, comunistas,  maometanos, modernistas etc. - esta revolução, digo, trabalha aberta e distintamente, atrás da máscara, com mentiras, seduções, calúnias e mil artifícios diabólicos para arrancar  as Leis de Deus dos corações dos homens. A destruição da família, pelo divórcio, pelas uniões homossexuais, pela legalização de abortos, pelo afastamento das práticas de religião de muitos católicos em virtude de escândalos de novos Iscariotes, o relaxamento da moral, a propaganda franca de ideias comunistas - TL - não é tudo isto uma nova investida furiosa e decidida do inferno contra o trono de Deus? 
   Caríssimos, nós católicos estamos colocados no meio deste mundo anticristão que cobiça nossa solidariedade. Dia por dia, nos vemos diante da decisão: ou Cristo ou Satanás. Fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo ou abandoná-Lo. A luta é terrível!!! Pois bem, caríssimos, na indecisão, na tentação é o exemplo de São Miguel que nos deve orientar. 

   Gloriosíssimo Príncipe da Milícia celeste, São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate contra o Demônio e os seus asseclas. Vinde em socorro dos homens que Deus criou à Sua imagem e semelhança e resgatou a enorme preço da tirania do demônio. Grande defensor da Santa Igreja, extingui as heresias, exterminai os cismas e confundi a incredulidade. Prendei o dragão, a antiga serpente, que é o demônio e satanás, e precipitai-o acorrentado no abismo, para que não mais seduza as nações. Defendei-nos no combate, a fim de que não pereçamos no dia do juízo tremendo. Preservai-nos das tentações do demônio e  firmai nossos passos vacilantes e não permitais que nós abandonemos a senda que conduz ao céu. Amém!


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A PAIXÃO DE JESUS NOS SANTIFICA


"Embora fosse Filho de Deus, aprendeu (por experiência própria) a obediência pelas coisas que sofreu; consumado (em perfeição), tornou-se a causa da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, sendo chamado por Deus pontífice segundo a ordem de Melquisedeque" (Hebreus, V, 8 e 9).

Jesus Cristo é o novo Adão e representava toda a humanidade. Destruiu o pecado e restituiu-nos a graça. Filho de Deus, uniu-se a uma raça pecadora, embora o pecado O não tenha atingido pessoalmente. Mas tomou sobre Si os pecados de todos os homens, como, aliás, profetizara Isaías: "(Deus) colocou sobre Ele a iniquidade de todos nós" (Is. 53, 6). Jesus representa a todos, e, por isso mesmo, satisfaz por todos nós. Tornou-se, por amor, solidário dos nossos pecados, e nós, pela graça merecida por Ele na Cruz, tornamo-nos solidários das suas satisfações.

E, caríssimos, o valor dos merecimentos de Jesus, é infinito, porque Ele é um Deus. Sofreu como homem, isto é, na sua natureza humana, no entanto, essas dores e o mérito que trazem é dum Deus. Donde, conclui-se na Teologia que Jesus mereceu para nós, todas as graças e todas as luzes. Eis o que diz S. Paulo: "...Dando graças a Deus Pai,[q. nos deu seu Filho]que nos fez dignos de participar da sorte dos santos na luz, o qual nos livrou do poder das trevas, e nos transferiu para o reino do Filho do seu amor, no qual, pelo seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados"  (Colossenses I, 12-14). Nosso Senhor Jesus Cristo é a causa de nossa santidade e salvação. A força de santificação dos sacramentos vem da Cruz; só têm eficácia em continuidade com a Paixão de Jesus. E assim n'Ele possuímos tudo; nada n'Ele falta do que precisamos para a nossa santificação. "Sua redenção é copiosa". como fora predito pelo profeta Rei no Salmo 139, vers. sétimo. O sacrifício de Jesus Cristo, oferecido em prol de todos, deu-Lhe o direito de nos comunicar tudo quanto mereceu. O próprio Jesus declarou que quando fosse levantado na cruz, seria tão grande o Seu poder, que atrairia a Ele todos aqueles que n'Ele tivessem fé (cf. João. XII, 32 ). E, caríssimos, quando fitarmos o Crucifixo, pensemos nesta promessa infalível do Nosso Pontífice Supremo; ela é a fonte da mais absoluta confiança. Como argumenta São Paulo: Se morreu por nós, sendo como éramos, seus inimigos, que graça de perdão, de santificação, poderá recusar-nos agora que detestamos o pecado, que procuramos desapegar-nos das criaturas e de nós mesmos para só a Ele agradar?

Mas, talvez alguém, um tanto envenenado por teorias protestantes, pense que agora, basta crer que o Senhor Jesus nos salvou. Para desfazer tal engano é suficiente refletirmos nestas palavras de São Paulo, palavras estas profundas, embora aparentemente estranhas: "Eu que, agora, me alegro nos sofrimentos por vós e que completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja..." (Colossenses I, 24). Há uma verdade capital que devemos meditar: O Verbo Encarnado, Chefe da Igreja, tomou a Sua parte das dores, a maior; mas quis deixar à Igreja, que é o Seu Corpo Místico, uma parte de sofrimento. Dissemos palavras "estranhas": porventura falta alguma coisa aos sofrimentos de Cristo? Evidentemente que não, e Santo Agostinho responde: "O Cristo total, é formado pela Igreja unida ao seu Chefe, à sua Cabeça, que é Jesus Cristo. O Chefe sofreu tudo quanto devia sofrer. Só falta que os membros se quiserem ser dignos do Chefe, suportem a sua parte de dores". Temos, pois, como membros de Cristo, de nos unir aos Seus sofrimentos. Cristo reservou-nos uma participação na Sua Paixão, mas, ao mesmo tempo, colocou ao lado da Cruz a força necessária para a levar. É que, diz S. Paulo, Jesus Cristo, "tendo experimentado o sofrimento, tornou-se para nós um Pontífice cheio de compaixão" (Hebr. II, 17 e 18; IV, 15; V, 2).

Na Cruz Jesus Cristo representava a todos; mas, se sofreu por todos nós, não nos aplica os frutos da sua imolação, se não nos associarmos ao Seu sacrifício. E isto fazemos de três modos: 1º - Contemplando com fé e amor a Jesus nos diferentes passos da Sua Paixão. Este deve ser o tema principal de nossas meditações. Aliás ao rezarmos o Santo Rosário, fazemo-lo todos os dias. Quem reza quotidianamente o Terço, nas terças e sextas-feiras, faz esta meditação. Outro exercício muito benéfico às almas é a Via Sacra. E é óbvio, devemos todos os anos participar com fé e muita devoção as Cerimônias da Semana Santa.

2º - Participando com fé e grande devoção do Santo Sacrifício da Missa. O próprio Jesus Cristo instituiu-o para perpetuar  até ao fim do mundo, a memória e os frutos de Sua oblação no Calvário. No Altar reproduz-se a mesma imolação que no Calvário. É o mesmo Pontífice, Jesus Cristo, que se oferece ao Pai pelas mãos do sacerdote. É a mesma vítima. A única diferença é a maneira de oferecer: no Calvário foi cruenta, na Missa é incruenta. Caríssimos, participaremos de maneira mais perfeita e completa se nos unirmos a Jesus também pela comunhão sacramental.

3º - Associando-nos a Paixão de Jesus: fazemos isto na medida em que suportamos por amor d'Ele, os sofrimentos e adversidades, que nos desígnios de Sua Providência nos envia. A cada um de nós dá Deus também uma cruz para levar. Devemos aceitá-la sem discutir, sem dizer: "Deus podia mudar tal ou tal circunstância de minha vida". Nosso Senhor diz-nos: "Se alguém quer ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me". Nesta aceitação generosa da nossa cruz, encontramos a união com Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque, notai bem, levando a nossa cruz, levamos realmente uma parte da de Jesus. Jesus Cristo, que quis ser ajudado pelo Cirineu, diz-nos: "Aceitai esta parte dos meus sofrimentos que, na minha divina presciência, vos reservei no dia de minha Paixão". Digamos-Lhe com todo amor: "Sim, divino Mestre, aceito esta parte de todo o coração, porque vem de Vós". Tomemo-la por amor d'Ele e em união com Ele.

Caríssimos, as pessoas pouco espirituais e mais ainda, as que seguem as máximas do mundo, não são capazes de entender esta linguagem da cruz. Devem pensar que estamos aqui, mas a nossa Pátria definitiva é o Céu. Jesus disse: "Foi necessário o Filho do Homem sofrer antes de entrar na Glória"; e vamos pretender nós merecer o Paraíso, sem sofrer em união com Jesus Cristo? Meditemos, então nesta palavra do Apóstolo: "O mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito, de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também somos herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; mas isto, se sofremos com Ele, para ser com Ele glorificados. Efetivamente, eu tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória vindoura, que se manifestará em nós" (Rom. VIII, 16-18). É isto que os santos tinham sempre em mente e é com esta meditação  que os mundanos devem se converter. Dia virá, mais cedo do que pensamos, em que a morte estará próxima; estaremos deitados no leito, sem movimento; os que nos rodeiam fitar-nos-ão em silêncio, na impossibilidade de nos ajudarem; deixaremos de ter contato com o mundo exterior; a alma estará a sós com Jesus. Saberemos então o que é ter  "estado com Ele em suas provações"; ouvi-Lo-emos dizer, nesta agonia que é agora a nossa, suprema e decisiva: "Não me deixaste na minha agonia, acompanhaste-Me quando Eu ia para o Calvário, para morrer por ti; aqui estou Eu agora; estou ao teu lado para te ajudar, para ti levar comigo; não temas, tem confiança, sou Eu!" Poderemos, então, repetir com confiança a palavra do Salmista: "Por isso, ainda que ande nos meio da sombra da morte, não temerei males, porque estás comigo. Tua vara e teu báculo me consolaram" (Salmo XXII, 4).

Caríssimos, aprendamos as lições da Paixão de Jesus Cristo. Contemplando a Jesus na Sua Paixão, perguntemo-nos se há em nós honra, estima humana que defender, quando Ele sacrificou a sua pelos homens. Recorramos a Ele, confiemos n'Ele tão cheio de humilhações, e consideremos como inestimável vantagem ter parte nelas. Como beijar a cruz se não queremos honrá-la com o nosso próprio sacrifício? Jesus rechaçou tudo que pudesse suavizar seus tormentos. Sem dúvida foi plano Seu permitir que todos seus membros sucessivamente ou em conjunto, fossem maltratados, de tal sorte que na cruz era uma vítima perfeita e completa. Suficientemente sua vontade e máximas são manifestas por nós em sacrifício: não somente sua honra senão também seu corpo. Como ser discípulo de Jesus sem conformarmo-nos a estas máximas? Sem pô-las em prática? O divino Salvador entregou seu corpo a todo sacrifício e todo ultraje e nós queremos resguardar nosso corpo e tratá-lo com mais cuidado e veneração do que se fosse uma relíquia. Queremos, por assim dizer, trazê-lo dentro de uma caixa de algodão. "Fica bem, diz S. Bernardo, membros assim tão delicados, debaixo de uma Cabeça coroada de espinhos? Os santos sim, são tradução fiel da doutrina, sentimentos e exemplos de Jesus Cristo. São Francisco de Assis dizia: "Devemos aceitar o Evangelho sem interpretações e adaptações humanas". E sabemos como assim fez o "Poverello"!

Caríssimos, não imitemos a Barrabás que passando diante da Cruz, diria talvez: "Eu devia estar crucificado no lugar deste homem; eu estou livre e ele ... que se vire! Tais seriam em essência, nossos sentimentos se não quiséssemos sofrer nada. Mas, pelo contrário, nunca devemos esquecer que uma cruz que sabemos conservar secreta ou de que só falamos a Deus no fervor da oração, é fonte de muitas graças. No espelho do Crucifixo procuremos ver o abismo da divina misericórdia, a grandeza do divino Amor e o valor de uma alma. Um Deus dá sua vida pelas almas!!! Vemos o excesso do amor de Deus em nos dando todos os bens e vemos muito mais excessivo ainda este amor em tomar para Si todos os nossos males.


Ó Jesus, ó meu Deus, não compreenderei eu que sois o único Senhor cuja estima devo desejar e cujo vitupério devo temer? Ó doce Jesus, sede a única e total paixão de minha vida, meu tudo, todo meu amor! Senhor, que eu tenha não meras veleidades, mas que, por amor a Vós e em união convosco, eu trabalhe, lute, faça penitência e carregue a cruz. Amém! 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A PAIXÃO DE JESUS CRISTO


"Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas, ele mesmo carregou com as nossas dores; nós o reputamos como um leproso, como um homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa das nossas iniquidades, foi despedaçado por causa de nossos crimes; o castigo que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele, e nós fomos sarados com as suas chagas... e o Senhor carregou sobre ele a iniquidade de todos nós" (Isaías 53, 4-6).

De todas as meditações que possamos fazer, esta é, sem sombra de dúvida, a que maior bem pode fazer às nossas almas!

A Paixão de Jesus Cristo marca o ponto culminante da obra que vem realizar neste mundo, obra esta para qual todas as outras convergem ou da qual tiram seu valor e eficácia. Para Nosso Senhor Jesus Cristo é a hora em que consuma o sacrifício que deve dar ao Pai glória infinita, redimir a humanidade e reabrir aos homens as fontes da vida eterna. Jesus chama "a sua hora"! "Devo ser batizado com um batismo  -   o batismo de sangue  -  e quão grande é a minha ansiedade até que ele se conclua!" (S. Lucas XII, 50). E quando chega esta hora, Jesus entrega-se com o maior ardor, apesar de conhecer de antemão todos os sofrimentos que devem despedaçar-Lhe o corpo e a alma: "Desejei com o maior ardor comer esta Páscoa convosco, antes de sofrer a minha Paixão" (S. Lucas XXII, 15). Diz S. Paulo: "Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo" (Efésios V, 25). A Igreja aqui significa o reino daqueles que devem formar o Corpo Místico de Jesus (cf. 1 Cor. XII, 27). Jesus amou esta Igreja, e foi por a ter amado que se entregou por ela. Eis o que moveu Jesus a sofrer e morrer: o amor. Sem dúvida, antes e acima de tudo, foi por amor ao Pai que Jesus Cristo quis sofrer a morte na Cruz, como Ele mesmo diz expressamente: "Mas é preciso que o mundo conheça que eu amo o Pai e que faço como Ele me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui"  (S. João XIV, 31), e foi para o Horto das Oliveiras (cf. S. João XVIII, 1). Mas é também o seu amor para conosco. Aliás esta era a vontade do Pai, como disse a Pedro: "Não hei de beber o cálice que o Pai me deu?" (S. João XVII, 11).

Na ultima Ceia, que diz aos Apóstolos, congregados em volta d'Ele? "Não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos" (S. João XV, 17). Demais, entregou-se à morte livremente: "Oblatus est quia ipse voluit" (Isaías 53, 7)= "Foi oferecido (em sacrifício) porque ele mesmo quis". E, caríssimos, esta liberdade com que Jesus Cristo dá a sua vida por nós, é absoluta. Meditemos: "Deus amou o mundo a ponto de lhe dar o Seu Filho único", e Jesus Cristo, por sua vez, amou os seus irmãos a ponto de se entregar a si mesmo total e espontaneamente para os salvar. Sua alma e seu corpo, em verdade, são dilacerados, esmagados pelos sofrimentos. Não há nenhum sofrimento que Jesus não experimente. Já no Getsêmani dissera: "A minha alma está triste até a morte!" Que abismo! Um Deus, Poder e Beatitude infinita, "acabrunhado pela tristeza, pelo pavor e pelo tédio". O Verbo Encarnado conhecia todos os sofrimentos que iam cair sobre Ele durante as longas horas de sua Paixão. Esta visão fazia nascer na Sua natureza sensível toda a repulsa que teria sentido uma simples criatura. Na Divindade a que estava unida a Sua alma via claramente todos os pecados dos homens, todos os ultrajes feitos à santidade e ao amor infinito de Deus. Via a inutilidade de Seu Sangue para muitos, para os quais Jesus seria ruína, como predissera o Velho Simeão. Tomou sobre si todas estas iniquidades e sentia pesar sobre sua cabeça toda a Justiça divina. Mas Jesus tudo aceita. Sai do Jardim e vai ao encontro dos seus inimigos. Traído pelo beijo de um dos Seus apóstolos, acorrentado pela soldadesca como um malfeitor, é levado ao Sumo Sacerdote. Ali cala-se no meio das falsas acusações. Fala apenas para proclamara que é o Filho de Deus. Jesus, Rei dos mártires, morre por haver confessado a Sua divindade, e todos os mártires darão a vida pela mesma causa.

Pedro, Chefe dos Apóstolos, por três vezes renegou a Jesus. Foi esse, sem dúvida, para o nosso divino Salvador um dos mais profundos sofrimentos daquela terrível noite.

Os soldados guardam Jesus e cobrem-No de injúrias e maus tratos. Vendam-Lhe os olhos e dão-Lhe bofetadas. Homens perversos, mancham com nojentos escarros aquela face adorável que arrebata os Anjos! 

Logo de manhã foi conduzido ao Sumo Sacerdote, depois arrastado de tribunal a tribunal; tratado por Herodes como louco e insensato, Ele, a Sabedoria eterna; açoitado por ordem de Pilatos; os algozes ferem sem dó a vítima inocente, cujo corpo se torna logo uma chaga viva. Enterram na cabeça de Jesus uma coroa de espinhos, e cobrem-No de escárnios.

O covarde governador romano imagina que o ódio dos judeus ficará satisfeito vendo Jesus Cristo naquele triste estado; apresenta-O à multidão: "Ecce homo", Eis aqui o homem! Contemplemos neste momento o divino Mestre mergulhado nesse abismo de sofrimentos e humilhações, e pensemos que o Eterno Pai também no-Lo apresenta, dizendo: "Eis aqui o meu Filho, o esplendor da minha glória, ferido por causa dos crimes do meu povo: "Eu o feri por causa dos crimes do meu povo" (Isaías 53, 8).

Jesus ouve os gritos daquela populaça enfurecida que Lhe prefere um bandido e em paga de todos os benefícios que d'Ele recebeu, reclama a Sua morte: "Crucifica-o, crucifica-o!" É, pois, pronunciada a sentença de morte; e Jesus Cristo tomando em seus ombros feridos a pesada cruz, dirige-se para o Calvário. À vista de Sua Mãe tão ternamente amada e cuja dolorosa aflição compreende melhor do que ninguém! A aflita Mãe vê quando o despojam das suas vestes, sente em seu Imaculado Coração o eco sinistro das cruéis marteladas que prendem-no na Cruz com pontiagudos cravos. Como Maria Santíssima deve ter sentido quando ouve Seu Filho dizer: "Tenho sede!" e não poder mitigá-la. Ouve os odiosos sarcasmos dos seus piores inimigos. Enfim, o abandono por parte do Pai Eterno: "Pai, por que me abandonaste?".

Jesus bebeu o cálice da amarguras até a última gota; realizou tudo o que fora predito: "Consummatum est" , sim tudo está consumado, só Lhe resta entregar a alma ao Pai: "E inclinando a cabeça, entregou o espírito" (S. João XIX, 30).

Ajoelhemo-nos e cada um diga do fundo da alma: "Ó Divino Salvador que tanto sofrestes por amor de nós, prometo-Vos fazer o possível por não mais pecar. Fazei pela Vossa graça, ó Mestre adorável, fazei com que morramos para tudo quanto é pecado, apego do pecado ou à criatura, e que só vivamos para Vós!" "O AMOR DE QUE JESUS CRISTO NOS DEU PROVA MORRENDO POR NÓS DEVE FAZER COM QUE AQUELES QUE VIVEM JÁ NÃO VIVAM PARA SI, MAS PARA AQULE QUE MORREU POR ELES" (2 Cor. V, 15).


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


"Tirai as águas com alegria das fontes do Salvador" (Isaías XII, 3).

Ouçamos em primeiro lugar, duas almas privilegiadas do Sagrado Coração de Jesus, almas as quais Nosso Senhor Jesus Cristo fez revelações importantíssimas sobretudo referentes aos sacerdotes. Penso não ser supérfluo lembrar que estas revelações foram aprovadas pela Igreja e são citadas frequentemente por escritores sábios e santos, e até mesmo por santos canonizados pela Santa Igreja.

Por uma óbvia razão, cito primeiramente Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa da Visitação: "Oh!  - exclama ela  -  não poder eu dizer a todo mundo o que sei desta amável devoção! Não sei de exercício mais próprio na vida espiritual para elevar uma alma à mais alta perfeição. Nosso Senhor me descobriu os tesouros de caridade e de graças para as pessoas que se consagrarem a honrá-Lo e amá-Lo, e são tesouros tão grandes que dizer me é impossível. Deu-me a conhecer que os que trabalham na salvação das almas, alcançarão êxito maravilhoso e possuirão o segredo de tocar os corações mais endurecidos, se estiverem penetrados de uma terna devoção a este Coração divino. Jesus Cristo me assegurou que sentia um prazer todo especial em ser honrado sob a figura deste coração de carne, e queria a sua imagem exposta em público afim de tocar os corações insensíveis dos homens. Declarou-me que derramaria em abundância no coração dos que O honrarem todos os tesouros de graças de que está cheio, e que lá onde a sua imagem fosse particularmente honrada atrairia toda sorte de bênçãos. O Sagrado Coração de Jesus é o tesouro de todas as graças e a nossa confiança n'Ele é a chave deste tesouro. Ah! como é doce morrer depois de ter tido uma devoção constante ao Coração daquele que nos deve julgar".

Outra alma privilegiada do Sagrado Coração foi sem dúvida a Madre Luisa Margarida Claret de La Touche. Fundou a "Aliança Sacerdotal Universal dos Amigos do Sagrado Coração" e, sob os auspícios de S. Pio X, fundou o novo instituto de "Betânia do Sagrado Coração", com a finalidade de servir a Jesus Sacerdote nos seus sacerdotes. É fruto de suas devotas contemplações o livro: "Le Sacré Coeur et le Sacerdote". Esta piedosa religiosa, que foi dirigida do Padre Charier, faleceu em 1915 em odor de santidade.

Em 1902, diz Mons. Ascânio Brandão, esta alma privilegiada ouviu a doce voz de Jesus no sacramento do amor: "Se o sacerdote soubesse que tesouros de amor lhe estão reservados no meu Coração! ... Que venha ao meu Coração, e beba desta fonte e encha-se de amor, até transbordar e derramá-lo sobre o mundo. Margarida Maria, continua Jesus, mostrou meu Coração aos homens, tu mostra-O aos meus sacerdotes, atrai-os todos ao meu Coração..., quero dar-lhes a conhecer um segredo todo particular do meu Coração ... Eu preciso deles, para coroar minha obra ... Meu Coração é o cálice do meu Sangue; se há alguém que tenha direito e obrigação de achegar-lhe os lábios, não é porventura o sacerdote que bebe todos os dias do cálice do Altar? Venha, portanto, ele ao meu Coração e beba" (Livro: Au service de Jésus Prêtre). E no outro livro: "Le Sacré Coeur et le Sacerdote" diz: "É principalmente aos sacerdotes que este Sagrado Coração quer manifestar-se, a esses chamados por Ele para reacender e vivificar sobre a terra o fogo da caridade. Por sua bondade inefável Ele quer ter necessidade deles, para completar seus desígnios, e o que poderia operar diretamente nas almas, por meio da graça, não o faz  -  por via de regra  -  senão mediante o concurso deles. Oh! se o sacerdote soubesse que tesouros de ternura encerra para ele o Coração de Jesus! Com que ardor se atiraria àquela fonte divina, para encher-se de amor, até transbordar".

"Oh! diz o piedoso e sábio Mons. Ascânio Brandão, bebamos o amor no Coração de Jesus e transbordemos em amor para as almas. A missão do padre é acender nos corações o fogo divino do amor que abrasa o Coração de Jesus! Não sejamos ingratos. Como ferem o divino Coração de Jesus, a indiferença, a tibieza, a ingratidão dos seus padres! "Os outros, disse Nosso Senhor a Santa Margarida, se contentam com açoitar o meu corpo, mas os sacerdotes dirigem seus golpes diretamente ao meu Coração".

Assim, amados irmãos no sacerdócio, celebremos com muito zelo as nove primeiras sextas-feiras para merecermos a promessa do Sagrado Coração de Jesus. Propaguemos o culto do Coração de Jesus. "Aí ,  -  diz Mons. Ascânio Brandão, de santa memória,  - está o segredo  do padre fervoroso e das paróquias reformadas e afervoradas em pouco tempo. A tibieza é o flagelo de muitos padres. Há um meio seguro para sair de um estado tão lastimável: a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. É difícil, é um milagre sair da tibieza um sacerdote que abusou tanto da graça, mas este milagre o tem realizado centenas de vezes o Sagrado Coração de Jesus!"

"Oh! - exclama o Padre Santini, se todos os sacerdotes soubessem conduzir com fé, para este tesouro, para este oceano de felicidade, todos quantos sentem fome e sede de justiça! Como as almas fugiriam de boa vontade dos manjares mortíferos! Como se negariam a beber junto das mil  "cisternas rotas" (Jer. II, 3) que não sabem matar a sede! Como, unido ao Sagrado Coração de Deus, encontraria o coração completa satisfação na torrente de suas delícias (Salmo 35, 9), na paz profunda que o mundo não pode dar! "Quem beber da água que Eu lhe der, não terá mais sede" (S. João, IV, 13). E que fontes de méritos, caríssimos colegas no sacerdócio, encontramos neste sublime apostolado, nós os ministros do infinito Amor! Porque  -  notai bem  -  se um alimento material, se um copo d'água fresca oferecido por amor de Jesus, é digno de um prêmio eterno, que recompensa deverá esperar aquele que concorre com Jesus, por seu amor, para saciar a fome das almas, para extinguir a sede de Deus? Quem poderá descrever o agradecimento do Redentor para com os sacerdotes que souberam verdadeiramente conduzir as almas ao seu Coração, como o quer a Igreja, que é a coluna e o fundamento da verdade!

"Mas, diz o Padre Santini, é na verdade uma dolorosa contestação, fruto de uma longa experiência: dizei-me, quantas são as almas sacerdotais que tomam a sério e verdadeiramente praticam uma sólida e constante devoção ao Sagrado Coração? Quantos há que a propagam com zelo entre o povo?" Diz o célebre e piedoso Mons. D'Hulst: "O mistério não consiste tanto no fato de que existem almas nas quais Deus reina pelo amor, desde o momento em que Deus é amor, e que se revela ao coração humano. O profundo mistério consiste em que estas almas sejam tão raras e que a revelação do amor encontre tão pouco acolhimento da parte da humanidade. Este mistério, sim, faz passar a fé por uma dura prova! Como é possível que entre todos os patrões, seja o Onipotente o menos bem servido?"
Precisamos, mais do que nunca, do grande apostolado da Padroeira das Missões, Santa Teresinha do Menino Jesus: Rezar pelos padres!!! E, caríssimos, como precisamos do Coração de Jesus, para nós padres debelarmos esta crise terrível tanto na sociedade, como dentro da própria Igreja! Fenômeno impressionante, pavoroso: a ignorância, a incredulidade, o ódio e a corrupção atual, e pouco fagueiras as previsões do futuro. Os padres, infelizmente na sua grande maioria, não propagam com zelo entre o povo, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. E não procuremos, portanto, somente em outras fontes, a origem  de tantas defecções públicas e particulares, de tantos deploráveis escândalos, desta lepra de impureza que contagia, desta enxurrada de impiedade que tudo envolve e afoga, desta leviandade insana, que leva sem motivo ao suicídio, como a um remédio radical, deste ceticismo que se propaga sempre mais e sacrifica todo o ideal mais santo ao instinto brutal e ao capricho, desta atmosfera paganizante que nos oprime pelas modas e pornografia oferecidas pela televisão e Internet (usada para o mal), saturada com os bacilos do pecado, impregnada de germens deletérios provindos de depósitos em putrefação, deste vento de insensatez que sopra implacável sobre o mundo, deste aborrecimento eterno, imenso, que se obstina em considerar a vida sem valor, vive-se um paganismo: "Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". Talvez mais do que nunca, Satanás é o príncipe deste mundo. Pobre mundo que vai em procura de adivinhos, consulta os astros, as mãos, os médiuns, os ciganos, os astrólogos e chega mesmo a consultar diretamente os demônios, evoca os mortos, entra nos templos da teosofia, do espiritismo, do ocultismo, da satanismo. Desconhece que tudo deve ser restaurado em Jesus Cristo. Ignora os tesouros do Sagrado Coração de Jesus. No Concílio Vaticano II, respirou-se ecumenismo, os Padres do Concílio (com poucas exceções) acharam que a solução seria elogiar as falsas religiões, inclusive o Islamismo. Agora, sofremos o castigo! Parece que os Padres do Concílio Vaticano II responderiam às revelações do Sagrado Coração de Jesus em Paray (pelo menos na prática): "Não entendemos nada, não Vos acreditamos, não nos interessa, não queremos saber... nada compreendemos desta cruz, destes espinhos, deste sangue, destas chamas!" Ah! caríssimos, como foi triste! E depois de mais de meio século colhemos os frutos que mostram claramente que a árvore não era boa. Poderia haver na própria Hierarquia da Igreja irreverência maior, insipiência mais deplorável e mais injustificada?

Será que os Padres no Concílio Vaticano II, pelo menos em sua grande parte, pensaram assim: vamos tomar como modelo o nosso Patrono, o Santo Cura d"Ars? Infelizmente não, com certeza!. E o que S. João Batista Maria Vianney dizia do Sagrado Coração? Exclama soluçando na sua lírica tão simples e eficaz: "Oh! Coração cheio de amor, flor do amor! e a quem amaremos nós, se não amamos o Coração de Jesus? Naquele Coração adorável não há outra coisa senão amor: como é possível esquecer que está tão cheio de amabilidade?"

O beato Pio IX dizia: "Pregai por toda parte a devoção ao Sagrado Coração: ela deve salvar o mundo!"

O célebre jesuíta (jesuíta dos seus bons tempos) o padre Quintana dizia assim: "A devoção ao Sagrado Coração é à Pessoa de Jesus que ama e não é amado; honra-se nela não um Cristo fantástico e idealizado, mas o mesmo Jesus do Evangelho e da Eucaristia, e considera-se a Pessoa de Jesus real, naquilo que Ele nos oferece de mais nobre e de mais atraente, isto é, seu amor. É ridículo, portanto, dizer: sou devoto de Jesus, mas não de seu Coração; porque o Sagrado Coração é Jesus todo inteiro, Jesus que nos ama; é seu amor expresso como em símbolo eficaz e natural, é seu amor centro de sua vida, e o motor principal, antes único, de todas as suas ações; é seu amor considerado em si mesmo, no seu complexo e na sua totalidade".

Caríssimos, daquele Coração divino saíram a Igreja, os sacramentos e as graças todas de que dispomos. O Coração aberto de Jesus é a fonte das águas da salvação. Tal é a doutrina dos Santos Padres: Como Eva saiu do lado de Adão, assim a Igreja saiu do lado de Jesus, A água é símbolo da batismo e o sangue é símbolo da Eucaristia.

Maria Santíssima e o escasso grupo que A rodeia: S. João Evangelista, e as Santas Mulheres, ali no alto do Calvário, contemplam este mistério, com sentimentos de dor, de compaixão, de adoração, de amor e reparação e nos oferecem um modelo a imitar. É a primeira homenagem de amor e reparação oferecida ao Sagrado Coração e o primeiro ato de sua devoção. Assim se revelou e se estabeleceu pela primeira vez a devoção ao Sagrado Coração de Jesus com seu objeto próprio, que é o mesmo Coração do Salvador, sede e símbolo do amor com os motivos e atos que constituem esta devoção que são fundamentalmente amor e reparação.


Eu Vos adoro, amoroso Coração de Jesus, que estás no Céu e na SS. Eucaristia junto conosco! Com a suavidade de Vosso Coração, minhas dores se dulcificam. Ó ferida feliz, aberta pela lança, fonte de graças que com ela se nos abriu e não se fecha mais. Sagrado Coração de Jesus, eu confio em Vós. Amém!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O AMOR DAS CRUZES


"Bem-aventurados os que choram... Bem-aventurados sois quando vos insultarem e vos perseguirem, e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim" (S. Mateus V, 5 e 11).


Além da paciência nos sofrimentos, Nosso Senhor Jesus Cristo quer que os amemos. Quer que tenhamos amor às cruzes, como aliás Ele teve e ardentíssimo: "Eu tenho de ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua! (S. Luc. XII, 50). Jesus sabia que sua morte seria a vitória sobre o pecado, o demônio e o mundo. "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Dizia isto para designar de que morte havia de morrer) (S. João XII, 32 e 33).

Inicialmente já devemos deixar claro que se trata de algo na vida espiritual por poucos compreendido. Alegria nos sofrimentos e amor verdadeiro às cruzes, na verdade, é um dom que Deus concede às almas generosas. E para recebê-lo, tiveram  que se preparar, dominando a natureza. Assim, na aquisição deste dom faz-se mister primeiramente, dominando a natureza, tão ávida de gozos, desenvolver em si um ardente amor, por meio de uma vida de intima união e de corajosos sacrifícios. Como diz a Imitação de Cristo, "o desejo de sofrer para assemelhar-se a Jesus inspira tanta coragem, que a alma não deseja ficar isenta de tribulações e dores, porque compreende que é tanto mais agradável a Deus, quanto mais sofre por Ele" (L. II.c. XII, n. 8). A alma, que se preparou e assim recebeu este dom, pensa mais ao menos assim: "Sofro, mas é por Deus, é por Jesus que tanto sofreu por mim; reparo minhas faltas, consolo Deus das penas que Lhe causei. Sofro, portanto amo; e, sofrendo, dou provas de meu amor. Sofro, por conseguinte meu amor vai se dilatar; na eternidade será sempre maior e eu hei de amar eternamente e cada vez mais a Deus justamente na medida em que aqui na terra cada vez mais sofrer por amor a Jesus. Sofro, e sofrendo, estou unida a Jesus, continuo-lhe a obra, ou, antes, Ele mesmo a continua em mim, essa obra de dor e de salvação, segundo aquela afirmação do Apóstolo: Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo". Sofro, portanto, com Jesus pelas almas; como Ele, por Ele e com Ele alcançarei para mim e muitíssimos outros pecadores a felicidade eterna". 

Jesus quisera ver, também nos seus seguidores os sentimentos que animavam o seu Coração. Daí dizer já no início de seu sermão da Montanha: "bem-aventurados os pobres; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos; sereis felizes quando vos insultarem e disserem todo mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (S. Mat. V, 10). E os Apóstolos, a exemplo de seu Mestre, regozijaram-se de terem sido condenados e flagelados pelo nome de Jesus (Atos V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (Atos XIV, 21). Eis o que diz S. Paulo: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria..." (Colossenses I, 11). Igualmente S. Tiago escreve aos fiéis: "Tomais, irmãos, por modelo no suportar os males e os trabalhos, e na paciência, os profetas, que falaram em nome do Senhor. Vede que proclamamos bem-aventurados aqueles que sofreram" (Tiago V, 10 e 11).   

Mesmo nas coisas da terra, nada se faz de belo ou de grande, sem sofrimento, sem esforço que custa, sem a perseverança que, na verdade, é uma longa paciência. Nas coisas de Deus, caríssimos, o sofrimento é ainda mais necessário, e muito mais fecundo, segundo o que Jesus disse aos seus discípulos depois de lhes profetizar os sofrimentos: "Alegrai-vos, porque será grande a vossa recompensa no Céu!".  O sofrimento aceito de boa vontade por amor a Jesus Crucificado, triunfa do pecado e do demônio, que reina no mundo pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Que é o pecado? Na verdade, não é outra coisa senão o desdém de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Portanto, a vacina contra o pecado é o sofrimento, as privações,  a renúncia de nós mesmos e do que agrada a nossa natureza. Assim vemos como a Providência divina permite com frequência, grandes males para tirar bens maiores: guerras que terminam suscitando heroicos sacrifícios, perseguições (como nos três primeiros séculos da Igreja) para produzir mártires e santos.

Os sofrimentos, as privações, as cruzes, tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, os triunfos fáceis, o repouso e as doçuras da vida boêmia a amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz vendo-a acrisolada pela dor. Concede-lhe, então, uma abundância de graças. O sofrimento alimenta e mantém o amor. Constata-se que quem pouco sofre, pouco ama.  Mas, por outro lado, Deus, que não se deixa vencer em generosidade, concede doçura às almas que sofrem por amor a Ele. Dizia São Paulo: "Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar os que estão em qualquer angústia, pelo conforto com que também nós somos confortados por Deus. Porque, à medida que crescem em nós os sofrimentos de Cristo, cresce também por Cristo a nossa consolação." (2 Cor. I, 3-5). Davi havia experimentado os mesmos efeitos da ternura divina: "À proporção das muitas dores que atormentaram o meu coração, tuas consolações (dizia ele a Deus Nosso Senhor) alegraram-me a alma" (Salmo 93, 19). Vemos como Deus, Pai de Bondade, recompensa as almas generosas. Fá-las amar a cruz e encontrar sempre uma grande paz, uma felicidade calma e sólida, e, muitas vezes, alegrias profundas, ali, onde os cristãos pouco generosos para com Deus, não encontram senão tristezas e desolação. Mesmo quando essas almas dedicadas estão imersas na dor, não desejariam deixar de sofrer, porque sentem que assim amam melhor ao Senhor.

Não poderia terminar este assunto sem antes transcrever algo do que escreveu São Luiz Grignon de Montfort em sua admirável "CARTA CIRCULAR AOS AMIGOS DA CRUZ":

NUNCA SE QUEIXAR DAS CRIATURAS

   "Nunca vos queixeis voluntariamente e entre murmurações, das criaturas de que Deus se serve para vos afligir. Distingui, para tanto, três espécies de queixas nos sofrimentos. - A primeira é involuntária e natural: é a do corpo que geme, suspira, se queixa, chora e se lamenta. Quando a alma está resignada com a vontade de Deus, em sua parte superior, não há nenhum pecado. -  A segunda é razoável; é quando alguém se queixa e descobre seu mal aos que podem e devem tratá-lo, como um superior ou o médico. Esta queixa pode ser imperfeita, quando for muito insistente; mas não é pecado.
   A terceira é criminosa: é quando alguém se queixa do próximo para se isentar do mal que ele nos faz sofrer, ou para se vingar; ou quando alguém se queixa da dor que sofre, consentindo nessa queixa e juntando a ela a impaciência e a murmuração. 

RECEBER SEMPRE A CRUZ COM RECONHECIMENTO

   "Nunca recebais nenhum cruz sem beijá-la humildemente e com reconhecimento; e quando Deus, todo bondade, vos houver favorecido com alguma cruz um pouco considerável, agradecei-Lhe de maneira especial e fazei-o agradecer por outros, a exemplo daquela pobre mulher, que, tendo perdido todos os seus bens em virtude de um processo injusto que lhe moveram, fez celebrar imediatamente uma Missa, com o dinheiro que lhe restava, a fim de agradecer a Deus a ventura que lhe era concedida.

CARREGAR CRUZES VOLUNTÁRIAS

   "Se quereis tornar-vos dignos de receber as cruzes que vos hão de vir sem vossa participação e que são as melhores, carregar outras voluntárias, seguindo os conselhos de um bom diretor. 
    Por exemplo: Tendes em casa algum móvel inútil pelo qual tendes afeição? Dai-o aos pobres, dizendo: quererias o supérfluo quando Jesus é tão pobre?

   Tendes horror a algum alimento? A algum ato de virtude? A algum mau odor? Provai-o, praticai-o, aspirai-o. Vencei-vos. 
    
   Amais alguém ou algum objeto um pouco terna e insistentemente demais? Ausentai-vos, privai-vos, afastai-vos do que vos lisonjeia.

   Tendes uma natureza muito inclinada a ver? A agir? A aparecer? A ir a algum lugar? Parai, calai, escondei-vos, desviai os olhos. 

    Odiais naturalmente algum objeto? Alguma pessoa? Procurai-a frequentemente. Dominai-vos. 

    Se sois verdadeiramente Amigos da Cruz, o amor, que é sempre industrioso, vos fará assim encontrar mil pequenas cruzes, com que vos enriquecereis insensivelmente, sem temor da vaidade, que se mistura tão frequentemente à paciência com que suportamos as cruzes muito visíveis; e porque fostes assim fiéis em pouca coisa, o Senhor vos estabelecerá em muito, como o prometeu (Mt. XXI, 21 e 23); isto é, em muitas graças que vos dará, em muitas cruzes que vos enviará, em muita glória que vos preparará". 


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TU QUE DESCANSO BUSCAS COM CUIDADO,
NESTE MAR DO MUNDO TEMPESTUOSO
NÃO ESPERES DE ACHAR NENHUM REPOUSO,
SENÃO EM CRISTO JESUS CRUCIFICADO.
                      Camões


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

FESTA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

 
 Jesus Cristo, Nosso Senhor, associou sua Mãe Santíssima a todas as suas glórias e grandezas e por isso fê-la também companheira de todos os seus sofrimentos. Jesus quis que Sua Mãe fosse Rainha dos Mártires. Belíssima gema faltaria na sua coroa se não tivesse a dor. Foi Rainha da dor e do martírio. E seu martírio durou toda a sua vida. Sabia-o ela muito bem pelas santas profecias do Velho Testamento a respeito do Messias, que era o seu Filho. Quanto sofreu com a ingratidão, a traição, o abandono, o desamor de que foi alvo o seu Filho: Belém, Egito, Nazaré, Jerusalém, o presépio e Calvário, o Templo, o palácio de Herodes e de Pilatos, são todos lugares onde o seu coração se despedaçou tantas vezes!

   Primeiro, consideremos as dores de Maria Santíssima na sua parte natural e humana e, depois na sua parte divina e sobrenatural.

   1º - Dor humana e natural: A dor corresponde ao amor. Em outras palavras: onde há mais amor, maior a dor. O amor de Maria Santíssima era um amor de Mãe. Caríssimos, com isto está tudo dito! Amor de mãe é o amor mais puro, mais nobre, menos egoísta que na terra existe. Por isso Deus não quis que tivéssemos mais do que uma; ela só basta para encher toda a nossa existência de carinhos inefáveis; de beijos terníssimos, de um amor que enche plenamente o nosso coração. Como ama uma mãe! E como amaria a Santíssima Virgem a seu Filho! Basta pensarmos que Deus pôde preparar para si a sua Mãe. Empregou com certeza todo seu amor e todo seu poder para preparar um coração que amasse sem limite o Filho de Deus que era também o Seu Filho! Daí, caríssimos, podemos imaginar qual não seria a dor de Maria Santíssima na perda de seu Filho, único, o melhor de todos, que amava a sua mãe como nenhum filho amou a sua. E Jesus morreu não por uma enfermidade, por um acidente infeliz, mas por traição, ingratidão, enorme e horrível injustiça e que tudo isto foi realizado no meio de atrocíssimos tormentos e na presença desta mãe amorosíssima! 

Dor divina e sobrenatural: Caríssimos, se já foi difícil, para não dizer impossível, formarmos uma ideia inteiramente adequada da dor natural e humana de Nossa Senhora por ter presenciado as dores e morte atrocíssimas de seu divino Filho, como poderemos avaliar devidamente sua dor sobrenatural? Primeiro, quem conheceu, como Maria Santíssima, que o seu Filho era Deus? E quem conheceu Deus como ela? Sobretudo quem O amou como ela? Como sentiria, portanto, as ofensas, os insultos, os tormentos que os homens deram a Jesus? Se, como Mãe, todas as dores de Jesus, se repercutiam no seu coração, que seria como Mãe de Deus? Os mártires sofriam com alegria abraçados ao crucifixo. Os penitentes e os eremitas são alentados pela vista da imagem de Jesus Crucificado. Para Maria, porém, a vista de Jesus Crucificado, era precisamente o seu maior tormento. O mesmo que ia consolar a outros, era o verdugo do coração da Mãe. As dores de Maria Santíssima, não foram físicas, mas por isso mesmo, foi mais intensa a sua dor por ser toda ela interna, puramente espiritual!

   Caríssimos, não poderia terminar sem destacar um detalhe: é que Maria Santíssima fez a vontade do Pai Eterno. Deus Pai queria que Ela oferecesse o seu Filho em sacrifício para salvar os seus outros filhos que somos nós. E ela ofereceu o seu Coração Imaculado para ser transpassado de dor, para que justamente desta ferida aberta nascêssemos todos nós, os filhos de sua dor!. Para nos salvar, Deus não perdoou o seu próprio Filho. Também Maria Santíssima fez o mesmo! E assim ela esteve ao pé da cruz, morta de dor, desejando a morte de seu Filho Jesus, para dar-nos a vida eterna. Quanto amor! Mas também quanta dor! Ah! caríssimos, quanto custamos a Maria Santíssima ser filhos seus! Então, amemo-la mesmo à custa dos nossos sofrimentos e, se for da vontade de Deus, até da nossa própria vida. Quem não amar a Jesus, seja anátema; e quem não ama a Maria Santíssima é porque não ama a Jesus. 

OS SOFRIMENTOS


"Então um dos anciãos, tomando a palavra, disse-me: Estes que estão revestidos de vestimentas brancas, quem são? e donde vieram? Respondi-lhe: Meu Senhor, tu o sabes. E ele disse-me: estes são aqueles que vieram da grande tribulação, lavaram os seus vestidos e os embranqueceram no sangue do Cordeiro" (Apocalipse VII, 13 e 14).

Deus o sumo Bem, criou o homem para ser feliz, já neste mundo. E de onde vêm os sofrimentos? A dor é filha do pecado. A finalidade, pois, dos sofrimentos é primeiramente reparar a honra divina ultrajada pelo pecado, e, portanto é uma punição. Tem, outrossim, como finalidade, destruir as consequentes corrupções que vieram do pecado. Na verdade, só  fora introduzida a dor no mundo, em seguida ao pecado. O pecado desmoronou toda a ordem da natureza. Agora, as rosas que tanto nos encantam, estão cercadas de espinhos, aptos a ferir quem as quiser colher.

Aqui, caríssimos, sob o termo "SOFRIMENTOS",  queremos incluir também os interiores que, por vezes, ficam ocultos no mais íntimo da alma, mas não menos pungentes que os exteriores, e até mais do que estes! Pois bem, o fogo da dor visa igualmente punir o pecado e, ao mesmo tempo, depurar a alma dessas impurezas. Deus quer consumir em nós o que Lhe ofende a pureza do olhar, e, sobre as cinzas dos nossos defeitos, fazer germinar belas virtudes. "Contraria contrariis curantur": os nossos defeitos serão curados pelas virtudes contrárias a eles. A sensualidade será destruída pela dor física; a avareza, pela perda ou diminuição dos bens; o orgulho, pelos desprezos, pelas críticas, ou até pelas calúnias; o egoísmo, pelo abandono, pela indiferença do próximo etc.. Assim, naturalmente, a dor é terrivelmente pungente e viva nas almas cheias ainda de imperfeições. Quanto às almas já mais purificadas e livres de apegos terrenos, e, consequentemente cheias de amor de Deus, estão bem dispostas a tudo aceitar de suas mãos paternais aquilo que outrora lhes fazia sofrer. Não quero dizer que não sofram tais almas, mas que nelas a dor é geralmente suscitada por causas mais nobres e assim sofrem pelas ofensas feitas a Deus. Demais, a esses sofrimentos une-se uma paz cheia de doçura, uma resignação total que alivia, que torna amáveis as próprias dores.

Já que em Deus a Justiça e a Misericórdia se osculam e ambas andam de perto, depois do pecado, a dor não é somente fruto da Justiça divina, mas também de sua misericórdia: Deus, enviando a dor aos homens, se esses souberem aproveitar, podem dela  auferir inapreciáveis vantagens. Vamos, pois, com a graça de Deus, considerar aqui os grandes benefícios dos sofrimentos:

1º - Desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu e torná-lo apto a receber a graça divina:

Sem o sofrimento preparado pela Providência, ninguém seria bastante corajoso para aplicar a si mesmo o ferro e o fogo que suprimem e consomem os apegos imperfeitos, as afeições puramente naturais, esses inúmeros laços que encadeiam as almas, impedindo-as de voar para as alturas da perfeição que leva ao Céu. Assim, o Divino Espírito Santo, através de cruzes e tribulações procura desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu, e torná-lo apto a receber a graça divina. Deus, que é infinitamente bondoso, está sempre disposto a derramar com profusão Suas graças entre os homens, as quais são semelhantes a um líquido sumamente precioso. Deus tem um reservatório inesgotável em que conserva suas graças e bênçãos: é a sua infinita liberalidade. Nossos corações são como vasilhas nas quais Deus deseja derramar as torrentes de suas graças. Podemos, comparando, dizer que três são as classes de pessoas que se aproximam de Deus no intuito de receber em seus corações o líquido preciosíssimo de suas graças: as primeiras vão a Nosso Senhor com o coração verdadeiramente desprendido, ou seja, vazio de todas as coisas terrenas. Deus, então, enche estes corações de Suas graças. Outras pessoas apresentam corações quem têm uma boa vontade, mas entulhados de afetos e apegos ao mundo, isto é, com vaidade, vanglória, comodidade, caprichos e vontade própria. Tais corações não possuem senão pequeno espaço para receber e conservar a graça divina. Deus só pode derramar neles muito pouco. Finalmente, a terceira espécie de pessoas são aqueles que apresentam a Deus o coração cheio inteiramente das coisas deste mundo, completamente mundanizado e terreno. Tais pessoas nada podem receber. Jesus quer comunicar-lhes Suas graças, mas não há lugar para Ele no albergue de seus corações.

2º - Servem para nossa santificação, devem ser meios para nos unir mais intimamente a Deus:

Sabemos que a essência da santidade consiste na mais perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus. Deus tem todo direito de exigir de nós, Suas criaturas, nos submetamos e subordinemos, sem restrição, à Sua santíssima vontade. Mas esta submissão em todas as coisas torna-se extremamente difícil. Temos mais facilidade em renunciar as coisas que temos, mas grande dificuldade em renunciar o que somos, ou seja, à nossa vontade. Pois bem! Nada mais próprio para submeter a nossa vontade à vontade divina do que as provações e contrariedades que por permissão de Deus vêm sobre nós. Estas provações são quase sempre contra a nossa vontade e o nosso gosto. E também constatamos que em tempo de sofrimentos não podemos compreender que a cruz nos possa ser proveitosa; de modo que, para não sucumbir debaixo do seu peso, devemos empregar todas as energias da nossa fé e todas as forças da nossa vontade para nos curvarmos humildemente e beijarmos a mão que nos fere, dizendo com toda sinceridade: "Senhor, seja feita a vossa vontade". Ademais, se na escola do sofrimento chegarmos a ponto de aceitar a cruz inteiramente resignados, isso será para nós um meio preciosíssimo de santificação. Então o sofrimento nos elevará mais alto na virtude e santidade em um só dia, do que muitas semanas e, talvez meses, quando tudo nos corria às mil maravilhas, sem cruz nem dores quer externas quer internas.

3º - As cruzes e os sofrimentos nos garantem um grau elevado na eterna glória:

São João Evangelista escreve no Apocalipse que um dia viu o céu aberto e, contemplando os bem-aventurados, chamou-lhe a atenção uma multidão que se distinguia entre os demais, por sua beleza e glória. "Então um dos anciãos falou e me disse: quem são estes que estão trajados de vestes alvas? e donde vieram? Eu lhe respondi: Senhor meu, tu o sabes. E volveu-me: Estes são os que vieram de uma grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as puseram alvas com o Sangue do Cordeiro" (Apoc. VII, 13 e 14). Eis a glória e recompensa dos sofrimentos suportados com paciência. Todas as vezes que aceitamos sem revolta uma cruz, por amor de Jesus, oferecemos um sacrifício a Deus; e todo sacrifício feito em estado de graça santificante aumenta também essa graça. Ora, quanto maior, for em nós a graça santificante, tanto maior também a glória eterna no Céu. Portanto, toda cruz que alegremente abraçamos e suportamos em união com o divino Salvador aumenta a nossa glória celeste.

Caríssimos, quando as ondas revoltosas de um mar de sofrimentos nos assaltarem, para onde devemos correr? Para diante de Jesus Crucificado, e, melhor ainda, do Sacrário. O amorosíssimo Salvador ou vos tirará a cruz ou, o que muito melhor, fortalecerá os vossos fracos ombros, para que possam carregá-la com alegria e amor. Na verdade, a cruz é a nossa esperança porque será a chave de ouro que nos abrirá as portas do Céu.

"Na cruz está a salvação; na cruz, a vida; na cruz, amparo contra os inimigos; na cruz, a abundância da divina suavidade; na cruz, a fortaleza da alma; na cruz, o gozo do coração; na cruz, o compêndio das virtudes; na cruz, a perfeição e santidade" (Livro da Imitação de Cristo).

Não poderia terminar este artigo sobre o sofrimento sem salientar um detalhe importantíssimo: a dor é a pedra de toque das virtudes. A provação ilumina a alma sincera, desvenda-lhe o mal oculto nas dobras de seu coração. Faz mais, porém, que revelar o mal, ataca-o, contanto que saibamos tirar proveito de sua ação benfazeja. A dor, humilhando-nos, torna-nos melhores. Faz-nos sentir mais vivamente nossa incapacidade e nosso nada. Quantas vezes a dor aproximou de Deus homens que a prosperidade d'Ele afastara? Abençoado o sofrimento que leva o filho pródigo ao lar paterno! E as almas já fervorosas são ainda mais santificadas pelos sofrimentos. No sofrimento, a fé se ilumina, a esperança se torna ardente e inabalável, o amor se fortifica e se dilata. E muitas outras virtudes acompanham estas três virtudes teologais: a paciência, a renúncia, a suavidade etc..

Senhor Jesus Crucificado, fazei que eu leve a cruz de boa vontade para que ela possa me conduzir ao termo desejado que é a Pátria do Repouso Eterno! Amém!


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MORTIFICAÇÃO


"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (S. Mateus XVI, 26).

 "Certamente, nem a todos é dada a possibilidade, nem todos têm a obrigação de fazer o mesmo; mas cada um é obrigado, segundo o seu poder, a mortificar a sua vida e os seus costumes. Exige-o a justiça divina, à qual é dada estrita satisfação das culpas cometidas; e é preferível dar essa satisfação enquanto se está em vida, com penitências voluntárias, porque assim também se tem o mérito da virtude. Além disto, já que nós todos estamos unidos e vivemos no corpo místico de Cristo, que é a Igreja, daí se segue, consoante S. Paulo, que, tal como os gozos, assim também as dores de um membro são comuns a todos os outros membros: quer dizer que os irmãos cristãos devem vir voluntariamente em auxílio dos outros irmãos nas suas enfermidades espirituais ou corporais, e, na medida em que estiver em seu poder, cuidar da cura deles; "os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros; e, se um membro sofre, sofrem com ele todos os membros; ou, se tem glória um membro, todos os membros se regozijam com ele. Ora, vós sois corpo de Cristo, e particularmente sois membros deste" (1 Cor. 12, 25-27). Nesta prova que a caridade nos pede, de expiarmos as culpas de outrem, a exemplo de Jesus Cristo, que com imenso amor deu a sua vida para redimir todos do pecado, está este grande vínculo de perfeição que une estreitamente os fiéis entre si, com os Santos e com Deus. Em suma, o espírito da santa mortificação é tão vário, industrioso e extenso, que qualquer um   -  desde que animado de piedade e de boa vontade  -  pode praticá-lo com muita freqüência e sem esforço excessivo" (Leão XIII, Octobri Mense).
Caríssimos, amar a Deus sobre todas as coisas, de todo coração, com todas as forças, eis o grande mandamento. No Céu O amaremos naturalmente, necessariamente, infinitamente. Igual coisa não se dá na terra. No estado atual da natureza decaída, é impossível amar a Deus com amor verdadeiro e efetivo, sem esforço, sem sacrifício. É o que resulta das tendências da natureza corrupta que permanece no homem, mesmo regenerado pelo batismo. Não podemos amar a Deus sem combater estas tendências. Por isso Nosso Senhor disse: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (S. Mat. XVI, 26). Seguir a Jesus Cristo é amá-Lo, e a condição de O seguir e amar é renunciar a si mesmo, isto é, as más inclinações da natureza, o que se consegue pela prática da mortificação. Para obter a graça, para conservá-la e multiplicá-la, precisamos a cada passo de penitência. Daí a mortificação em si, dentro de certas condições e em dadas circunstâncias, não é um simples conselho de perfeição, é, antes, DE PRECEITO, ou seja, é necessária à salvação: "Se não fizerdes penitência, disse o divino Mestre, todos igualmente perecereis" (S. Lucas XIII, 5).
O luxo moderno e costumes efeminados que se alegam muitas vezes em favor de uma diminuição da mortificação, podem também servir para defender o ponto de vista oposto. Pois, sendo ofício especial da Igreja dar testemunho contra o mundo, deve este testemunho consistir em atacar os vícios reinantes da sociedade, e por conseguinte, deve fazê-lo nestes dias contra a moleza, o culto do conforto e as extravagâncias do luxo. O mundo, a carne e o demônio permanecem realmente os mesmos em todos os tempos, e assim também a mortificação corporal presta os mesmos serviços. A melhor de todas as penitências é receber em espírito de compunção interior as mortificações que Deus, na sua Sabedoria e na sua amorosa e paternal Providência, nos envia. Quanto a isso não há a menor dúvida. É mister, porém, observar o seguinte: sem o generoso hábito das penitências voluntárias não é muito provável conseguir adquirir este espírito interior de penitência e portanto tirarmos todo proveito das provações involuntárias que Deus nos manda.
Vamos apresentar dez vantagens da mortificação:
- Domar o corpo: A penitência submete as paixões revoltosas ao poder da graça e à parte superior da nossa vontade. Na verdade, não encontraremos em pessoa alguma a força de vontade ou a seriedade de espírito, se ela não se esforçar deveras por subjugar o corpo.
2ª- Criar uma consciência delicada: isto é, uma sensibilidade de consciência para ver e detestar o menor pecado que seja. Se não é o único meio, pelo menos a mortificação constitui um dos principais.
3ª - Obter crédito diante de Deus: Empresta uma maior força à oração; dá um êxito muito maior nos esforços para desarraigar algum pecado habitual, vencer as tentações, obviar as surpresas do gênio e da língua.
4ª - Avivar o nosso amor a Deus: Manifestam e aumentam o nosso amor. E quando o objeto que amamos e contemplamos é, como Jesus, um objeto de dor e de sofrimentos, na contemplação da Paixão de Jesus sentimos um amor maior que nos excita a imitá-lo.
5ª - Desapegar-nos das vaidades do mundo e inundar-nos com a alegria espiritual: Nada em si é tão oposto às vaidades do mundo como a mortificação que destrói tudo o que elas mais prezam e mais amam. A alegria espiritual, é como a enchente da maré, que entra por onde encontra lugar vazio. A proporção, portanto, que os nossos corações se desapegam das amizades terrenas, isto é, das afeições que não constituem para nós um dever, eles se tornam capazes de gozar da doçura de Deus. As pessoas mortificadas são sempre alegres. O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo. A penitência junto com a oração bem feita nos unem a Jesus e, estar com Jesus é um doce paraíso!
6ª - Impedir que abandonemos cedo demais a Via Purgativa: Na verdade constitui um grande perigo na vida espiritual querer passar logo para as vias iluminativa e unitiva, abandonando precocemente a via purgativa em que devem dominar a virtudes da penitência. Na verdade, muitos se apressam tanto no começo, que ficam sem respiração e abandonam por completo a corrida. Assemelham-se aos insensatos que correm loucamente para fugir de sua sombra. A alma ainda ligeiramente fatigada de vigiar a si mesma, quer já converter o mundo. Assim peca por indiscrição e zelo imprudente. Fazendo uma comparação: a água transborda a força de ferver e apaga assim o fogo, isto é, destrói a ação do Espírito Santo pela indiscrição. Verdadeiramente, conservar-se por mais tempo (não meses mas anos) na região inferior de purificação, nunca trará prejuízo à alma, mas querer elevar-se com demasiada rapidez é expor-se a muitos perigos. As nossas paixões são como lobos, fingem estar mortas. Daí constituir um grande perigo abandonar a mortificação.
7ª - Conceder-nos o dom da oração mental. Por tudo o que já foi dito acima, temos facilidade em compreendê-lo: O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo, e aí, alma, qual, águia tem facilidade em subir às alturas da meditação e da contemplação.
8ª - Dar à santidade profundeza e força: Assim como os exercícios de ginástica desenvolvem os músculos e os robustecem. Isto refere-se ao que foi dito há pouco, de não abandonar cedo demais a Via Purgativa. Ex.: Simeão Estilita quando primeiro começou a se sustentar sobra a coluna, ouviu no sono uma voz lhe dizer: levanta-te, cava a terra. Pareceu-lhe ter cavado algum tempo e depois cessado, quando a voz lhe disse: cava mais fundo! Quatro vezes cavou, quatro vezes descansou, e quatro vezes a voz repetiu: cava mais fundo! Depois disse-lhe: Agora constrói tranquilamente. Pois bem! Este trabalho humilhante de cavar é a mortificação. Sendo escultor, veio-me uma comparação que compreendo com conhecimento de causa: o escultor, quando quer trabalhar com madeira, escolhe o cedro. Por que? primeiro por ser um madeira de lei que não é atacada pelo cupim; segundo é uma madeira ao mesmo tempo fácil de cortar e firme. Nossa alma deve ser firme pela penitência, e também humilde, isto é,  fácil de ser talhada pelo divino Artista, Nosso Senhor Jesus Cristo.
9ª - As austeridades corporais levam a alma a atingir a graça mais alta da mortificação interior: Seria pura ilusão supor ser possível mortificar o juízo e a vontade, sem mortificar também o corpo. Na verdade a mortificação interior é mais excelente; a exterior, no entanto, é mais eficaz.
10ª - A mortificação é uma escola excelente onde será adquirida a régia virtude da discrição. A discrição é o hábito de dar exatamente no alvo, e, para acertá-lo, é preciso ter no olhar uma exatidão e na mão uma firmeza sobrenaturais. A discrição se manifesta na obediência, na humildade, na falta de confiança em si mesmo, na perseverança e no desapego das próprias penitências.
Depois de tudo que acabamos de expor sobre a penitência, facilmente entendemos a afirmação tão categórica de São João da Cruz: "Se alguém desaprova a penitência, não lhe deis crédito, ainda que faça milagres".
Caríssimos, o divino Mestre disse: " O reino dos céus sofre violência e só os violentos o arrebatarão". Para chegarmos ao céu temos que combater como bons soldados de Jesus Cristo. E esta luta durará enquanto durar a vida. A felicidade eterna será um bem laboriosamente conquistado; e isto constitui, outrossim, a glória dos eleitos e lhes aumenta o gozo, pois amarão a Deus com maior perfeição. Consola-nos saber que cada vitória é uma conquista; triunfando de um defeito, adquirimos maior domínio sobre nós mesmos e, quanto mais fortes formos, mais capazes seremos de fazer o bem.
Através da mortificação, à medida que a alma progride, as revoltas da natureza, embora nunca desapareçam de todo, tornam-se menos violentas, e a graça, menos embaraçada, opera com maior poder. A vitória custa muito menos e entretanto os atos de virtude são mais puros, mais eficazes; a imaginação permanece mais calma, o apetite irascível mantém-se em repouso, o espírito não raciocina tanto. Então Deus opera com maior liberdade. Oh! como serão ricas as almas generosas, no dia da prestação de contas, quando for dado, e para sempre, a cada um, segundo suas obras! Amém!


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A PÁTRIA E O POVO

 A PÁTRIA E O POVO

                   Dom Fernando Arêas Rifan*
                                                                                                                                   
Amanhã, dia da Pátria, é dia de cultivarmos a virtude do patriotismo, dever e amor para com o nosso país, incluído no quarto Mandamento da Lei de Deus. Jesus, nosso divino modelo, amava tanto sua pátria, que chorou sobre sua capital, Jerusalém, ao prever os castigos que sobre ela viriam, consequência da sua infidelidade aos dons de Deus. É tempo oportuno, pois, para refletirmos sobre a nação, na qual vivemos e da qual esperamos o nosso bem comum. Será que também não devemos chorar sobre nossa pátria amada, ao vermos, na política, tanta corrupção, falta de honestidade, ética, honradez, com total desprezo das virtudes humanas e cristãs, dos pequenos e dos grandes?  E, como se diz, o povo tem o governo que merece, não será sobre o povo brasileiro que devemos chorar?
  “Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita... Ninguém crê na honestidade dos homens públicos... A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte, o país está perdido! Algum opositor do atual governo? Não!”(Eça de Queirós, ano 1871).  
Segundo Aristóteles, “o homem é por natureza um animal político, destinado a viver em sociedade” (Política, I, 1,9). Política vem do grego pólis, que significa cidade. E, continua Aristóteles, “toda a cidade é evidentemente uma associação, e toda a associação só se forma para algum bem, dado que os homens, sejam eles quais forem, tudo fazem para o fim do que lhes parece ser bom”. E Santo Tomás de Aquino cunhou o termo bem comum, ou bem público, que é o bem de toda a sociedade, dando-o como finalidade do Estado. “A comunidade política existe... em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. O bem comum compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (Gaudium et Spes, 74). Daí se conclui que a cidade – o Estado - exige um governo que a dirija para o bem comum. Não se pode separar a política da direção para o bem comum. Procurar o bem próprio na política é um contrassenso.
Como cristãos, nós sabemos que a base da moral e da ética é a lei de Deus, natural e positiva, traduzida na conduta pelo que se chama o santo temor de Deus ou a consciência reta e timorata. Uma vez perdido o santo temor de Deus, perde-se a retidão da consciência, que passa a ser regida pelas paixões. Uma vez abandonados os valores morais e os limites éticos, a sociedade fica ao sabor das paixões desordenadas do egoísmo, da ambição e da cobiça.
           

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

MORTIFICAÇÃO É MEIO INDISPENSÁVEL DE SANTIFICAÇÃO


"Quotidie morior" . Morro todos os dias (1 Cor. XV, 31).

Pela aceitação generosa dos sofrimentos e tribulações, pela contínua mortificação (= mortem facere) e renúncia da própria vontade, procurava S. Paulo morrer sempre mais ao velho homem, a fim de se revestir do homem novo, formado pela santidade. E assim pode dizer: "Eu vivo, mas não sou eu já o que vive e sim é Cristo que vive em mim". Disse também: "A minha vida é Cristo". A nossa vida espiritual deve chegar até a estas alturas sublimes. Mas para tanto faz-se mister a mortificação, ou seja, devemos lutar sempre contra nós mesmos para chegarmos a uma vitória total sobre o nosso egoísmo. Podemos então dizer que a mortificação é o lento morrer do homem velho, para ressurgir daí o homem novo, com uma vida nova, vida segundo o espírito, vida, enfim, em Deus e para Deus. Na natureza nos deparamos com esta lei: "da morte brota a vida". A semente que morre na terra, encerra o germe de novas plantas. E dos resíduos apodrecidos da semente decomposta, sorve o germe a força de que necessita para se desenvolver, e expandir, deitar folhas  e produzir frutos. Também as folhas caídas e mortas no solo são ao mesmo tempo adubo e alimento para as árvores.

Pois bem! Esta lei da natureza refere-se também à vida espiritual. É o que Jesus Cristo explicou: "Em verdade, em verdade, vos digo, se o grão de trigo cair na terra e não morrer, ficará só; mas, quando morrer, dará abundantes frutos" (S. João XII, 24 ).

Quão importante e necessária é a mortificação, isto é, a renúncia da própria vontade em coisas espontaneamente escolhidas, nos pequenos sacrifícios voluntários que fazemos. Assim, a mortificação deve acompanhar-nos através de toda a nossa vida. Ela é necessária como arma no combate contra o inimigo da salvação; mas é também necessária como meio de virtude. Já resumimos em outro post sobre este tema, os efeitos benéficos da mortificação. Mas, em se tratando de algo indispensável para a santificação, e, tendo em vista o desleixo em que esta virtude é encarada hoje, talvez mais do que em outros tempos, mister se faz incutir nas almas os seus abençoados efeitos. É o que aqui faremos, com a graça de Deus. Os padres, sabendo que seus fiéis levam bem à serio a vida de oração e de mortificação, podem ficar tranquilos de que os verão um dia no Paraíso. 

Primeiro efeito: A mortificação faz que Deus seja cheio de liberalidade para conosco.

Se nos mortificamos por amor a Deus em coisas voluntariamente escolhidas, Deus o recebe como um presente. E Ele nunca se deixa vencer em generosidade. Os pequenos presentes mas feitos com grande amor a Deus, exercem grande, irresistível poder sobre o Nosso Pai que está no Céu. Forçado pela bondade do Seu Coração, abre Nosso Senhor as comportas da Sua liberalidade. Na verdade, Deus não se cansa de cumular com bênçãos aqueles que se mostram generosos para com Ele. Sim estes "presentes da mortificação" fazem o bom Deus liberal. Sumamente agradável aos olhos de Deus é a oração unida aos sacrifícios.

Segundo efeito: A mortificação merece-nos a graça da oração, isto é, a graça de orarmos com recolhimento e unidos a Deus.

Talvez estranhe alguém esta seguinte afirmação: ORAR BEM, É MUI DIFÍCIL. Caríssimos, na verdade, é uma arte que só conseguiremos aprender à força de grandes sacrifícios. O corpo odeia a atitude forçada que se lhe impõe na quietação e no recolhimento; o espírito gosta da liberdade sem restrições, quando o pensamento pode vaguear à vontade. Assim, é necessária a mortificação, porque, enquanto estes inconvenientes não forem combatidos, não podemos esperar uma devoção verdadeira na oração. A mortificação acostuma o corpo a guardar os sentidos debaixo de rigorosa disciplina e a suportar prontamente os incômodos. Ela habitua também o espírito a dirigir os pensamentos a determinado ponto e acaba com os devaneios desregrados.

Caríssimos, se os santos souberam orar horas e horas com grande recolhimento, só conseguiram isto por meio das muitas e grandes mortificações em que se exercitavam constantemente. Na presença de Santo Inácio de Loiola referiu alguém que um conhecido servo de Deus era um homem de oração. O santo respondeu: "Neste caso ele é também homem mortificado, pois sem isto seria impossível".

Terceiro efeito: A mortificação constante dá-nos grande domínio sobre nós mesmos. 

Em se tratando de coisas materiais constatamos os incríveis esforços e sacrifícios a que os homens se impõem. Manifestam uma força de vontade incomum. Desenvolvem uma coragem e renúncia surpreendentes e que até, por vezes, nos assombram. Por exemplo, imaginai um homem a quem o médico diz que está irremediavelmente perdido, se não observar rigorosa dieta. Prescreve-lhe, então, privações muito difíceis. O doente obedece escrupulosamente. Na verdade é exato em seguir à risca tudo o que o médico ordenou! E por que? Por causa da vida natural. Outro exemplo: Imaginai um negociante que tem sede de dinheiro ou um ambicioso que só deseja postos importantes na política. Que sacrifícios não fazem! Não recuam diante de qualquer trabalho ou perigo, contanto que consigam os seus intentos.

Infelizmente, quando se trata da vida espiritual, em conseguir a santidade, ou seja, um tesouro no Céu, tesouro este que o ladrão da morte não rouba; quando há ocasião de ajuntar imensas riquezas para a Eternidade, então o homem mostra-se horrivelmente covarde. Acha mil desculpas para deixar de fazer alguma coisa por amor de Deus. Ora é a saúde fraca, ora o cansaço e fadiga, às vezes, o receio de outros prejuízos. É a fraqueza nas coisas espirituais, e para combatê-la energicamente não se tem coragem. Esta fraqueza é uma das chagas que o pecado nos infligiu. Daí, caríssimos, a necessidade da mortificação. Quando nos acostumamos a vencer-nos em coisas pequenas, a vontade torna-se mais forte. Eis a palavra do Livro da Imitação de Cristo: "Só progredirás na virtude em proporção da violência que fizeres a ti mesmo" (Será por isso que hoje andam dizendo que este Livro é complicado!?). Que não fizeram os santos para robustecer a sua vontade! Aproveitavam toda ocasião para fazer pequenos sacrifícios de renúncia da própria vontade a fim de ajuntar merecimentos para o céu. E aqui nos lembramos especialmente da grande Santa Teresinha do Menino Jesus!

Quarto efeito: A mortificação conduz à paz do coração.

Para tanto, a prática da mortificação deve ser assídua. Esta paz do coração consiste em que os diferentes acontecimentos da vida cotidiana se aproximem do coração, mas não entrem nele, nem lhe perturbem o equilíbrio. Verdadeiramente, a paz do coração pressupõe grande domínio sobre si mesmo. Podemos afirmar a respeito da maior parte dos homens  que o seu comportamento diário é o resultado das diferentes  influências que no correr do dia atuam sobre eles. Quando essas impressões são agradáveis, favoráveis ao amor próprio, sentimo-nos no céu; estamos de bom humor, brincamos, e uns até pulam de alegria. Se, porém, essas impressões forem desagradáveis e tristes; se ofenderem a nossas inclinações prediletas, logo nos invade o interior pesada tristeza. Neste caso, nem se pode pensar no cumprimento alegre dos próprios deveres. Tudo é desarmonia. O interior da maior parte dos homens é semelhante a um mar agitado. Ora estão bem alto, ora na mais rasa apatia; ora entusiasmados por qualquer coisa, ora frios e insensíveis de tal modo que queriam deixar tudo. Podemos dizer que por detrás destas disposições interiores não há uma piedade sincera. Deus não quer habitar num coração onde não reina a paz.

Portanto, só por meio de constantes mortificações poderemos conseguir que o nosso coração conserve o equilíbrio em todas as circunstâncias. A serenidade e paz reinante sempre nas almas dos santos vêm dos inúmeros atos de mortificação. Vamos dar um exemplo: Santo Inácio de Loiola fundara a Companhia de Jesus e amava-a com todas as veras de sua alma. Perguntaram-lhe um dia se não ficaria terrivelmente abalado se soubesse que a sua congregação fora dissolvida. Respondeu o santo: "Se eu tiver quinze minutos para orar, aceitarei o golpe com toda a calma".

Quinto efeito: A mortificação dispõe nosso coração para receber as divinas inspirações.

Cada inspiração da parte de Deus encerra sempre um sacrifício para o homem natural, pois a inspiração atrai para cima, ao passo que a nossa natureza arrasta para baixo. Quando Deus nos estende a mão, só poderemos agarrá-la fazendo violência a nós mesmos. Por que Nosso Senhor visita tão poucas vezes certas almas? Porque elas têm medo de fazer sacrifícios. Pois, Deus sabe muito bem que vão responder: "Dura é esta linguagem; quem a pode ouvir?" Falta, portanto, a estas almas a prontidão que, por sua vez, somente poder-se-á adquirir pela mortificação.

Mas, se por meio dos exercícios diários, fizermos sacrifícios de boa vontade, por amor a Deus, Ele falará interiormente conosco para nos ajudar a progredir na vida espiritual. Diremos com  o profeta Isaías: "Eis-me aqui; podeis mandar-me". Ou com Davi: "Meu coração está preparado". Ou enfim com o profeta Samuel: "Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta".

Caríssimos, na verdade, o assíduo exercício da mortificação faz-nos dóceis e os homens imortificados são surdos às inspirações de Deus. Deus gosta das almas generosas, como foram os Reis Magos: "Vimos a estrela"  - foi o chamamento da graça divina - "e viemos", isto é, o ânimo e a coragem de progredirem, por mais difícil que isso lhes fosse. Já o jovem rico que queria ser perfeito, não teve a generosidade de abandonar toda sua riqueza e assim afastou-se triste e deixou de receber a graça insigne de ser apóstolo. Faltou-lhe coragem para vencer a si mesmo.

Sexto efeito: A mortificação é o melhor meio de aumentar a virtude do amor de Deus, rainha das virtudes.

Disse o divino Mestre: "Eu vim trazer fogo à terra; e que quero senão que ele se acenda? (S. Lucas XII, 49). Este fogo que Jesus queria acender é o fogo do amor de Deus. Ele o acende pelo Espírito Santo quando recebemos os santos sacramentos. Depende, porém, de nós, fazermos que este fogo de amor produza sempre mais elevadas chamas. Isto se consegue por meio de oração e mortificação, especialmente pelos sacrifícios voluntariamente escolhidos que fazemos por amor de Deus. Cada mortificação, é como uma acha de lenha que jogamos às labaredas para que o fogo mais vivamente se acenda.

Ao mesmo tempo são os pequenos sacrifícios um sinal de que amamos verdadeiramente a Deus, pois o amor não pode ficar inativo. Amor quer dizer sacrifício. É da sua natureza. Os sacrifícios são realmente, a linguagem do amor. Assim são eles, duma parte, prova de que amamos a Deus, e, de outra, um meio para aumentar esse amor. Todas as vezes que oferecemos a Jesus um sacrifício, dizemos com S. Pedro: "Senhor, vós conheceis todas as coisas, vós sabeis que Vos amo" (S. João XXI, 17). Lendo a vida dos santos, constatamos que todos procuravam aproveitar todas as ocasiões para dar a Deus provas de seu amor por meio de sacrifícios voluntários.

Sétimo efeito: A mortificação é um meio para merecer a bênção divina sobre os nossos trabalhos.

"Sem efusão de sangue, não há redenção", diz S. Paulo na sua Epístola aos Hebreus IX, 22. Como a obra da redenção só se efetuou entre indizíveis dores, assim também só entre penas e mortificações podem ser conseguidos os frutos da mesma. Tudo deve ser regado com o suor do sacrifício. Todas as obras de Deus devem ser batizadas com o fogo das provações e só florescem à sombra da árvore da Cruz. Se os santos conseguiram realizar tão grandes coisas pela salvação das almas, devemos saber que os grandes sacrifícios e as constantes mortificações foram a causa principal da bênção de Deus sobre seus trabalhos. Lembrem-se de um exemplo: Santa Teresa d'Ávila.


Caríssimos, felizes se na hora da morte pudermos olhar para uma vida mortificada. Com certeza, foi abençoada por Deus. Amém!