SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 24 de setembro de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 16º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Efésios 3, 13-21.
                 
                Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 14, 1-11


  Naquele tempo, quando Jesus, num sábado, entrou em casa de um dos principais fariseus, para aí tomar a refeição, estes O observavam. Apresentou-se-lhe, então, um homem que era hidrópico. E Jesus tomou a palavra, e perguntou aos doutores da lei e aos fariseus: É permitido curar em dia de sábado? Eles, porém, ficaram calados. Então, Jesus tocou no homem, curou-o e mandou-o embora. Depois, dirigiu-se aos outros e disse: Quem de vós, se lhe cair um jumento ou um boi num poço, não o retira logo, ainda que em dia de sábado? A isto eles nada podiam replicar. Notando como os convidados escolhiam os primeiros lugares à mesa, disse-lhes ainda esta parábola: Quando fores convidado a núpcias, não te assentes no primeiro lugar, porque pode ser que um outro, de mais consideração do que tu, tenha sido convidado pelo dono da casa, e que tu, vindo este que convidou a ti e a ele, te diga: Cede o lugar a este, e tu, envergonhado, vás ficar no último lugar. Antes, quando fores convidado, vai ocupar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, vem mais par cima. Então, terás glória perante os convivas. Porque, todo o que se eleva, será humilhado; e o que se humilha será exaltado. 

  Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

  O Santo Evangelho de hoje oferece-nos dois pontos de meditação: a cura do homem hidrópico em dia de sábado; e a parábola para ensinar a humildade. 
  Vemos, em primeiro lugar, a bondade de Jesus em aceitar o convite, ainda que conhecesse as intenções malévolas dos fariseus a seu respeito. Jesus, com suas palavras e milagres, queria ser útil aos presentes. Os fariseus observam a Jesus tendo no coração intenções malévolas. Nós devemos observá-Lo também, mas para admirar as suas instruções divinas, e procurar imitar as suas virtudes. 
  São Paulo na Epístola de hoje diz que devemos estar arraigados na caridade, e devemos conhecer o amor de Cristo. 
  Apesar da tácita desaprovação dos fariseus, Jesus cura o pobre hidrópico em dia de sábado, ensinando-nos assim a grande importância do amor do próximo. Em vão julgaremos estar enraizados no amor de Deus se o não estivermos também no amor do próximo.
Rio Jordão. De um lado: Judeia, Samaria, Galileia;
do outro lado: Transjordânia ou Peréia, e quase
toda a Decápole. Havia duas aldeias chamadas
BETÂNEA: do lado da Judeia é a Betânea onde
morava Lázaro, perto de Jerusalém.
Do lado da Peréia é a Betânea às margens do
 Jordão onde João batizava. Fugindo da
 perseguição dos judeus que queriam prender
Jesus, este se retirou para esta região da Peréia
e foi aí que Jesus morou por algum tempo, e aí  se
deram os incidentes de que fala o Evangelho
deste 16º Domingo depois de Pentecostes.
  Mas, depois de curar o homem hidrópico, dirigindo-se aos doutores da Lei e aos fariseus, Jesus disse: "Quem de vós, se o seu jumento ou o seu boi cair num poço, não há de logo tirá-lo, mesmo num dia de sábado?" E eles nada puderam responder a isto.
  Para estarmos, porém, enraizados na caridade, é indispensável que o estejamos igualmente na humildade, pois só quem é humilde é capaz de amar verdadeiramente a Deus e ao próximo. Nosso Senhor Jesus Cristo dá-nos uma lição prática de humildade, condenando a caça aos primeiros lugares. E observemos, caríssimos, que, enquanto os fariseus observam a Jesus com intenções malévolas, Nosso Senhor os observa para corrigi-los e o faz com toda bondade. Jesus se dirige aos presentes, na intenção de lhes dar uma instrução de humildade e de procedimento cristão. Todavia sempre manso, delicado e prudente, não diz - quando fores convidados a uma refeição - porque a alusão seria por demais transparente, e iria direta ao dono da casa. Dizendo, porém,  - a umas núpcias - parece não dirigir-se aos presentes, e assim lhes fala com mais segurança e liberdade. 
  Não se sabia então o que era a humildade. Jesus mostra aos fariseus as humilhações do orgulho e as vantagens da humildade. No céu, como na terra, os humildes terão sempre o primeiro lugar. Os verdadeiros humildes não se enganam sobre o sentido desta parábola. Chamados ao primeiro lugar no banquete que Deus dá aos seus futuros eleitos, no grande vestíbulo da Igreja, eles vão, de si mesmos, colocar-se no último, onde se acham mais a vontade para cuidar da sua salvação eterna. À hora da morte, virá então dizer-lhe o Pai de família - "Amigo, assenta-te mais para cima".
   Ouçamos o comentário de São Bernardo: "Coloquemo-nos no último lugar, pois nenhum prejuízo nos pode vir pelo fato de nos humilharmos e nos julgarmos inferiores ao que na realidade somos. Todavia é um dano terrível e um mal enorme querermos nos elevar nem que seja uma só polegada acima do que somos, e preferir-nos a uma só pessoa. Assim como para passar por uma porta muito baixa não nos prejudica inclinarmo-nos demasiadamente, mas prejudica-nos muitíssimo levantarmo-nos um só dedo acima da trave porque podemos bater e ferir a cabeça; de igual modo não há motivo para temermos humilhar-nos demasiado, mas devemos temer e aborrecer o mais pequeno movimento de presunção". 
   Fundados na humildade, também o estaremos na caridade e possuiremos assim as duas características fundamentais da alma cristã. É a humildade, diz São João Crisóstomo, que abre as portas do céu. Se lá quisermos ser exaltados, saibamos fazer-nos pequenos aqui: os mais desprezados da terra serão os mais honrados no Céu.
  Portanto, retenhamos bem e meditemos muitas vezes a grande lição de humildade, que aqui nos dá Nosso Senhor: "O que se eleva, será humilhado; e o que se humilha será exaltado." Amém!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


"Tirai as águas com alegria das fontes do Salvador" (Isaías XII, 3).

Ouçamos em primeiro lugar, duas almas privilegiadas do Sagrado Coração de Jesus, almas as quais Nosso Senhor Jesus Cristo fez revelações importantíssimas sobretudo referentes aos sacerdotes. Penso não ser supérfluo lembrar que estas revelações foram aprovadas pela Igreja e são citadas frequentemente por escritores sábios e santos, e até mesmo por santos canonizados pela Santa Igreja.

Por uma óbvia razão, cito primeiramente Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa da Visitação: "Oh!  - exclama ela  -  não poder eu dizer a todo mundo o que sei desta amável devoção! Não sei de exercício mais próprio na vida espiritual para elevar uma alma à mais alta perfeição. Nosso Senhor me descobriu os tesouros de caridade e de graças para as pessoas que se consagrarem a honrá-Lo e amá-Lo, e são tesouros tão grandes que dizer me é impossível. Deu-me a conhecer que os que trabalham na salvação das almas, alcançarão êxito maravilhoso e possuirão o segredo de tocar os corações mais endurecidos, se estiverem penetrados de uma terna devoção a este Coração divino. Jesus Cristo me assegurou que sentia um prazer todo especial em ser honrado sob a figura deste coração de carne, e queria a sua imagem exposta em público afim de tocar os corações insensíveis dos homens. Declarou-me que derramaria em abundância no coração dos que O honrarem todos os tesouros de graças de que está cheio, e que lá onde a sua imagem fosse particularmente honrada atrairia toda sorte de bênçãos. O Sagrado Coração de Jesus é o tesouro de todas as graças e a nossa confiança n'Ele é a chave deste tesouro. Ah! como é doce morrer depois de ter tido uma devoção constante ao Coração daquele que nos deve julgar".

Outra alma privilegiada do Sagrado Coração foi sem dúvida a Madre Luisa Margarida Claret de La Touche. Fundou a "Aliança Sacerdotal Universal dos Amigos do Sagrado Coração" e, sob os auspícios de S. Pio X, fundou o novo instituto de "Betânia do Sagrado Coração", com a finalidade de servir a Jesus Sacerdote nos seus sacerdotes. É fruto de suas devotas contemplações o livro: "Le Sacré Coeur et le Sacerdote". Esta piedosa religiosa, que foi dirigida do Padre Charier, faleceu em 1915 em odor de santidade.

Em 1902, diz Mons. Ascânio Brandão, esta alma privilegiada ouviu a doce voz de Jesus no sacramento do amor: "Se o sacerdote soubesse que tesouros de amor lhe estão reservados no meu Coração! ... Que venha ao meu Coração, e beba desta fonte e encha-se de amor, até transbordar e derramá-lo sobre o mundo. Margarida Maria, continua Jesus, mostrou meu Coração aos homens, tu mostra-O aos meus sacerdotes, atrai-os todos ao meu Coração..., quero dar-lhes a conhecer um segredo todo particular do meu Coração ... Eu preciso deles, para coroar minha obra ... Meu Coração é o cálice do meu Sangue; se há alguém que tenha direito e obrigação de achegar-lhe os lábios, não é porventura o sacerdote que bebe todos os dias do cálice do Altar? Venha, portanto, ele ao meu Coração e beba" (Livro: Au service de Jésus Prêtre). E no outro livro: "Le Sacré Coeur et le Sacerdote" diz: "É principalmente aos sacerdotes que este Sagrado Coração quer manifestar-se, a esses chamados por Ele para reacender e vivificar sobre a terra o fogo da caridade. Por sua bondade inefável Ele quer ter necessidade deles, para completar seus desígnios, e o que poderia operar diretamente nas almas, por meio da graça, não o faz  -  por via de regra  -  senão mediante o concurso deles. Oh! se o sacerdote soubesse que tesouros de ternura encerra para ele o Coração de Jesus! Com que ardor se atiraria àquela fonte divina, para encher-se de amor, até transbordar".

"Oh! diz o piedoso e sábio Mons. Ascânio Brandão, bebamos o amor no Coração de Jesus e transbordemos em amor para as almas. A missão do padre é acender nos corações o fogo divino do amor que abrasa o Coração de Jesus! Não sejamos ingratos. Como ferem o divino Coração de Jesus, a indiferença, a tibieza, a ingratidão dos seus padres! "Os outros, disse Nosso Senhor a Santa Margarida, se contentam com açoitar o meu corpo, mas os sacerdotes dirigem seus golpes diretamente ao meu Coração".

Assim, amados irmãos no sacerdócio, celebremos com muito zelo as nove primeiras sextas-feiras para merecermos a promessa do Sagrado Coração de Jesus. Propaguemos o culto do Coração de Jesus. "Aí ,  -  diz Mons. Ascânio Brandão, de santa memória,  - está o segredo  do padre fervoroso e das paróquias reformadas e afervoradas em pouco tempo. A tibieza é o flagelo de muitos padres. Há um meio seguro para sair de um estado tão lastimável: a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. É difícil, é um milagre sair da tibieza um sacerdote que abusou tanto da graça, mas este milagre o tem realizado centenas de vezes o Sagrado Coração de Jesus!"

"Oh! - exclama o Padre Santini, se todos os sacerdotes soubessem conduzir com fé, para este tesouro, para este oceano de felicidade, todos quantos sentem fome e sede de justiça! Como as almas fugiriam de boa vontade dos manjares mortíferos! Como se negariam a beber junto das mil  "cisternas rotas" (Jer. II, 3) que não sabem matar a sede! Como, unido ao Sagrado Coração de Deus, encontraria o coração completa satisfação na torrente de suas delícias (Salmo 35, 9), na paz profunda que o mundo não pode dar! "Quem beber da água que Eu lhe der, não terá mais sede" (S. João, IV, 13). E que fontes de méritos, caríssimos colegas no sacerdócio, encontramos neste sublime apostolado, nós os ministros do infinito Amor! Porque  -  notai bem  -  se um alimento material, se um copo d'água fresca oferecido por amor de Jesus, é digno de um prêmio eterno, que recompensa deverá esperar aquele que concorre com Jesus, por seu amor, para saciar a fome das almas, para extinguir a sede de Deus? Quem poderá descrever o agradecimento do Redentor para com os sacerdotes que souberam verdadeiramente conduzir as almas ao seu Coração, como o quer a Igreja, que é a coluna e o fundamento da verdade!

"Mas, diz o Padre Santini, é na verdade uma dolorosa contestação, fruto de uma longa experiência: dizei-me, quantas são as almas sacerdotais que tomam a sério e verdadeiramente praticam uma sólida e constante devoção ao Sagrado Coração? Quantos há que a propagam com zelo entre o povo?" Diz o célebre e piedoso Mons. D'Hulst: "O mistério não consiste tanto no fato de que existem almas nas quais Deus reina pelo amor, desde o momento em que Deus é amor, e que se revela ao coração humano. O profundo mistério consiste em que estas almas sejam tão raras e que a revelação do amor encontre tão pouco acolhimento da parte da humanidade. Este mistério, sim, faz passar a fé por uma dura prova! Como é possível que entre todos os patrões, seja o Onipotente o menos bem servido?"
Precisamos, mais do que nunca, do grande apostolado da Padroeira das Missões, Santa Teresinha do Menino Jesus: Rezar pelos padres!!! E, caríssimos, como precisamos do Coração de Jesus, para nós padres debelarmos esta crise terrível tanto na sociedade, como dentro da própria Igreja! Fenômeno impressionante, pavoroso: a ignorância, a incredulidade, o ódio e a corrupção atual, e pouco fagueiras as previsões do futuro. Os padres, infelizmente na sua grande maioria, não propagam com zelo entre o povo, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. E não procuremos, portanto, somente em outras fontes, a origem  de tantas defecções públicas e particulares, de tantos deploráveis escândalos, desta lepra de impureza que contagia, desta enxurrada de impiedade que tudo envolve e afoga, desta leviandade insana, que leva sem motivo ao suicídio, como a um remédio radical, deste ceticismo que se propaga sempre mais e sacrifica todo o ideal mais santo ao instinto brutal e ao capricho, desta atmosfera paganizante que nos oprime pelas modas e pornografia oferecidas pela televisão e Internet (usada para o mal), saturada com os bacilos do pecado, impregnada de germens deletérios provindos de depósitos em putrefação, deste vento de insensatez que sopra implacável sobre o mundo, deste aborrecimento eterno, imenso, que se obstina em considerar a vida sem valor, vive-se um paganismo: "Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". Talvez mais do que nunca, Satanás é o príncipe deste mundo. Pobre mundo que vai em procura de adivinhos, consulta os astros, as mãos, os médiuns, os ciganos, os astrólogos e chega mesmo a consultar diretamente os demônios, evoca os mortos, entra nos templos da teosofia, do espiritismo, do ocultismo, da satanismo. Desconhece que tudo deve ser restaurado em Jesus Cristo. Ignora os tesouros do Sagrado Coração de Jesus. No Concílio Vaticano II, respirou-se ecumenismo, os Padres do Concílio (com poucas exceções) acharam que a solução seria elogiar as falsas religiões, inclusive o Islamismo. Agora, sofremos o castigo! Parece que os Padres do Concílio Vaticano II responderiam às revelações do Sagrado Coração de Jesus em Paray (pelo menos na prática): "Não entendemos nada, não Vos acreditamos, não nos interessa, não queremos saber... nada compreendemos desta cruz, destes espinhos, deste sangue, destas chamas!" Ah! caríssimos, como foi triste! E depois de mais de meio século colhemos os frutos que mostram claramente que a árvore não era boa. Poderia haver na própria Hierarquia da Igreja irreverência maior, insipiência mais deplorável e mais injustificada?

Será que os Padres no Concílio Vaticano II, pelo menos em sua grande parte, pensaram assim: vamos tomar como modelo o nosso Patrono, o Santo Cura d"Ars? Infelizmente não, com certeza!. E o que S. João Batista Maria Vianney dizia do Sagrado Coração? Exclama soluçando na sua lírica tão simples e eficaz: "Oh! Coração cheio de amor, flor do amor! e a quem amaremos nós, se não amamos o Coração de Jesus? Naquele Coração adorável não há outra coisa senão amor: como é possível esquecer que está tão cheio de amabilidade?"

O beato Pio IX dizia: "Pregai por toda parte a devoção ao Sagrado Coração: ela deve salvar o mundo!"

O célebre jesuíta (jesuíta dos seus bons tempos) o padre Quintana dizia assim: "A devoção ao Sagrado Coração é à Pessoa de Jesus que ama e não é amado; honra-se nela não um Cristo fantástico e idealizado, mas o mesmo Jesus do Evangelho e da Eucaristia, e considera-se a Pessoa de Jesus real, naquilo que Ele nos oferece de mais nobre e de mais atraente, isto é, seu amor. É ridículo, portanto, dizer: sou devoto de Jesus, mas não de seu Coração; porque o Sagrado Coração é Jesus todo inteiro, Jesus que nos ama; é seu amor expresso como em símbolo eficaz e natural, é seu amor centro de sua vida, e o motor principal, antes único, de todas as suas ações; é seu amor considerado em si mesmo, no seu complexo e na sua totalidade".

Caríssimos, daquele Coração divino saíram a Igreja, os sacramentos e as graças todas de que dispomos. O Coração aberto de Jesus é a fonte das águas da salvação. Tal é a doutrina dos Santos Padres: Como Eva saiu do lado de Adão, assim a Igreja saiu do lado de Jesus, A água é símbolo da batismo e o sangue é símbolo da Eucaristia.

Maria Santíssima e o escasso grupo que A rodeia: S. João Evangelista, e as Santas Mulheres, ali no alto do Calvário, contemplam este mistério, com sentimentos de dor, de compaixão, de adoração, de amor e reparação e nos oferecem um modelo a imitar. É a primeira homenagem de amor e reparação oferecida ao Sagrado Coração e o primeiro ato de sua devoção. Assim se revelou e se estabeleceu pela primeira vez a devoção ao Sagrado Coração de Jesus com seu objeto próprio, que é o mesmo Coração do Salvador, sede e símbolo do amor com os motivos e atos que constituem esta devoção que são fundamentalmente amor e reparação.


Eu Vos adoro, amoroso Coração de Jesus, que estás no Céu e na SS. Eucaristia junto conosco! Com a suavidade de Vosso Coração, minhas dores se dulcificam. Ó ferida feliz, aberta pela lança, fonte de graças que com ela se nos abriu e não se fecha mais. Sagrado Coração de Jesus, eu confio em Vós. Amém!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O AMOR DAS CRUZES


"Bem-aventurados os que choram... Bem-aventurados sois quando vos insultarem e vos perseguirem, e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim" (S. Mateus V, 5 e 11).


Além da paciência nos sofrimentos, Nosso Senhor Jesus Cristo quer que os amemos. Quer que tenhamos amor às cruzes, como aliás Ele teve e ardentíssimo: "Eu tenho de ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua! (S. Luc. XII, 50). Jesus sabia que sua morte seria a vitória sobre o pecado, o demônio e o mundo. "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Dizia isto para designar de que morte havia de morrer) (S. João XII, 32 e 33).

Inicialmente já devemos deixar claro que se trata de algo na vida espiritual por poucos compreendido. Alegria nos sofrimentos e amor verdadeiro às cruzes, na verdade, é um dom que Deus concede às almas generosas. E para recebê-lo, tiveram  que se preparar, dominando a natureza. Assim, na aquisição deste dom faz-se mister primeiramente, dominando a natureza, tão ávida de gozos, desenvolver em si um ardente amor, por meio de uma vida de intima união e de corajosos sacrifícios. Como diz a Imitação de Cristo, "o desejo de sofrer para assemelhar-se a Jesus inspira tanta coragem, que a alma não deseja ficar isenta de tribulações e dores, porque compreende que é tanto mais agradável a Deus, quanto mais sofre por Ele" (L. II.c. XII, n. 8). A alma, que se preparou e assim recebeu este dom, pensa mais ao menos assim: "Sofro, mas é por Deus, é por Jesus que tanto sofreu por mim; reparo minhas faltas, consolo Deus das penas que Lhe causei. Sofro, portanto amo; e, sofrendo, dou provas de meu amor. Sofro, por conseguinte meu amor vai se dilatar; na eternidade será sempre maior e eu hei de amar eternamente e cada vez mais a Deus justamente na medida em que aqui na terra cada vez mais sofrer por amor a Jesus. Sofro, e sofrendo, estou unida a Jesus, continuo-lhe a obra, ou, antes, Ele mesmo a continua em mim, essa obra de dor e de salvação, segundo aquela afirmação do Apóstolo: Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo". Sofro, portanto, com Jesus pelas almas; como Ele, por Ele e com Ele alcançarei para mim e muitíssimos outros pecadores a felicidade eterna". 

Jesus quisera ver, também nos seus seguidores os sentimentos que animavam o seu Coração. Daí dizer já no início de seu sermão da Montanha: "bem-aventurados os pobres; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos; sereis felizes quando vos insultarem e disserem todo mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (S. Mat. V, 10). E os Apóstolos, a exemplo de seu Mestre, regozijaram-se de terem sido condenados e flagelados pelo nome de Jesus (Atos V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (Atos XIV, 21). Eis o que diz S. Paulo: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria..." (Colossenses I, 11). Igualmente S. Tiago escreve aos fiéis: "Tomais, irmãos, por modelo no suportar os males e os trabalhos, e na paciência, os profetas, que falaram em nome do Senhor. Vede que proclamamos bem-aventurados aqueles que sofreram" (Tiago V, 10 e 11).   

Mesmo nas coisas da terra, nada se faz de belo ou de grande, sem sofrimento, sem esforço que custa, sem a perseverança que, na verdade, é uma longa paciência. Nas coisas de Deus, caríssimos, o sofrimento é ainda mais necessário, e muito mais fecundo, segundo o que Jesus disse aos seus discípulos depois de lhes profetizar os sofrimentos: "Alegrai-vos, porque será grande a vossa recompensa no Céu!".  O sofrimento aceito de boa vontade por amor a Jesus Crucificado, triunfa do pecado e do demônio, que reina no mundo pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Que é o pecado? Na verdade, não é outra coisa senão o desdém de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Portanto, a vacina contra o pecado é o sofrimento, as privações,  a renúncia de nós mesmos e do que agrada a nossa natureza. Assim vemos como a Providência divina permite com frequência, grandes males para tirar bens maiores: guerras que terminam suscitando heroicos sacrifícios, perseguições (como nos três primeiros séculos da Igreja) para produzir mártires e santos.

Os sofrimentos, as privações, as cruzes, tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, os triunfos fáceis, o repouso e as doçuras da vida boêmia a amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz vendo-a acrisolada pela dor. Concede-lhe, então, uma abundância de graças. O sofrimento alimenta e mantém o amor. Constata-se que quem pouco sofre, pouco ama.  Mas, por outro lado, Deus, que não se deixa vencer em generosidade, concede doçura às almas que sofrem por amor a Ele. Dizia São Paulo: "Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar os que estão em qualquer angústia, pelo conforto com que também nós somos confortados por Deus. Porque, à medida que crescem em nós os sofrimentos de Cristo, cresce também por Cristo a nossa consolação." (2 Cor. I, 3-5). Davi havia experimentado os mesmos efeitos da ternura divina: "À proporção das muitas dores que atormentaram o meu coração, tuas consolações (dizia ele a Deus Nosso Senhor) alegraram-me a alma" (Salmo 93, 19). Vemos como Deus, Pai de Bondade, recompensa as almas generosas. Fá-las amar a cruz e encontrar sempre uma grande paz, uma felicidade calma e sólida, e, muitas vezes, alegrias profundas, ali, onde os cristãos pouco generosos para com Deus, não encontram senão tristezas e desolação. Mesmo quando essas almas dedicadas estão imersas na dor, não desejariam deixar de sofrer, porque sentem que assim amam melhor ao Senhor.

Não poderia terminar este assunto sem antes transcrever algo do que escreveu São Luiz Grignon de Montfort em sua admirável "CARTA CIRCULAR AOS AMIGOS DA CRUZ":

NUNCA SE QUEIXAR DAS CRIATURAS

   "Nunca vos queixeis voluntariamente e entre murmurações, das criaturas de que Deus se serve para vos afligir. Distingui, para tanto, três espécies de queixas nos sofrimentos. - A primeira é involuntária e natural: é a do corpo que geme, suspira, se queixa, chora e se lamenta. Quando a alma está resignada com a vontade de Deus, em sua parte superior, não há nenhum pecado. -  A segunda é razoável; é quando alguém se queixa e descobre seu mal aos que podem e devem tratá-lo, como um superior ou o médico. Esta queixa pode ser imperfeita, quando for muito insistente; mas não é pecado.
   A terceira é criminosa: é quando alguém se queixa do próximo para se isentar do mal que ele nos faz sofrer, ou para se vingar; ou quando alguém se queixa da dor que sofre, consentindo nessa queixa e juntando a ela a impaciência e a murmuração. 

RECEBER SEMPRE A CRUZ COM RECONHECIMENTO

   "Nunca recebais nenhum cruz sem beijá-la humildemente e com reconhecimento; e quando Deus, todo bondade, vos houver favorecido com alguma cruz um pouco considerável, agradecei-Lhe de maneira especial e fazei-o agradecer por outros, a exemplo daquela pobre mulher, que, tendo perdido todos os seus bens em virtude de um processo injusto que lhe moveram, fez celebrar imediatamente uma Missa, com o dinheiro que lhe restava, a fim de agradecer a Deus a ventura que lhe era concedida.

CARREGAR CRUZES VOLUNTÁRIAS

   "Se quereis tornar-vos dignos de receber as cruzes que vos hão de vir sem vossa participação e que são as melhores, carregar outras voluntárias, seguindo os conselhos de um bom diretor. 
    Por exemplo: Tendes em casa algum móvel inútil pelo qual tendes afeição? Dai-o aos pobres, dizendo: quererias o supérfluo quando Jesus é tão pobre?

   Tendes horror a algum alimento? A algum ato de virtude? A algum mau odor? Provai-o, praticai-o, aspirai-o. Vencei-vos. 
    
   Amais alguém ou algum objeto um pouco terna e insistentemente demais? Ausentai-vos, privai-vos, afastai-vos do que vos lisonjeia.

   Tendes uma natureza muito inclinada a ver? A agir? A aparecer? A ir a algum lugar? Parai, calai, escondei-vos, desviai os olhos. 

    Odiais naturalmente algum objeto? Alguma pessoa? Procurai-a frequentemente. Dominai-vos. 

    Se sois verdadeiramente Amigos da Cruz, o amor, que é sempre industrioso, vos fará assim encontrar mil pequenas cruzes, com que vos enriquecereis insensivelmente, sem temor da vaidade, que se mistura tão frequentemente à paciência com que suportamos as cruzes muito visíveis; e porque fostes assim fiéis em pouca coisa, o Senhor vos estabelecerá em muito, como o prometeu (Mt. XXI, 21 e 23); isto é, em muitas graças que vos dará, em muitas cruzes que vos enviará, em muita glória que vos preparará". 


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TU QUE DESCANSO BUSCAS COM CUIDADO,
NESTE MAR DO MUNDO TEMPESTUOSO
NÃO ESPERES DE ACHAR NENHUM REPOUSO,
SENÃO EM CRISTO JESUS CRUCIFICADO.
                      Camões


domingo, 17 de setembro de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 15º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Gálatas 5, 25-26; 6,1-10.
                Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 7, 11-16.


  Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Naim da Galileia. O Lugar da antiga porta onde Jesus
ressuscitou o filho da viúva. A igreja (em cima) foi
construída para lembrar o milagre. Do alto do monte
Tabor pode-se ver ainda a aldeia de Naim.
   O Evangelho deste domingo conta-nos a ressurreição de um rapaz, filho único de uma viúva que morava numa aldeia chamada Naim. 
  Hoje os padres que seguem a Liturgia Tradicional leem no Breviário um trecho do sermão de Santo Agostinho sobre este Evangelho. Vamos dar um  resumo deste sermão.
   Os Santos Evangelistas contam-nos apenas três ressurreições operadas por Jesus: a de uma menina, filha de Jairo, chefe da Sinagoga; a do jovem filho único da viúva de Naim; e a de seu amigo Lázaro de Betânia, irmão de Marta e Maria Madalena. 
 O santo Doutor comenta as três ressurreições operadas por Jesus como símbolos das milhares ressurreições espirituais.
   Santo Agostinho diz: "Amplius est ressuscitare semper victurum, quam suscitare iterum moriturum". É mais importante ressuscitar para viver sempre, do que ressuscitar para morrer de novo.
   Vejamos que lição pretendeu dar-nos Jesus nos mortos que ressuscitou. 
   Ressuscitou a menina logo após ela ter morrido. Ainda estava no seu leito em casa: não havia saído o enterro. Jesus operou o milagre e ali mesmo entregou-a viva a seus pais. Ressuscitou o jovem filho da viúva de Naim. O enterro já havia saído da casa. Já estava fora, ás portas da cidade. Ressuscitou Lázaro, cujo cadáver não só já saíra de casa, mas estava encerrado no sepulcro há quatro dias, e, portanto, cheirava mal.
   Santo Agostinho explica as três sortes de pecadores: a defunta filha do chefe da Sinagoga é simbolo daqueles que têm o pecado no íntimo do coração, mas não o puseram ainda em obras. São os que consentem plenamente nos maus desejos graves, como no caso de adultério, sem contudo realizá-los. Estão mortos no interior do coração. No caso, há um morto, mas não saiu para fora. Às vezes, por efeito da palavra divina, como se Jesus em pessoa lhe dissesse: "Levanta-te" este pecador arrepende-se de seu consentimento ao mal e volta a respirar o ar de salvação e santidade. Este morto ressuscita dentro de casa; este coração revive na intimidade de sua consciência. Esta ressurreição da alma defunta, operada em segredo é simbolizada pela que teve lugar no recinto doméstico.
Explicação mística: o jovem defunto= o homem q, o pecado
mortal matou. A mãe desolada= a Santa Igreja, mãe terna,
santa e vigilante. Jesus toca o ataúde= a graça que toca
o coração pela compunção. Levanta-te= pela Confissão.
Começou a falar= para acusar-se na confissão e rezar
a penitência imposta pelo confessor. Jesus entregou-o
à sua mãe
= à Igreja, à Comunhão dos Santos pela
satisfação:oração, jejum, esmola. 
   Outros passam do consentimento à obra, por assim dizer, o morto saiu para fora. Sai à luz o que já estava na sombra. Também a este que passou a vias de fato, pondo o mal em obras também é ressuscitado pela voz de Nosso Senhor Jesus Cristo e volta à vida espiritual o pecador que se deixou tocar e comover pela palavra da verdade. Já ia se avançando para o abismo e para a morte eterna. Mas Jesus para-o, toca-o, restitui-lhe a vida da alma e entrega-o à sua Mãe, a Igreja. Destes pecadores que não só consentem no pecado no interior da consciência, mas o realizam com obras e logo se arrependem, é simbolo justamente a ressurreição do jovem filho da viúva de Naim.
   Finalmente, há aqueles que de mal em mal, chegam a enredar-se nos vícios, nos maus costumes, a tal ponto que não veem por força do mau hábito, a malícia das suas ações e até se gabam de suas más obras. Assim, diz Santo Agostinho, os habitantes de Sodoma. Tão grande era ali o império do nefando costume, que a perversão se lhes parecia honestidade e mais digno de repreensão o censor do que o malfeitor. "Viestes, dizem os habitantes de Sodoma a Lot, para morar aqui, não para nos dar leis".(que diria Santo Agostinho hoje quando se fazem leis para aprovar e defender os sodomitas?!). Eles, oprimidos pelos costumes malignos estão como que sepultados. Não só sepultados, mas como Lázaro no sepulcro, já cheiram mal. A pedra que cerrava o sepulcro de Lázaro significava a tirania do hábito, que subjuga a alma e não a deixa nem levantar-se nem respirar.
   Diz-se de Lázaro que ele era um defunto de quatro dias (quatriduanus est). E, em verdade, a este mau hábito, que chamamos vício, chega-se como que por quatro etapas: primeira: uma suave chamada do prazer à porta do coração; segunda: o consentimento; terceira: a obra; quarta: o mau hábito. Há aqueles que repelem as coisas ilícitas logo que saem de seus pensamentos, para nem sequer sentir o prazer. Há aqueles que, sentindo o prazer, não consentem nele; ainda isto não é a morte, senão uma espécie de início de morte; porém, se ao deleite se junta o consentimento, vem a obra; e esta se torna costume. Neste caso, a gravidade é extrema. Neste sentido podemos dizer: esta alma está morta há tempo e cheira mal. Chega, então, Nosso Senhor, para o qual tudo é fácil; mas, como para dar a entender quão difícil é aqui a ressurreição, Ele, na ressurreição de Lázaro, suspira fortemente, e fala bem alto: "Lázaro,sai para fora deste sepulcro!" Sem embargo, à esta voz possante do Senhor, rompem-se as cadeias da tirania da sepultura, treme o poder da morte, e Lázaro foi devolvido à vida. Irmãos, observai as circunstâncias desta ressurreição: saiu vivo do sepulcro, mas não podia andar. Diz, então, Nosso Senhor aos discípulos: "Desatai-o e deixai-o ir". Jesus o ressuscitou da morte; os discípulos soltaram as ligaduras que impediam a Lázaro de andar. Reconhecei que a majestade divina se reserva certa coisa nesta ressurreição. A um consuetudinário (=pessoa dominada pelo vício) se lhe dizem duramente as palavras da verdade; porém, quantos não as ouvem? Depois das reprimendas, fica o pecador sozinho com os seus pensamentos e estes falam-lhe da má vida que leva e o péssimo hábito que o oprime. Enojado de si mesmo, resolve mudar de vida. Eis a ressurreição: ressuscitam, pois, quando começam a ser-lhes odiosos os procederes de antes; embora, porém, voltados à vida, não podem andar; as ligaduras de suas repetidas culpas impendem-nos. É mister, por isso, que ao ressuscitado se lhe desate e deixe caminhar; função esta encomendada pelo Senhor aos discípulos quando lhes disse:"O que desatardes na terra, será desatado no céu".
   E Santo Agostinho termina o sermão mostrando a necessidade da pronta ressurreição espiritual: "Estas reflexões, oh! caríssimos, devem persuadir aos vivos a continuar vivendo, e aos que não vivem, a recobrar a vida. Se o pecado concebido no coração não saiu ainda para fora, haja arrependimento, corrija-se o pensamento, ressuscite o morto na intimidade de sua consciência. Se executou a ideia, tampouco desespere; se o morto não ressuscitou dentro, ressuscite fora. Arrependa-se de sua ação, reviva em seguida, não baixe ao profundo da sepultura, não caia em cima a lousa do mau hábito. E se, porventura, me está ouvindo quem jaz oprimido pela fria e dura pedra, quem já traz sobre si o peso do costume e cheira mal, como morto de quatro dias, tampouco este deve perder a esperança; mui baixo está sepultado, porém, Cristo está em cima. Ele pode desfazer com a força de sua voz as lousas do sepulcro; Ele pode devolver-lhe a vida da alma; Ele os deixará nas mãos de seus discípulos para que o desatem. Façam também penitência estes mortos. Quando Lázaro ressuscitou depois de quatro dias, nada conservou da infecção primeira. Assim, pois, os vivos continuem vivendo, e os mortos de qualquer destas mortes, ressuscitem logo. Amém!
   
   
  
    

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

FESTA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

 
 Jesus Cristo, Nosso Senhor, associou sua Mãe Santíssima a todas as suas glórias e grandezas e por isso fê-la também companheira de todos os seus sofrimentos. Jesus quis que Sua Mãe fosse Rainha dos Mártires. Belíssima gema faltaria na sua coroa se não tivesse a dor. Foi Rainha da dor e do martírio. E seu martírio durou toda a sua vida. Sabia-o ela muito bem pelas santas profecias do Velho Testamento a respeito do Messias, que era o seu Filho. Quanto sofreu com a ingratidão, a traição, o abandono, o desamor de que foi alvo o seu Filho: Belém, Egito, Nazaré, Jerusalém, o presépio e Calvário, o Templo, o palácio de Herodes e de Pilatos, são todos lugares onde o seu coração se despedaçou tantas vezes!

   Primeiro, consideremos as dores de Maria Santíssima na sua parte natural e humana e, depois na sua parte divina e sobrenatural.

   1º - Dor humana e natural: A dor corresponde ao amor. Em outras palavras: onde há mais amor, maior a dor. O amor de Maria Santíssima era um amor de Mãe. Caríssimos, com isto está tudo dito! Amor de mãe é o amor mais puro, mais nobre, menos egoísta que na terra existe. Por isso Deus não quis que tivéssemos mais do que uma; ela só basta para encher toda a nossa existência de carinhos inefáveis; de beijos terníssimos, de um amor que enche plenamente o nosso coração. Como ama uma mãe! E como amaria a Santíssima Virgem a seu Filho! Basta pensarmos que Deus pôde preparar para si a sua Mãe. Empregou com certeza todo seu amor e todo seu poder para preparar um coração que amasse sem limite o Filho de Deus que era também o Seu Filho! Daí, caríssimos, podemos imaginar qual não seria a dor de Maria Santíssima na perda de seu Filho, único, o melhor de todos, que amava a sua mãe como nenhum filho amou a sua. E Jesus morreu não por uma enfermidade, por um acidente infeliz, mas por traição, ingratidão, enorme e horrível injustiça e que tudo isto foi realizado no meio de atrocíssimos tormentos e na presença desta mãe amorosíssima! 

Dor divina e sobrenatural: Caríssimos, se já foi difícil, para não dizer impossível, formarmos uma ideia inteiramente adequada da dor natural e humana de Nossa Senhora por ter presenciado as dores e morte atrocíssimas de seu divino Filho, como poderemos avaliar devidamente sua dor sobrenatural? Primeiro, quem conheceu, como Maria Santíssima, que o seu Filho era Deus? E quem conheceu Deus como ela? Sobretudo quem O amou como ela? Como sentiria, portanto, as ofensas, os insultos, os tormentos que os homens deram a Jesus? Se, como Mãe, todas as dores de Jesus, se repercutiam no seu coração, que seria como Mãe de Deus? Os mártires sofriam com alegria abraçados ao crucifixo. Os penitentes e os eremitas são alentados pela vista da imagem de Jesus Crucificado. Para Maria, porém, a vista de Jesus Crucificado, era precisamente o seu maior tormento. O mesmo que ia consolar a outros, era o verdugo do coração da Mãe. As dores de Maria Santíssima, não foram físicas, mas por isso mesmo, foi mais intensa a sua dor por ser toda ela interna, puramente espiritual!

   Caríssimos, não poderia terminar sem destacar um detalhe: é que Maria Santíssima fez a vontade do Pai Eterno. Deus Pai queria que Ela oferecesse o seu Filho em sacrifício para salvar os seus outros filhos que somos nós. E ela ofereceu o seu Coração Imaculado para ser transpassado de dor, para que justamente desta ferida aberta nascêssemos todos nós, os filhos de sua dor!. Para nos salvar, Deus não perdoou o seu próprio Filho. Também Maria Santíssima fez o mesmo! E assim ela esteve ao pé da cruz, morta de dor, desejando a morte de seu Filho Jesus, para dar-nos a vida eterna. Quanto amor! Mas também quanta dor! Ah! caríssimos, quanto custamos a Maria Santíssima ser filhos seus! Então, amemo-la mesmo à custa dos nossos sofrimentos e, se for da vontade de Deus, até da nossa própria vida. Quem não amar a Jesus, seja anátema; e quem não ama a Maria Santíssima é porque não ama a Jesus. 

OS SOFRIMENTOS


"Então um dos anciãos, tomando a palavra, disse-me: Estes que estão revestidos de vestimentas brancas, quem são? e donde vieram? Respondi-lhe: Meu Senhor, tu o sabes. E ele disse-me: estes são aqueles que vieram da grande tribulação, lavaram os seus vestidos e os embranqueceram no sangue do Cordeiro" (Apocalipse VII, 13 e 14).

Deus o sumo Bem, criou o homem para ser feliz, já neste mundo. E de onde vêm os sofrimentos? A dor é filha do pecado. A finalidade, pois, dos sofrimentos é primeiramente reparar a honra divina ultrajada pelo pecado, e, portanto é uma punição. Tem, outrossim, como finalidade, destruir as consequentes corrupções que vieram do pecado. Na verdade, só  fora introduzida a dor no mundo, em seguida ao pecado. O pecado desmoronou toda a ordem da natureza. Agora, as rosas que tanto nos encantam, estão cercadas de espinhos, aptos a ferir quem as quiser colher.

Aqui, caríssimos, sob o termo "SOFRIMENTOS",  queremos incluir também os interiores que, por vezes, ficam ocultos no mais íntimo da alma, mas não menos pungentes que os exteriores, e até mais do que estes! Pois bem, o fogo da dor visa igualmente punir o pecado e, ao mesmo tempo, depurar a alma dessas impurezas. Deus quer consumir em nós o que Lhe ofende a pureza do olhar, e, sobre as cinzas dos nossos defeitos, fazer germinar belas virtudes. "Contraria contrariis curantur": os nossos defeitos serão curados pelas virtudes contrárias a eles. A sensualidade será destruída pela dor física; a avareza, pela perda ou diminuição dos bens; o orgulho, pelos desprezos, pelas críticas, ou até pelas calúnias; o egoísmo, pelo abandono, pela indiferença do próximo etc.. Assim, naturalmente, a dor é terrivelmente pungente e viva nas almas cheias ainda de imperfeições. Quanto às almas já mais purificadas e livres de apegos terrenos, e, consequentemente cheias de amor de Deus, estão bem dispostas a tudo aceitar de suas mãos paternais aquilo que outrora lhes fazia sofrer. Não quero dizer que não sofram tais almas, mas que nelas a dor é geralmente suscitada por causas mais nobres e assim sofrem pelas ofensas feitas a Deus. Demais, a esses sofrimentos une-se uma paz cheia de doçura, uma resignação total que alivia, que torna amáveis as próprias dores.

Já que em Deus a Justiça e a Misericórdia se osculam e ambas andam de perto, depois do pecado, a dor não é somente fruto da Justiça divina, mas também de sua misericórdia: Deus, enviando a dor aos homens, se esses souberem aproveitar, podem dela  auferir inapreciáveis vantagens. Vamos, pois, com a graça de Deus, considerar aqui os grandes benefícios dos sofrimentos:

1º - Desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu e torná-lo apto a receber a graça divina:

Sem o sofrimento preparado pela Providência, ninguém seria bastante corajoso para aplicar a si mesmo o ferro e o fogo que suprimem e consomem os apegos imperfeitos, as afeições puramente naturais, esses inúmeros laços que encadeiam as almas, impedindo-as de voar para as alturas da perfeição que leva ao Céu. Assim, o Divino Espírito Santo, através de cruzes e tribulações procura desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu, e torná-lo apto a receber a graça divina. Deus, que é infinitamente bondoso, está sempre disposto a derramar com profusão Suas graças entre os homens, as quais são semelhantes a um líquido sumamente precioso. Deus tem um reservatório inesgotável em que conserva suas graças e bênçãos: é a sua infinita liberalidade. Nossos corações são como vasilhas nas quais Deus deseja derramar as torrentes de suas graças. Podemos, comparando, dizer que três são as classes de pessoas que se aproximam de Deus no intuito de receber em seus corações o líquido preciosíssimo de suas graças: as primeiras vão a Nosso Senhor com o coração verdadeiramente desprendido, ou seja, vazio de todas as coisas terrenas. Deus, então, enche estes corações de Suas graças. Outras pessoas apresentam corações quem têm uma boa vontade, mas entulhados de afetos e apegos ao mundo, isto é, com vaidade, vanglória, comodidade, caprichos e vontade própria. Tais corações não possuem senão pequeno espaço para receber e conservar a graça divina. Deus só pode derramar neles muito pouco. Finalmente, a terceira espécie de pessoas são aqueles que apresentam a Deus o coração cheio inteiramente das coisas deste mundo, completamente mundanizado e terreno. Tais pessoas nada podem receber. Jesus quer comunicar-lhes Suas graças, mas não há lugar para Ele no albergue de seus corações.

2º - Servem para nossa santificação, devem ser meios para nos unir mais intimamente a Deus:

Sabemos que a essência da santidade consiste na mais perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus. Deus tem todo direito de exigir de nós, Suas criaturas, nos submetamos e subordinemos, sem restrição, à Sua santíssima vontade. Mas esta submissão em todas as coisas torna-se extremamente difícil. Temos mais facilidade em renunciar as coisas que temos, mas grande dificuldade em renunciar o que somos, ou seja, à nossa vontade. Pois bem! Nada mais próprio para submeter a nossa vontade à vontade divina do que as provações e contrariedades que por permissão de Deus vêm sobre nós. Estas provações são quase sempre contra a nossa vontade e o nosso gosto. E também constatamos que em tempo de sofrimentos não podemos compreender que a cruz nos possa ser proveitosa; de modo que, para não sucumbir debaixo do seu peso, devemos empregar todas as energias da nossa fé e todas as forças da nossa vontade para nos curvarmos humildemente e beijarmos a mão que nos fere, dizendo com toda sinceridade: "Senhor, seja feita a vossa vontade". Ademais, se na escola do sofrimento chegarmos a ponto de aceitar a cruz inteiramente resignados, isso será para nós um meio preciosíssimo de santificação. Então o sofrimento nos elevará mais alto na virtude e santidade em um só dia, do que muitas semanas e, talvez meses, quando tudo nos corria às mil maravilhas, sem cruz nem dores quer externas quer internas.

3º - As cruzes e os sofrimentos nos garantem um grau elevado na eterna glória:

São João Evangelista escreve no Apocalipse que um dia viu o céu aberto e, contemplando os bem-aventurados, chamou-lhe a atenção uma multidão que se distinguia entre os demais, por sua beleza e glória. "Então um dos anciãos falou e me disse: quem são estes que estão trajados de vestes alvas? e donde vieram? Eu lhe respondi: Senhor meu, tu o sabes. E volveu-me: Estes são os que vieram de uma grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as puseram alvas com o Sangue do Cordeiro" (Apoc. VII, 13 e 14). Eis a glória e recompensa dos sofrimentos suportados com paciência. Todas as vezes que aceitamos sem revolta uma cruz, por amor de Jesus, oferecemos um sacrifício a Deus; e todo sacrifício feito em estado de graça santificante aumenta também essa graça. Ora, quanto maior, for em nós a graça santificante, tanto maior também a glória eterna no Céu. Portanto, toda cruz que alegremente abraçamos e suportamos em união com o divino Salvador aumenta a nossa glória celeste.

Caríssimos, quando as ondas revoltosas de um mar de sofrimentos nos assaltarem, para onde devemos correr? Para diante de Jesus Crucificado, e, melhor ainda, do Sacrário. O amorosíssimo Salvador ou vos tirará a cruz ou, o que muito melhor, fortalecerá os vossos fracos ombros, para que possam carregá-la com alegria e amor. Na verdade, a cruz é a nossa esperança porque será a chave de ouro que nos abrirá as portas do Céu.

"Na cruz está a salvação; na cruz, a vida; na cruz, amparo contra os inimigos; na cruz, a abundância da divina suavidade; na cruz, a fortaleza da alma; na cruz, o gozo do coração; na cruz, o compêndio das virtudes; na cruz, a perfeição e santidade" (Livro da Imitação de Cristo).

Não poderia terminar este artigo sobre o sofrimento sem salientar um detalhe importantíssimo: a dor é a pedra de toque das virtudes. A provação ilumina a alma sincera, desvenda-lhe o mal oculto nas dobras de seu coração. Faz mais, porém, que revelar o mal, ataca-o, contanto que saibamos tirar proveito de sua ação benfazeja. A dor, humilhando-nos, torna-nos melhores. Faz-nos sentir mais vivamente nossa incapacidade e nosso nada. Quantas vezes a dor aproximou de Deus homens que a prosperidade d'Ele afastara? Abençoado o sofrimento que leva o filho pródigo ao lar paterno! E as almas já fervorosas são ainda mais santificadas pelos sofrimentos. No sofrimento, a fé se ilumina, a esperança se torna ardente e inabalável, o amor se fortifica e se dilata. E muitas outras virtudes acompanham estas três virtudes teologais: a paciência, a renúncia, a suavidade etc..

Senhor Jesus Crucificado, fazei que eu leve a cruz de boa vontade para que ela possa me conduzir ao termo desejado que é a Pátria do Repouso Eterno! Amém!


domingo, 10 de setembro de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 14º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo ao Gálatas 5, 16-24.
                   Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 6, 24-35


Uma paisagem da Palestina."Olhai para as aves do céu..."
   Evangelho: Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou há de aborrecer a um e amar o outro, ou há de acomodar-se a este e desprezar aquele. Não podeis servir a Deus e às Riquezas. Por isso vos digo: não vos inquieteis por vossa vida, com o que comereis, nem por vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que a vestimenta? Olhai para as aves do céu. Elas não semeiam, nem colhem, nem fazem provisão nos celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós pode com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado sequer a sua estatura? E pela vestimenta, porque vos inquietais? Considerai como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fiam. Entretanto, digo-vos que nem Salomão, com toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, que não fará por vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Os pagãos é que se preocupam com essas coisas. Bem sabe vosso Pai que tendes necessidade de tudo isso. Procurai, antes de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo isso vos será dado por acréscimo". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo enuncia um princípio geral: Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Evidentemente trata-se de dois senhores de sentimentos e vontades opostas, incompatíveis entre si. Por isso, seguir um, significa forçosamente rejeitar o outro; odiar um é amar o outro. E quais sejam esses dois senhores, Jesus esclarece-o logo: "Não podeis servir a Deus e a Riqueza". No texto original está a palavra Mammona que os comentadores traduzem pela expressão: Dinheiro ou Riquezas. Mammon era, com efeito, o deus das riquezas, entre os sírios. Mammon está, pois, aqui como um deus falso oposto ao Deus verdadeiro. Na verdade, o dinheiro é o deus dos avarentos. São Paulo dizia que o estômago é o deus dos inimigos da cruz de Cristo, os gulosos: "Quorum deus, venter est". Para os libidinosos o seu deus é o prazer carnal; para os soberbos é o seu "eu". A ele, os mundanos sacrificam tudo: trabalhos, sofrimentos, pesares, e... até a vida eterna. 
A morte do mau rico: As riquezas são um perigo e,
quando mal empregadas, levam aos tormentos eternos.
O pobre Lázaro morreu e foi conduzido ao Seio de
Abraão, ou seja, ao Céu. Lembremo-nos que Abraão
possuía muitas riquezas, mas não tinha nenhum
apego a elas e empregou-as para o bem. 
   O Divino Salvador condena o amor das riquezas, esse amor desordenado que acorrenta o coração do homem, fazendo-o esquecer os interesses da sua alma. Mas não condena o justo cuidado que deve ter todo homem de prover com o trabalho a sua própria subsistência, e a daqueles que lhe foram confiados. O Divino Mestre não disse: - não podeis servir a Deus, e ser ricos; mas não podeis servir (ao mesmo tempo) a Deus e ao Dinheiro. Há, com efeito, muitos santos que , sendo ricos, serviram-se santamente dos bens da fortuna. Foram donos de seus bens, e não escravos deles.
   "Não vos inquieteis dizendo: Que havemos de comer, ou que havemos de beber, ou com que havemos de nos vestir? Porque os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas, mas vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isto". Quanto maior, quanto mais urgente é a necessidade, tanto mais sólida deve ser a nossa confiança em Deus, porque Ele nos prometeu o necessário, não o supérfluo. 
   Depois de apresentar várias razões para confiarmos na Providência Divina, Nosso Senhor Jesus Cristo tira a conclusão: "Procurai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça; e todas estas coisas se vos darão por acréscimo".  Quer dizer, antes de tudo, acima de tudo, procurai o reino de Deus, empregai toda a atenção, solicitude e vigilância de que sois capazes na obtenção dos bens celestes, da felicidade eterna. E que significa  - e a sua justiça? Quer dizer os meios que conduzem à salvação, à vida eterna, a saber, a graça de Deus, as virtudes cristãs, as boas obras, numa palavra, tudo o que nos torne justos e santos diante de Deus, seus verdadeiros servos e seus filhos muito amados. E que significam as palavras: e o resto vos será dado por acréscimo? Quer dizer o seguinte: se vós fordes fiéis em bem servir a  Deus, em Lhe agradar em tudo, Ele, como bom Pai, tomará a seu cargo dar-vos tudo o que, na terra, é necessário à vida do corpo. "Fui moço, dizia Davi, e agora sou velho, e nunca vi o justo abandonado nem os seus filhos mendigando o pão".
Uma paisagem da Palestina. "Considerai como crescem
os lírios do campo..."
   Dizendo que os bens temporais nos serão dados por acréscimo, Jesus nos faz entender que eles não fazem parte da recompensa que merecemos pelas nossas boas obras, cuja medida nos será dada no céu. Esses bens constituem, apenas, um dom liberalmente acrescentado à medida cheia e completa  que havemos de ter na Pátria celestial.
    Antes de terminar quero já responder a uma possível pergunta: Sendo muitos os vícios capitais, por que Nosso Senhor Jesus Cristo fala só da avareza, ao menos aqui, nesta oportunidade? Por vários motivos: Primeiramente, o próprio Divino Espírito Santo diz na Bíblia Sagrada: "A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desencaminharam da fé e se enredaram em muitas aflições" (1Tim. 6, 10). E ainda: "Não há coisa mais iníqua do que aquele que ama o dinheiro, porque venderia até a sua mesma alma, visto que se despojou em vida das próprias entranhas" (Eclesiástico 10, 10). A outra razão é que: enquanto os outros vícios soem diminuir com a idade, a avareza cresce. E ainda podemos dizer que este vício capital, mais do que os demais, engana com pretextos: a necessidade de se prevenir para o futuro, garantir o sustento dos filhos também para o futuro; é preciso trabalhar etc. A avareza leva muitos a perder a fé, e leva à impenitência final. Vede o exemplo de Judas Iscariotes. Os demais vícios muitas vezes aparecem odiosos e humilham. A avareza alimenta e facilita os demais vícios. Por isso vemos que é por aí que o demônio começa. É o caminho mais fácil que o inimigo de nossa alma encontra para perdê-la. 
  Infelizmente, não vemos católicos, alguns que se dizem praticantes e comungam frequentemente, e, no entanto, cometem injustiças, têm ódio daqueles que os lesaram nos seus haveres? Quantos ódios nas famílias por causa de heranças! É coisa muito triste!!! 
    Ó Jesus, concedei-nos a graça de procurar, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, para que, usando retamente dos bens da terra, cheguemos, pela prática das virtudes, ao Reino dos Céus. Amém!