SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

20 de janeiro: São Sebastião - Mártir (+ 287)

Extraído do Livro "NA LUZ PERPÉTUA", autor: Pe. João Batista Lehmann, S. V. D.

   Nascido em Narbone, na Gália, recebeu Sebastião a educação em Milão, terra natal de sua mãe. Cristão, nunca se envergonhou de sua religião. Vendo as grandes tribulações que os cristãos sofriam, as perseguições atrozes de que eram vítimas, alistou-se nas legiões do imperador, com a intenção de mitigar os sofrimentos dos seus irmãos em Cristo. A figura imponente, a prudência e bravura do jovem tanto agradaram ao imperador, que o nomeou comandante da guarda imperial. Nesta posição elevada, Sebastião se tornou o grande benfeitor dos cristãos encarcerados. Tendo entrada franca em todas as prisões, lá ia visitar as pobres vítimas do rancor e ódio pagão, e com palavras e dádivas consolava e animava os candidatos ao martírio. Dois irmãos, Marco e Marceliano, não se acharam com coragem de afrontar os horrores da tortura e, aconselhados pelos pais e parentes, resolveram-se a sacrificar aos deuses. Mal teve ciência disto, Sebastião procurou-os e com sua palavra cheia de fé, reanimou os desfalecidos e vacilantes, levando-os a perseverar na religião e antes sacrificar tudo que negar a fé. Profunda comoção apoderou-se de todos que assistiram a esta cena. Marco e Marcelino cobraram ânimo e prometeram a Sebastião fidelidade na fé até à morte. Uma das pessoas presentes era Zoé, esposa do funcionário imperial Nicostrato. Esta pobre mulher estava muda há seis anos. Impressionada pelo que presenciara, prostrou-se aos pés de Sebastião, procurando por sinais interpretar o que lhe desejava dizer. Sebastião fez o sinal da Cruz sobre ela e imediatamente Zoé recuperou o uso da língua. Ela e o marido converteram-se ao Cristianismo. Este exemplo foi imitado pelos pais de Marco e Marceliano, pelo carcereiro Cláudio e mais dezesseis pessoas. Todos receberam o santo Batismo das mãos do sacerdote Policarpo, na casa de Nicostrato.
   A conversão destas pessoas, em circunstâncias tão extraordinárias, chamou a atenção do prefeito de Roma, Cromâncio. Sofrendo horrivelmente de reumatismo, e sabendo que o pai de Marco e Marceliano pelo Batismo tinha ficado curado do mesmo mal, manifestou o desejo de conhecer a religião cristã. Sebastião deu-lhe as instruções necessárias, batizou-o, com seu filho, Tibúrcio e curou-o da doença. Tão grato ficou Cromâncio, que pôs em liberdade os cristãos encarcerados seus escravos, e renunciou ao cargo de prefeito. Retiraram-se da cidade para sua casa de campo, deu agasalho aos cristãos, acossados pela perseguição. 
   Esta recrudesceu de uma maneira assustadora. O santo Papa Caio aconselhou os cristãos que se sentiam com pouco ânimo de sofrer o martírio, que se retirassem da cidade antes da tempestade se desencadear. O mesmo conselho deu a Sebastião. Este, porém, nada disto quis saber e declarou preferir ficar em Roma, para animar e defender os irmãos nas grandes aflições. "Pois bem, meu filho - disse-lhe o Papa - fica na arena da luta, representando o defensor da Igreja de Cristo, sob o título de capitão imperial".
   Muito tempo não levou, e Diocleciano soube, por uns cristãos apóstatas, que Sebastião era cristão, e grandes serviços prestava aos outros cristãos encarcerados. Diocleciano repreendeu-o, e apelou para os sentimentos de honra de capitão, pois que tão mal agradecia os benefícios e distinções recebidas. Sebastião com respeito, mas também com franqueza se defendeu, apresentando os motivos que o determinaram a seguir a religião cristã e a socorrer os pobres perseguidos. O imperador, porém, insistiu na exigência, recorrendo a promessas, elogios e ameaças, para conseguir de Sebastião que abandonasse a religião de Cristo. Todas as argumentações e tentativas de Diocleciano esbarraram de encontro à vontade inflexível do militar. Sem mais delongas, deu ordem aos soldados que amarrassem os chefe a uma árvore e o asseteassem. A ordem foi cumprida imediatamente. Os soldados despiram-no, ataram-no a uma árvore e atiraram-lhe setas em tanta quantidade quanto acharam necessárias, para matar um homem e deixaram a vítima neste mísero estado, supondo-o morto.
  Alta noite chegou-se Irene, mulher do mártir Castulo, ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com grande admiração, encontrou-o ainda com vida. Sem demora deu providências para que o mártir fosse levado para sua casa, onde o tratou com todo o desvelo.
   Apenas restabelecido, o herói procurou o imperador e, sem pedir audiência, apresentou-se-lhe, acusando-o de grande injustiça, por condenar inocentes, como eram os cristãos, a sofrer e morrer. Diocleciano, a princípio, não sabia o que pensar e dizer pois tinha por certo que Sebastião não mais existia entre os vivos. Perguntando-lhe quem era, Sebastião disse-lhe: "Sou Sebastião e do fato de eu estar vivo, devias concluir que é poderoso o Deus, a quem adoro, e que não fazes bem em perseguir-lhe os servos". Diocleciano enfureceu-se com esta resposta e ordenou aos soldados que levassem a Sebastião ao foro e lá, na presença de todo o povo, o matassem com paus e bolas de chumbo. Os algozes cumpriram também esta ordem e, para subtrair o cadáver à veneração dos cristãos, atiraram-no à cloaca máxima. Uma piedosa mulher, Santa Luciana, porém, achou-o, tirou-o da imundície, e sepultou-o aos pés de São Pedro e São Paulo. Assim aconteceu em 287. Mais tarde, no ano de 680, as relíquias foram solenemente transportadas para uma basílica, construída por Constantino. Naquela ocasião grassava em Roma a peste, que vitimou muita gente. A terrível epidemia desapareceu na hora daquela transladação, e esta é a razão por que os cristãos veneram em São Sebastião o grande padroeiro contra peste. Em outras ocasiões se verificou o mesmo fato; assim no ano de 1575 em Milão, e 1599 em Lisboa, ficando estas duas cidades livres da peste pela intercessão do glorioso mártir São Sebastião.

REFLEXÕES
   São Sebastião vivia no meio de pagãos. Soldados e oficiais do exército romano eram sua companhia cotidiana. Inabalável na fé, não se deixava influir pelas opiniões, sarcasmos, críticas e calúnias daqueles que não eram cristãos. O mundo contemporâneo tem muitos sinais característicos do paganismo. Difícil é para um católico que pela posição social deve estar em contato contínuo com os pagãos modernos, conservar-se firme na fé e nos bons costumes. Muitos transigem, não achando força bastante para resistir às tentações perturbadoras, ou para enfrentar opiniões e ataques contra a religião. Preferem curvar-se, intimidados pelo respeito humano. Não imites este exemplo. Se todos forem adorar os bezerros de ouro, deves ir a Jerusalém, para adorar teu Deus, como fez o piedoso Tobias, que forçosamente havia de viver entre os infiéis. Se os outros querem trilhar o caminho do pecado, fica firme na prática da virtude, ou dize com o virtuoso Matatias: "Ainda que todas as gente obedeçam ao rei Antíoco, de tal sorte que cada um se aparte do jugo da lei do país e consinta nos mandamentos do rei: eu e meus filhos e meus irmãos obedeceremos à lei do nosso país. Deus de tal sorte nos defenda: nenhuma conveniência temos em deixar a lei, e as ordenanças de Deus". (1Macabeus, II, 19). 

domingo, 19 de janeiro de 2020

2º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA

   Leituras: Epístola de São Paulo aos Romanos, 12, 6-16; 
                   Evangelho segundo São João, 2, 1-11.

 
"Naquele tempo, celebraram-se umas bodas em Caná de Galileia, e achava-se ali a Mãe de Jesus. E também Jesus foi convidado, com seus discípulos, para as bodas. Faltando o vinho, a Mãe de Jesus disse-lhe: Eles não têm mais vinho. Respondeu-lhe Jesus: Senhora, que nos importa isso, a Mim e a ti? Ainda não chegou a minha hora. Disse sua Mãe aos servidores: Fazei tudo quanto Ele vos disser. Ora, havia ali seis talhas de pedra destinadas às purificações usadas entre os judeus, cada uma das quais comportando duas ou três medidas [cerca de 40 litros]. Disse-lhe Jesus: enchei de água estas talhas. E encheram-nas até às bordas. E Jesus disse-lhes: Tirai agora e levai ao mestre-sala. E levaram. Assim que o mestre-sala provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era, embora o soubessem os serventes que haviam tirado a água, chamou o mestre-sala o esposo, e disse-lhe: Todo homem põe primeiro o bom vinho, e quando já se tem bebido, põe então o inferior; mas tu guardaste o bom vinho até agora. Este foi o primeiro dos milagres que Jesus fez em Caná de Galileia; e manifestou sua glória e seus discípulos creram n'Ele". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Atual Caná da Galileia
   A Liturgia da Santa Madre Igreja começa a falar da vida pública de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o primeiro milagre de Jesus, que se deu numas bodas em Caná, pequena aldeia que fica a cerca de 15 km de Nazaré.
   A primeira coisa que o Santo Evangelista ressalta é que nestas bodas se achavam presentes Maria Santíssima e seu divino Filho Jesus acompanhado de alguns discípulos.
   Jesus queria honrar com a sua presença o casamento, futuro sacramento, que purificará a fonte da vida e fundará a família cristã; e ensinar-nos que ele vem de Deus, é bom, digno de respeito e santo; e glorificá-lo com o seu primeiro milagre.
   Infelizmente, quantos cristãos, ou que se dizem tais, repelem a presença de Jesus, recusam a intervenção de Maria Santíssima, no ato aliás tão solene do casamento, e que tantas graças requer para completa felicidade da família! Todo casamento contraído fora da presença de Jesus, e sem a intervenção da sua Igreja, é não somente escandaloso e infeliz, mas ainda fonte perene de inúmeros pecados.

   Felizes os cristãos que têm o cuidado de convidar Jesus e Maria para as suas bodas, preparando-as e celebrando-as em santas disposições! Serão cumulados das graças e das bênçãos mais abundantes. Mas, ai! quantos consideram o matrimônio como um negócio inteiramente humano; quantas más intenções, imodéstias, quantos pecados lamentáveis que precedem, acompanham e seguem este ato tão importante da sua vida! É por isso que são tão poucos os casamentos verdadeiramente abençoados por Deus, e que uma maldição divina parece pesar sobre tantas famílias.
   Caríssimos e amados irmãos, consideremos agora Maria Santíssima nestas santas bodas de Caná da Galiléia. Mãe solícita,  percebe que o vinho vai faltar; e na sua bondade compassiva quer poupar aos esposos a vergonha e aos convivas a privação. Ela sabe que seu filho é o Filho de Deus, e assim cheia de fé, dirige-se a Jesus, cujo poder conhece. Expõe o embaraço iminente daqueles noivos e daquela pobre gente Àquele cuja bondade iguala o poder: "Eles não têm vinho". Palavra, ou antes prece misteriosa, cheia de eficácia sobre o Coração de Jesus, que, em atenção a sua Mãe, vai antecipar a hora dos seus milagres.
   Jesus entende que sua Mãe confia que Ele sendo o Messias, o Filho de Deus, pode fazer um milagre. E Jesus vai fazê-lo. Deixa claro, no entanto, que ainda não era a hora determinada pelo Seu Pai para dar início aos seus milagres. Disse isto para ressaltar o poder de intercessão de Sua Mãe Santíssima. Mas não havia dito no templo entre os doutores que Ele devia obedecer a Seu Pai, ocupando-se em fazer as coisas em obediência a Ele? Sim. Se Jesus antecipa a sua hora de começar a fazer milagres é porque o Seu Pai também determinou que Ele não negasse nada a Sua Mãe. Aqui, portanto, estava igualmente obedecendo ao Seu Pai. É da vontade de Deus que Jesus ceda sempre à intercessão de Maria Santíssima.
   Esta explicação se harmoniza, não somente com outras passagens similares da Escritura, mas ainda com o Espírito de São João, cujo fim era provar a Divindade de Jesus. Além disso o procedimento da Santíssima Virgem mandando aos servos que obedecessem a Jesus, não obstante sua resposta aparentemente negativa, confirma esta explicação que, aliás, só encontra oposição na má fé e ignorância de certos hereges.
   Que felicidade para os esposos de Caná o terem convidado Maria! Ela começa, então, em favor deles, aquele inefável mistério de intercessão, cujos resultados são tão proveitosos para nós, e que, de resto, é tão conforme ao plano divino, segundo a feliz expressão de São Bernardo: "Assim foi da vontade de Deus que tudo recebêssemos através de Maria Santíssima".
   Qual de nós hesitará, pois, em pôr sua confiança em Maria Santíssima e em implorá-la em todas as necessidades? Se ela intercedeu com tanta bondade por estes esposos, sem ter sido rogada, que não fará por aqueles seus filhos que recorrem a ela com tanta fé e amor?
   Ó Maria, boa e terna Mãe, vede a minha profunda miséria espiritual e dizei por mim a Jesus: "Ele não tem vinho", só tem a água da tibieza. Jesus que nada pode recusar-nos, fará em meu favor um novo milagre; dar-me-á graça e perdão, luz e força, mudará a minha água de tibieza no vinho delicioso da devoção e amor!
   Outro resultado deste primeiro milagre de Jesus foi fortalecer a fé nascente dos seus discípulos. Alguns, com efeito, já O seguiam mais ou menos, reconhecendo nele um profeta como João Batista. Mas, depois deste prodígio, consideraram-no como o Messias predito pelos Profetas; sentiram crescer a sua fé e ficaram mais bem dispostos para aceitar a doutrina de Jesus e pô-la em prática.
   Graças Vos dou, ó Jesus, por todas estas lições preciosas, que Vos dignastes dar-nos hoje. Ajudai-nos com a Vossa santa graça a aproveitá-las bem, a amar-Vos cada vez mais, e a viver unicamente para Vós. Amém!
  

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 2º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA


S. João II, 1-11

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Aldeia de Caná na atualidade
Celebraram-se umas bodas em Caná de Galileia, e achava-se ali a Mãe de Jesus. E também Jesus foi convidado, com seus discípulos, para as bodas. Logo após o Batismo e os 40 dias de recolhimento, oração e penitência numa montanha perto de Jericó, depois de permitir ao demônio que O tentasse por três vezes, Jesus Cristo inicia sua vida pública que vai prolongar-se por três anos apenas. Já tinha em torno de si alguns discípulos, levados a Ele pelo testemunho de Seu Precursor, João Batista. Estando assim nos inícios de sua carreira evangélica, não havia feito ainda nenhum milagre para atestar sua missão. Jesus começa na pequena aldeia de Caná, perto de Nazaré, a série brilhante e ininterrupta de milagres que doravante encherá sua vida, e oferecerá ao mesmo tempo sólidos fundamentos à nossa fé e úteis instruções para nossos costumes.

Caríssimos, afim de melhor acolher e compreender os ensinamentos desta narração evangélica, consideremos sucessivamente os diversos personagens desta cena de Caná.

Primeiramente consideremos os ESPOSOS. Sua conduta é inteiramente digna de elogio. Pois convidam a Jesus e Maria para seu casamento. Hoje, infelizmente são raríssimos os noivos que convidam Jesus e Maria para suas núpcias. Em se tratando de algo tão sério, tão importante do qual depende a sorte da vida inteira e até de gerações futuras, quantos são aqueles noivos que levam em conta os conselhos, os mandamentos e a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo? O Divino Mestre santificou a virgindade ao abraçá-la Ele mesmo e nascendo de uma virgem. Santificou, outrossim, o matrimônio elevando-o à dignidade de sacramento, honrando-o com Sua presença e com o seu primeiro milagre, com o qual aliás, mostra o poder de intercessão de sua Mãe Santíssima, e confirma seus primeiros discípulos na fé. Com a presença de Jesus e Maria, tudo nestas bodas é inteiramente puro, calmo, digno e santo. Nada de enfeites imodestos, nada de modas imorais, nada de palavras licenciosas, nada de gritos desordenados, nada de danças, nada de dissipação extravagante. Tudo transcorre com ordem, paz e caridade. Os convivas sabem que Jesus e Maria estão lá, vêem-Nos, ouvem sua voz e se edificam com Sua conversação. Mas nos casamentos em que Jesus e Maria são simplesmente banidos, reina, ao invés, o espírito pagão e assim, como aconteceu com os sete primeiros esposos de Sara, filha de Raguel, quem tem todo poder é o Asmodeu, inimigo das almas.

Consideremos agora, MARIA SANTÍSSIMA. O que nela aparece em primeiro lugar é sua bondade, bondade esta que brilha  com uma espontaneidade e um desvelo admiráveis. Sem que ninguém disso se advertisse, Maria percebe onde se encontra a necessidade e conseqüente vexame dos noivos. E sem que ninguém o peça, solícita, bondosa, compassiva, volta-se para seu Filho e Lhe diz ao ouvido estas palavras: "Não têm vinho". Jesus deixa claro que não é ainda chegada a hora de Ele começar a fazer milagres: "Mulher (em aramaico: 'já mara' que quer dizer SENHORA) que temos Eu e tu com isso? (Outra expressão tipicamente hebraica e que se encontra em várias passagens do Antigo Testamento). E assim poder-se-ia traduzir: "Senhora, que motivo nos leva a ti e a mim a falar deste assunto?' E devemos levar em conta o gesto, o tom de voz e outras circunstâncias que a completavam, os quais desconhecemos, mas podemos supor. Aliás, pela ordem que Maria dá aos serventes logo em seguida, mostra que ela bem entendeu que seu Filho iria fazer o milagre. Quem melhor poderia penetrar no Coração de Jesus senão sua Mãe Santíssima!  O fato é que não podemos concordar com aqueles protestantes que concluem que o próprio Jesus tratava Maria como uma mulher como as outras. Isto constitui inclusive uma grande ofensa ao próprio Jesus: sendo Deus não foi Ele que deu os dez mandamentos, inclusive o quarto? Infelizmente o desconhecimento da língua hebraica e aramaica da parte da maioria dos protestantes aumenta o perigo de falsas interpretações da Bíblia.

Por outro lado as palavras de Jesus foram ditas com toda certeza para fazer sobressair o poder de intercessão de sua Mãe amabilíssima. No Templo depois de recordar os direitos do Pai celeste, Jesus obedece aos pais terrenos; aqui, depois de recusar atender ao apelo de Sua Mãe, antecipa sua hora e faz o milagre, transformando a água em vinho. A primeira vista parece haver uma contradição entre  o que o Menino Jesus disse à sua Mãe lá no Templo e o que realiza aqui. É óbvio que não pode haver contradição no falar e agir de Jesus. O fato é que Jesus, como Ele mesmo declarou alhures, nunca fazia sua própria vontade mas sim a de Seu Pai Eterno. Assim a explicação é que o Pai havia determinado deste toda eternidade que Jesus não deveria negar nada à sua Mãe Santíssima.

Disse sua Mãe aos servidores: Fazei tudo o que Ele (Jesus) vos disser. Maria Santíssima quer nos ajudar com seus pedidos e com seu crédito junto de seu Filho. Ela quer mesmo prevenir muitas vezes, nossos pedidos, mas com uma condição: que façamos tudo o que o Seu Filho mandar, isto é, que executemos Sua vontade. E o que Ele quer é que façamos tudo que depende de nós, que nos apliquemos à obra de nossa salvação o concurso de nossa fraqueza, que coloquemos a água nas talhas de nossos corações, nestes corações de pedra (como os chama a S. Escritura) a água de nossas lágrimas, a água insípida da mortificação, do trabalho constante, do dever obscuro. E esta água transformar-se-á em vinho, e esta fraqueza será transformada em força, e nós mesmos, como os convivas de Caná, ficaremos admirados de encontrar em nós, em lugar de nossa miséria e de nossa covardia , uma fortaleza e uma generosidade das quais nunca nos julgaríamos capazes.

Além da bondade, vemos em Maria um poder extraordinário junto ao Coração de seu Filho. Ela pede um milagre de primeira ordem e para simplesmente livrar os esposos de Caná de um vexame. Pede sem ansiedade, sem inquietação, mesmo sem insistência, tão segura está do poder e do beneplácito de Seu Filho para com ela. Na verdade, Nossa Senhora não pede propriamente, apenas demonstra o desejo que tem em ver o seu Filho operar um milagre para livrar de um embaraço os neo-esposos de Caná.

Em Caná, além da bondade e poder, vemos brilhar em Maria a sua glória. Assim, não é pelo pedido de Maria que Jesus, escondido durante trinta anos na obscuridade de uma vida humilde e comum, se mostra enfim o que é, e manifesta este poder divino que estava até então tão cuidadosamente oculto n'Ele? Não é, pois, pelo prece de Maria que Ele começa as funções de seu ministério público; deste ministério que vai se tornar tão fecundo em ensinamentos e prodígios; que Ele estabelece sua missão, que Ele ganha a confiança de seus discípulos e os prende definitivamente à sua pessoa?

Agora, caríssimos, contemplemos JESUS! Aqui nas Bodas de Caná Jesus nos ensina uma coisa, a maior, a mais bela, a mais augusta que possamos aprender: é que Ele é Deus, Filho de Deus. Com efeito, tudo em seu semblante, em suas palavras, em sua conduta, atesta Deus todo poderoso e a própria sabedoria. Ele diz: "Minha hora não é ainda chegada". Se faz o milagre é porque, como ficou explicado acima,  para obedecer a um decreto do Pai, isto é, que nada negasse à Sua Mãe. Fala com calma e dignidade: "Enchei de água estas talhas até às bordas e levai-a ao mestre-sala". Jesus queria que seus milagres provassem a sua missão divina e contribuíssem para a estabelecer aos olhos dos homens. Para tanto Ele dá ao milagre de Caná todas as garantias e toda autenticidade de que é susceptível. Ele espera para que a necessidade seja bem constatada. Ele faz encher as talhas de água até às bordas, afim de que a água apareça aos olhares dos convivas; Ele ordena aos servidores que busquem a água e a levem ao mestre-sala. A este último, com efeito, é que pertence o direito de constatar oficialmente a qualidade do licor que o poder de Jesus tinha substituído à água das talhas, e atestar assim solenemente o milagre.

Caríssimos, o milagre de Caná figura o milagre mais retumbante e sobretudo mais cheio de amor que nos oferece a Eucaristia. Nela Jesus opera a mais maravilhosa mudança, pois transforma o pão e o vinho em seu Corpo e em seu Sangue, e isto sem que Ele visivelmente coloque a mão, mas pelo ministério de seus servidores e de seus padres.


Onipotente e eterno Deus, que governais igualmente o céu e a terra, com a vossa Providência, escutai, benigno, as súplicas de vosso povo, e concedei às famílias de  nossos tempos, a vossa paz; e que a indissolubilidade que estabelecestes para o sacramento do matrimônio não seja destruída pelos homens. Amém! 

domingo, 12 de janeiro de 2020

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA


 SAGRADA FAMÍLIA

S. Lucas II, 42-52  (Para não me alongar demais, não transcrevo aqui o Evangelho).

"Tendo Jesus completado doze anos, subiu com seus pais a Jerusalém etc.: Todos os homens deviam apresentar-se no Templo, três vezes por ano, isto é, por ocasião da Páscoa, de Pentecostes e da festa dos Tabernáculos. As mulheres, ainda que não fossem obrigadas pela Lei, costumavam ir ao Templo por devoção, ao menos pela festa da Páscoa. Os filhos começavam a ser obrigados na idade dos doze anos, época em que se tornavam "filhos da Lei".

Assim, tendo atingido os doze anos, Jesus, para nos dar exemplo de submissão às prescrições divinas, foi a Jerusalém com seus pais. Enquanto Deus, Jesus não estava obrigado, mas submete-se com humildade, para edificação nossa, à observância da lei. Seguindo a vontade de Deus Pai, Jesus ia tornar célebre para sempre esta primeira Páscoa histórica da sua vida. Ia erguer uma ponta do véu que nos ocultava a sua sabedoria infinita e a sua divindade; ia, outrossim, santificar sua Mãe e S. José por uma provação de três dias; e finalmente, com sua obediência inefável e a sua vida de trabalho, ia pôr os fundamentos da sociedade e das famílias cristãs.

Eis o que disse o Papa Leão XIII ao instituir a festa da Sagrada Família neste domingo (1º depois da Epifania): "Os pais de família têm em S. José um modelo admirável de vigilância e solicitude paterna; as mães podem admirar na Virgem Santíssima um exemplo insigne de amor, de respeito e de submissão; os filhos têm em Jesus, submisso a seus pais, um exemplo divino de obediência; os nobres aprenderão, olhando para esta família de sangue real, a moderação na prosperidade e a dignidade nas aflições; os ricos aprenderão a ter mais em conta as virtudes do que as riquezas; os operários e todos os que sofrem, devido à sua condição pobre, terão motivo e ocasião de alegrar-se pela sua sorte em vez de entristecer-se, porque têm de comum com a Sagrada Família as fadigas e os cuidados da vida cotidiana".

Acabados os dias da festa, quando voltaram, ficou o Menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem etc. Geralmente os habitantes de um mesmo lugar iam em caravana composta de dois grupos: um de homens e outro de mulheres e quando saíam do Templo, faziam-no por duas portas diferentes.  Os meninos podiam ir em um ou em outro. Por isto pôde acontecer que, ao saírem de Jerusalém, não notassem que Jesus não estava no meio da caravana de Nazaré.  Mas, fazemos a mesma pergunta que sua Mãe Santíssima Lhe fez: Por que é que Jesus agiu desta maneira? É óbvio, Jesus procede assim, não por desobediência, mas para cumprir a vontade de seu Pai e cuidar dos seus interesses. Deus resolvera manifestar desde então seu Filho aos sacerdotes e doutores da lei.  Queria, outrossim, ensinar-nos a renunciar à carne e ao sangue, a pôr de lado a afeição dos pais, apesar das dores do sacrifício recíproco, desde que se trate de obedecer a Deus e de consagrar-se ao seu serviço.
Podemos também indagar o porquê da aflição de Maria Santíssima: afinal ela sabia que seu Filho era Deus, infinitamente sábio e todo poderoso. Todavia, esta ausência súbita e inesperada era para ela um mistério, cujo verdadeiro motivo não podia penetrar. Caríssimos, admiremos este secreto e maravilhoso proceder de Deus com Maria e José. Aflige-os, não para os punir, porque não são culpados de qualquer falta, mas porque os ama. Era como se lhes dissesse ainda com mais verdade do que o Arcanjo Rafael disse a Tobias: "Porque eras aceito a Deus, por isso foi necessário que a tribulação te provasse".

Quantas vezes, miseráveis pecadores como somos, perdemos a Jesus por nossa culpa, pelo pecado; ou então, por vezes, em castigo de alguma negligência ou infidelidade às graças, Jesus retira-se ou esconde-se. E quantos não sentem dor por isso e não procuram a Jesus. E por que não nos humilhamos profundamente, e não redobramos de devoção e de fervor para procurar a Jesus? Ó Maria Santíssima aumentai em mim a amor ao vosso divino Filho!

E aconteceu que, depois de três dias, encontraram-No no Templo, sentado entre os doutores, ouvindo-os e interrogando-os etc. Comumente os discípulos ficavam sentados em esteiras aos pés dos doutores que ficavam orgulhosamente em seus tronos. Mas, provavelmente, estupefatos e maravilhados da sabedoria e das respostas daquele menino, os doutores deram-Lhe a honra de se assentar no meio deles. Jesus, que é a fonte de toda a ciência, de toda a luz, assim nos ensina a humildade e a modéstia como diz S. Gregório: "O Menino Jesus é encontrado entre os doutores não ensinando". Interrogava também aos doutores, parecendo querer instruir-se a si mesmo, e também para nos ensinar a consultar a Igreja. S. Lucas não diz qual foi o assunto ali tratado. Mas declarará a sua Mãe que deve empregar-se nos negócios de seu Pai. Certamente falava do Messias, da época da sua vinda já que os doutores não aproveitaram das consultas bíblicas e da solução transmitida  por eles mesmos aos Reis Magos. Mostraram o verdadeiro caminho, mas eles mesmos não o seguiram. Agora Jesus mesmo antes de sua vida pública já quer mostrar-lhes que Ele é o Messias. Evidentemente, Jesus queria dispor os corações dos sacerdotes e dos doutores a desejarem e a receberem esse Messias cujo nascimento já sabiam e cuja sabedoria divina perceberam naquele Menino muito acima dos comuns dos homens. Caríssimos, tenhamos cuidado em utilizar melhor as graças de Deus.

Disse-Lhe sua Mãe: Filho, por que nos fizeste isto? Eis que teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição". José e Maria ficaram admirados porque Jesus ainda não havia manifestado assim em público sua sabedoria. Mas José não fala. Maria, porém, com a autoridade e ternura de mãe é que fala. Admiramos o respeito e a deferência de Maria para com seu santo Esposo, nomeando-o em primeiro lugar e dando-lhe o título de pai de Jesus e de chefe da família. Na verdade, José, externa e legalmente era considerado como pai de Jesus Cristo.  A palavra da santíssima Mãe de Jesus não é de censura; é um grito do coração, todo cheio de confiança e de abandono, de humildade e de ternura; é uma espécie de queixa afetuosa sobre a longa ausência de Jesus, para exprimir a sua pena e a de José.
Respondeu-lhes Ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?  É evidente que a resposta de Jesus não inclui censura, mas apenas admiração. Se Maria e José sabiam que Ele era o Messias, Filho de Deus, que veio ao mundo cumprir a vontade de seu Pai, era natural que O encontrassem no Templo, ocupado nas coisas referentes a Deus. Estas são as primeiras palavras de Jesus, conservadas nos evangelhos. Nelas manifesta diretamente sua divindade. Por elas dá a conhecer àqueles que O cercam no Templo, e a nós todos, o fim da sua missão sobre a terra, e ensina-nos que os interesses de Deus e o seu agrado devem estar acima de qualquer consideração humana. Algumas vezes Deus fala à alma dos filhos e os chama para si. Nesse caso os pais não devem opor-se à vocação celeste, nem têm o direito de fazê-lo.

E eles (Maria e José) não entenderam o que lhes disse: Porque, na verdade, ainda não sabiam que Jesus devia abandonar tudo, para cuidar unicamente da glória de seu Pai.

Desceu com eles e veio para Nazaré, e lhes era submisso. Sua Mãe conservava todas estas coisas em seu coração. Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e diante dos homens: Sendo Deus, Jesus obedecia a seus pais. Que exemplo para os filhos! Por sua vez, Sua Mãe conservava todas estas coisas no coração, para meditá-las, e pautar por elas todos os atos da sua vida. Jesus crescia em sabedoria ... e em graça: Como Deus, possuía todos os conhecimentos e a plenitude da graça. Crescendo, ia aos poucos manifestando estes dons, o que causava aos homens a impressão de desenvolvimento progressivo. Enquanto homem, Jesus Cristo foi adquirindo conhecimentos experimentais do mundo que o cercava e neste sentido houve verdadeiro crescimento.


JESUS, MARIA E JOSÉ, SALVAI AS FAMÍLIAS! Amém!

SAGRADA FAMÍLIA - 1º Domingo depois da Epifania

  Foi postado em 2012.

 Leituras: Epístola aos Colossenses, 3, 12-17; Evangelho segundo São Lucas 2, 42-52.

   "E quando Jesus teve doze anos, subiram eles (Jesus e seus pais) a Jerusalém segundo o costume daquela festa. E acabados aqueles dias, ao regressarem, ficou o Menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais dessem por isto. Julgando que Ele vinha com os da comitiva, caminharam um dia inteiro, e O procuravam entre os parentes e conhecidos. Mas não O achando, voltaram a Jerusalém para O procurar. Aconteceu que, depois de passados três dias, O acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que O ouviam, pasmavam de sua sabedoria e de suas respostas. Vendo-O, ficaram admirados. E disse-Lhe sua Mãe: Filho, por que nos fizeste isso? Eis que teu pai e eu Te procurávamos cheios de aflição. E Ele lhes disse: Por que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai? Eles não entenderam o que Ele lhes disse. Então desceu com eles e veio para Nazaré; e lhes era submisso. Sua Mãe conservava todas essas coisas em seu coração. Entretanto, Jesus crescia em sabedoria, em idade e graça diante de Deus e dos homens."

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   1 -   " - Hoje - e pela última vez no ciclo do ano litúrgico - a Igreja apresenta-nos o mistério da vida humilde e escondida de Jesus. Um sentido de profunda intimidade e de ternura caracteriza a festa de hoje e transparece na liturgia: "... é doce para nós recordar a casinha de Nazaré e a vida modesta que ali se leva... Nela aprende Jesus o humilde ofício de José, e, na sombra cresce em idade, mostrando-Se feliz por partilhar o trabalho de carpinteiro. "Que o suor banhe os meus membros - diz Jesus - antes que sejam banhados com a efusão do meu sangue, e esta pena sirva de expiação para o gênero humano" (Breviário). Eis-nos dentro da casinha de Nazaré; à vista de tanta humildade, que oculta a infinita grandeza de Jesus, digamos também nós com o texto sagrado: "Vós sois verdadeiramente um Rei escondido, ó Deus Salvador, Rei de Israel" (ib.).
   A liturgia de hoje salienta sobretudo um dos aspectos típicos da vida humilde deste Deus escondido: a obediência. "Mesmo sendo o Filho de Deus,... aprendeu a obedecer;... humilhou-se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até à morte" (Breviário): esta é a obediência que acompanhou Jesus desde Belém até ao Calvário. Mas o Evangelho de hoje (Luc. 2, 42-52) quer especialmente sublinhar a obediência de Jesus em Nazaré e fá-lo com uma frase realmente bela: "era-lhes submisso". Perguntemos com São Bernardo: "Quem obedece?" "A  quem obedece?" E o Santo responde-nos: um Deus aos homens; sim, Deus a quem estão sujeitos os anjos, está sujeito a Maria, e não só a Maria, mas também a José. É uma humildade sem exemplo. Homem, aprende a obedecer; pó da terra, aprende a humilhar-te; pó, aprende a submeter-te. Um Deus sujeita-Se aos homens e tu, procurando dominar os homens, pões-te acima do teu Autor?"

   2 - "Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?" Jesus tão humilde, tão submisso, não hesita em responder deste modo a Maria que docemente O repreende por Se ter demorado no templo sem o seu conhecimento nem o de José, enquanto eles, angustiados, há três dias O andavam procurando.
   Estas são as primeiras palavras de Jesus que nos refere o Evangelho e por Ele pronunciadas para declarar a Sua missão e afirmar a supremacia dos direitos de Deus. Apenas adolescente, Jesus ensina-nos que primeiro devemos ocupar-nos de Deus e das coisas de Deus; que é necessário dar sempre a Deus o primeiro lugar e a primeira obediência, ainda que seja preciso sacrificar os direitos da natureza e do sangue. Não é virtude, antes é muitas vezes pecado, aquela condescência para com os parentes e amigos que nos faz descurar ou simplesmente retardar o cumprimento da vontade de Deus.
   Dar primazia aos deveres para com Deus não significa, porém, descuidar os que temos para com o próximo. Também para estes e particularmente para os que dizem respeito à família, a festa deste dia chama a nossa atenção. Hoje, com efeito, a Igreja convida-nos a modelar a nossa vida de família - quer seja família natural ou religiosa, quer de qualquer outro agrupamento - segundo o exemplo da família de Nazaré e na Epístola (Col. 3, 12-17) mostra-nos as virtudes que com esse fim devemos praticar: "Revesti-vos de entranhas de misericórdia, de benignidade, de humildade, de modéstia, de paciência; sofrendo-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente".
  
   Colóquio - Ó Jesus, como gosto de Vos contemplar pequenino na pobre casinha de Nazaré junto de Maria e de José! Na Vossa vida, tão singela e humilde, em tudo semelhante à de qualquer menino da Vossa idade, Vós, esplendor do Pai, não quisestes coisa alguma que Vos distinguisse entre os filhos dos homens; Vós, sabedoria incriada, quisestes aprender de Maria e de José, criaturas Vossas, as coisas mais elementares e simples da  vida. José ensinava-vos a manejar os instrumentos de trabalho, e Vós observáveis com atenção, aprendíeis e obedecíeis; Maria ensinava-Vos os hinos sagrados e narrava-Vos as Escrituras e Vós, que sois o único verdadeiro "Mestre" e a mesma verdade, escutáveis em atitude de humilde discípulo. Nenhum dos Vossos conhecidos ou compatrícios podiam supor quem Vós éreis realmente: todos Vos tomavam por filho do carpinteiro e não faziam mais caso de Vós que dum pequeno aprendiz de oficina.
   Só Maria e José sabiam, conheciam por revelação divina que Vós éreis o Filho do Altíssimo, o Salvador do mundo e sabiam-no mais pela fé que pela experiência. A Vossa conduta habitual ocultava aos seus olhos a Vossa grandeza e a Vossa divindade, de tal maneira que, quando, sem darem por isso, ficastes no templo entre os doutores, não puderam compreender o motivo dessa estranha atitude.
   Isso, porém, não passou de um instante porque depressa voltastes à Vossa humilde vida oculta: viestes com eles e éreis-lhes submisso. E assim, dia após dia, até à idade dos trinta anos.
   Ó meu dulcíssimo Senhor, fazei que ao menos eu possa imitar um pouco a Vossa infinita humildade. Vós que, sendo Criador, quisestes obedecer às Vossa criaturas, ensinai-me a baixar a minha soberba cabeça e a obedecer voluntariamente aos meus superiores. Vós que descestes do céu à terra, concedei-me a graça de me humilhar e descer de uma vez, do pedestal do meu orgulho. Como suportar, meu Deus e Criador, ver-Vos fazer tão pequeno e humilde, quando eu, nada e pecado, me sirvo do que recebi para me elevar acima dos outros e preferir-me ainda aos que me são superiores?"
   (Extraído do livro "INTIMIDADE DIVINA"  do P. Gabriel de S.ta M. Madalena, O. C. D.)

  
  

   

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A EPIFANIA

Livro "INTIMIDADE DIVINA" do P. Gabriel de S.ta M. Madalena, O. C. D.

   Ó pequenino Jesus, em Vós reconheço o Rei dos céus e da terra: fazei que eu Vos possa adorar com a fé e o amor dos Magos.

   1- "Hoje o mundo reconheceu Aquele que a Virgem deu à luz... Hoje refulge a festa da Sua manifestação" (BR.). Hoje Jesus manifesta-Se ao mundo como Deus.
   O Intróito da Missa introduz-nos diretamente neste espírito, apresentando-nos Jesus na majestade real da Sua divindade: "Eis que veio o soberano Senhor: Ele tem nas Suas mãos o cetro, o poder e o império". A Epístola (Is. 60, 1-6) prorrompe num hino de glória anunciando a vocação dos gentios à fé; também eles reconhecerão e adorarão em Jesus o seu Deus. "Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque veio a tua luz... E as nações caminharão à tua luz e os reis ao resplendor da tua aurora... Todos virão de Sabá trazendo ouro e incenso e publicando os louvores do Senhor". Já não se vê, à volta do presépio, a humilde presença dos pastores, mas o faustoso cortejo dos Magos que vieram do Oriente como representantes dos povos pagãos e de todos os reis da terra, para prestarem homenagem ao Deus Menino.
   Epifania (ou Teofania) quer dizer "manifestação de Deus"; e esta manifestação de Deus vemo-la realizada em Jesus que hoje Se manifesta ao mundo como seu Deus e Senhor. Já um primeiro prodígio, o da nova estrela aparecida no Oriente, revelara a Sua divindade; mas à recordação deste milagre que ocupa o primeiro lugar na liturgia deste dia, a Igreja junta mais dois: a água convertida em vinho nas bodas de Caná, e o Batismo de Jesus no rio Jordão, enquanto um voz, vinda do céu, atesta: "Este é meu Filho muito amado". "Três milagres ilustram o santo dia que hoje celebramos", canta a Antífona do Magnificat: três milagres que devem dispor-nos para reconhecer e adorar com fé viva, no Menino Jesus, o nosso Deus, o nosso Rei.

   2 - "Vimos a Sua estrela no Oriente e viemos com presentes adorar o Senhor". Nestes versículos da Missa de hoje está sintetizada a conduta dos Magos. Ver a estrela e pôr-se a caminho foi obra de um momento. Não duvidaram porque a sua fé era firme, segura e inteira. Não hesitaram perante a fadiga do longa viagem, porque o seu coração era generoso. Não deixaram para mais tarde, porque a sua alma estava pronta.
   No céu das nossas almas também aparece freqüentemente uma estrela: uma inspiração íntima e clara de Deus, que nos convida a um ato de generosidade, de desprendimento, a uma vida de maior generosidade, de desprendimento, a uma vida de maior intimidade com ele. Devemos saber sempre seguir a nossa estrela com a fé, com a generosidade e com a prontidão dos Magos. Seguida assim, conduzir-nos-á sem dúvida ao encontro do Senhor, far-nos-á achar Aquele que procuramos. Os Magos perseveraram na sua busca mesmo quando a estrela desapareceu aos seus olhos; da mesma forma devemos nós perseverar no bem mesmo através das trevas interiores: é a prova da fé, que somente se pode superar com um intenso exercício de fé pura e nua. Sei que Deus assim o quer, sei que Deus me chama e isto basta: Scio cui credidi et certus sum (II Tim. I, 12); sei quem é aquele em quem acreditei e aconteça o que acontecer nunca poderei duvidar d'Ele.
   Com estas disposições vamos com os Magos ao presépio. "E assim como aqueles ofereceram, dos seus tesouros, místicos dons ao Senhor, saibamos nós também tirar dos nossos corações dons dignos de Deus". (BR.)
   (...) Quereis, ó Jesus, que também eu leve ao Vosso presépio os presentes dos Magos: o incenso da oração, a mirra da mortificação e do sofrimento generosamente abraçado por Vosso amor, o ouro da caridade; caridade que faça o meu coração todo e exclusivamente Vosso... (...) Que brilhe também para mim hoje a Vossa estrela e me indique o caminho que a Vós conduz; que o dia de hoje seja igualmente para mim uma verdadeira Epifania, uma nova manifestação ao meu entendimento e ao meu coração. Quem mais Vos conhece, mais Vos ama, ó Senhor; e eu só desejo conhecer-Vos para Vos amar e me dar a Vós com uma generosidade cada vez maior.

FESTA DA EPIFANIA

LEITURAS: Epístola, Profeta Isaías 60, 1-6.
                      Evangelho segundo São Mateus 2, 1-12: 

   "Tendo Jesus nascido em Belém de Judá, nos dias do Rei Herodes, eis que do Oriente vieram uns Magos a Jerusalém, perguntando: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo. Ouvindo isto, o rei Herodes turbou-se e com ele toda Jerusalém. E convocando todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, indagava deles onde Cristo nasceria. E eles disseram: Em Belém de Judá, porque assim está escrito pelo Profeta: E tu, Belém. terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá; porque de ti sairá o Guia, que há de governar o meu povo de Israel. Então Herodes chamando secretamente os Magos, inquiriu cuidadosamente deles o tempo em que lhes aparecera a estrela. E enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide e perguntai diligentemente pelo Menino, e assim que O achardes, avisai-me para que eu vá também e O adore. Tendo eles ouvido as palavras do rei, foram-se. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que chagando, parou sobre o lugar em que estava o Menino. Vendo a estrela, ficaram possuídos de grandíssima alegria. E entraram na casa, e, prostrando-se, O adoraram. E abertos os seus tesouros ofereceram-Lhe como presentes ouro, incenso e mirra. E, sendo avisados em sonho que não voltassem a Herodes regressaram por outro caminho a seu país".

  Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Hoje celebra a Santa Madre Igreja a grande Festa da Epifania, palavra de origem grega que significa manifestação. São Paulo, referindo-se ao Natal de Jesus, disse na Epístola a Tito III, 4: "Manifestou-se a benignidade e a humanidade de Deus, nosso Salvador". O Verbo de Deus se fez carne, e habitou entre nós. Primeiro manifestou-se aos pobres e humildes pastores através de um Anjo. Depois manifestou-se aos povos gentios na pessoa dos Magos através de uma estrela.
   Mas quem eram estes Magos? A palavra Mago não deve ser tomada no mau sentido que hoje tem. Então significava pessoa poderosa, honrada com o sacerdócio no seu país e muito considerada pela sua ciência, principalmente pelos seus conhecimentos de astronomia. A tradição apresenta-no-los como reis. O texto sagrado na verdade não diz quantos eram. Mas a tradição aponta três e dá-lhes os nomes de Melchior, Baltasar e Gaspar. Diz ainda a tradição que eles foram mais tarde batizados e elevados ao episcopado pelo Apóstolo São Tomé, e finalmente martirizados. As suas relíquias são conservadas e honradas na Catedral de Colônia na Alemanha. O texto sagrado diz simplesmente que vinham do Oriente. Mas de que parte do Oriente? Uns autores assinalam a Caldeia, outros a Arábia, outros ainda a Pérsia. Muitos acham que eram descendentes de Balaão. Provavelmente chegaram a Jerusalém pouco antes ou pouco depois da Purificação.
 
   Mas, caríssimos e amados irmãos, o mais importante é o exemplo belíssimo de fidelidade à graça que  os Magos nos oferecem. "Vimos a estrela e viemos". Esta estrela é o sinal da graça, é a inspiração de Deus. Os Magos seguem, portanto, a luz da graça com prontidão e com grande constância. Quantos viram a estrela  e se contentaram com admirar o seu brilho, sem tratarem de descobrir o seu mistério? Quantos certamente compreenderam em vão o ensinamento que lhes dava? Só os Magos se aproveitaram da graça oferecida a todos. Deus chama-os ao berço de Seu Filho; obedecerão, quaisquer que sejam os sacrifícios que lhes pedir: Sacrifício de seu descanso: que fadigas preveem numa tão longa viagem e em semelhante estação! Sacrifício das suas inclinações mais queridas: família, pátria, amigos. Sacrifício da sua reputação: eles eram tidos por sábios, e o seu proceder é qualificado de loucura. E tudo isto fazem homens que são noviços na fé! Que lição para aqueles que são mestres, pregadores, guardas da fé! Os sacerdotes judeus que instruem a Herodes e aos Magos, onde se deve ir para achar o Salvador do Mundo e eles mesmos não vão. Mostram o caminho da verdade e não o seguem!.
   Os Magos seguem a luz da graça com prontidão. Apenas viram a estrela e ouviram a voz interior, apressam-se a obedecer. Vimos, graça que alumia e fala ao coração; e viemos, é a correspondência a essa graça. Nenhum intervalo entre conhecer o dever e cumpri-lo. Passam num instante da convicção ao desejo, do desejo à resolução, da resolução à prática. É nisto mesmo, diz Santo Tomás que consiste a verdadeira devoção. Que sabedoria há nesta prontidão, que perigos nas demoras da indolência! Se os Magos demorassem sua partida por alguns dias, teriam achado o adorável Menino? Quando Deus fala, uma simples irresolução é uma infidelidade, a menor demora um perigo. A graça tem o seu tempo. Diferir obedecer-lhe, é correr o risco de nunca lhe obedecer; perdida a ocasião, voltará ela? Terá Deus obrigação de esperar que eu queira receber os dons do seu amor? Não é a mim que me compete esperar que Ele se digne concedermos? Ó Jesus, aquele que cede à vossa graça senão o mais tarde possível, mostra bem que só cede com repugnância. Sua obediência é uma flor murcha.

   Os Magos seguem a luz da graça com grande constância. Como nada pôde impedir que tomassem a resolução que Deus queria, também nada os desanima na sua execução. Quantos obstáculos porém, quantas contradições capazes de destruir uma resolução menos firme! Tinham andado uma grande parte do caminho, estavam perto de Jerusalém; de repente a estrela desaparece: ei-los sem guia num país estrangeiro; quantos motivos de temor! Pensam acaso em voltar para a sua terra? Não, continuam a caminhar, apoiando-se não já no que veem, mas no que viram; a verdade é imutável, como o mesmo Deus: Se no meio de Jerusalém encontram um povo indiferente que mostra não se importar com o seu Rei e Salvador recém-nascido; se os doutores e sacerdotes lhes declaram friamente o lugar do seu nascimento, e não falam em ir com eles adorá-Lo; se Herodes se contenta com enviá-los para que O procurem, tudo isto os espanta, sem dúvida e os aflige, mas não os desalenta.
   As provações fazem parte essencial do plano divino. As obras de Deus só florescem à sombra da árvore da cruz. Devo conservar-me sempre pronto a seguir a vontade de Deus, apenas a estrela da fé ma tiver feito conhecer.
   Ó meu Deus, eu quero obedecer à vossa graça, sem escusas, sem demoras, sem cansaços, seguindo pelo caminho dos vossos mandamentos, pois sei perfeitamente que só neles se encontra a verdadeira vida.
    Com Santo Ambrósio digamos a Jesus: "Oh!  que bom Mestre eu sirvo"! Oh! como é bom procurá-Lo a ele unicamente, e servi-Lo de todo o nosso coração! Oh! como um homem, repousando no seio da Providência, está justamente em paz e em toda a segurança! Que não devo eu esperar da sua bondade, se não ponho obstáculo algum à sua graça? Amém!