SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 23 de abril de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 1º Domingo depois da Páscoa

   Leituras: Primeira Epístola de São João 5, 4-10)
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 20, 19-31: 

   
   
"Naquele tempo, chegada já a tarde daquele dia, que era o primeiro dia da semana, e estando fechadas as portas do lugar onde se achavam reunidos os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio deles, disse-lhes: A paz esteja convosco. E dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se muito os discípulos, vendo o Senhor. Disse-lhes Jesus outra vez: A paz esteja convosco.  Assim como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio. Ditas estas palavras, soprou sobre eles, dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Os pecados daqueles a quem perdoardes ser-lhes-ão perdoados: os pecados a quem retiverdes, ser-lhes-ão retidos. Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles, quando veio Jesus. Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor" Ele, porém, lhes disse: Se eu não vir em suas mãos o sinal dos cravos, se não introduzir o meu dedo no lugar dos cravos, e se mão meter minha mão em seu lado, não acreditarei. Oito dias depois, estavam os discípulos de Jesus outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Veio Jesus, , estando as portas fechadas. E pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco! Depois disse a Tomé: Coloca aqui o teu dedo, o vê as minhas mãos; chega também a tua mão e mete-a em meu lado; não sejas incrédulo, mas fiel. Respondeu Tomé e disse-Lhe: Meu Senhor e meu Deus! Disse-lhe Jesus: Tu creste, ó Tomé, porque viste; bem-aventurados os que não viram e, creram; Jesus fez ainda, em presença dos discípulos muitos outros milagres, que não foram escritos neste livro. Estes, porém foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que, crendo, tenhais a vida em seu Nome."


Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

  Quantos assuntos de meditação nos oferece o Santo Evangelho de hoje: A Bondade e Misericórdia do Coração de Jesus, a paz, a fé, o Sacramento da Penitência! 

   Com a graça de Deus vamos falar sobre a Misericórdia. Como são assuntos que se entrelaçam, falaremos  de passagem também sobre os demais. 

   Caríssimos, a Misericórdia divina é infinita. Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e tenha a vida eterna. Deus espera com paciência o pecador; vai a procura dele com toda solicitude; e recebe com toda alegria o pecador arrependido.  Os Apóstolos estavam sem paz: haviam pecado, abandonado o Mestre, estavam fechados numa casa com medo dos judeus. Jesus ressuscitado lhes aparece. Suas primeiras palavras não foram de repreensão, foram de paz: A paz esteja convosco! Como Jesus é bom!. A paz é um dom tão precioso que sobrepuja todo entendimento humano. Jesus quer que seus discípulos tenham a paz e dá a eles o poder de transmiti-la a todos os pecadores arrependidos: dá-lhes o poder de perdoar os pecados. É o tribunal da misericórdia em que o próprio réu se acusa, mas para ser perdoado. Caríssimos, é o sangue de Jesus Cristo que banha e lava a nossa alma. Não vemos, mas tenhamos fé: "A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados". Façamos um profundo ato de fé: Deus ama-nos com amor infinito, distinto, imutável, se não me afasto d'Ele por um ato consciente de minha livre vontade, como infelizmente fez Judas Iscariotes. Este infeliz apóstolo até se arrependeu, mas não confiou na bondade do Coração de Jesus.

   Ensina a fé que Deus é misericórdia e que por esse motivo se inclina com tanto mais amor para nós quanto mais reconhecermos as nossas misérias: porque a miséria atrai a misericórdia. Invocá-Lo com confiança, é afinal honrá-Lo, é proclamar que Ele é a fonte de todos os bens e nada tanto deseja como conceder-no-los. É por isso que na Sagrada Escritura nos declara vezes sem conta que defere as súplicas dos que esperam n'Ele: "Porque esperou em mim, livrá-lo-ei; protegê-lo-ei, porque conheceu o meu nome" (Sl. XC, 14). Nosso Senhor Jesus Cristo convida-nos a orar com confiança; e, para inculcar esta disposição, recorre não somente às exortações mais insistentes, mas ainda às parábolas mais comovedoras. Ele possui o mais perfeito coração humano, o mais terno, o mais amante, o mais desejoso de praticar o bem, o mais sensível ao esquecimento e à ingratidão. Quando Jesus Cristo pode encontrar uma alma completamente confiante n'Ele e convencida de sua própria miséria, não há maravilhas que não opere nela.

   Quando o sentimento de nossas misérias nos inquietar, meditemos estas palavras de São Vicente de Paulo: "Representais-me as vossas misérias. E quem não se encontra, infelizmente, cheio delas? Tudo está em as conhecer e amar a abjeção que as acompanha, como vós fazeis, sem se deter mais que para nelas estabelecer o fundamento bem firme duma grande confiança em Deus; porque então o edifício levanta-se sobre rocha, de sorte que, ao rugir a tempestade, fica imóvel".  Na verdade, as nossas misérias atraem, efetivamente, a misericórdia divina, quando a invocamos com humildade, e não fazem senão pôr-nos na melhor disposição para recebermos as graças divinas. São Vicente acrescentava que, quando Deus começou a fazer bem a uma criatura, não cessa de lho continuar a fazer até o fim, se ela se não torna excessivamente indigna dele. Assim, as misericórdias passadas são penhor das futuras.

   Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e dos do mundo inteiro; pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro. Meu Jesus, misericórdia! Jesus, eu confio em Vós! Amém!

domingo, 16 de abril de 2017

SERMÃO DA RESSURREIÇÃO

Surrexit, alleluia!  Ressuscitou, aleluia!

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! 

   Uma Feliz e Santa Páscoa a todos!

   Pelas três horas da tarde, na sexta-feira Santa, estando tudo consumado, inclinando a cabeça Jesus rendeu o espírito. Suspenso entre o céu e a terra Jesus estava realmente morto. A obra ímpia dos filhos das trevas estava consumada. O Salvador do mundo tinha exalado o último suspiro. Seu corpo, descido da cruz, tinha sido colocado num sepulcro. Os fariseus triunfavam. Viram a seus pés o cadáver sangrento e inanimado de Jesus a quem tanto odiavam. Nos arraiais dos escribas e fariseus a alegria era geral, embora mesclada de um certo temor. Pois Jesus tinha ressuscitado o jovem de Naim, a filha de Jairo e Lázaro. E isso agora pouco importaria se Jesus não tivesse também predito sua própria ressurreição: "Ao terceiro dia o Filho do Homem ressurgirá". Sua desconfiança, portanto, não era de todo infundada. Impunha-se máxima cautela.
   Antes prevenir que remediar. Cuidadosos, fariseus e escribas puseram guardas em redor do túmulo. Selaram a tampa com o selo da nação. Deixaram ordens severas ao pelotão dos soldados. Retiraram-se satisfeitos. 
   Vede homens cegos e insensatos, quereis ligar o Verbo Eterno. Credes selar para todo sempre nas entranhas da terra a Religião de Cristo!?


 Três dias depois, era de madrugada. As estrelas iam desmaiando uma após outra na cúpula celeste. Meigos clarões de uma linda aurora purpurizavam as nuvens. Os passarinhos começavam a pipilar nos arbustos. O sol não tardaria a dourar os píncaros do Calvário.
    E eis que a terra treme, a pedra sepulcral é retirada, os guardas caem por terra como mortos. Jesus Cristo sai glorioso do túmulo. Surrexit! Ressuscitou! Sua alma pelo poder da divindade unira-se de novo ao  corpo, o qual se levanta majestoso, saindo triunfante do sepulcro. Surrexit! Alleluia! Ressuscitou! Aleluia! Que palavra!!! meus irmãos!!! Vinte séculos são passados que ela se fez ouvir pela primeira vez sobre um túmulo vazio. Um anjo a disse a algumas mulheres, estas a alguns discípulos e estes a toda Jerusalém. De Jerusalém ela passou pelas nações e percorreu rapidamente a terra inteira. E sob a ação desta palavra tudo se muda: o velho mundo desmorona-se, os velhos costumes caem-se, um mundo novo se eleva, novos costumes florescem. A humanidade regenerada sente um sangue novo circular em suas veias. 
    Surrexit! Ressuscitou! E depois, cada ano, num dia marcado a Igreja repete esta palavra. Ela a canta em seus cânticos. Ela a diz em suas orações. Ela a proclama em seus ensinamentos. Ela a lança com entusiasmo nas abóbodas de seus templos. E os ecos sagrados, a voz dos fiéis e os instrumentos religiosos a repetem: Surrexit! Ressuscitou! Alleluia, Alleluia! A esta palavra o gozo renasce em todos os corações, a felicidade se pinta em todos os olhares, o luto da Santa Quaresma desaparece. Os altares se cobrem de flores, os sacerdotes entoam novamente seus cânticos de alegria. Alleluia! Repicam os sinos nos céus de primavera em cada ângulo do mundo, sob todas as latitudes!!!

   Mas, caríssimos e amados irmãos, por que este gozo universal? É porque a Ressurreição de Jesus Cristo é a pedra angular do Cristianismo. Jesus ressuscitou! Tudo está aí contido: Dogma, Culto, Moral. Se Jesus Cristo ressuscitou, nossa fé é certa, nossa esperança é segura, nossa Religião é divina. 

   Mas não é este o único motivo de nossa alegria e extraordinário júbilo neste santo dia: A Ressurreição de Jesus Cristo é também o penhor e ao mesmo tempo o modelo de nossa ressurreição futura. E este pensamento leva ao auge a nossa felicidade. Jesus Cristo ressuscitou, logo nós ressuscitaremos também e nas mesmas condições e com a mesma glória, é claro, segundo nossa medida limitada de  puras criaturas. Assim, que a nossa carne se desfaça no pó do qual veio, nós não nos inquietaremos. Um dia ela se elevará deste mesmo pó cheia de vida e gloriosa. O próprio Jesus garantiu que os justos brilharão como o sol. 

   Jesus Cristo pôde ressuscitar a Si mesmo, Ele poderá ressuscitar também a nós. Nenhuma voz mortal, nenhuma voz divina, nenhum profeta, anjo algum Lhe disse: Levantai-Vos. Nenhuma mão estranha desligou as faixas que prendiam seu sudário. Só, no silêncio da noite rompeu as portas da morte, sozinho a abateu e venceu. Ora, o que Ele pôde para Si, não poderá para nós? Nossa carne não é porventura da mesma natureza que a Sua? Nosso corpo não é semelhante ao seu Corpo? Não disse Ele: "Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim e Eu nele; e Eu o ressuscitarei no último dia? 
   Depois, Jesus mesmo prometeu: " Eu sou a Ressurreição e a Vida. O que crê em mim, ainda mesmo que tenha morrido, viverá e todo homem que vive e crê em mim não morrerá para sempre".

   São Paulo exclama: "Si compatimur ut et conglorificemur". Se sofremos com Cristo para que com Ele sejamos igualmente glorificados". Jesus Cristo é a nossa Cabeça e nós somos seus membros. Nossas mãos como as de Jesus devem distribuir benefícios sobre os homens; nossos pés, a exemplo dos Seus, devem correr a procura de nossos irmãos que se extraviaram. Nosso corpo todo inteiro como nossa alma deve se entregar às obras de piedade e de misericórdia. Pois bem, este corpo assim oferecido em vítima para a glória de Deus e ao bem das almas, estas mãos que tantas vezes depositaram o bálsamo nas chagas dos feridos, estes pés que levaram a consolação e a esperança nos tugúrios dos pobres e dos infelizes; estes pés tão belos que levaram o Evangelho às nações bárbaras; estes pés e estas mãos, este corpo, serão então para sempre cinza e pó e, depois de ter participado dos trabalhos do Corpo Mistico de Jesus Cristo, eles também não participarão da Sua glória? 

   Tanto no pensamento do grande Apóstolo como no pensamento de todos os cristãos, o dogma de nossa ressurreição futura está estreitamente ligado ao dogma da Ressurreição de Jesus Cristo. Um é a consequência rigorosa, necessária do outro.

   Mas a Ressurreição de Jesus Cristo não é somente o penhor de nossa ressurreição. Ela é também o modelo da nossa.
    Jesus sai do túmulo, inteiramente outro. Sai com seu corpo revestido com todos os dotes de um corpo glorioso. Não mais sujeito à dor, à enfermidade, à morte. Seu corpo ressuscitado é ligeiro como o espírito, penetrável, entrará no Cenáculo estando as portas fechadas. Todo ele revestido de glória e resplendente de luz, deslumbrará seus discípulos por aparições inesperadas. Ora, caríssimos irmãos, todas estas qualidades constituirão os dotes dos nossos corpos ressuscitados. Não haverá mais lugar para a morte. Esta foi tragada na vitória de Cristo. Nossos corpos terão por abrigo as abóbodas celestes, por vestes a luz deslumbrante do paraíso; por alimento, a eterna vista e eterna posse de Deus. 

   Alleluia! Alleluia! Regozija-te, portanto, ó minha carne no dia da Ressurreição de Jesus! Este dia é o anúncio de tua regeneração e de teu triunfo. Este dia é verdadeiramente o dia que fez o Senhor. Nossa alma está na alegria, nosso corpo cheio de esperança!
   Não! Não! a separação de minha alma e de meu corpo não será eterna. Estes dois seres, tão longo tempo e tão estreitamente unidos se reunirão um dia. Quando a alma se separar com tanta pena do corpo que ela anima, o adeus que ela lhe diz não é um adeus sem esperança. Eles se tornarão a ver, se reencontrarão um dia. Ao som de trombeta angélica a alma acorrerá sobre este túmulo onde repousa seu mortal invólucro. Ela chamará seu companheiro bem amado; e a esta voz conhecida, o corpo se levantará do pó e se unirá em fraternais amplexos a alma, sua cara companheira. 

   Eis, caríssimos irmãos, o que a solenidade deste dia nos anuncia. Jesus Cristo saindo radioso do túmulo nos diz: Vede-Me. O que Eu sou, vós sereis um dia. Aleluia! Aleluia!

   Uma mãe, a quem havia pouco, tinham morrido dois filhos, ouviu falar do juízo final e da ressurreição da carne.  - "Portanto - dizia ela extasiada - meus dois filhos eu os verei ainda, ainda poderei acariciá-los. Ver-lhes-ei os seus rostos, beijá-los-ei ainda; porém, não mais chorando, como os beijei, frios, frios, antes de os recompor no caixão. Mas quando será? "Quando as trombetas dos anjos soarem a hora do juízo final!"
   E quase impaciente por tornar a ver seus filhos, aquela mãe disse: "E por que não é amanhã este dia?"

   Caríssimos irmãos! Quem é que não chora algum parente defunto! Talvez sua mãe, talvez um irmão, talvez o esposo? Quantas vezes não vos assaltou um desejo veemente de lhes rever as feições, de olhar nos olhos tristes, de tornar a ouvir-lhes a voz qual a ouvíamos em horas felizes?
   Pois bem! O mistério da Páscoa dá-nos um grande consolo. Revê-lo-emos, tornaremos a ver não só os seus espíritos mas também os seus corpos gloriosos; revê-lo-emos como os havemos conhecido e amado na terra.

   Os santos sorriam na hora da morte. E tinham razão. Para o cristão que procura imitar a Cristo, a morte não passa de uma breve separação entre a alma e o corpo. É a alma que saúda seu corpo: Até breve irmão, combatemos juntos, estás cansado, deixo-te repousar. Depois de teu breve sono, ao soar da trombeta angélica, voltarei para te retomar, mas para gozares sempre, sem mais te cansares. 

   Ressurgiremos! Este é o grito de Jó: "Sei que o meu Redentor vive. Mas também sei que no último dia eu também ressurgirei para O ver com estes meus olhos!"

   Preparemo-nos, caríssimos irmãos, para a gloriosa ressurreição dos corpos, ressurgindo do pecado e da tibieza.
   Se caímos em algum pecado, comecemos tudo de novo. Confessemo-lo arrependidos.

   O rei Felipe II de Espanha velou uma noite inteira para escrever ao Papa uma carta de suma importância. Quando acabou, distraído pela fadiga e pelo sono, em vez de derramar nela a areia para enxugar; derramou a tinta. Felipe II empalideceu, mas depois recolhendo a sua coragem disse: "Comecemos de novo".
   Oh! Se na nossa vida tem havido momentos de sono e distração em que havemos derramado a tinta dos pecados na nossa alma, hoje que é Páscoa, é justamente o momento oportuno de dizermos: Comecemos de novo! Amém! Assim seja!

   

sábado, 15 de abril de 2017

SANTA PÁSCOA

SANTA PÁSCOA

  
"Vós não sabeis que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Nós fomos, pois, sepultados com Ele, a fim de morrer (para o pecado) pelo batismo, para que assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim nós vivamos uma vida nova" (Rom. VI, 3 e 4).

 Desejo aos caríssimos leitores uma FELIZ E SANTA PÁSCOA!

Os méritos de Jesus Cristo adquiridos pela sua Paixão e Morte, subsistem para depois da Sua gloriosa Ressurreição. Para isto significar, quis conservar as cicatrizes das chagas: apresenta-as ao Pai em toda a sua beleza, como títulos à comunicação da sua Graça. Como diz São Paulo: "... (Jesus) porque permanece para sempre, tem um sacerdócio que não passa. Por isso pode salvar perpetuamente  os que por Ele mesmo se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós"(Hebr. VII, 25).

É logo no Batismo que participamos da graça da Ressurreição. É também o que diz S. Paulo, como acima transcrevemos.  A água santa em que mergulhamos no Batismo é, segundo o Apóstolo, a imagem do sepulcro (na época se administrava o batismo também por imersão). Ao sair dela, fica a alma purificada de toda a falta, de toda a mancha, livre da morte espiritual e revestida da graça, princípio da vida divina. Jesus Cristo tem infinito desejo de nos comunicar a Sua vida gloriosa, assim como teve um ardente desejo de ser batizado com o batismo de sangue para nossa salvação. E o que é mister seja feito para correspondermos a este desejo divino e nos tornarmos semelhantes a Jesus ressuscitado? É preciso viver no espírito do nosso Batismo: renunciar de verdade (e não só de lábios) a tudo o que na nossa vida é viciado pelo pecado; fazer "morrer" cada vez mais o "velho homem". Continuando o texto supracitado no início: "Porque, se nos tornarmos uma só planta com Cristo, por uma morte semelhante a d'Ele, o mesmo sucederá por uma ressurreição semelhante, sabendo nós que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com Ele, a fim de que seja destruído o corpo do pecado, para que não sirvamos jamais ao pecado" (Rom. VI, 5 e 6). Assim, tudo em nós deve ser dominado e governado pela graça. Nisto consiste para nós toda a santidade: afastar-nos do pecado, das ocasiões do pecado, desapegarmo-nos das criaturas e de tudo o que é terreno, para vivermos em Deus e para Deus com a maior plenitude e estabilidade possíveis.  E São Paulo continua explicando: "De fato aquele que morreu, justificado está do pecado. E, se morremos com Cristo, creiamos que viveremos também juntamente com Cristo"...

Caríssimos, esta obra de santidade inaugurada no Batismo, continua durante toda a nossa existência. São Paulo dizia: "Eu morro todos os dias". É certo que Jesus Cristo só morreu uma vez; deu-nos assim o poder de morrer com Ele para tudo o que é pecado. Nós, porém, devemos "morrer" [espiritualmente falando] todos os dias, pois conservamos em nós as raízes do pecado, raízes estas que o demônio trabalha para fazer brotar de novo. Portanto, destruir em nós essas raízes, fugir de toda a infidelidade, desapegar-se de toda criatura amada por si mesma, afastar das nossas ações todo o motivo, não só culpável, mas puramente natural; libertar-nos de tudo o que é criado, terreno, conservar o coração livre duma liberdade espiritual, - eis, caríssimos, o primeiro elemento da nossa santidade. Mostra-o S. Paulo em termos os mais expressivos: "Purificai-vos do velho fermento para serdes uma massa nova; pois, desde que Jesus Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado por nós, tornastes-vos pães ázimos. Participemos portanto do banquete, não com o fermento antigo, o fermento do mal e da perversidade, mas com os ázimos da verdade e da sinceridade".

Aqui também faz-se mister uma explicação: Entre os Israelitas, nas vésperas da festa da Páscoa, deviam desaparecer das casas toda a espécie de fermento; No dia da festa, depois de imolado o cordeiro pascal, comiam-no com pães ázimos, isto é, sem fermento, não levedados (Cf. Ex. XII, 26 e 27).  Pois bem! Tudo aquilo eram apenas "figuras e símbolos" da verdadeira Páscoa, a Páscoa cristã. Naquele momento da regeneração batismal, participamos da morte de Cristo, que fazia morrer em nós o pecado: tornamo-nos, e assim devemos permanecer pela graça, uma nova massa, isto é, "nova criatura", "novo homem", a exemplo de Jesus Cristo saído glorioso do sepulcro.

Os judeus, chegada a Páscoa, se abstinham de todo  o fermento para comer a cordeiro pascal, "assim também vós, cristãos,  que quereis participar do mistério da Ressurreição e unir-vos a Jesus Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado por vós, deveis, doravante, levar uma vida isenta de todo o pecado; deveis abster-vos desses maus desejos que são como que um fermento de malícia e perversidade. Fermento velho são, ainda, as paixões desregradas que subvertem o coração, na revolta  contra as leis naturais e sobrenaturais, para levá-lo à condenação final. Fermento velho é, também, a vaidade que, motivando as boas obras, impede-lhes todo o merecimento divino. Fermento velho enfim, é aquele espírito mundano que, impregnando as mentes dos fiéis, leva-os a conciliarem máximas terrenas e ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim este fermento velho mina a vida espiritual dos cristãos. Envenenados por ideias mundanas ,vivem completamente alheios aos destinos eternos, apenas buscando uma felicidade efêmera. Baseados numa noção deturpada de "misericórdia" e levados por um espírito ecumênico e não missionário, aprovam os erros dos inimigos da Igreja, e a eles se conformam. Curvando-se à leis do mundo, preferem a liberdade desenfreada dos homens deste século à moral puríssima e imutável dos Santos Evangelhos.

É contra tudo isto que São Paulo alerta veementemente: "Purificai-vos do velho fermento, para que sejais uma nova massa, vós que constituís a sociedade dos filhos de Deus". Caríssimos, não mais o fermento do pecado e, sim o pão ázimo da virtude; não mais o fermento doas paixões desregradas, e sim o pão ázimo da pureza; não mais o fermento da vaidade e sim o pão ázimo da verdade que busca a glória de Deus; não mais o fermento do espírito mundano e, sim, o pão ázimo dos princípios tradicionais que nos ensinam a andar na terra com as vistas voltadas para o reino dos céus, e nos impõem a profissão integral da nossa fé sem as mesquinhas concessões ao respeito humano, e sem as vulgares condescendências ao espírito moderno.

Em um palavra: celebrar a Páscoa com o pão ázimo de pureza e da verdade.   

Não podemos servir a dois senhores ao mesmo tempo. E, se renunciamos ao demônio, suas obras que são os pecados, e suas pompas e vaidades que levam ao pecado, digo, se renunciamos a tudo isto, é justamente para vivermos para Deus. E este viver para Deus encerra em si uma infinidade de graus. Supõe em primeiro lugar afastamento total de todo pecado mortal; pois, entre este e a vida divina há incompatibilidade absoluta. Há depois a separação do pecado venial, das raízes do pecado, de todo o motivo natural; desapego de tudo quanto é criado. Quanto mais completa for esta separação, mais libertados estamos, mais livres espiritualmente e mais se desenvolve e desabrocha também em nós a vida divina; à medida que a alma se liberta do humano, abre-se para o divino, vive na verdade a vida de Deus.

Caríssimos, permaneceremos em Jesus que é a Vida, pela graça, pela fé que n'Ele temos, pelas virtudes de que Ele é o modelo perfeito. E é preciso que Jesus Cristo reine em nossos corações. É mister que tudo em nós Lhe seja submetido.  Jesus deve ser a nossa vida. Oxalá pudéssemos dizer com todo verdade como São Paulo: "Vivo, mas não sou mais que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim!"

Enfim, os sinos da Páscoa anunciam  não apenas Jesus Cristo ressuscitado, mas, afinados na misericórdia divina, repicam alegres, também para os pecadores, mas para os pecadores arrependidos e penitentes, pecadores que também surgiram do sepulcro dos seus pecados. E assim aproximam-se também eles do Banquete Eucarístico de uma Santa Páscoa.


Vamos resumir tudo com palavras de São Paulo: "Portanto, se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são lá de cima, onde Cristo está sentado à destra de Deus; afeiçoai-vos às coisas que são lá de cima, não às que estão sobre a terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus" (Col. III, 1-3). Amém! Aleluia!


O SEPULCRO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

 Para um Deus, o sepulcro é o último grau de humilhação!
  "Aniquilou-Se a si mesmo". Só achamos uma imagem desta humilhação na comunhão. Ali também não é só Deus que desaparece, é o próprio homem, e ainda mais que na sepultura, onde ao menos conservava a forma exterior de um corpo humano. Não se abaixou tanto na Eucaristia, senão para nos inspirar a confiança de que precisávamos, para comer a sua carne e beber o seu sangue. Preparemos-Lhe no nosso coração um sepulcro, em que tenha gosto de estar. José e Nicodemos receberam o divino corpo privado de vida: nós recebemo-Lo vivo e dando a imortalidade!

 Depois da morte,o Corpo de Jesus é descido da Cruz, depositado por alguns instantes nos braços de sua inconsolável Mãe que O cobre de lágrimas, e em seguida prestam-Lhe, como aos outros homens, as honras da sepultura. É hoje que se verifica plenamente a palavra de São Paulo: "Aniquilou-se a si mesmo".


 "Seu sepulcro será glorioso". A terra e os Céus vão regozijar-se deste triunfo; felizes os vossos verdadeiros servos fiéis, porque participarão dele um dia.  É impossível deixar de ver os desígnios da Providência divina, ao permitir que se fechasse a entrada do sepulcro com uma grande pedra, e que fosse mandado selar e guardar. Com efeito, Deus queria que todas estas precauções servissem para comprovar a morte e sepultura do seu Filho; queria com isto refutar de antemão a fábula ridícula do roubo do corpo, e dar à ressurreição uma certeza que vencesse a mais obstinada incredulidade. Só Vós, ó meu Salvador, achais na vossa sepultura o princípio do triunfo que vosso Pai vos confere. Profundamente humilhado no sepulcro, sois glorificado pelo mesmo sepulcro.




Igreja do Santo Sepulcro
Caríssimos, na verdade, o sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma escola de perfeição. Naquelas trevas em que se envolve, também nos diz que amemos a vida solitária, porque é muito favorável à inocência e ao progresso da virtude. É também um belo modelo de obediência: é um corpo morto. Mas admiro ainda mais a obediência que presta a seus ministros sagrados, que dispõem dele como querem, É inacessível a toda a corrupção por causa da divindade a que está unido. Também nós, se permanecermos unidos a Jesus pelo amor, conservar-nos-e-mos incorrutos embora  vivendo no mundo que é um sepulcro de corrupção. No sepulcro Jesus conserva toda a força para sair dele; também nós receberemos da nossa união com Jesus, o poder de vencer as paixões e o inferno, e como o Divino Salvador, alcançaremos também a glória da ressurreição. Amém!

sexta-feira, 14 de abril de 2017

SERMÃO DA PAIXÃO: Exórdio, Oração e Agonia do Horto

ATTRITUS EST PROPTER SCELERA NOSTRA
(Isaías 53,5)
"Foi despedaçado por causa de nossos crimes".

  Pelo Sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém!

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

 -  Quem não souber o que é o pecado, quem não lhe conhecer a graveza e enormidade, venha ver a satisfação que dele toma o Pai Eterno em seu Unigênito e diletíssimo Filho; "Pelos pecados do meu povo eu o cobri de chagas".

  -  Quem não sabe o estado lastimoso em que o pecado põe a alma de quem o comete, venha ver em que estado a satisfação de nossas culpas pôs a Nosso Senhor Jesus Cristo. "Non est ei species neque decor, exclama o Profeta: "não tem nem formosura nem aparência humana".

  -  Se não receais, pecadores, da justíssima indignação de Deus contra vossas culpas, vinde ver a manifestação que delas faz a Justiça Divina em seu amantíssimo Filho. Diz São Paulo: "Deus o propôs para demonstração de sua justiça". Vereis como o fogo da ira de Deus se ateia no ramo florido da inocência de Jesus e daí podereis julgar o que fará no lenho do vosso coração seco e estéril pelo pecado.

   -  E vós, cegos e iludidos, que derramais nas criaturas o amor de um coração que é só de Deus, vinde ver o extremo de amor com Cristo vos ama e deixai-vos por obrigados e vencidos de tão excessiva caridade.

   -  Vinde todos ouvir a lastimosa narração da Paixão e Morte de Cristo. E queira Deus que, esta tristíssima consideração produza nas almas os efeitos devidos. Queria Deus que, aos cristãos que me ouvem, lhes entre no coração a perfeita contrição de seus erros e de suas culpas!

   Mas, que tristíssimo assunto se oferece às nossas piedosas meditações: Um Deus morto, como se fora o mais torpe dos criminosos! Morto numa cruz!!!

   Diante de um Deus crucificado, o vasto universo deve precipitar-se na aflição para prantear a perda de seu divino Autor.
  Diante de um Deus crucificado, a orgulhosa razão adore reverente o mais terno e santo de todos os mistérios!
    Diante de um Deus crucificado, cristãos, meditai, cheios de piedade e de verdadeira compunção sobre o mais trágico acontecimento que se tem dado sobre a terra; sobre o ponto mais majestoso e tocante da Santa Religião que professamos.

ORAÇÃO E AGONIA NO GETSÊMANI

   Aproximava-se a hora fatal em que as profecias asseveravam ter soado para o Divino Mestre o momento de seus tremendos combates...

  Terminada a última Ceia, instituído o Sacramento da Eucaristia, reuniu Jesus os discípulos fiéis, encaminhado-se, com passo firme e resoluto para o Jardim das Oliveiras. Entrando no Getsêmani, afastou-se para uma espécie de gruta, recomendando aos discípulos que velassem um instante enquanto Ele ia orar ao seu Eterno Pai. E Jesus começou a sentir tristeza mortal: "Tristis est anima mea usque ad mortem". Era a agonia que começava!
  Sentindo Jesus a torrente de iniquidades que se Lhe despenham sobre o coração, pálido, abatido, lamenta-se. Foi buscar algum alívio no coração dos seus discípulos. "Eu sinto morrer de tristeza. Se pois, me tendes algum amor, permanecei aqui e velai comigo por uns poucos momentos". Era o tédio que torna insuportável a alma. Era o pavor que abala o coração até aos fundamentos. Era a tristeza que tudo reveste de sombras funerárias. Era o abatimento que são os preâmbulos da morte que se avizinha inexorável. Tal era o estado de Jesus no Jardim das Oliveiras; e no entretanto, os discípulos dormiam. "Assim não pudestes velar comigo alguns instantes?

   Ó vós que estais resolvidos a não mais pecar! Considerai! A maior miséria do homem não é, certamente o ser fraco, senão o reputar-se forte. É o orgulho, a presunção com se fia de si mesmo. Vede os discípulos e aprendei! Fortes, intangíveis na abundância imaginária de suas forças, cheios de presunção, julgavam tocar a cabeça nas nuvens e ei-los de repente precipitados até às portas do abismo! Agora dormem; daqui a pouco, fugirão. 
   Desconfiai de vós mesmos - recorrei às luzes da oração, - valei-vos da força dos Sacramentos - vigiai e orai porque a carne é sempre fraca, embora se disponha o espírito às mais heroicas resistências.

   Outra vez, afastando-se dos discípulos, prostra-se Jesus com a face por terra exclamando em altas vozes: "Meu Pai, meu Pai, tudo é possível à vossa vontade onipotente. Se é pois da vossa vontade, se é possível poupar-me este martírio, passe para longe de mim este cálice de angústias!".
   Oração singular em que se jogam os destinos dos homens!
   Se é possível!!! - Mas se Deus não ouve a oração de Jesus, que há de ser de Seu Filho Unigênito, abandonado a todos os horrores de uma Paixão inominável?! Mas, se pelo contrário, cede à súplicas do Salvador, que há de ser de nós, pobres pecadores, cuja salvação está precisamente no sacrifício do Homem-Deus? Ouçamos do Céu a resposta: 

   Não. Não é possível, diz o Eterno Pai, porque este meu filho que é a santidade e inocência infinitas está revestido dos despojos do pecado e é o bastante para torná-Lo odioso aos meus olhos.

   Eis o que é o pecado! No entanto, quantas desculpas e quantas indulgências para o pecado cometido! Ó pecador insensato! Julgas, talvez, que a Justiça Divina aprecia o pecado com a indiferença do homem que o comete?! Não. Por um só pensamento mau que acolheste em teu coração, foi Cristo abandonado a todos os tormentos de sua Paixão. 

   E os pecados dos homens como um cortejo fúnebre, vão passando, um a um, perfeitamente distintos, diante dos olhos apavorados do Salvador. São os pecados dos reis e os pecados dos povos. São os pecados dos ricos e os pecados dos pobres. São os pecados dos velhos e os pecados dos moços. São os pecados dos pais e os pecados dos filhos. São os pecados dos bispos e dos padres e os pecados dos seculares. São os meus pecados e são os vossos pecados. São os pecados de todos nós, em tal dia, em tal hora, em tal lugar, em tal circunstância!

   Vê Jesus os crimes de todos os lugares e tempos, os pecados que desolaram e desolarão as cinco partes do mundo: desde o pecado da Adão e Eva, desde o homicídio de Caim até a última blasfêmia do Anti-Cristo. Ele vê, naquela noite, todas as noites tenebrosas de orgias, de carnaval, todos os crimes mais secretos e vergonhosos. 
   Nessa torrente de iniquidades que, lamacentas, se Lhe despenham sobra a alma desfalecida, Jesus distingue as maledicências e as calúnias, as impudicícias e os adultérios, as infidelidades conjugais e os atentados contra a natureza, estes pecados monstruosos desta sociedade moderna tão paganizada e ateia: o divórcio, a limitação criminosa da natalidade, o aborto, a dissolução da família pela legalização odienta de pessoas do mesmo sexo. Jesus distingue as traições e as vinganças; os pensamentos de ódio e os pensamentos de ambição; as dissoluções dos sensuais  e a impiedade dos libertinos; a malignidade dos ateus e as imposturas dos hipócritas. 
   Distingue Jesus a monstruosa ingratidão dos seus escolhidos, os padres e os bispos: uns dormem o sono da inércia, outros estão acordados, mas não para O defender, e sim para aplicar na Sua Face adorável o beijo traidor de Judas. Jesus via o nosso tempo, tempo de modernismo, de deturpação do genuíno espírito do Evangelho.

   Não é para menos!

   Banha-Lhe o corpo, copioso suor de sangue que enche seus fartos cabelos e cai gota a gota por sobre a terra. 

   Ó pecador! Contempla este Sangue Divino, que vês cair gota a gota!... Que lucro tiraste deste Sangue? Tu permaneces insensível na trilha do pecado! Ó tu, católico tíbio, por que vives no comodismo? Que lucro tiraste deste Sangue que vês cair e escorrer por terra? Se não te enterneces é sinal de que o teu coração não é mais que pedra bruta e insensível!

   Ó Sangue de Jesus, inebriai-me do santo amor. Ó agonia mortal de Jesus, fazei-me morrer a toda afeto terreno. Meu amado Salvador, salvai-me, estreitai-me convosco, e não permitais que eu haja jamais de perder-me.
    Ó refúgio dos pecadores, Maria Santíssima, Mãe do meu Salvador, ajudai um pecador que quer amar a Deus e se recomenda a vós. Socorrei-me pelo amor que tivestes a Jesus Cristo. Amém!

   
   

SERMÃO DA PAIXÃO: A prisão e os tribunais

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Tendo meditado na Oração e Agonia do Horto, continuemos a acompanhar a Jesus na Sua Paixão meditando na Sua Prisão e Julgamentos nos diversos Tribunais.

    Terminada já aquela luta terrível entre a justiça e a misericórdia; tendo ainda a face umedecida e os cabelos empastados do suor de sangue, caminha Jesus para os discípulos adormecidos, desperta-os e sai ao encontro dos que O buscavam para prender.


 Momento terrível! Era chegada a hora do triunfo das trevas. Alta ia a noite. Lá ao longe, as oliveiras refletem mil vacilantes fogos. Os arbustos secos estalam ao peso dos passos de pérfidos e cautelosos soldados. Por estranhos lumes acordam os passarinhos que esvoaçam. Lá ao longe, se ouvem os gritos sinistros. Aparecem finas pontas de lanças lustrosas. Aproximam-se os inimigos de Cristo: à frente, manso como um irmão, jovial como um amigo, mas com o demônio no coração e a hipocrisia na língua, avança a víbora dolosa de um Judas Iscariotes: "Aquele a quem eu beijar, prendei-o".
   O miserável traidor encosta seus lábios hipócritas e criminosos ao rosto sacrossanto do Filho de Deus. E depois, Jesus afastando-o de leve, como para vê-lo bem de frente, murmurou-lhe baixinho: "Pois assim com um ósculo entregas o Filho do homem? Amigo, que vieste aqui fazer?"
   E tão adormecido lhe estava o remorso no recesso da consciência que não despertava Judas a essa voz divina que o chamava para a vida e para a graça.

   Vejo assim, dois homens que se abraçam, que se abraçam e se beijam: Judas e Jesus; o lobo e o cordeiro, a bondade e a perfídia, o amor e o ódio, a santidade e o pecado. Jesus em toda Sua vida foi belo, compassivo, generoso. Jesus fora sempre um encanto que fascinava. Um mistério de mansidão e bondade que atraía a todos e a todos acolhia compassivo. Tinha gestos de misericórdia, que faziam prostrarem-se a seus pés, contritas e regeneradas as Madalenas penitentes e gratas. Tinha olhares de infinita piedade, que penetravam no íntimo das consciências, transformando-as e purificando-as e levando o bálsamo da esperança aos pobres corações desalentados. Tinha sorrisos de divinal afeto que arrancavam do abismo as almas perdidas. 
    Mas, aqui, abraçado a esse homem infame; estreitando contra o Seu coração essa ferida repelente e infecta; colando Seus lábios puríssimos nessa fronte vincada pela mais revoltante de todas as baixezas. Nesse inesquecível abraço, eu O vejo mais belo, mais compassivo, mais generoso do que nunca, porque O vejo infinitamente amável, infinitamente misericordioso!
    Judas e Jesus, estreitamente unidos em doloroso abraço, é a segurança do meu perdão. Tomemos nós, caríssimos, o lugar vazio no Coração de Jesus, rejeitado por Judas orgulhoso e mau; humildes e dóceis, atiremo-nos em Seus braços, com lágrimas de arrependimento e protestos de gratidão. 

   Dado o beijo traidor, logo os algozes lançam-se como feras sobre Jesus, e, algemado como um bandido, levam- No à cidade. Assim preso, manietado, posto entre os malfeitores, lá segue Jesus para o palácio dos Pontífices, onde O aguarda Anás, para um simulacro de processo. 
   E Jesus olhou em volta de si e se viu inteiramente só e abandonado de todos os discípulos. 
   Diante de Anás, esse homem odioso, pontífice destronado, saduceu infestado de astúcia e crueldade, comparece Jesus, tímida ovelha conduzida ao sacrifício. Está de pé, calmo, sereno e tranquilo, para um julgamento irregular em que é réu a própria santidade, testemunha a monstruosa ingratidão, defensor ninguém, juiz a hipocrisia desleal. 

   Interrogado sobre sua doutrina, responde Jesus, mansamente, com o respeito devido à autoridade do Pontífice: -"Eu ensinei publicamente no templo e nas sinagogas onde se reúnem os judeus. Por que me interrogas? Pergunta àqueles que me ouviram'. A esta humilde e inocente resposta, um criado do Sumo Sacerdote se avança, levanta sua mão sacrílega e descarrega uma pesada bofetada naquela face augusta, que arrebata os anjos. Ah! exclama Santo Efrém, a terra estremeceu, o céu se revoltou, os anjos se horrorizaram e velaram sua face, mas o Pontífice não protestou!

   Coincidência singular! No momento em que Jesus apela para o testemunho dos Seus discípulos, no pátio da guarda, Pedro acabava de O renegar blasfemando e jurando que não conhecia semelhante homem.

   Na virtude como no pecado há sempre uma gradação perfeita. Desprezar uma graça é desmerecer outra graça. Ceder agora à tentação é preparar o desastre de amanhã. Tal é o exemplo da negação de Pedro. No fundo o orgulho, que se fia em si mesmo e não procura evitar a ocasião. Primeiro, foi uma simples mentira: - "Não serás, acaso do número dos seus discípulos?" - "Não, não sou". Depois foi uma negativa formal: - "Juro-te que não conheço este homem". E finalmente protesta, blasfemando e jurando, que não conhecia semelhante homem".
   
   E ainda a blasfêmia lhe queimava os lábios, segunda vez cantou o galo e recordou-se Pedro, da profecia de Jesus. Neste ínterim, ao fundo do átrio, manietado, aos empurrões, escarnecido e vaiado aparece Jesus que, voltando-se para o discípulo, deixou-lhe cair na alma e no coração um olhar de infinita ternura e carinhosa repreensão. E Pedro, tendo saído para fora do pátio, banha as faces em lágrimas de arrependimento, lágrimas regeneradoras e salutares.

   Coluna e fundamento da Igreja, ó Pedro! Chora e confirma-te no amor de Jesus, por Quem darás a vida com a generosidade de um convertido. Sai daquele lúgubre local.  Vai, Pedro, amanhã Jesus precisará de ti para confirmar os teus discípulos. Vai, receberás as chaves da Igreja, para abrir e fechar; para ligar e desligar os pecados submetidos à tua jurisdição universal. Aprende pois, da tua própria experiência a usar de compaixão para com os pobres pecadores. Tu, barro frágil e quebradiço, saberás que todo homem é do mesmo barro quebradiço e frágil: e tu serás afetuoso, tu serás como o Divino Mestre, todo doçura e compaixão.

   Jesus, tão bom, tão meigo, tão compassivo, está diante de Caifás e do grande Sinédrio, abandonado inteiramente dos seus. Só Lhe ficaram juízes sem entranhas...
    Às calúnias das testemunhas, Jesus responde com a dignidade triunfal do silêncio. E Caifás aproxima-se de Jesus esconjurando-O em altos brados a declarar-lhe se era de fato o Cristo, o Filho de Deus vivo. E recebe de Jesus a mais solene, a mais formal e positiva afirmação da Sua Divindade: "Tu o disseste, eu o sou, e um dia vereis o Filho do Homem assentado à direita do Onipotente vindo sobre as nuvens do céu".
   Blasfemou! rugiu Caifás. "É réu de morte", responderam os pontífices. É réu de morte, exclamaram as turbas. 

   Arrastado pelos Pontífices, comparece Jesus perante o tribunal de Pilatos. Pilatos e Jesus se acham em face um do outro. - "És tu, verdadeiramente, o rei dos judeus?" Com olhar profundo, sonda Jesus a alma do procônsul, interrogando-o: "Dizes isto de ti mesmo, ou repetes o que outros te disseram de mim? O meu reino, continuou Jesus, não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos teriam combatido para que eu não caísse nas mãos dos judeus". - Portanto, replica o procônsul, és tu verdadeiramente rei? - "Tu o disseste. Eu sou Rei. Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade".  - "A verdade! murmurou Pilatos, que é a Verdade?"...
   E a multidão se avolumava mais e mais, excitada pelos pontífices: "É um malfeitor!"
   - Mas não encontro neste homem, motivo algum para condenação!
   - Se não fosse um malfeitor não o teríamos trazido à tua presença.
   Debalde se esforçava o Procônsul por arrancar o Salvador da sanha enfurecida da turba inconsciente. E o Governador pagão, declarando que n'Ele não encontrava o menor fundamento de acusação; envia-O para Herodes.

   Jesus guarda perante esta orgulhosa corte o mais profundo silêncio; pelo que o rei, considerando-O como louco, O reenvia a Pilatos depois de O ter mandado vestir de branco, como uma representação de demência. 
   Sim, Herodes, Jesus é verdadeiramente um louco, mas é um louco de amor, porque deseja morrer até por aqueles que tão desumanamente O perseguem. 
  
   Jesus novamente diante do Governador. 
  Os judeus continuaram a pedir, em gritos, a morte de Jesus. Pilatos, reconhecendo a Sua inocência, procura livrá-Lo, embora seja necessário para isto, recorrer a um meio infamante.
   Havia um privilégio do povo, para perdoar a um criminoso na Festa da Páscoa. - "Escolhei, disse-lhes Pilatos, escolhei entre Jesus e Barrabás: quem deve ser posto em liberdade".
   Que horrível paralelo! Jesus, o Santo dos Santos! Barrabás, um monstro coberto de crimes! E ambos são pesados na mesma balança!!! - A qual dos dois quereis que vos solte, a Jesus ou a Barrabás? A Jesus que deu a vida aos mortos ou a Barrabás que deu a morte aos vivos?
   - Livrai a Barrabás, a Jesus, condenai-O à morte, gritaram todos a uma só voz. Ó cúmulo de abominação!!!
   E, contudo, é esta a injúria que Jesus recebe constantemente de muitos cristãos. Não é um ladrão, nem um assassino que nós preferimos a Jesus; é um metal, uma vil criatura, uma satisfação criminosa, um degradante prazer de um momento... E quem sabe, se agora eu dissesse a alguns de vós que me ouvis: a quem quereis crucificar em vossa alma: Jesus ou o torpe objeto de vossos criminosos desejos? Alguém me responderia: que morra Jesus, contanto que minhas paixões sejam satisfeitas!

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, compadecei-vos da dor de Jesus, mostrai-Lhe o vosso reconhecimento. Pedi que o seu sangue caia em abundantes bênçãos sobre vós e sobre todas as almas; que ele caia sobre os corações mais duros, para os enternecer, sobre os mais manchados, para os purificar, sobre todos, para os salvar. Amém!
    

SERMÃO DA PAIXÃO: Flagelação e Coroação de Espinhos

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! 
  
   Continuemos a acompanhar o Nosso Divino Mestre em sua Paixão.

   "Attritus est propter scelera nostra". "Foi despedaçado por causa dos nossos crimes". (Isaías, 53, 5). 

   O Governador romano, surpreendido pela escolha que fizeram, condena o Salvador a uma cruel flagelação, julgando assim pacificar pela efusão de Seu Sangue, o furor de Seus inimigos.

 
Apenas foi proferida esta iníqua sentença, os algozes e os soldados se apoderam da Vítima Santa. Despem Jesus de Seus vestidos. Prendem-no à uma coluna e com toda força e brutalidade fazem voar a sua carne em pedaços e jorrar seu sangue na terra, com fortes e repetidos golpes dos azorragues. 

    Ó Céus! Que confusão para o Deus que cobre a terra de nuvens, o firmamento de glória, que reveste os pássaros de sua plumagem, as flores de seu esmalte, os lírios dos campos de sua candura... ver-se exposto no estado de nudez à vistas impuras. Porém, os seus verdugos não estão ainda saciados; eles tecem uma coroa de espinhos, e com ela cingem a cabeça do Filho de Deus; estendem sobre os Seus ombros um andrajo de púrpura. Colocam em Suas mãos uma cana, para deste modo, irrisoriamente representarem a Sua Divina Realeza. Depois de O terem assim preparado, como um rei de teatro, ajoelham-se diante d'Ele por escárnio; cobrem a Sua Face de escarros. E Pilatos, vendo Jesus assim maltratado, julgou que mostrando-O ao povo excitaria compaixão. E foi assim flagelado e desfigurado que Pilatos o designou à piedade da multidão: "Ecce Homo!" Eis o homem!
    Eis o homem que curou os vossos doentes, ressuscitou os vossos mortos! Ainda não O maltratastes bastante?!
     Ah! estas expressões são dirigidas agora a todos os pecadores: "Ecce Homo!" Mundanos, diante de um Deus açoitado e coroado de espinhos para pagar a vossa moleza e a vossa sensualidade:  É uma ingratidão, é uma tirania, permanecerdes afogados no seio do luxo, da volúpia e de tantos prazeres criminosos!...

   "Ecce Homo!" Este quadro é para vós, pais e mães de família, que tendes à vossa guarda a candura virginal das vossas filhas! Filhas abandonadas a todos os perigos da sua inexperiência e da maldade dos homens, com estas vestes imorais e indecentes com que as vestis. 

   "Ecce Homo!" Este quadro é para vós, senhoras levianas e vaidosas, que não chegais a convencer-vos de que os requintes ridículos da moda visam de perto o desprestígio da mulher cristã. 


 Minha alma, enquanto Jesus era flagelado e coroado de espinhos, ultrajado e cuspido, Ele pensava em ti e oferecia a Deus Pai seus acerbos martírios para livrar-te dos flagelos eternos do inferno. Ó Deus de amor, como pude eu viver tantos anos sem Vos amar! Ó chagas de Jesus, feri-me de amor para com Deus que tanto me amou. Ó Maria Santíssima, Mãe da graça, alcançai-me este amor! Amém!