SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 25 de fevereiro de 2018

HOMILIA DOMINICAL - 2º DOMINGO DA QUARESMA

Leituras: Primeira Epístola de São Paulo Apóstolo aos Tessalonicenses 4, 1-7.
                Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 17, 1-9: 

Pintor: Rafaello Sanzio (1483-1520). Vaticano - Pinacoteca.
Na parte superior o pintor representa a Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em baixo: vemos no sopé do Monte Tabor, um menino possesso que os seus pais
apresentam aos 9 Apóstolos (S. Pedro, S. João e S. Tiago estavam no alto do Tabor
presenciando a Transfiguração). Mas os Apóstolos não conseguiram expulsar o
demônio do menino. Após a Transfiguração, Jesus desceu do monte e, a pedido do
pai do menino, expulsou o demônio. Os Apóstolos que não conseguiram expulsar
o demônio, perguntaram a Jesus, por que não conseguiram? Jesus disse: Há uma
espécie de demônio que só se expulsa com jejum e oração. 
   "Naquele tempo, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os de parte a um monte muito alto. E transfigurou-se diante deles. Seu rosto resplandeceu como o sol. e suas vestes tornaram-se brancas como a neve. E eis que apareceram Moisés e Elias, falando com Ele. Então Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: "Senhor, é bom estarmos aqui; se quiserdes, faremos aqui três tendas, uma para Vós, outra para Moisés e outra para Elias". Ainda falava ele, quando uma nuvem brilhante os envolveu, e da nuvem soou uma voz que dizia: "Este é o meu Filho muito amado em quem pus toda a minha complacência: ouvi-O". Ouvindo isto, os discípulos caíram com a face em terra e ficaram muito atemorizados. Aproximou-se, porém, Jesus, e, tocando-os, disse-lhes: Levantai-vos e não temais. E erguendo eles os olhos, não viram ninguém a não ser Jesus só. E enquanto descia com eles do monte, ordenou-lhes Jesus dizendo: A ninguém digais o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos".

   Caríssimos a amados fiéis em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   A primeira observação que fazemos é que Jesus Cristo escolheu para presenciar sua Transfiguração os mesmos três apóstolos privilegiados que presenciariam Sua agonia no Getsêmani: São Pedro, que seria o primeiro Papa, São Tiago que seria o primeiro apóstolo a morrer mártir, São João que era, pela sua virgindade, o discípulo que Jesus mais amava. 


Monte Tabor
São Pedro e São João guardaram sempre uma recordação tão indelével, quanto deliciosa, da Transfiguração de Jesus. O mistério se realizou, segundo a autoridade de São Cirilo e de São Jerônimo, na montanha do Tabor, onde Santa Helena edificou, mais tarde, um belo templo.
   Deixando por um instante, a forma de servo, Jesus se mostra o que realmente é no esplendor da sua glória, o Filho de Deus vivo. Segundo Santo Tomás, a Transfiguração foi menos um milagre que a cessação momentânea de um milagre. Com efeito, o mistério da Encarnação supunha dois milagres concomitantes - um , pelo qual o Filho de Deus se encerrava no corpo de um homem; outro, pelo qual a divindade, que naturalmente devia jorrar através da humanidade, se escondia sob os véus de uma carne mortal. 

   Jesus tem a seus lados os dois corifeus do Antigo Testamento e diante de si os Apóstolos do Novo. Moisés é a Lei, Elias os Profetas, os Apóstolos os Evangelhos. 

   A Transfiguração se realizou , ao que parece, durante a noite, e é de notar que os Apóstolos tenham sucumbido ao sono, enquanto Jesus orava, tanto no Tabor, como no Getsêmani. 

  Jesus pediu segredo sobre a Transfiguração certamente porque tal divulgamento teria aumentado o perigoso fanatismo dos que contavam erradamente com o reino temporal do Messias. 

   Caríssimos irmãos, talvez a pergunta mais provável sobre o evangelho deste segundo domingo da Quaresma seria: qual a razão de a Igreja colocar para nossa meditação um mistério de alegria em plena Quaresma? 

 
Igreja construída por Santa Helena, no alto do Tabor
onde se deu a Transfiguração.
  É que Jesus falava com Moisés e Elias sobre sua próxima saída da cidade de Jerusalém, o que significa sua morte no monte Calvário que ficava fora dos muros. Embora, pois, não pareça a primeira vista, na verdade, os mistérios da Transfiguração e da Paixão têm entre si íntima relação. É no meio dos resplendores da sua Transfiguração que Jesus Cristo fala da sua morte, com dois de seus ministros do Antigo Testamento, e na presença de três do Novo. Que havia de comum entre o Tabor e o Calvário? No primeiro destes mistérios tudo é glória e delícias para Jesus Cristo; no segundo tudo é opróbrio e sofrimento. No Tabor o seu rosto é refulgente como o sol, suas vestiduras se fazem brancas como a neve; no Calvário está despido, desfigurado, ensanguentado. Lá o Pai Eterno reconhece-O por seu Filho amado; aqui o Filho queixa-se de ser desamparado e desconhecido de seu Pai. 
   Hoje seus Apóstolos não podem separar-se dele; no dia da sua morte, todos o abandonarão! Todavia estes dois mistérios têm entre si íntima relação e lançam luz um sobre o outro para a sua compreensão. Um mostra-nos a coroa que nos é destinada; o outro ensina-nos por que preço a alcançaremos. A sua união faz-nos conhecer que neste mundo a doçura e a amargura, a glória e a ignomínia não podem estar separadas muito tempo. Modera a nossa alegria na prosperidade, consola-nos na adversidade, a anima-nos com a esperança. Tem principalmente uma admirável força para abrasar nossos corações no amor divino. Sem a Transfiguração comover-nos-ia menos a Paixão. Depois de contemplar as grandezas do Filho de Deus, apreciamos melhor a caridade que o fez descer por nós ao último grau de humilhação.
    Se não tivesse o cuidado de revelar-nos suas grandezas, pensaríamos nós no sacrifício que fez delas por amor de nós, não durante algumas horas somente, ou alguns dias, mas durante toda a vida? Como vimos acima, Sua Transfiguração foi a interrupção momentânea de um milagre de amor, sem o qual não teria podido humilhar-se, nem padecer, nem morrer por nós. No jardim das Oliveiras suspendeu o efeito da visão beatífica, para que sua alma fosse oprimida de tristeza; durante toda a vida, suspendeu o efeito da união hipostática, para que sua santa humanidade estivesse sujeita às humilhações, aos sofrimentos e à morte. 

  Mas, caríssimos e amados irmãos, quantos cristãos e até sacerdotes, procuram separar estes dois mistérios. Querem ficar só no Tabor; e fogem do Calvário! São todos os partidários de uma devoção cômoda. Querem estar com Jesus Cristo, contanto que seja nas honras e delícias. Como é possível que não vejam que uma piedade sem incômodo, sem sacrifício, sem penitência, está em contradição com a piedade própria do espírito de Jesus Cristo? Que ensinou Ele? Como viveu? Sua doutrina resume-se em três coisas: negar-se a si mesmo; tomar a sua cruz e segui-Lo. Uma só palavra resume todos os seus exemplos: padecer. Entremos finalmente com valor e constância neste caminho de cruz, onde nos precederam os homens apostólicos e todos os santos. 

  Caríssimos, no meio das vossas tribulações lembrai-vos do Céu. Estremecei de alegria, pensando nessa glória incomparável que vos está reservada na Pátria do repouso eterno!. Tende paciência! Como diz São Paulo: não há comparação entre as tribulações que sofremos agora no tempo, com o peso imenso de glória que nos está reservado no Céu! Pensai assim muitas vezes nas íntimas relações que há entre a Transfiguração e a Paixão, entre o Tabor e o Calvário, entre a Cruz e o Céu. Amém!

     
      

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA



"IPSUM AUDITE"

S. Mateus  XVII, 1-9

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

No Evangelho do domingo último passado vimos o Filho de Deus no deserto, entre os animais selvagens, em luta com o espírito das trevas. Hoje, o Evangelho já nos mostra Jesus num Monte muito alto, com os três apóstolos prediletos, Pedro, que seria o primeiro Chefe visível da Igreja, João, o discípulo que Jesus mais amava, Tiago, que seria o primeiro apóstolo a morrer mártir. Hoje, vemos Jesus entre Moisés e Elias. Hoje o Pai, do alto dos céus proclama: "Este é meu Filho bem amado no qual pus toda minha complacência, ouvi-O".

Caríssimos, estes dois evangelhos representam a imagem dos dois estados aos quais somos chamados, e que devem ocupar nossa existência: um estado de sofrimento, de luta, de trabalho aqui em baixo; um estado de alegria, de repouso, de glória lá em cima. Aqui os jejuns, as penitências, os combates contra a luxúria, o orgulho e a avareza; combate renhido e diuturno contra o demônio, príncipe deste mundo que está nele colocado. Aqui em baixo os desejos que não podem ser nunca satisfeitos, um deserto árido, os animais selvagens, isto é, os vícios, os crimes, as monstruosidades no meio dos quais somos obrigados a viver e que nos causam medo e repugnância. Lá no alto, muito ao contrário, teremos as delícias inalteráveis, a satisfação perfeita de toda nossa ânsia de felicidade, uma sociedade santa onde gozar-se-á um doce entretenimento com os profetas, com Jesus e com Deus. Ah! caríssimos, que os gozos deste segundo estado nos deem forças para passarmos intrépidos e ilesos pelo primeiro! 

Aquele primeiro estado, tomado num círculo mais restrito, é a santa quaresma: são os jejuns, as abstinências, as orações, os santos ofícios aos quais a Santa Igreja nos convida durante este tempo, as lutas às quais nos exorta contra nós mesmos, contra nossas más inclinações, contra o amor dos prazeres, contra nossos hábitos viciosos, contra o orgulho da vida, contra a sede das riquezas. Com a graça de Deus, suportamos valorosamente esta luta, jejuamos, rezamos, escutamos a palavra de Deus, fazemos violência à nossa carne corrompida, reprimimos nossas concupiscências, domamos nosso coração. E assim fazendo, como Deus não se deixa vencer em generosidade, recompensa nossa correspondência à Sua graça e, depois deste curtos esforços, nos dá as alegria da Ressurreição, as festas pascais, durante as quais nós veremos Jesus transfigurado, Jesus na glória, e nós mesmos, purificados pelo combate, pela penitência, lágrimas e  pelo sacramento da Confissão, nos ajoelharemos à mesa da comunhão e seremos alimentados pelo próprio Jesus e nos entreteremos familiarmente com Deus.

Caríssimos, retomando nossa ideia primeira, devemos observar que, para chegarmos ao estado de felicidade perfeita  na Pátria do repouso eterno, mister se faz passar pelo primeiro estado de sofrimentos e tentações aqui na terra. Se Jesus, porque tomou sobre Si os nossos pecados, disse que foi necessário sofrer antes de entrar na Glória, como vamos pretender chegarmos ao Céu, sem passar pelos sofrimentos, sem lutarmos, nós que somos os pecadores? Não podemos, como S. Pedro, querer permanecer para sempre no Monte Tabor, sem antes passarmos pelo Monte Calvário. Se para se chegar à glória mesmo aqui em baixo,  chegar à posse dos bens terrestres, estes bens perecíveis, estes bens de um dia, é preciso trabalhar, lutar e sofrer; com infinita mais razão é preciso sofrer, lutar e trabalhar para se chegar à Glória celestial. Devemos observar que outro evangelista (S. Lucas IX, 31 ) diz que Jesus na Transfiguração falava com Moisés e Elias sobre Sua próxima "saída deste mundo que ia se realizar em Jerusalém, o que significa que o Divino Mestre comentava sobre Sua Paixão e Morte. Assim não podemos separar estes dois montes, o do Tabor e o do Calvário. Devemos estar profundamente convencidos do que disse o próprio Jesus: " O Reino dos  Céus sofre violência e só os violentos o poderão arrebatar". O caminho do Céu é o caminho da cruz! 
                                          
"Enquanto Pedro ainda falava com Jesus, "uma nuvem brilhante os envolveu, e da nuvem soou uma voz que dizia: 'Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência; ouviu-O". Esta nuvem luminosa que envolve ao mesmo tempo a Jesus, Moisés, Elias e os apóstolos, é a Fé. Ela, pois, expande sua doce luz nos nossos espíritos, uma luz que não é isenta de toda sombra. Ela é luz, mas é também sempre nuvem. Por esta luz vemos Deus, Jesus Cristo, os profetas, os apóstolos, mas não totalmente descobertos. Na verdade, só no Céu não haverá mais nuvem; pois, veremos a Deus face a face e sem véu. Agora, pela fé O vemos como em enigma ou como num espelho embaçado. Mas, mesmo assim a Fé é suficiente para alumiar o nosso caminho e nos guiar até às eternas moradas de luz indefectível.

 Por isso, disse o Pai Eterno: "este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência; ouviu-O". Deus não poderia dar Seu Filho aos homens como Mestre de uma maneira mais brilhante e solene! É em presença de Moisés que representava a Lei, é em presença de Elias, que representava as Profecias, é em presença dos apóstolos, isto é, em presença do Antigo e do Novo Testamento: "ESTE É MEU FILHO BEM-AMADO, OUVIU-O". Deus até então havia falado aos homens  por meio de Moisés, dos Patriarcas e dos Profetas, mas agora no Novo Testamento fala pelo Seu próprio Filho. É o Filho de Deus feito Homem que devemos agora ouvir como o Mestre por excelência: "Ipsum audite" (= ouvi-O). É portanto uma coisa solidamente estabelecida, uma coisa certíssima: Jesus Cristo é o nosso Mestre! "Eu estarei convosco até a consumação dos séculos". Jesus nos falou, fala e falará até o fim do mundo através de sua verdadeira Igreja, que nunca poderá deixar de pregar o mesmo que pregou o Divino Mestre: "Jesus é o caminho, a verdade, a vida". E Ele, que é a própria verdade, não muda; Ele é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre". Eis porque S. Paulo na mais rigorosa lógica, conclui: " Portanto rejeitai toda doutrina nova e estranha". E Jesus Cristo, Filho deleto do Pai, não somente nos fala, mas dá-nos a força de O seguir: ensina-nos a Verdade e nos ajuda a crer; nos ordena a prática do bem e nos dá a graça para o realizar. Caríssimos, que outro mestre poderíamos seguir se Nosso Senhor Jesus Cristo é o Filho bem-amado de Deus? Estes outros "mestres" são homens fracos, ignorantes, malgrado o alarde orgulhoso de sua ciência. Estes não podem ser nem o caminho, nem a verdade e nem a vida. Só devem ser ouvidos aqueles pregadores que foram chamados por Jesus e pregam com toda fidelidade o que Ele ensinou. Estes verdadeiros ministros de Jesus Cristo dão testemunho da Verdade que é o próprio Divino Mestre. Eles procuram destruir os preconceitos, os erros e as diatribes deles decorrentes.

É absolutamente necessário que ouçamos o Divino Mestre através dos Santos Evangelhos pregados com toda fidelidade pelos Seus verdadeiros discípulos. Estes, sim, no meio desta geração adúltera e pecadora, não se envergonham da doutrina do Evangelho de Jesus, mas  dele dão testemunho intrépido e constante.

Assistimos com grandíssima tristeza a apostasia de muitos e muitos; e uma das causas desta derrocada na fé, é porque os homens na sua maioria procuram novidades que agradam e afastam os ouvidos da verdade para os aplicarem às fábulas que o mundo com seus possantes meios de divulgação, apresenta às estas pobres almas.

Por isso, caríssimos e amados irmãos, procuremos estar bem presos ao Nosso Divino Mestre, porque só Ele tem palavras de vida eterna. Somente Suas palavras permanecem para sempre: "IPSUM AUDITE!" Amém!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

PECADO VENIAL


""Abstende-vos de toda aparência do mal" (Tessal. V, 22)

Há um erro popular, e não é só de hoje, que consiste em persuadir-se falsamente de que o pecado venial é coisa de somenos importância, como se a palavra venial significasse bagatela, coisa de nada. Talvez este erro venha da palavra "leve" também empregada para designar pecado venial. Na verdade, "leve" aqui é um termo relativo, assim, por exemplo, comparando, quando a gente diz que a Terra é pequena em relação ao Sol. É claro que em si mesma a Terra não é pequena. Assim, fazendo a aplicação, dizemos que o pecado venial é leve em comparação com o mortal, mas em si mesmo é o maior mal que existe sobre a terra depois do pecado mortal. Não é difícil entendermos, pois, se é pecado, ofende a Deus que é de uma dignidade, perfeição e majestade infinitas. Daí dizer São Jerônimo: "Não é falta leve desprezar a Deus nas coisas pequenas". É chamado venial (de venia em latim que significa perdão)porque significa coisa perdoável, ou, melhor dizendo "coisa mais facilmente perdoável", porque o pecado mortal também é perdoável. Mas não esqueçamos que para os pecados (mortais e veniais) poderem ser perdoados, Jesus Cristo sofreu e morreu numa Cruz.

Mas o que é pecado venial? Bom! se é pecado é porque tem os três elementos que constitui um pecado: transgressão da lei de Deus, advertência sobre esta transgressão e apesar disto há o consentimento da vontade. Quando se dá o pecado venial? Nestes casos: Quando a matéria da transgressão é de si mesma leve; ou é grave mas a advertência sobre esta malícia não é total e o consentimento da vontade não é pleno. É, portanto, qualquer pensamento, palavra, ação ou omissão contra a lei de Deus, mas que não  é tão grave, que nos faça perder a amizade do Senhor e dê a morte à alma. Acha-se neste gênero de faltas, tudo o que constitui o pecado: Deus que manda, o homem que recusa obedecer. A única diferença que há entre o pecado mortal e o venial, é o consentimento mais ou menos completo, matéria mais ou menos grave. Quanto ao mais, em um e outro há uma indigna preferência dada à vontade do homem sobre a de Deus; é uma ofensa de Deus; e feita por quem, e porque? Por uma vil criatura, por um desprezível motivo. Há portanto no pecado venial um verdadeiro desprezo de Deus, uma verdadeira injúria feita a todas as perfeições de Deus; injúria leve comparativamente com a que resulta do pecado mortal, mas de uma gravidade como que infinita, já que ofende a dignidade infinita de Deus.

Vamos dar alguns exemplos de pecados veniais: pequenas iras passageiras, ligeiras intemperança no  comer ou beber, falar mal dos outros em coisas que não causam graves danos a reputação do próximo, mentiras oficiosas, manifestações de amor próprio, distrações e curiosidades que me alheiam de mim mesmo e me perturbam o coração, negligências nos exercícios espirituais e religiosos, donde resultam tantas faltas contra o respeito devido ao Senhor. Se não vigiarmos, quantas faltas cometemos pelo mau humor, pela liberdade da língua etc.

Os teólogos e também autores espirituais fazem algumas suposições hipotéticas para se fazer compreender melhor o mal que é o pecado venial. Eis alguns exemplos: Seria um grande mal aquele que não pudesse ser reparado com todas as lágrimas do gênero humano, com os tormentos dos mártires, as austeridades dos anacoretas, os sofrimentos, a caridade de todos os Santos, e com todas as boas obras que se têm feito desde o princípio, e se farão até ao fim do mundo. E todavia, todas estas satisfações, se não se lhes ajuntassem as satisfações infinitas do Verbo encarnado, não bastariam para reparar a ofensa que faz a Deus um só pecado venial. Outro exemplo: a mentira quando não prejudica gravemente o próximo é sempre de si mesma um pecado venial. Pois bem! Se fosse para tirar todos os condenados do inferno ou evitar que fossem expulsos do Céu todos os Santos, não se poderia cometer tal mentira, que é um pecado venial. Será que haverá alguém ainda afirmando com tanta desenvoltura que o pecado venial é coisa de nada, e que se pode fazê-lo com a mesma facilidade com que se bebe um copo d'água? Se houver, por ventura algum pecador que ouse afirmá-lo, ouça também o que diz os santos dos quais citarei apenas alguns: Santa Catarina de Gênova: "Lançar-me-ia em um oceano de chamas, sendo preciso, para evitar a ocasião do menor pecado, e ali ficaria sempre, antes do que sair de lá por um pecado venial";  Santa Catarina de Sena: "Se a alma que é imortal, pudesse morrer, a vista de um só pecado venial, que manchasse a sua beleza, seria capaz de lhe dar a morte"; Santo Inácio de Loiola dizia: "Todo o homem que é zeloso da pureza da sua consciência, deve humilhar-se diante de Deus pelos pecados mais leves, considerando que aquele Senhor contra quem são cometidos, é infinito em todo o gênero de perfeições, o que lhes agrava infinitamente a malícia" ; Dizia Santo Tomás de Aquino: "Antes morrer que pecar venialmente". Eis mais um exemplo: "O Santo Cura d'Ars tinha recebido  uma cédula de mil francos, para as suas obras. Quando foi acender a vela, não tendo fósforo, tirou do bolso sem olhar um pedaço de papel e o chegou ao fogo. O padre coadjutor deu um grito: "Senhor Vigário, é uma nota de mil francos que queimais". "Antes isso, disse o Santo, que um pecado venial".


E, caríssimos, quem pode contar a multidão dos pecados veniais. Santo Agostinho dizia; "Se não temes os pecados veniais, quando pensas na sua gravidade, temei-os quando o contas". Milhares de pecados veniais somados não constitui um mortal, a não ser quanto àqueles mandamentos em que a matéria se soma, como é o caso do 7º mandamento (pode chegar a uma soma que já passe a constituir pecado mortal). Fora disto não. Mas se não se combate os pecados veniais e estes se tornam um hábito, a alma se torna tíbia e aí vai aos poucos escorregando para o abismo do pecado mortal. E uma circunstância que nos deve atemorizar: é mais difícil sair do pecado mortal, quando se chegou a ele aos poucos através de pecados veniais não combatidos. Os pecados veniais diminuem as luzes e as forças da alma. Num naufrágio pouco importa se ele acontece por uma furiosa tempestade ou pelo fato de a água entrar por um fenda gota a gota. Se muitos pecados mortais não constitui um mortal, é, no entanto, certo que dispõem para o mortal. Depois, se Deus quiser, falaremos sobre a tibieza, e, então explicaremos isto melhor. 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

HOMILIA DOMINICAL - 1º Domingo da Quaresma - com explicação do Evangelho

   Leituras: Leitura da 2ª Epístola de São Paulo Apóstolo aos Coríntios 6, 1-10
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus  4, 1-11:
 "Naquele tempo, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Depois de haver jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome. E chegando-se, o tentador disse-Lhe: Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães. Ao que Jesus respondeu, dizendo: Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Então o demônio O levou à cidade santa, colocou-O sobre o pináculo do templo e disse-Lhe: Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque está escrito: Aos seus Anjos ordenou acerca de ti, e nas mãos te tomarão, para que com teu pé jamais tropeces em alguma pedra. E Jesus disse-lhe: Também está escrito: Não tentarás ao Senhor, teu Deus. De novo, levou-O o demônio a um monte muito alto e mostrou-Lhe todos os reinos do mundo com seu esplendor, dizendo-Lhe: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. Então, disse-lhe Jesus: Vai-te, satanás, porque está escrito: Adorarás ao Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás. Então O deixou o demônio; e eis que os Anjos se chegaram e O serviam". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Em primeiro lugar, vamos dar a explicação de alguns tópicos e palavras deste santo Evangelho.

     ... Foi Jesus levado pelo Espírito: A Santa Igreja sempre entendeu que aqui se trata do Espírito Santo.
   ...Para ser tentado pelo demônio: Jesus consente em ser tentado para nos ensinar como devemos vencer as tentações. Ele que era a santidade por excelência sofreu os assaltos da tentação; por isso ninguém se admire de passar pelas mesmas provações. - Satanás não sabia ao certo se Jesus era o Filho de Deus feito homem, e desejava sabê-lo, porque via nele um homem de virtudes extraordinárias.
   As três tentações de Jesus são como um resumo de todas as que nos podem assaltar. Submeteu-se a elas para nos advertir de que nunca estaremos livres de incitações para o mal. Compete-nos, a seu exemplo, repeli-las energicamente. Parece que nos atormentam com maior violência quando vamos realizar obras boas: Jesus ia iniciar seu ministério. 
   ...Depois de jejuar: A oração e o jejum não nos isentam das tentações, mas são os meios de que devemos usar para vencê-las. Nosso Senhor quer iniciar a sua vida pública com uma penitência extraordinária, e ao mesmo tempo nos insinua que o jejum é necessário para mortificar a carne e vencer as tentações.
   ...Não só de pão..: Deut. 8, 3. Primeira tentação: O demônio tenta Jesus a fazer um milagre em seu próprio benefício e para satisfazer as reclamações do corpo. Exatamente o inverso de sua missão divina que era beneficiar os outros e dar-lhes o alimento espiritual de sua doutrina. São as tentações de egoísmo (tudo para si) e de sensualidade (acima de tudo satisfazer o corpo). 
   ...Aos seu Anjos ordenou... etc: O demônio para tentar a Jesus, cita a Bíblia como Lutero e seus discípulos fá-lo-ão a partir do século XVI, isto é, com uma interpretação errônea, e pela metade, ou seja, evitando o que lhes era contrário. É o Salmo 91, 11 e 12. Mas no versículo seguinte (13) está escrito a respeito do Messias: "Pisarás o leão e o áspide; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente (dragão). Sabemos pela Bíblia que este leão que está em torno de nós rugindo e procurando nos devorar é o demônio. Também o demônio é chamado na Bíblia de serpente e dragão. Por isso o demônio não citou o versículo 13. Não lhe convinha! Assim fazem as seitas. Traduzem mal, interpretam pior e, o que é péssimo, suprimem o que não lhes convém.  
   Salmo 91 (segundo a Vulgata é o 90) é um texto em que Deus promete ao Justo (Messias) e aos justos que seguem a Jesus, sua proteção quando se encontrarem em dificuldades no cumprimento do dever. Mas não significa que a pessoa se possa expor presunçosamente e sem necessidade.
   É a segunda tentação: O tentador quer induzir Jesus a ostentar vaidosamente diante dos homens seu poder sobrenatural e a proteção que Deus lhe dispensa. São as tentações de orgulho e presunção. Sabendo que Jesus não se lançaria abaixo, o demônio pretendia acusá-lo de falta de confiança em Deus. Jesus suprime esta acusação dizendo que uma coisa é confiar e outra tentar. E Jesus cita também a Bíblia: "Não tentarás aos Senhor, teu Deus" (Deut. 6, 16). Tentar a Deus é expôr-se ao perigo, a grandes tentações, sem necessidade, e depois pedir um milagre para não sucumbir. - Deus protege no perigo, mas nem por isso devemos expor-nos temerariamente, porque diz o Espírito Santo, quem ama o perigo nele perecerá. 
   ...Mostrou-Lhe todos os reinos do mundo...: Esta promessa do demônio era mentira, mas, se ele pudesse, de fato, dispor de todos os reinos da terra, de todas as suas riquezas e vaidades, tudo isto daria ele por uma só alma, porque um só alma vale mais do que o universo inteiro. 
   Esta foi a terceira tentação: Trocar Deus pelas riquezas e pelas glórias do mundo, colocando nelas a nossa felicidade, ou antes, escravizando-nos a elas. 
    Caríssimos, em segundo lugar e para finalizar, quero explicar a gênese da tentação. Três coisas devemos distinguir na tentação: a sugestão, a deleitação e o consentimento. A sugestão não é um pecado, porque não depende da nossa vontade. A simples deleitação, quando involuntária, também não é pecado. Só o consentimento é sempre criminoso, porque depende exclusivamente de nós o aceitar ou não aceitar a sugestão do pecado. 
   O procedimento do Salvador nos mostra como devemos resistir ao demônio, fortalecidos pela fé. A leitura e a meditação do Evangelho concorrem muito para isso. De cada vez, Jesus repele o tentador com uma palavra da Escritura, como insinuando-nos que o texto sagrado é um arsenal, onde encontramos armas excelentes para os dias da tentação. 
    Depois das tentações os Anjos serviram a refeição a Jesus: É a imagem do festim que Deus serve à alma vitoriosa. O momento que se segue à vitória é o mais delicioso de todos os momentos.
    Caríssimos, terminemos com esta oração de Santo Agostinho: "Senhor, Pai e Deus, vida pela qual todos vivem e sem a qual tudo se deve considerar morto, não me abandoneis ao pensamento maligno e à soberba dos meus olhos; afastai de mim a concupiscência, e não permitais que seja vítima dum ânimo irreverente e insensato; mas tomai posse do meu coração afim de que pense sempre em Vós... Agora, ó Redentor, eu Vos suplico, ajudai-me a fim de que não caia em frente dos meus adversários, preso nos laços que armam a meus pés, para derrubar a minha alma; mas salvai-me, força da minha salvação, para não ser motivo de escárnio para os Vossos inimigos que Vos odeiam. Levantai-Vos, ó Senhor meu Deus, minha fortaleza; e os Vossos inimigos serão dispersos e fugirão da Vossa face aqueles que Vos odeiam. Como a cera se derrete ao fogo, assim desaparecerão os pecadores da Vossa face; e eu me esconderei em Vós e gozarei com os Vossos filhos, saciado de todos os Vossos bens. Vós, ó Senhor Deus, Pai dos órfãos, Mãe dos desamparados, estendei as Vossas asas para que, debaixo delas, nos refugiemos, para nos salvarmos dos inimigos". Amém!

   

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PENITÊNCIA EXTERIOR

   A penitência exterior também é importante. É o fruto, manifestação e natural consequência da penitência interior. 
   O homem não peca só com a alma, mas também com o corpo: os dois são cúmplices no ato do pecado. É justo, por conseguinte, que não só se doa a alma, mas também o corpo; e que o corpo e a alma conspirem, a uma, no exercício da penitência.

   MOTIVOS DA PENITÊNCIA EXTERNA:

  1. Conserva melhor a sensibilidade na submissão ao espírito e no cumprimento de tudo o que nos impõem os deveres do nosso estado. Se damos ao corpo tudo o que ele reclama, se afastamos dele tudo o que o mortifica, tornamo-lo indolente, inapto para o trabalho, revoltoso e indomável. Mas à força de penitência, o corpo se torna dócil, submisso, não se revolta tão facilmente contra o espírito e se torna mais apto para a virtude.
  2. Ajuda-nos a obter certas graças: como luzes na meditação, solução de certas dificuldades, socorro nas tentações, diminuição nos ataques da impureza, fervor na oração e união com Deus. Para todas estas graças é excelente a prática da penitência. Santo Inácio derramou muitas lágrimas e fez muitos jejuns para obter a luz celeste na redação de suas Regras e Constituições. Santo Tomás de Aquino se dispôs com sangrentas disciplinas para a interpretação das passagens difíceis da Sagrada Escritura. No Prefácio da Missa no tempo quaresmal diz-se: "Corporali jejunio vitia comprimis, mentem elevas, virtutem largiris et praemia" = "Com o jejum corporal reprimis os vícios, elevais a mente, concedeis virtudes e prêmios". É por isso que no tempo da Quaresma nos sentimos mais inclinados à virtude, santos e consoladores pensamentos nos iluminam a mente e nos movem o coração. 
  3. Satisfaz pelos pecados passados e pela pena temporal que lhes é devida. Desta maneira a penitência é uma réplica do espírito à rebelião da carne, e torna-se um ato de justiça, restabelecendo a ordem. Por este motivo, a prática da penitência nos é, todos os dias, necessária, pois todos os dias pecamos. Somos como um barco, que mete água, e que todo o dia deve ser esvaziado. É, pois, uma loucura deixar a solução desta dívida para a eternidade, onde a expiação será mais longa e penosa e sem merecimento. Agora tudo o que fazemos pela satisfação dos nossos pecados é fácil, proveitoso e meritório. Dizia Santo Agostinho: "Hic ure, seca, hic non parcas, ut in aeternum parcas" = "Aqui (Senhor) queimai, cortai, aqui não me poupeis, para que me poupeis na eternidade". É bom que nos exercitemos, cada dia, em algum ato de penitência para satisfazer a Deus pelos nossos pecados. 
  4. O exemplo dos Santos nos deve também mover à penitência, e, em primeiro lugar, o de Nosso Senhor Jesus Cristo, que passou quarenta dias de rigoroso jejum. E dos Santos, qual é o que não fez penitência? Todos se deram a ela com ardor, e só a obediência e a consideração de um bem maior lhes punha limites a suas rigorosas austeridades. O espírito de penitência é, pois, próprio de todo o cristão.
    PRÁTICA DA PENITÊNCIA: De três maneiras podemos praticar a penitência:
  1. Na comida. Quando nos privamos do supérfluo, ainda não é penitência; é só temperança. Praticamos a penitência, quando nos privamos do conveniente, e até do necessário contanto que nisto não prejudiquemos a saúde, nem nos exponhamos a alguma enfermidade. Moderar o excesso é temperança; cercear o conveniente é penitência. O jejum é penitência, porque nos impõe uma única refeição ao dia. Como a penitência não é fim, mas somente meio, devemos exercê-la tanto quanto conduz à nossa santificação. O que dissemos da comida, se deve dizer da bebida; e nesta, principalmente, convém exercitar a penitência; porque as sua abstenção não prejudica a saúde, antes a favorece. Nunca devemos fazer penitência de passar sede, pois, a água é indispensável para a saúde. Podemos sim, e devemos, caso passemos alguma sede inevitável, oferecê-la a Deus,com amor. 
  2. No dormir. Enquanto ao dormir, exercita-se a penitência tirando ao sono conveniente quanto se pode tirar sem prejuízo da saúde. Tirar o supérfluo de coisas delicadas e moles não é penitência, mas simplesmente temperança. Os Santos todos faziam penitência no modo de dormir: uns dormiam no chão, outros com uma pedra por cabeceira (vi em Pádua o travesseiro de Santo Antônio, - uma pedra; vi em Ávila o travesseiro de Santa Teresa, - um pedaço de madeira); outros colocavam alguma coisa para tornar o leito incômodo. Se o Espírito Santo nos mover a usar de alguns destes modos de penitência, devemos consultar o nosso diretor espiritual, para em tudo nos guiarmos por seus conselhos. Se ele não permitir, nunca devemos fazer. Do contrário, se a pessoa persistir no intento e desobedecer, é sinal de que não se tratava de inspiração do Espírito Santo mas do espírito maligno. Levantar cedo, desde que durma o necessário para a saúde, é uma ótima penitência: faz bem à saúde e à santidade. No tempo da Quaresma até o tempo da Paixão, os sacerdotes rezam no Breviário todos os dias: "Non sit vobis vanum mane surgere ante lucem, quia promisit Dominus coranam vigilantibus" = Não vos pareça coisa supérflua levantar bem cedo antes de aparecer a luz, porque o Senhor prometeu uma coroa aos que vigiam".
  3. No castigo do corpo. Este gênero de penitência consiste em causar a dor em nosso corpo com cilícios, disciplinas, cordas etc, que provocam dor, contanto que não prejudiquem a saúde. A penitência será sem perigo para a saúde e ao mesmo tempo deverá causar incômodos à nossa natureza inclinada à sensualidade. Na ascese inaciana castiga-se a carne conservando-a apta para o trabalho. Quem se preocupa DEMASIADAMENTE  com a saúde do corpo, termina prejudicando a do corpo e a da alma. Prejudica a saúde da alma, porque não faz penitência nenhuma; prejudica a saúde corporal, porque a preocupação demasiada com a saúde já é uma doença. Mas é mister estar sempre lembrando: a penitência deve ser discreta (o mais oculta possível, com muita prudência), humilde e obediente. 
     Ditosa penitência, que paga a dívida das nossas culpas, lavra a coroa da nossa glória, domina os nossos apetites, desfaz as nossas dúvidas, diminui os nossos vícios, obtém-nos as graças de Deus e estreita-nos à Cruz de Cristo! 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

   "És pó em em pó te hás de tornar" (Gênesis III-19). Estas palavras dirigidas a Adão em consequência do pecado cometido, a Santa Madre Igreja repete-as a cada cristão para nos lembrar do nosso nada e da nossa morte: "Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar". Ao pronunciar estas palavras, o sacerdote impõe as cinzas. A cinza é símbolo de penitência pelos pecados que trouxeram o morte para este mundo. As orações da bênção e imposição dos cinzas e as da Missa nos fazem penetrar no espírito da penitência cristã; humilde submissão, unida a uma grande confiança na misericórdia de Deus. "Ouvi-nos, Senhor, diz o Introito da Missa, porque é benigna a vossa misericórdia; segundo a multidão de vossas comiserações, olhai para nós, Senhor".

  A Epístola nos põe diante dos olhos um exemplo comovente de penitência, o jejum. Eis a Epístola (Joel II-12-19): "Eis o que disse o Senhor: Convertei-vos de todo o vosso coração em jejuns, em lágrimas e gemidos. Rasgai vossos corações e não vossos vestidos; convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, que é benigno e compassivo, paciente e rico em misericórdia, e pronto a perdoar a maldade. Quem sabe se Ele não se voltará para vós, se vos perdoará, e não deixará uma bênção atrás de Si [para apresentardes novamente] sacrifício e libação ao Senhor, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, guardai um jejum sagrado, convocai a assembléia, reuni o povo, santificai a Igreja, reuni o povo, santificai a Igreja, reuni os velhos, congregai os pequeninos e os meninos de peito; saia o esposo de seu aposento e a esposa do seu leito nupcial. Os Sacerdotes, ministros do Senhor, chorem entre o vestíbulo e o altar, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, e não deixeis cair a vossa herança no opróbrio, expondo-a aos insultos das nações. Porque se diria entre as nações: Onde está o seu Deus? O Senhor zela por sua terra e perdoa o seu povo. E o Senhor responde e diz a seu povo: Eis que vou enviar-vos trigo, vinho e azeite, deles ficareis abastecidos, e nunca mais vos entregais aos insultos das nações. Assim disse o Senhor Onipotente". 

   E Jesus nos ensina no Evangelho que este jejum deve ser antes de tudo interior, feito com coração reto diante de Deus. Eis o Evangelho segundo São Mateus VI-16-21: "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Quando jejuardes, não tomeis um ar tristonho, como o fazem os hipócritas, que desfiguram suas faces, para que os homens vejam como jejuam. Em verdade, eu vos digo: já receberam a recompensa. Mas, quando tu jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para que não mostres aos homens que estás jejuando, mas só a teu Pai, que está presente ao que há de mais secreto; e teu Pai, que vê no oculto, de dará a recompensa. Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça consomem e onde os ladrões desenterram e roubam. Ajuntai, porém, tesouros no céu, onde não há ferrugem nem traça que consomem, nem ladrões que desenterram e roubam. Porque onde está o teu tesouro, está também aí o teu coração". 

   Nos quarenta dias da Santa Quaresma, os cristãos se unem intimamente aos sofrimentos e à morte do Divino Salvador, a fim de ressuscitarem com Ele para uma vida nova, nas grandes solenidades pascais. É preciso que os Cristãos sacudam a poeira do mundo. A sabedoria da Santa Igreja estabeleceu este tempo propício de quarenta dias, a fim de que as nossas almas se pudessem purificar, e por meio de boas obras e jejuns, expiassem as faltas. Inúteis seriam, porém, os nossos jejuns, se neste tempo os nossos corações se não desapegassem do pecado. 
   As práticas exteriores que devem desenvolver em nós o espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo e unir-nos a seus sofrimentos, são o jejum, a oração e a esmola. 

   Jejum: Seria um engano pernicioso não reconhecer a utilidade desta mortificação corporal. Seria menosprezar o exemplo do próprio Jesus. O Prefácio da Quaresma nos descreve os efeitos salutares do jejum: ..."pelo jejum corporal reprimis os vícios, elevais a inteligência, concedeis a virtude e o prêmio dela...".

    Oração: Assim como a palavra "jejum" abrange todas as mortificações corporais, da mesma maneira compreende a palavra "oração" todos os exercícios de piedade feitos neste tempo, com um recolhimento particular, como sejam: a assistência à Santa Missa, a Comunhão frequente, a leitura de bons livros, a meditação especialmente da Paixão de Jesus Cristo, a Via Sacra e a assistência às pregações quaresmais. 
    Esmola: Compreende as obras de misericórdia para com o próximo. Já no Antigo Testamento está dito: "Mais vale a oração acompanhada do jejum e da esmola do que amontoar tesouros" (Tobias XII-8).

PRÁTICAS DA SANTA QUARESMA



 A Quaresma existe desde os apóstolos, que limitaram sua duração a quarenta dias, em memória do jejum de Jesus Cristo no deserto.

   No intuito de encaminhar-nos para o Divino Redentor e Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Madre Igreja estabeleceu: 
  1. os domingos de Setuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, que nos aproximam mais e mais desse período de penitência. Durante essas três semanas, a Igreja usa paramentos roxos, suprime o Gloria in Excelsis, a Aleluia, o Te Deum, cânticos de alegria, e incita-nos, pelos evangelhos que escolhe, a trabalharmos com mais empenho no cultivo e amanho da nossa alma, e a ouvirmos, mais assíduos e mais piedosos, a palavra de Deus. 
  2. as preces da Quarenta Horas. Enquanto o mundo, ao aproximar-se a quaresma, procura distrações e divertimentos pecaminosos no carnaval, a Igreja convida seus filhos aos pés dos altares, para, no retiro ouvir a Palavra de Deus e também para adorar a Jesus Eucarístico. Pede-lhes o recolhimento e a oração, quer para prepará-los à quaresma, quer para implorar o perdão de Deus pelos pecados que se cometem. 
  3. a cerimônia das Cinzas. Na quarta-feira em que começa a santa quaresma, faz-se a imposição das Cinzas. Com solenidade, o celebrante benze cinzas no altar; depois de as santificar pela oração, a água benta e o incenso, põe na cabeça do clero e do povo, e a cada um dirige esta palavra: "Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar!" ("Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris"). Logo é o pensamento da morte, e também uma lição de penitência que se evoca aos fiéis. De fato, as cinzas sempre foram entre os antigos, símbolo de luto e dor profunda. Davi, no extremo da mágoa, cobriu-se de cinzas, e os Ninivitas, ouvindo o convite do profeta Jonas, fizeram penitência com cinza e cilício. Nos primeiros séculos cristãos, a Igreja introduziu o costume de pôr cinzas na fronte dos pecadores, especialmente dos penitentes públicos. Por humildade e sinal de arrependimento, todos os fiéis quiseram participar dessa cerimônia, que ficou como preparação eloquente para a penitência da quaresma.
  4. observar segundo suas forças a abstinência e o jejum que a Igreja prescreve. - Com efeito, todos nós precisamos de penitência pelos numerosos pecados que temos cometido durante um ano inteiro de indiferença, esquecimento, e muitas vezes de fraqueza criminosa. Ora, o melhor desagravo é o que a Igreja nos pede. Humildemente devemos reconhecer a necessidade que temos de fazer mais penitências além das estritamente obrigatórias pelas leis da Igreja. Estas penitências, no entanto devem ser sempre humildes, discretas e obedientes. 
  5. empregar mais tempo na oração e nas boas obras. Os ofícios da Igreja ouvidos com mais atenção, a Santa Missa alguma vez na semana, leituras piedosas, o exercício da Via-Sacra, esmolas mais abundantes aos pobres e às obras de caridade, são outras tantas práticas úteis, junto com o trabalho e as penas da vida, religiosamente aceitas e suportados por amor a Jesus Crucificado.
  6. enfim, a Santa Igreja, no santo tempo da quaresma, estabeleceu práticas mais frequentes e especialíssimas, seguidas geralmente da bênção do Santíssimo; convém assistir a essas instruções, e assim reanimar-se na fé e na vida cristã; padres zelosos costumam pregar retiros fechados e também abertos para todo povo. Tudo isto serve também de preparação para à comunhão pascal através de uma confissão, a melhor possível.
     Nosso Senhor Jesus Cristo dizia aos seus discípulos: "O mundo se há de alegrar e vós estareis na tristeza; mas a vossa tristeza mudar-se-á em alegria e esta alegria ninguém vo-la poderá tirar" (São João, XVI, 20, 22). Ai vai, pois, um sinal de predestinação e penhor de felicidade eterna: chorar e gemer com Cristo no Calvário para podermos regozijar-nos e reinar com Cristo ressuscitado. Os verdadeiros cristãos não o ignoram; por isso, santificam no recolhimento, na oração e nas lágrimas da penitência, o santo tempo da Quaresma , e mais especialmente os dias da Semana Santa; sepultam com Nosso Senhor Jesus Cristo, no túmulo, seus pecados e sua concupiscência, e levantam-se com Ele, na alegria, nos transportes da sua Ressurreição. 

QUARESMA

   A Quaresma é um tempo de reparação e de emenda, consagrado ao recolhimento e à oração, à penitência e às boas obras. A  Santa Madre Igreja quer honrar deste modo o retiro e o longo jejum de Jesus Cristo, e preparar-nos para a Páscoa, isto é, para a passagem da morte para a vida, ou de uma vida imperfeita para uma vida mais santa, assim como o divino Mestre se preparou com um retiro de jejum de quarenta dias, para renovar o mundo com a pregação do Evangelho.

   Antigamente definia-se a Quaresma como o período dos quarenta dias de jejum que precedem a festa da Páscoa. Isto porque neste santo tempo de penitências, havia a obrigação de jejum em todos os dias, com exceção dos domingos, para imitarmos assim os quarenta dias do jejum de Jesus e nos prepararmos dignamente para a festa da Páscoa. Sabemos que hoje todos estes dias obrigatórios de jejum ficaram reduzidos a apenas dois (Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa). 

   São Jerônimo afirma que a Quaresma é de tradição apostólica e que este número de quarenta nas Sagradas Escrituras é sempre o da pena e da aflição. E o grande doutor da Igreja cita Ezequiel XXIX. 

   Lembremo-nos da chuva torrencial de quarenta dias e quarenta noites no dilúvio que submergiu a raça humana sob as vagas, à exceção de oito pessoas, a família de Noé. Consideremos o povo hebreu, errante por quarenta anos no deserto, em castigo de sua ingratidão, antes de poder entrar na terra prometida. Escutemos o Senhor ordenando a seu profeta Ezequiel permanecesse deitado quarenta dias sobre o lado direito, para representar a duração e um cerco, ao qual devia seguir-se a ruína de Jerusalém. 

   No Antigo Testamento Moisés que representava a Lei, e o Elias que representava a Profecia, ambos se aproximam de Deus: o primeiro no monte Sinai, o segundo no monte Horeb; mas nenhum deles consegue acesso junto à divindade, senão depois de purificados pela expiação em um jejum de quarenta dias. 

   A Quaresma aparece-nos então em toda a sua majestosa severidade, e como meio eficaz de aplacar a cólera de Deus e purificar nossas almas. Ao reconhecer humildemente que somos pecadores, sentimos necessidade da penitência, especialmente na quaresma, e esperamos assim que Deus se digne, como no tempo do profeta Jonas, conceder misericórdia a cada um de nós e a todo o povo. Na verdade, para obter a regeneração que nos tornará dignos de voltar às santas alegrias do Aleluia, ser-nos-á necessário o triunfo sobre os nossos três inimigos: o demônio, a carne e o mundo. Unidos ao Redentor, que luta sobre a montanha contra a tríplice tentação e contra o próprio demônio, necessitamos de estar armados e de vigiar sem desfalecimento. 

   "Devemos, diz D. Guéranger, durante a Quaresma trazer à memória os penitentes públicos, que, expulsos solenemente da assembleia dos fiéis na Quarta-feira de Cinzas, constituíam, por todo o espaço da santa Quarentena, objeto de maternal preocupação para a Igreja, devendo esta, se o mereciam, admiti-los à reconciliação na Quinta-feira Santa. Um admirável conjunto de leituras, destinado a instruí-los e a interessar os fiéis em seu favor, passará sob os nossos olhos, pois, a Liturgia nada perdeu tão pouco dessas vigorosas tradições. Lembrar-nos-emos então da facilidade com que nos têm sido perdoadas as iniquidades que, nos séculos passados, talvez não o fossem senão após duras e solenes expiações. E, pensando na justiça do Senhor, que permanece imutável, sejam quais forem as mudanças introduzidas na disciplina pela condescendência da Igreja, sentiremos tanto maior a necessidade de oferecer a Deus o sacrifício de um coração verdadeiramente contrito, e de animar, com um sincero espírito de penitência as leves satisfações que apresentamos à sua divina Majestade" (do Livro "Ano Litúrgico).

   

domingo, 4 de fevereiro de 2018

DOMINGO DA SEXAGÉSIMA - HOMILIA DOMINICAL

   Leituras: Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios, 11, 19-33 e 12, 1-9.
              Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas, 8, 4-15.

  "Naquele tempo, tendo-se reunido uma grande multidão, como tivessem ido a Jesus os habitantes de várias cidades, propôs-lhes Ele esta parábola: Saiu o semeador a semear sua semente; e ao semeá-la, parte caiu junto ao caminho e foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra parte caiu sobre a pedra, e quando nasceu, secou logo, por não haver umidade. Outra parte caiu entre espinhos, e os espinhos, nascendo com ela, a sufocaram. E outra parte caiu em boa terra, e depois de nascer, deu fruto, cento por um. Dito isto, clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Seus discípulos perguntaram-Lhe, pois, que significava essa parábola. E Ele lhes respondeu: A vós é dado conhecer o Mistério do Reino de Deus, porém aos outros se fala em parábolas, para que olhando, não vejam, e ouvindo, não entendam. Este é, pois, o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão ao longo do caminho, são os que a ouvem, mas vindo depois o diabo, tira-lhes a palavra do coração, para que se não salvem, crendo nela. Os de sobre a pedra, são os que recebem com gosto a palavra, quando a ouviram. porém estes não têm raízes: até certo tempo creem, mas, no tempo da tentação, desviam-se. A que caiu entre os espinhos: são estes os que ouviram, porém indo, afogam-se com cuidados, riquezas e deleites da vida, e não dão fruto. E a que caiu em boa terra: são os que, ouvindo a palavra, guardam-na com o coração bom e perfeito e dão fruto na paciência". 

   Caríssimos e amados leitores em Nosso Senhor Jesus Cristo!


  É a parábola do semeador. De todas as parábolas de Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma das mais importantes e instrutivas; porque contém em figura o mistério da Encarnação, a obra da pregação evangélica e toda a economia da nossa salvação. Faz-nos ver, de um lado, a bondade inefável de Deus abaixando-se até nós, e semeando a sua palavra e a sua graça com uma liberalidade sem limites; e, do outro lado, a dureza e ingratidão dos homens, dos quais a maior parte são infiéis e inutilizam os dons de Deus. Mostra ainda a sua importância o cuidado caritativo de Nosso Senhor em explicá-la por si mesmo aos seus discípulos, o que só fez com esta e com a parábola da cizânia.
   Quem é o semeador? É o próprio Verbo, o Filho de Deus. Desceu à terra para semear em nossos corações e fecundá-los, para lançar neles a semente do seu Evangelho, isto é, para   revelar-nos os mistérios do reino dos Céus, para derramar em nós as suas graças e as suas misericórdias e para transformar os homens, de terrenos estéreis que eram, em homens celestes, capazes de produzirem frutos de santidade dignos da vida eterna.


   Qual é a semente? Jesus no-lo diz: É a palavra de Deus. É Nosso Senhor, pois que o Verbo de Deus é, ao mesmo tempo, semeador e semente depositada nos sulcos das nossas almas. Ele se semeia por assim dizer a si mesmo em nós, pela sua doutrina divina, pelas suas santas inspirações, pelos seus Sacramentos, sobretudo pela adorável Eucaristia. Nosso Senhor é ainda semeado pela pregação dos Apóstolos e de todos os seus sucessores legítimos de todos os tempos e de todos os lugares, isto é, pelo ensino, legislação e Liturgia da Igreja Católica; pelos bons livros e pelos exemplos dos santos. Quem poderia exprimir o preço e a virtude desta divina semente? que graça e que força íntima e oculta ela possui para regenerar o mundo e santificar os homens! foi por esta palavra que Deus tudo criou do nada. Foi ela que extirpou os vícios grosseiros do paganismo e que fez florir por toda a parte as belas virtudes do Cristianismo. Ela conserva sempre a mesma eficácia soberana; e, se é mais ou menos frutuosa, isso provém das nossas disposições.
   Justamente os diferentes terrenos significam os corações dos homens que recebem a palavra divina, com muito diversas disposições. A semente que cai ao longo do caminho, segundo explica o próprio Jesus, designa aqueles que ouvem a palavra; mas em seguida vem o demônio e lhes retira essa palavra do coração.
  Essa classe de pessoas é a das almas dissipadas, levianas, frívolas, preguiçosas; corações indiferentes, semelhantes a uma estrada larga, onde o ruído é  ensurdecedor, o terreno muito batido e endurecido sob os pés dos viandantes que passam em todos os sentidos. A palavra de Deus depressa é calcada e esmagada pelas paixões más, o orgulho, os ressentimentos, os ódios, etc... Ou não é acolhida por essas almas dissipadas e endurecidas, ou só é ouvida com desdém e indiferença. O demônio rouba esta semente, semelhante nisto às aves do céu, que, no tempo das sementeiras, comem os grãos que não ficam cobertos pela terra. 
   A semente que cai sobre terreno pedregoso, explica Jesus, designa aqueles que, tendo ouvido a palavra de Deus, a recebem com alegria; mas, como não têm raízes, não creem senão por algum tempo e, no momento da tentação, retiram-se e sucumbem.
   Essa classe de homens é a das almas superficiais que, ouvindo a palavra de Deus, a recebem com alegria, isto é, começam a converter-se, formam as mais belas e úteis resoluções, e parecem prontas a tudo para Deus. Mas falta-lhes vontade firme e séria: não há nelas senão veleidade, presunção e inconstância; não têm raízes bastante profundas; não são bem arraigadas na fé. Não têm suficiente fundo de humildade, de desconfiança de si mesmas e de confiança em Deus. Por isso, a mais pequena tentação as abala; as cruzes desta vida, as tribulações, algumas leves perseguições pela justiça e pela fé, as prostram e fazem perecer a sua virtude sem raízes; sucumbem, deixam o caminho direito, e acabam por se afastar miseravelmente.
   A semente que cai entre os espinhos, explica Jesus, figura aqueles que ouviram a palavra, mas indo, em pouco tempo esta palavra é abafada pelos cuidados e embaraços do mundo, pela ilusão das riquezas, pelos prazeres do mundo e pelas outras paixões, de sorte que não produzem fruto nenhum.
   Esta categoria é a das almas divididas, embaraçadas pelos prazeres e pelos cuidados excessivos dos bens da terra; que quereriam servir ao mesmo tempo a Deus,  ao prazer e ao  dinheiro. Esta sede insaciável das riquezas, das honras e dos prazeres abala a boa semente nestes corações carnais ou terrestres, isto é, destrói neles todos os bons sentimentos, a vontade de trabalhar na salvação, e mesmo todos os pesares ou remorsos que a palavra de Deus faz brotar neles.
   A semente que cai em terra boa, segundo a explicação de Nosso Senhor Jesus Cristo, são aqueles que tendo ouvido a palavra, a conservam num coração bom e excelente, e produzem frutos pela paciência.
   A esta categoria pertencem as almas bem preparadas, as almas humildes e piedosas, libertas dos laços do pecado, cheias de generosidade, desapegadas das coisas do mundo e ávidas de agradar a Deus, de O servir e de O glorificar. Estas almas ouvem a palavra de Deus com atenção, respeito e amor.
   Produzem frutos pela paciência, isto é, são obrigados, para se santificarem, a vigiar, trabalhar, sofrer, combater sem cessar, porque esta é a nossa condição neste mundo.
   Umas  produzem trinta por um, outras sessenta, outras cem, segundo a proporção dos talentos e das graças recebidas, ou segundo a perfeição da cultura, ou segundo os diversos graus da sua caridade para com Deus.
   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Tomemos a resolução de ler e escutar doravante a palavra divina sempre com mais atenção e devoção a fim de que nos guarde, nos santifique e nos torne dignos da recompensa do Céu. Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática! Amém!