SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O SS. SACRAMENTO DA EUCARISTIA: MATÉRIA E FORMA


  1- MATÉRIA. A matéria remota da Eucaristia é o pão de trigo e o vinho de uva; a matéria próxima são as espécies do pão e do vinho consagradas.

   A. O PÃO DE TRIGO. a) Para a validade, o pão deve ser de trigo puro e bastante recente para afastar qualquer perigo de corrupção.
                                           b) Para a liceidade, na Igreja latina o pão deve ser ázimo, isto é, não fermentado; quanto a forma, a hóstia deve ser redonda, e maior para o padre que celebra do que para os fiéis que comungam.
   Nosso Senhor usou na Última Ceia o pão de trigo e não fermentado, porque instituiu este Sacramento no primeiro dia dos ázimos, no qual não era permitido aos judeus terem em casa coisa alguma fermentada.

   B. O VINHO DE UVA. a) Para validade, o vinho deve ser natural, isto é, exclusivamente fruto da vinha, sem mistura de qualquer outro liquido, e não deve estar estragado (vinagre).
                                           b) Para liceidade, não serve o vinho novo, nem o que começa a ficar azedo.
   Nosso Senhor e Salvador empregou vinho na instituição deste Sacramento, pois Ele mesmo havia dito; "Doravante, não tornarei a beber do fruto da videira, até o dia em que o beberei de novo no Reino de Deus".
   A Igreja sempre conservou o costume de deitar no vinho algumas gotas de água. O Concílio de Trento tornou-o obrigatório, baseando-se nas 3 razões seguintes: 1ª - Nosso Senhor assim terá feito, conforme o uso dos judeus. 2ª - Esta mistura lembra o sangue e água que jorraram do lado de Cristo. 3ª - Significa igualmente a união das duas naturezas em Jesus Cristo: a divina e a humana, e ainda: a união do povo fiel com o seu Chefe, Nosso Senhor Jesus Cristo.

   II - FORMA. A forma da Eucaristia consiste nas palavras pronunciadas por Nosso Senhor, e que nós chamamos palavras da Consagração.
   Para a consagração do pão: "ISTO É O MEU CORPO".
   Para a consagração do vinho: "ESTE É O CÁLICE DO MEU SANGUE, DA NOVA E ETERNA ALIANÇA, MISTÉRIO DA FÉ, O QUAL POR VÓS E POR MUITOS SERÁ DERRAMADO, EM REMISSÃO DOS PECADOS".
   Destas palavras, muitas foram tiradas da Sagrada Escritura; algumas, porém, se conservam na Igreja, por Tradição Apostólica. Destas palavras na consagração do vinho somente são essenciais para que haja o sacramento as seguintes: "ESTE É O CÁLICE DO MEU SANGUE".
   III - SIMBOLISMO DA MATÉRIA. Os símbolos de pão e de vinho apresentam-nos, em primeiro lugar, Jesus Cristo como verdadeira vida dos homens. Disse o Senhor: "Minha Carne é verdadeiramente comida, e meu Sangue é verdadeiramente bebida". Ora, se o Corpo de Nosso senhor é alimento da vida eterna para os que recebem seu Sacramento com o coração puro, de muito acerto é que tenha como símbolo as matérias que conservam nossa vida terrena.
   Estes mesmos elementos também concorrem para que os homens venham a reconhecer que o Sacramento encerra, de fato, o Corpo e o Sangue do Senhor. Pois, ao vermos todos os dias como o pão e o vinho, por um processo natural, se convertem em carne e sangue do homem, mais facilmente somos levados a crer, mediante esta comparação, que a substância do pão e do vinho se convertem, pela bênção do céu, na verdadeira Carne de Jesus e no Seu verdadeiro Sangue.
   Além disto, sendo a Igreja um corpo que se compõe de muitos membros, nenhuma coisa é mais adequada para fazer ressaltar essa união, do que o pão e o vinho. O pão se compõe de muitos grãos, e o vinho se espreme de muitos cachos. Desta maneira, simbolizam  também nós, que apesar de sermos muitos, nos unimos estreitamente pelos laços deste divino Mistério, e constituímos, por assim dizer, a unidade de um só corpo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

CONSELHOS DE TOBIAS A SEU FILHO - Livro de Tobias capítulo IV.

"Julgando, pois, Tobias que seria ouvida a oração que tinha feito, e que ia morrer, chamou a si seu filho Tobias, e disse-lhe: Ouve, meu filho, as palavras da minha boca e imprime-as no teu coração, como um fundamento. Depois que Deus tiver recebido a minha alma, sepulta o meu corpo. Honra tua mãe durante todos os dias da sua vida, porque te deves lembrar de quantos e quão grandes perigos padeceu por amor de ti, trazendo-te no seu ventre. E, quando ela tiver também acabado o tempo da sua vida, a sepultarás junto de mim. Tem a Deus em teu espírito todos os dias da tua vida e guarda-te de consentir jamais no pecado e de violar os preceitos do Senhor nosso Deus. Dá esmola dos teus bens e não voltes o teu rosto a nenhum pobre; porque desta sorte sucederá que também não se aparte de ti a face do Senhor. Da maneira que puderes, sê caritativo. Se tiveres muito, dá muito; se tiveres pouco, procura dar de boa mente também este pouco.

Porque assim entesouras uma grande recompensa para o dia da necessidade; porque a esmola livra de todo o pecado e da morte e não deixará cair a alma nas trevas. A esmola será motivo de grande confiança diante do sumo Deus, para todos os que a dão. 

Preserva-te, meu filho, de toda fornicação,e, fora de tua mulher, nunca consintas em conhecer o crime.

Nunca permitas que a soberba domine nos teus pensamentos ou nas tuas palavras; porque nela teve princípio toda a perdição.

A todo homem que te tiver feito algum trabalho, paga-lhe logo o salário e nunca fique no teu poder a paga do mercenário. Acautela-te, não faças nunca a outro o que não quererias que outro te fizesse. Come o teu pão (repartindo-o) com os pobres e com os que têm fome e veste com os teus vestidos os que estão nus. Põe o teu pão e o teu vinho sobre a sepultura do justo, (Era costume fazer banquetes fúnebres aos quais eram convidados os pobres) e não comas e nem bebas com os pecadores. Pede sempre conselho ao sábio. Bendize a Deus em todo tempo, pede-lhe que dirija os teus caminhos e que todos os teus projetos se firmem n'Ele. (...) Não temas, meu filho; é verdade que vivemos pobres, mas teremos muitos bens, se temermos a Deus, nos desviarmos de todo o pecado e procedermos bem". 

sábado, 30 de janeiro de 2016

FAZER ATOS PERFEITOS DE AMOR A DEUS

  ATO DE PERFEITO AMOR A DEUS

"Conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor; quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele"... "Nós, portanto, amemos a Deus, porque Deus nos amou primeiro" (1 S. João, IV, 16 e 19). 

 Primeiramente um esclarecimento: Habitualmente, em nosso amor de Deus há mistura de amor puro e de amor de esperança, o que quer dizer que amamos a Deus por Si mesmo, porque é infinitamente bom, e também porque é a fonte de nossa felicidade. Estes dois motivos não se excluem, pois Deus quis que em O amar e glorificar encontrássemos a nossa felicidade. Não nos inquietemos, pois, desta mistura, e, pensando no céu, digamo-nos somente que a nossa felicidade consistirá em possuir a Deus, em O ver, amar e glorificar; então o desejo e a esperança do céu não impedem que o motivo dominante das nossas ações seja verdadeiramente o amor de Deus.
   O Ato de Amor a Deus é a maior e mais preciosa ação que se possa ser feito, tanto no céu como na terra. A alma que faz mais Atos de Amor a Deus, é a alma mais amada por Deus no céu e na terra. O Ato de Amor a Deus é o mais poderoso e eficaz meio para chegar bem depressa, e facilmente, a mais íntima união com Deus, à mais alta santidade e à maior paz da alma. (Beato Olier).
   O Ato de perfeito Amor a Deus realiza imediatamente o mistério da união da alma com Deus. E se esta alma fosse culpada dos maiores erros, ainda que numerosos, adquiriria imediatamente a Graça de Deus com este Ato, com a condição de desejar se confessar o quanto antes. Não pode comungar antes da confissão. Mas queremos dizer que feito o Ato de perfeito Amor a Deus, a alma por mais pecadora é perdoada por este Ato e se morrer antes de se confessar não vai para o inferno. Está salva.
   Este ato purifica a alma dos pecados veniais, das imperfeições, dá o perdão do pecado, dá também a remissão da pena por todos os pecados e restitui os méritos perdidos. O Ato perfeito de Amor a Deus torna a dar a alma imediatamente, a inocência batismal. É este ato o meio eficaz para converter os pecadores, salvar os moribundos, libertar as almas do Purgatório, e para consolar os que sofrem, para ajudar os Padres, para ser útil às almas e à Igreja.
   Um Ato perfeito de Amor a Deus aumenta a glória exterior do próprio Deus, da Santíssima Virgem e de todos os Santos do Paraíso; soergue todas as almas do Purgatório; obtém acréscimo da graça para todos os fiéis sobre a terra, reprime o poder maligno do inferno sobre as criaturas. O menor Ato de amor a Deus chega como bênção e graça até o selvagem que mora na última choupana abandonada nos limites da terra.
   O Ato de Amor a Deus é o mais poderoso meio de evitar o pecado, de vencer as tentações e também para adquirir todas as virtudes e merecer todas as graças.
   "O menor Ato de perfeito Amor a Deus tem mais efeito, mais merecimento e mais importância, que todas as boas obras em conjunto". (São João da Cruz) É óbvio que São João da Cruz está se referindo às obras boas mas não feitas com perfeito amor a Deus.
   O Ato de Amor a Deus é a ação mais simples, mais fácil, mais curta ou rápida que se pode fazer, pois basta dizer com toda simplicidade: "Meu Deus, eu Vos amo".
   É tão fácil fazer um Ato de Amor a Deus. Pode-se realizá-lo a todo momento, em todas as circunstâncias, no meio do trabalho, entre a multidão humana, seja qual for o lugar, e num instante de tempo. O Bom Deus está sempre presente, ouvindo, esperando afetuosamente colher do coração da criatura essa expressão de amor. Ele deseja somente que a alma que faz um Ato de Amor conserve-se atenta um momento para poder Ele, Deus responder-lhe por sua vez: "Eu também te amo; Eu te amo muito!"
   O Ato de amor não requer esforço nem inteligência. Não interrompe a atividade, não exige fórmulas particulares.
   O Ato de Amor não é um ato de sentimento; é um ato da vontade. Elevado infinitamente acima da sensibilidade e é também imperceptível aos sentidos. Basta que a alma diga ou mesmo exprima sem palavras ao bom Deus: "Meu Deus, eu Vos amo!"
   Na dor sofrendo em paz e com paciência, a alma manifesta seu Ato de Amor deste modo: "Eu Vos amo Meu Deus, por isto sofro tudo por amor a Vós!"
   Em meio aos trabalhos e preocupações exteriores, no cumprimento do dever cotidiano: "Meu Deus, eu vos amo, trabalho comVosco, para Vós, por Vosso Amor".
   Na solidão, no isolamento, na imolação, na desolação: "Obrigado, meu Deus, sou assim mais semelhante a Jesus. Basta-me amar-Vos muito!"
   Por ocasião de defeitos, mesmo graves: "Meu Deus, sou fraco, perdoai-me. Recorro a Vós, refugio-me em Vós porque Vos amo muito!"
   Nas alegrias, nas horas de felicidade: "Meu Deus, obrigado por este dom. Eu Vos amo".
   Quando a última hora se aproximar: "Obrigado, meu Deus por tudo. Amei-Vos sobre a terra; espero amar-Vos para sempre no Paraíso!"
   Pode-se fazer o Ato de Amor a Deus de mil modos diversos. Mas ele é realizado de modo particular pela vontade sempre disposta a cumprir a Santa Vontade de Deus, de qualquer modo que ela se apresente e nos seja manifestada.
   Faz-se o Ato de Amor a Deus, também, quando se cumpre mesmo uma pequenina obrigação, quando se sofre uma bem pequena pena ou frui-se qualquer ventura ou alegria, tudo por seu Amor.
   "Para o bom Deus, vale mais apanhar um alfinete do chão por seu Amor, do que realizar ações notáveis por outros objetivos, ainda que honestos", - diz um santo.
   Faz-se Atos de Amor a Deus todas as vezes que se Lhe diz pela vontade: "Meu Deus, eu Vos amo".
   Uma pobre alma, ignorada de todos, pode fazer por dia 10.000 Atos de Amor a Deus. Na realidade, uma alma simples, e que vive no meio do mundo, e no meio da agitação e das preocupações, pode repetir cada dia 10.000 vezes: "Meu Deus, eu Vos amo".
   A ALMA PODE FAZER O ATO DE AMOR A DEUS EM TRÊS GRAUS DE PERFEIÇÃO.
   1º) - Vontade de sofrer quaisquer penas e até mesmo a morte para não ofender gravemente o Senhor. "Meu Deus, antes morrer que cometer um pecado mortal".
   2º) - Vontade de sofrer qualquer pena e até mesmo a morte de preferência a consentir num pecado venial. "Meu Deus, antes morrer que ofender-Vos, mesmo levemente".
   3º) - Vontade de escolher sempre o que for mais agradável a Deus. "Meu Deus, uma vez que Vos amo, quero somente o que quereis".
   Cada um destes três atos contém um Ato perfeito de Amor a Deus.
   Santo não é quem faz milagres, tem êxtases ou visões, mas quem faz mais Atos de Amor a Deus no decorrer do dia.
   Santo não é quem nunca consente num pecado, mas quem faz pecados por fraqueza mas logo se reergue e encontra em sua própria fraqueza nova razão de amar ainda mais o bom Deus e de se abandonar melhor nos braços divinos.
   Santo não é quem se flagela, usa de fortes mortificações ou que foge ao mundo, ou que realiza obras notáveis que maravilham os homens, mas quem diz maior número de vezes e com mais amor ao bom Deus: "Meu Deus, eu Vos amo muito, e por vosso amor, quero florescer onde me semeastes".
   Santo é quem repete com maior vontade e maior número de vezes o Ato de Amor pela jornada diária afora: "Meu Deus, eu Vos amo muito".
   A alma mais simples e escondida, ignorada de todos, mas que faz o maior número de Atos de Amor a Deus, é muito mais útil às almas e à Igreja do que aquelas que fazem grandes obras com menor amor.
   As obras grandiosas e maravilhosas de alguns santos tiveram muito valor justamente porque tiveram como motivo o grande amor a Deus que lhes inflamava a alma.
   Esta postagem é um folheto distribuído por Religiosas no alto da "Escada Santa" em Roma. Foi traduzido para o português e publicado em 1958. Recebeu para tanto o Nihil obstat do Cônego Vital B. Cavalcanti ( Censor ad hoc); e o "imprimatur" = pode imprimir-se - foi dado pelo Mons. Caruso , Vigário Geral no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

AÇÃO DIVINA NO ESTABELECIMENTO DA IGREJA

Artigo extraído do TRATADO DE HISTÓRIA ECLESIÁSTICA de autoria do Padre Rivaux, V. I.

   "É impossível não reconhecer o dedo de Deus, vendo a Igreja, saída do presépio de Belém, do Calvário, do cenáculo, subir assim gloriosa ao trono dos Césares, depois de três séculos de lutas, de perseguições e de suplícios horrorosos, e apesar do grande número e poder de seus inimigos. (...).

   "No grande e porfiado combate que a filosofia travou com o cristianismo, ela foi fortemente coadjuvada por todas as paixões do coração humano. A sujeição aos sentidos produziu sempre uma grande oposição às verdades morais e intelectuais. É a eterna luta, o combate mortal da carne contra o espírito. Ora, na época em que a religião cristã apareceu sobre a terra, "o gênero humano, diz um autor, só vivia pelos sentidos. Não havia outra religião senão a volúpia; e as seitas mais severas na sua origem, degenerando brevemente de uma austeridade factícia, tinham chegado por um transtorno de ideias, que passou para a sua linguagem, a ponto de identificar a virtude com o vício. Por isso todas as paixões se arremessaram com furor contra o cristianismo. A avareza incitou contra ele os sacerdotes idólatras; o orgulho, os sábios, a política, os imperadores e seu exemplo aos povos. Numa palavra, foi o gigantesco e infernal combate de todos os vícios contra a virtude, de todas as infâmias contra a honra, de todas as seduções contra à inocência, de todas as mentiras contra a verdade, etc.

   "O que prova quanto as paixões humanas eram hostis ao cristianismo é a guerra universal e cruel que lhe declararam todas as classes da sociedade pagã Reis, povos, cortesões, filósofos, tudo o que tinha uma espada, um cetro, uma pena, algum poder, lançou-se sobre os cristãos como sobre os inimigos do gênero humano. Não respeitaram nem a idade nem o sexo; cobriram as praças públicas, as estradas, os mesmos campos e lugares desertos de instrumentos de tortura, de cavaletes, de fogueiras, de cadafalsos. Juntavam os jogos à carnificina; de todos os lados corriam a gozar da agonia e da morte dos cristãos, que eram degolados. Por espaço de trezentos anos, este bárbaro grito: Aos leões os cristãos! fez exultar de alegria uma população ébria de sangue e, durante todo esse tempo, o império romano inventou toda sorte de suplícios contra os fiéis. Foi, diz um consciencioso historiador, uma carnificina que durou séculos.

   "Que opôs a religião cristã a esses diversos e tão terríveis ataques? À arrogância dos filósofos, à sua razão cheia de orgulho e de independência, opôs a estultícia e o escândalo da cruz: são as próprias palavras de São Paulo;; porque, aos olhos dos judeus e dos pagãos, o cristianismo era uma verdadeira estultícia: era uma estultícia a pobreza, a abnegação, a fé nos mais incompreensíveis mistérios, na divindade de um homem, de um crucificado. Sim, era uma estultícia aos olhos de uma razão cega e orgulhosa; mas, para o homem esclarecido pelas luzes do céu, é, diz o grande Apóstolo, o milagre da força de Deus e a obra-prima da sua sabedoria. Como para acabar de humilhar e de confundir o orgulho dos sábios do século, Deus fez que os homens que eles mais desprezavam lhes impusessem essa doutrina revoltante. "Escolheu, diz São Paulo, as coisas mais fracas do mundo para destruir as que são grandes" O método de ensino foi tão extraordinário como a doutrina e os mestres. Desprezavam os recursos da sabedoria humana para agradar e persuadir. Falavam sem estudo nem arte. Exuberavam de gozo quando o seu ensino lhes atraia o desdém, as afrontas, a perseguição e a morte. Gloriavam-se da sua fraqueza e ignorância. Alegravam-se de ser a abjeção do mundo. Gabavam-se de não conhecer, de não saber senão a estultícia da cruz. "Glorio-me e folgo, exclamava o mais célebre dentre eles, na minha fraqueza, nas afrontas, nas perseguições e na tribulação; porque só sou forte quando pareço fraco. Deus nunca permita que eu me glorie senão na cruz de Cristo! Eu professo não saber outra coisa senão a Jesus, e Jesus crucificado" Eis aqui o que o cristianismo ofereceu à erudição e soberba da filosofia pagã. Era impossível apresentar-lhe coisa mais insensata na aparência, mais humilhante e revoltante.

   O que ele opôs a todas as paixões do coração humano, desencadeadas contra ele, não era menos capaz de a irritar. "Armado de uma cruz de madeira, diz um autor, viram-no caminhar no meio dos gozos embriagantes e das religiões dissolutas de um mundo envelhecido na corrupção. Às esplêndidas festas do paganismo, às lindas imagens de uma encantadora mitologia, à cômoda licenciosidade da moral filosófica, a todas as seduções das artes e dos lazeres, opôs o espetáculo da dor, graves e lúgubres cerimônias, as lágrimas da penitência, ameaças terríveis, tremendos mistérios, o pavoroso fausto da pobreza, o saco, a cinza e todos os símbolos de um absoluto desapego e de uma profunda consternação; porque foi isto o que o mundo pagão viu a princípio no cristianismo". "Nascidos para as alegrias celestes, diz Santo Agostinho, não devemos celebrar os prazeres mortais; pois isto é uma linguagem bárbara que o homem aprende sobre a terra, mas de que o cristão nunca deve usar" "A religião cristã, diz o P. Lacordaire, é  uma religião de crucifixão; vem do Calvário. Conhece-se que ela custou lágrimas e sangue; e, em toda parte onde há um verdadeiro cristão, deve haver penitência e circuncisão do coração". "Bem-aventurados os pobres, os que choram e os que sofrem e são injustamente perseguidos! Desgraçados aqueles que fazem consistir a sua felicidade nos prazeres deste mundo! amai os que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam. Se vos ferirem na face direita, oferecei também a outra. Todo aquele que quiser ser discípulo de Jesus Cristo renuncie a si mesmo e tome a sua cruz todos os dias. Velai e orai, Se o vosso olho direito vos servir de escândalo, arrancai-o; e, se é a vossa mão, cortai-a, etc.": eis o Evangelho. "Eu mortifico a minha carne, dizia o grande Apóstolo, e escravizo-a; porque todos os que são de Jesus Cristo crucificaram a sua própria carne e os seus apetites, etc." cumpre que a impureza nem sequer seja nomeada entre os cristãos; a cruz de Jesus Cristo deve bastar para os deliciar. Se o sensualismo deveu estremecer e revoltar-se, foi decerto ao ouvir semelhante linguagem.

   A Igreja, a todo o poder do império romano levantado contra ela, nada opôs que não fosse fraco aos olhos do mundo. Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus encontrou uns pescadores enxugando as suas redes: "Vinde após mim, disse-lhes Ele, e farei que sejais pescadores de homens"; e os mandou percorrer todo o mundo: euntes docete omnes gentes. E que autoridade, humanamente falando, deu-lhes ele para isso? a autoridade de uma homem que, vivendo somente trinta e três anos, passou trinta na obscuridade, na oficina de um carpinteiro; obscuridade que desacreditou a sua própria palavra, a ponto de o impedir de converter os seus à sua doutrina, o que lhe atraiu a morte mais ignominiosa. Do alto de um patíbulo, ele deixa os seus Apóstolos, homens sem instrução nem influência, encarregados de converter o mundo pagão à adoração e partilha da sua cruz. Eles ousam tentar a empresa. A Etiópia, a Índia, a Grécia, tão sábia, e Roma, tão guerreira, receberam esses embaixadores de nova espécie. Afiguremo-nos Pedro e Paulo, com um bordão na mão, abandonando a Síria e chegando a Roma, com todas as exterioridades da mendicidade. Vendo essas elevadas torres, esses suntuosos palácios, no meio dos cantos  de triunfo, das legiões dos procônsules, que saem desses soberbos pórticos para ir dar leis ao mundo, no meio do fausto dos grandes, ao estrondo das festas, das danças  dos dissolutos prazeres da mocidade romana, perguntai a esses dois judeus que vão fazer a Roma. Nós vamos, responder-vos-ão eles, opor-nos a essas festas e a esses prazeres; pregar a humildade aos altivos Césares, a mortificação e a continência a essa brilhante e voluptuosa mocidade, e fazê-los adorar o Cristo, que acabam de crucificar na Judeia. Perguntai-lhes: que recurso têm para operar essa pasmosa revolução? Nenhuns temos. Somos uns pobres e ignorantes pescadores, e é a primeira vez que deixamos as nossas redes. Esperais ao menos que algum grande conquistador auxilie a vossa empresa? Não o esperamos. Ademais, o Mestre, que nos envia, tendo-nos visto uma vez puxar da espada para o defender, mandou-no-la embainhar e recomendou-nos que, quando nos maltratassem, nos retirássemos em paz. Mas tendes recompensas para os que vos ouvirem? Nenhuma temos que dar neste mundo; os que nos ouvirem não devem esperar, assim como nós, ser mais felizes que o nosso Mestre, que não tinha onde pousar a sua cabeça, etc.

   Se um incrédulo dos nossos dias fosse testemunha dessa conversação, teria acolhido os dois Apóstolos com o mais desdenhoso sorriso; e, se fosse poderoso, ter-lhes-ia feito vestir a túnica da ignomínia, como Herodes obrou com Jesus, e os teria entregue à irrisão de todo o império.

   "E, contudo, diz o P. Ravignan, esses doze pescadores mudaram a face do mundo, e a sua religião venceu; foi, é e dura; não devia, não podia existir nem durar, porque era loucura, e loucura contrária a todas as paixões" "Admirável contraste!, diz outro autor: no mesmo tempo, Sêneca, filósofo eloquente e rico, educa um novo imperador; e Pedro, pescador da Galileia, pobre e sem valimento, educa um novo gênero humano. O discípulo de Sêneca foi Nero; o de Pedro é o mundo cristão".

   Concluamos, pois: as ilusões e os excessos do paganismo foram coisas humanas e naturais. O cego e fatal império do maometismo é coisa humana, é o serralho e o alfanje, é a força bruta e alguns rasgos de eloquência. A bandeira hasteada por Lutero é coisa humana, é o orgulho e o amor da independência. A filosofia delirante é coisa humana também. Mas eu procuro o homem e a natureza no estabelecimento do cristianismo; mostrai-mo; a força? não; o gênio? tampouco; as paixões? ainda menos. Não há milagres no estabelecimento do cristianismo? Seja. então admitis o que é impossível, o que é inexplicável, o que é superior às forças da natureza e da humanidade. Remetei-vos ao tempo, aos lugares, aos homens, às coisas de então e direis necessariamente, com um moderno e sábio historiador dos Césares: "Quanto a mim, está demonstrado que, humanamente falando, o cristianismo não podia, não devia começar". "Ou o cristianismo se estabeleceu por milagres, dizia Santo Agostinho, e então é divino; ou se estabeleceu sem eles, e então admite-se o maior de todos os milagres", isto é, a conversão do mundo por doze pescadores desaprovados pelo céu e repelidos pelo universo. "O Evangelho, diz Bayle, pregado por homens pobres, sem estudo nem eloquência, cruelmente perseguidos e privados de todo o auxílio humano, não deixou de se estabelecer em pouco tempo por toda a terra. É este um fato que ninguém pode negar e que prova que é obra de Deus".

   Logo, por confissão de todos, o dedo de Deus está aqui. Segundo a palavra do profeta, "o Cordeiro veio a ser o Dominador, e o leão da tribo de Judá venceu". A vós, Senhor, toda a gratidão, todo o amor e toda a glória, porque a religião é obra evidentemente vossa! A Domino factum est istud!


N. B. : No Seminário um dos meus professores afirmava que o TRATADO DE HISTÓRIA ECLESIÁSTICA  de autoria do Padre Rivaux era a melhor que ele conhecia. A Editora PINUS reeditando esta obra monumental, prestou um grandioso serviço à Santa Igreja e consequentemente às almas. Assim, aconselho que, quem puder, adquira esta obra em três volumes. 

   

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Página da História do Concílio Vaticano II

   (...) Entre as numerosas comissões e secretarias que ele (João XXIII) instituiu em 5 de junho de 1960, para empreender a tarefa imediata de preparar o Concílio, figurava um Secretariado para a União dos Cristãos. Tinha por finalidade estabelecer contatos com os Ortodoxos, os Velhos Católicos, os Anglicanos e os Protestantes, e convidá-los a enviar representantes oficiais ao Concílio. (...) Havendo no mundo milhares de igrejas separadas, era impossível convidar cada uma delas a se fazer representar no Concílio. O Cardeal Bea [encarregado]  resolveu entrar em contato com as comunidades mais numerosas, e convidá-las e enviar delegações que pudessem representar todas as igrejas a elas filiadas. Assim, foram enviados convites à Federação Luterana Mundial, à Aliança Mundial das Igrejas Reformadas e Presbiterianas, à Convenção Mundial das Igrejas de Cristo (Discípulos de Cristo), ao Comitê Mundial dos Amigos (Quakers), ao Conselho Mundial dos Metodistas, à Associação Internacional pelo Cristianismo Liberal e pela Liberdade Religiosa, ao Conselho Ecumênico das Igrejas, ao Conselho das Igrejas Australianas, e a outros grupos. 
   Mons. Heean, Arcebispo de Liverpool e membro do Secretariada para a União dos Cristãos, dizia em 1962: "Não será exagerado dizer que a personalidade do Papa modificou a atitude dos não-católicos da Inglaterra com relação ao Vaticano. No linguajar de nosso tempo, poderíamos dizer que o Papa João deu aos protestantes uma "nova imagem" da Igreja Católica(...) 
   O Cardeal Bea convidou o Arcebispo de Cantuária a enviar uma delegação representando a Igreja Anglicana. O convite foi aceito. A seguir ele dirigiu ao Patriarca Ecumênico Atenágoras, de Constantinopla, proposta para o envio de uma delegação que representasse os diversos ramos da Igreja Ortodoxa. [A Russa não aceitou]. (...)

   O assunto do comunismo não foi ventilado diretamente... 

   (...) O Cardeal Bea exprimiu publicamente sua satisfação ante as reações dos observadores delegados. 
   O Sr. Cullmann, professor nas universidades de Basileia e de Paris, que era hóspede do Secretariado para a União dos Cristãos, concedeu uma longa entrevista coletiva no fim da sexta semana da primeira sessão, a fim de expor as próprias reações e as de outros "convidados e observadores". Disse que receberam todos os textos do Concílio, que lhes era permitido assistir a todas as Congregações Gerais, que podiam comunicar seus pontos de vista nas reuniões semanais especiais do Secretariado, que estavam em contato pessoal com os Padres Conciliares, especialistas e outras personalidades romanas. Disse que as atividades do Secretariado para a União dos Cristãos "lhes mostrava diariamente quanto era verdade que sua existência contribuía para a aproximação de todos". 
   Sublinhou que se tiravam conclusões errôneas da presença, no Concílio, de observadores e convidados. Cartas que recebia, tanto de católicos como de protestantes, pareciam indicar que seus autores julgavam ser a finalidade do Concílio chegar à união entre a Igreja Católica e as outras igrejas cristãs. Tal não era, disse, o fim imediato do Concílio e ele receava que muitos dos que pensavam assim acabassem decepcionados depois do encerramento do Concílio, ao constatar que as igrejas continuavam distintas. (...)
   Para se preparar para as Congregações Gerais, os observadores estudavam os esquemas lhes eram distribuídos. "Faziam anotações", disse, "fazíamos comparações com a Escritura, com os escritos dos Padres da Igreja e com as decisões dos Concílios anteriores. Evidentemente, reagíamos de formas muito diversas aos esquemas que nos foram sendo comunicados: apreciamos uns, desgostamos de outros; alguns nos parecem encorajadores, outros decepcionantes".
   O professor Cullmann observou que todo futuro historiador do II Concílio do Vaticano deveria mencionar "a importância ecumênica" da cantina que havia sido instalada para todos os membros do Concílio. "Ela não somente nos proporciona refrigerantes, disse, como também nos permite de modo absolutamente único, encontrar bispos do mundo inteiro de uma forma que seria impossível em outra circunstância (...) E se o diálogo prosseguir entre as duas partes, no espírito que nos animou até aqui isto, será um elemento de unidade que poderá trazer novos frutos"

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

CONFISSÃO: uma Direção Espiritual com S. Francisco de Sales

   A confissão é um sacramento de misericórdia. É, na verdade, um tribunal, mas um tribunal em que o próprio réu se acusa não para ser condenado, mas para ser perdoado. Devemos por isso aproximar-nos dele com uma piedosa alegria e inteira confiança. São Francisco de Sales ensina-nos que, para os que se confessam todos os oito dias, bastam uns 15 minutos de exame de consciência, e pede menos para o ato de contrição. 
   Quanto às faltas leves esquecidas, eis aqui uma profunda observação do nosso santo: Não devemos inquietar-nos, quando não nos lembramos das faltas, para as confessarmos; porque não é crível que uma alma que faz muitas vezes o seu exame o não faça de modo que se lembre das suas faltas graves. Não devemos ser tão delicados, que queiramos confessar tantas pequenas imperfeições, tantas faltas leves; um ato de humildade interior, um suspiro basta para as apagar. Não digais que tendes pecados ocultos que não confessais. Isso é um artifício do demônio para vos inquietar. Recordai-vos ainda de que a acusação minuciosa das vossas faltas não é o que as apaga, assim como uma enumeração exata das dívidas não paga nada ao credor. Um exame longo cansa o espírito. 
   Ouçamos S. Francisco de Sales: "Quando não virdes claramente que destes alguma espécie de assentimento aos acessos de cólera ou de qualquer outra tentação, deveis dizê-lo no vosso entretenimento (direção) espiritual, afim de serdes instruído de como haveis de proceder; mas não o deveis dizer a modo de acusação. Porque se dizeis: acuso-me de ter tido durante dois dias grandes motivos de cólera, mas não consenti neles, dizeis as vossas virtudes em vez de dizerdes os vossos defeitos. Se estiverdes na dúvida de ter cometido alguma falta, deveis examinar seriamente se essa dúvida tem fundamento, e então falar dela com simplicidade. No caso contrário, deveis calar-vos, ainda que sintais por isso algum pesar."
   Outro aviso do nosso santo: "Não somos obrigados a confessar os pecados veniais; mas quando os confessamos devemos ter a resolução de nos emendarmos deles, aliás seria um abuso confessá-los."
   Caríssimos! Depois da confissão, ficai tranquilos. É-vos absolutamente proibido deixar-vos vencer por temores a respeito do exame, da contrição, ou de qualquer outra coisa que seja. Estes temores são artifício do vosso inimigo que deseja tornar-vos amargo um sacramento de consolação e de amor. Devemos, outrossim, arrepender-nos dos nossos pecados, mas não perturbar-nos por causa deles; o arrependimento é o efeito do amor de Deus, a perturbação é o efeito do amor próprio. No mesmo ato de sincero arrependimento devemos dar graças a Deus de, pela sua misericórdia, não termos obrado pior. Prometei-lhe depois uma sincera emenda, não confiando senão na bondade de Nosso Pai Celeste. Ainda que caísseis cem vezes por dia, devíeis sempre esperar e prometer uma séria emenda. Num instante Deus pode transformar as pedras em verdadeiros filhos de Abraão; isto é, em grandes santos. Assim o fará, se constantemente confiardes n'Ele. 
   A dor dos pecados consiste na determinação da vontade que detesta as faltas passadas e as não quer cometer mais para o futuro. Para a verdadeira contrição não é preciso lágrimas, nem suspiros, nem emoções sensíveis ( se isto acontecer, é bom também, mas o importante é a vontade). Podemos até ter em nosso coração uma contrição santa e justificante no meio da maior aridez, que nos parecerá insensibilidade. Mas, caríssimos, não vos deixeis vencer por nenhum temor a este respeito. Torno a dizer: o importante é a vontade decidida. Estabelecei o vosso coração numa profunda paz, e dizei amorosamente ao vosso Deus que desejaríeis não o ter ofendido e com o seu auxílio não quereis ofendê-Lo mais para o futuro: eis a contrição. Ele é um efeito do amor, e o amor procede sempre com tranquilidade. Um dos penitentes mais contritos foi Davi; e a sua contrição encerrou-se nesta palavra: pequei; e por esta só palavra justificou-se. 
   Diz São Francisco de Sales:"É poder muito poder querer. O desejo da contrição prova que há contrição. O fogo que está debaixo da cinza não se sente, não se vê, e, contudo, existe". Dizeis que queríeis ter a contrição, mas que não podeis tê-la. Ficai tranquilos com as palavras do maior diretor espiritual de todos os tempos.
   É aconselhável, caríssimos, acrescentar em geral alguma falta da vossa vida passada, de que experimentais alguma dor particular. Deste modo a matéria necessária para o sacramento será muito mais certa; e a contrição também. 
   Observai bem o seguinte: A Igreja, que é o intérprete das vontades de Nosso Senhor Jesus Cristo, pede a integridade sacramental e não a integridade material. A primeira consiste na confissão dos pecados de que nos lembramos depois dum exame razoável e proporcionado ao estado atual da nossa alma. A integridade material consiste na declaração material de todos os pecados que cometemos, do seu número, das suas circunstâncias, sem omitir nenhuma. A Igreja pede a primeira integridade, porque não excede as nossas forças: mas não exige a segunda, sabendo muito bem que no nosso exame sempre nos escapará alguma coisa ou sobre o número ou sobre as circunstâncias. Em suma: Ela não pede aos fiéis senão uma confissão humilde e sincera de tudo o que lhes vem à lembrança depois dum exame conveniente: persuadida de que a boa vontade dos penitentes supre então a falta involuntária da sua memória. Em uma palavra: a Igreja exige uma confissão HUMANA. E não esquecer que o confessor procura suprir qualquer falta por interrogações prudentes. 
   Caríssimos, para chegardes a tranquilizar a vossa alma, achareis um poderoso socorro neste sentimento universal dos santos: o temor do pecado deixa de ser salutar, quando é excessivo. E cuidado com o temor de confissões gerais! A doutrina não só de São Francisco de Sales, mas de todos os santos e de todos os teólogos esclarecidos e tradicionais é que depois de terdes feito a vossa confissão geral com sinceridade do coração e desejo de vos emendardes, deveis ficar tranquilos e não repeti-la de modo algum, sobretudo, se a pessoa é escrupulosa. Aquele que não segue este sábio conselho dos santos, o que é que faz? Traz à memória o que deveria esquecer, e perturba o espírito em vez de o sossegar. "E depois, como diz também São Filipe Neri, "Quanto mais se varre, mais pó se levanta". Quem sente ardência nas vistas, quanto mais esfrega, mais arde.
   Um último conselho: Pelo menos uma vez na vida, é muito salutar fazer uma confissão geral, e, se for possível, é melhor que seja feita num retiro espiritual. Num Retiro Espiritual temos todas as condições para fazer a melhor confissão geral possível. 
    

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O FIM DO HOMEM: princípio e fundamento de todo retiro



LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

   Para que fim Deus criou o homem: Para conhecer, amar e servir a Deus aqui na terra e assim ser feliz depois para sempre no céu. 

   Deus é o meu princípio; é o meu fim e é a minha recompensa. 

   1- Deus, meu princípio: Percorrendo toda a cadeia dos seres, chego ao primeiro elo, chego a Deus. Deus é o Ser que existe por Si mesmo e é eterno: não teve princípio, nem terá fim. Ser único antes da criação. Devo adorá-Lo nessa eternidade que precedeu o mundo. Mas Deus é a própria Bondade. A Sagrada Escritura diz que Deus nos amou primeiro, porque nos amou sempre, antes mesmo de ter criado o mundo. E assim, de preferência a tantos outros que poderiam ter vindo ao mundo e nunca virão, amava-me e me criou. E como não tenho em mim a razão de minha existência, Deus ao criar-me continua me sustentando no ser. Seria como uma criação continuada. Deus é meu Pai. "Pai Nosso que está no Céu". Ah! a quanto reconhecimento e amor estava eu obrigado! Ouço, no entanto o Divino Espírito Santo dizer-me: "Abandonaste a Deus que te criou, e esqueceste-te de teu Senhor e Criador" (Deut.XXXII, 18). 

   2 - Deus é o meu fim. Assim como, sendo Deus a própria Bondade, amou-me deste toda eternidade e depois criou-me, assim também sendo a própria Sabedoria, teve um fim, ao dar-me a vida: conhecê-Lo, amá-Lo e servir a Ele. Isto porque Deus sabia que o homem só poderia ser feliz cumprindo esta finalidade. Se, preencho este fim, tudo está salvo para mim. Fim único, fim necessário, fim glorioso, fim de todo o meu ser. Sou de Deus em todos os tempos, em todos os lugares. Tudo o que sou e tudo o que faço deve ser de Deus. 

   3 - Deus é a minha recompensa. Como servi-Lo é o meu fim próximo, assim possuí-Lo é o meu fim último. A minha existência na terra só começou; há de completar-se no Céu. "Para mim é bom unir-me a Deus!" Salmo 72, 28). 

   Resumindo: Sou todo de Deus, sou todo para Deus e Deus é tudo para mim.

   a) Sou todo de Deus. Se tudo em mim é d'Ele, tudo em mim lhe pertence. Sou mais de Deus que o súdito do seu soberano, o filho de seu pai, o painel do pintor que o fez.

   b) Sou todo para Deus. O que sou, é obra sua; deu-me o que possuo, para lhe render a obediência que lhe devo. Que nobre é meu fim! Assemelha-me aos Anjos, a Jesus Cristo, ao próprio Deus, que nada faz que não seja para sua glória.

   c) Deus é tudo para mim. Quis que a minha felicidade estivesse vinculada ao seu serviço: felicidade eterna, felicidade presente. Quero ser feliz; sei onde está a felicidade; como tenho eu podido obstinar-me, tanto tempo, em buscá-la onde sei que ela não está? Deus é meu Pai; quero ser feliz com Ele agora e depois para sempre no Céu!

EXEMPLO

   São Francisco de Assis topou certa vez um pedreiro que trabalhava, e amistosamente o interrogou: "Que fazeis, meu irmão?" - Faço paredes da manhã à noite". - "E por que fazeis paredes?" - "Ora essa! para ganhar dinheiro!" - "E para que quereis ganhar dinheiro?" - E o outro meio aborrecido: "Para comprar pão e viver", - "Bem, prossegue São Francisco; e para que fim viveis?" -  Desta vez o pedreiro não sabia o que responder; mas São Francisco aproveitou para explicar para aquele homem o fim para qual estamos aqui na terra. Vamos morrer e não estará tudo acabado, como acontece com os irracionais. Temos uma alma e Jesus Cristo disse: "Que adianta o homem ganhar o mundo todo se vier a perder a sua alma?"