SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Espírito de Pobreza dos Primeiros Cristãos

   Os primeiros cristãos, primícias da Igreja nascente, levaram ao auge a perfeição evangélica e deram o exemplo de uma incomparável união, de uma completa abnegação e sublime caridade. Viviam como se fossem um só coração e uma só alma. Tudo que cada um tinha era possuído em comum. Vendiam as suas fazendas e os seu bens e distribuíam-nos por todos, segundo a necessidade que cada um tinha. A comunhão de bens realizada pela fé destes primeiros cristãos dava aos Apóstolos a administração e o domínio das coisas temporais. 
   Desde modo se acha constituída a propriedade eclesiástica no próprio berço da Igreja. 
  Dentre os que venderam os seus bens para fazer comum o valor deles, cita a Sagrada Escritura por exemplo, um levita, natural de Chipre, chamado José, que recebeu o sobrenome de Barnabé e que, pouco tempo depois, elevando à dignidade de Apóstolo, veio a ser companheiro de São Paulo. 
   São Lucas nos Atos dos Apóstolos fala-nos de um outro fiel chamado Ananias, que vendeu um campo e trouxe aos Apóstolos só uma parte do preço, fazendo-lhes crer que o trazia todo. São Pedro disse-lhe: "Ananias, por que tentou Satanás o teu coração para que tu mentisses ao Espírito Santo e reservastes parte do preço do campo? Porventura não te era livre ficar com ele e ainda hoje, depois de vendido, não era teu o preço?" Essas palavras de São Pedro mostram que o crime não consistia no direito exclusivo de propriedade nem no de reservar para si a totalidade ou parte do que lhe pertencia, mas na mentira do discípulo que, depois de afirmar que dava todos os seus bens, como os outros, retinha uma parte por espírito de cobiça e avareza. Ricos com o que conservavam em seu poder Ananias e sua esposa Safira vinham a sê-lo muito mais adquirindo o direito de participar do tesouro comum da Igreja.
   Essa criminosa especulação foi o segundo atentado contra os bens da Igreja e dos pobres. O primeiro cometera-o Judas Iscariotes que roubava o que recolhia para os pobres. Como se vê, a oblação foi livre e santa desde o princípio da pregação evangélica e é o que estabelece uma diferença essencial entre o Evangelho e o comunismo. "O comunismo, diz o Padre Rivaux, é a exaltação até ao delírio de todos os apetites materiais e de todos os desejos grosseiros. A comunhão evangélica é a abnegação, a imolação do orgulho e da carne. Do Evangelho ao comunismo há a distância do céu ao inferno".
   O Apóstolo Judas Iscariotes, que seria o traidor, antes de trair a Jesus, já traía os pobres porque, como diz claramente o Santo Evangelho, este infeliz apóstolo, se tornara ladrão: era encarregado de recolher os dízimos ou as esmolas para os pobres; e no entanto retinha uma parte para si.
   A Santa Igreja, desde o início se preocupou com os pobres e também com o exemplo de Jesus e dos Apóstolos, os clérigos, embora não façam voto de pobreza (a menos que seja também religioso), devem, no entanto ter o espírito de pobreza, evitar o luxo, e sobretudo não ter apego aos bens materiais. Assim, é completamente contrário ao espírito do Santo Evangelho, uma preocupação demasiada com o dízimo, máxime, se este é empregado, para luxo pessoal, e não para a ornamentação e decoro da igreja para maior honra de Deus, Nosso Senhor. Mas o destino precípuo das esmolas dos fiéis é a ajuda aos pobres. 

domingo, 15 de setembro de 2019

FESTA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

 
 Jesus Cristo, Nosso Senhor, associou sua Mãe Santíssima a todas as suas glórias e grandezas e por isso fê-la também companheira de todos os seus sofrimentos. Jesus quis que Sua Mãe fosse Rainha dos Mártires. Belíssima gema faltaria na sua coroa se não tivesse a dor. Foi Rainha da dor e do martírio. E seu martírio durou toda a sua vida. Sabia-o ela muito bem pelas santas profecias do Velho Testamento a respeito do Messias, que era o seu Filho. Quanto sofreu com a ingratidão, a traição, o abandono, o desamor de que foi alvo o seu Filho: Belém, Egito, Nazaré, Jerusalém, o presépio e Calvário, o Templo, o palácio de Herodes e de Pilatos, são todos lugares onde o seu coração se despedaçou tantas vezes!

   Primeiro, consideremos as dores de Maria Santíssima na sua parte natural e humana e, depois na sua parte divina e sobrenatural.

   1º - Dor humana e natural: A dor corresponde ao amor. Em outras palavras: onde há mais amor, maior a dor. O amor de Maria Santíssima era um amor de Mãe. Caríssimos, com isto está tudo dito! Amor de mãe é o amor mais puro, mais nobre, menos egoísta que na terra existe. Por isso Deus não quis que tivéssemos mais do que uma; ela só basta para encher toda a nossa existência de carinhos inefáveis; de beijos terníssimos, de um amor que enche plenamente o nosso coração. Como ama uma mãe! E como amaria a Santíssima Virgem a seu Filho! Basta pensarmos que Deus pôde preparar para si a sua Mãe. Empregou com certeza todo seu amor e todo seu poder para preparar um coração que amasse sem limite o Filho de Deus que era também o Seu Filho! Daí, caríssimos, podemos imaginar qual não seria a dor de Maria Santíssima na perda de seu Filho, único, o melhor de todos, que amava a sua mãe como nenhum filho amou a sua. E Jesus morreu não por uma enfermidade, por um acidente infeliz, mas por traição, ingratidão, enorme e horrível injustiça e que tudo isto foi realizado no meio de atrocíssimos tormentos e na presença desta mãe amorosíssima! 

Dor divina e sobrenatural: Caríssimos, se já foi difícil, para não dizer impossível, formarmos uma ideia inteiramente adequada da dor natural e humana de Nossa Senhora por ter presenciado as dores e morte atrocíssimas de seu divino Filho, como poderemos avaliar devidamente sua dor sobrenatural? Primeiro, quem conheceu, como Maria Santíssima, que o seu Filho era Deus? E quem conheceu Deus como ela? Sobretudo quem O amou como ela? Como sentiria, portanto, as ofensas, os insultos, os tormentos que os homens deram a Jesus? Se, como Mãe, todas as dores de Jesus, se repercutiam no seu coração, que seria como Mãe de Deus? Os mártires sofriam com alegria abraçados ao crucifixo. Os penitentes e os eremitas são alentados pela vista da imagem de Jesus Crucificado. Para Maria, porém, a vista de Jesus Crucificado, era precisamente o seu maior tormento. O mesmo que ia consolar a outros, era o verdugo do coração da Mãe. As dores de Maria Santíssima, não foram físicas, mas por isso mesmo, foi mais intensa a sua dor por ser toda ela interna, puramente espiritual!

   Caríssimos, não poderia terminar sem destacar um detalhe: é que Maria Santíssima fez a vontade do Pai Eterno. Deus Pai queria que Ela oferecesse o seu Filho em sacrifício para salvar os seus outros filhos que somos nós. E ela ofereceu o seu Coração Imaculado para ser transpassado de dor, para que justamente desta ferida aberta nascêssemos todos nós, os filhos de sua dor!. Para nos salvar, Deus não perdoou o seu próprio Filho. Também Maria Santíssima fez o mesmo! E assim ela esteve ao pé da cruz, morta de dor, desejando a morte de seu Filho Jesus, para dar-nos a vida eterna. Quanto amor! Mas também quanta dor! Ah! caríssimos, quanto custamos a Maria Santíssima ser filhos seus! Então, amemo-la mesmo à custa dos nossos sofrimentos e, se for da vontade de Deus, até da nossa própria vida. Quem não amar a Jesus, seja anátema; e quem não ama a Maria Santíssima é porque não ama a Jesus. 

AS SETE DORES DE MARIA SANTÍSSIMA

   Na sexta-feira da 1ª Semana da Paixão a Santa Madre Igreja faz a Comemoração das Sete Dores de Nossa Senhora, e no dia 15 de setembro celebra a Festa de Nossa Senhora das Dores. 

   Em primeiro lugar, lembremos sucintamente estas sete dores de Maria Santíssima: 
  1. A PROFECIA DE SIMEÃO: "Eis aqui está posto este Menino como alvo a que atirará a contradição: e uma espada de dor transpassará até a tua alma" (São Lucas II, 34).
  2. A FUGIDA DE JESUS PARA O EGITO: "Foi, então que o anjo apareceu em sonhos a José com a ordem: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito" (São Mateus II, 13).
  3. PERDA DE JESUS NO TEMPLO: "Seus pais iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando estava com doze anos, subiram a Jerusalém, por ocasião daquela solenidade, segundo o costume. Passados os dias da festa, quando voltaram, ficou em Jerusalém o menino Jesus, sem que seus pais o notassem. Julgando que ele estivesse na comitiva, caminharam um dia inteiro. Mas quando o procuraram entre os parentes e conhecidos e não o encontraram, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Depois de três dias o encontraram no templo,... E sua mãe lhe disse: 'Filho, por que procedeste assim conosco? Teu pai e eu te procurávamos, cheios de aflição" (São Lucas II, 41-48).
  4. ENCONTRO COM JESUS CAMINHANDO COM A CRUZ AOS OMBROS PARA O CALVÁRIO: Sabemo-lo pela Tradição que o Apóstolo São João assim anunciara a Maria: "Ah! Mãe dolorosa, já vosso Filho foi condenado à morte; já o levam para o Calvário carregando ele mesmo a cruz aos ombros, saiu para aquele lugar que se chama Calvário (São João XIX, 17). Se quereis vê-lo, Senhora, e dar-lhe o último adeus, vinde comigo à rua por onde deve passar". 
  5. MORTE DE JESUS: "Estava de pé junto à cruz de Jesus, sua Mãe" (S. João XIX, 25). "Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo a quem amava, disse a sua mãe: 'Mulher, eis o teu filho'. Depois disse ao discípulo: 'Eis tua mãe' (S. João XIX, 26 e 27).
  6. A LANÇADA E A DESCIDA DA CRUZ: "Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que tinham sido crucificados com ele. Quando se aproximaram de Jesus, viram que já estava morto e por isso não quebraram as pernas. Mas um dos soldados penetrou-lhe o lado com a lança. Imediatamente saiu sangue e água" (S. João XIX, 32-34). 
  7. SEPULTURA DE JESUS: "Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas ocultamente por medo dos judeus, pediu a Pilatos que o deixasse levar o corpo de Jesus. Pilatos deu permissão. Ele foi e tomou o corpo de Jesus. Nicodemos, aquele que antes tinha ido procurar Jesus à noite, veio também, trazendo cerca de cem libras de um mistura de mirra e de aloés. Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em lençóis com perfumes, de acordo com o modo de sepultar seguido pelos judeus. Havia um jardim no lugar onde Jesus foi crucificado. E no jardim havia um sepulcro novo, no qual ainda ninguém tinha sido sepultado. Ali puseram Jesus, por causa da preparação dos judeus, pois o sepulcro ficava próximo" (S. João XIX, 38-42). 

HOMILIA DOMINICAL - 14º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo ao Gálatas 5, 16-24.
                   Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 6, 24-35


Uma paisagem da Palestina."Olhai para as aves do céu..."
   Evangelho: Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou há de aborrecer a um e amar o outro, ou há de acomodar-se a este e desprezar aquele. Não podeis servir a Deus e às Riquezas. Por isso vos digo: não vos inquieteis por vossa vida, com o que comereis, nem por vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que a vestimenta? Olhai para as aves do céu. Elas não semeiam, nem colhem, nem fazem provisão nos celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós pode com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado sequer a sua estatura? E pela vestimenta, porque vos inquietais? Considerai como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fiam. Entretanto, digo-vos que nem Salomão, com toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, que não fará por vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Os pagãos é que se preocupam com essas coisas. Bem sabe vosso Pai que tendes necessidade de tudo isso. Procurai, antes de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo isso vos será dado por acréscimo". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo enuncia um princípio geral: Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Evidentemente trata-se de dois senhores de sentimentos e vontades opostas, incompatíveis entre si. Por isso, seguir um, significa forçosamente rejeitar o outro; odiar um é amar o outro. E quais sejam esses dois senhores, Jesus esclarece-o logo: "Não podeis servir a Deus e a Riqueza". No texto original está a palavra Mammona que os comentadores traduzem pela expressão: Dinheiro ou Riquezas. Mammon era, com efeito, o deus das riquezas, entre os sírios. Mammon está, pois, aqui como um deus falso oposto ao Deus verdadeiro. Na verdade, o dinheiro é o deus dos avarentos. São Paulo dizia que o estômago é o deus dos inimigos da cruz de Cristo, os gulosos: "Quorum deus, venter est". Para os libidinosos o seu deus é o prazer carnal; para os soberbos é o seu "eu". A ele, os mundanos sacrificam tudo: trabalhos, sofrimentos, pesares, e... até a vida eterna. 
A morte do mau rico: As riquezas são um perigo e,
quando mal empregadas, levam aos tormentos eternos.
O pobre Lázaro morreu e foi conduzido ao Seio de
Abraão, ou seja, ao Céu. Lembremo-nos que Abraão
possuía muitas riquezas, mas não tinha nenhum
apego a elas e empregou-as para o bem. 
   O Divino Salvador condena o amor das riquezas, esse amor desordenado que acorrenta o coração do homem, fazendo-o esquecer os interesses da sua alma. Mas não condena o justo cuidado que deve ter todo homem de prover com o trabalho a sua própria subsistência, e a daqueles que lhe foram confiados. O Divino Mestre não disse: - não podeis servir a Deus, e ser ricos; mas não podeis servir (ao mesmo tempo) a Deus e ao Dinheiro. Há, com efeito, muitos santos que , sendo ricos, serviram-se santamente dos bens da fortuna. Foram donos de seus bens, e não escravos deles.
   "Não vos inquieteis dizendo: Que havemos de comer, ou que havemos de beber, ou com que havemos de nos vestir? Porque os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas, mas vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isto". Quanto maior, quanto mais urgente é a necessidade, tanto mais sólida deve ser a nossa confiança em Deus, porque Ele nos prometeu o necessário, não o supérfluo. 
   Depois de apresentar várias razões para confiarmos na Providência Divina, Nosso Senhor Jesus Cristo tira a conclusão: "Procurai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça; e todas estas coisas se vos darão por acréscimo".  Quer dizer, antes de tudo, acima de tudo, procurai o reino de Deus, empregai toda a atenção, solicitude e vigilância de que sois capazes na obtenção dos bens celestes, da felicidade eterna. E que significa  - e a sua justiça? Quer dizer os meios que conduzem à salvação, à vida eterna, a saber, a graça de Deus, as virtudes cristãs, as boas obras, numa palavra, tudo o que nos torne justos e santos diante de Deus, seus verdadeiros servos e seus filhos muito amados. E que significam as palavras: e o resto vos será dado por acréscimo? Quer dizer o seguinte: se vós fordes fiéis em bem servir a  Deus, em Lhe agradar em tudo, Ele, como bom Pai, tomará a seu cargo dar-vos tudo o que, na terra, é necessário à vida do corpo. "Fui moço, dizia Davi, e agora sou velho, e nunca vi o justo abandonado nem os seus filhos mendigando o pão".
Uma paisagem da Palestina. "Considerai como crescem
os lírios do campo..."
   Dizendo que os bens temporais nos serão dados por acréscimo, Jesus nos faz entender que eles não fazem parte da recompensa que merecemos pelas nossas boas obras, cuja medida nos será dada no céu. Esses bens constituem, apenas, um dom liberalmente acrescentado à medida cheia e completa  que havemos de ter na Pátria celestial.
    Antes de terminar quero já responder a uma possível pergunta: Sendo muitos os vícios capitais, por que Nosso Senhor Jesus Cristo fala só da avareza, ao menos aqui, nesta oportunidade? Por vários motivos: Primeiramente, o próprio Divino Espírito Santo diz na Bíblia Sagrada: "A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desencaminharam da fé e se enredaram em muitas aflições" (1Tim. 6, 10). E ainda: "Não há coisa mais iníqua do que aquele que ama o dinheiro, porque venderia até a sua mesma alma, visto que se despojou em vida das próprias entranhas" (Eclesiástico 10, 10). A outra razão é que: enquanto os outros vícios soem diminuir com a idade, a avareza cresce. E ainda podemos dizer que este vício capital, mais do que os demais, engana com pretextos: a necessidade de se prevenir para o futuro, garantir o sustento dos filhos também para o futuro; é preciso trabalhar etc. A avareza leva muitos a perder a fé, e leva à impenitência final. Vede o exemplo de Judas Iscariotes. Os demais vícios muitas vezes aparecem odiosos e humilham. A avareza alimenta e facilita os demais vícios. Por isso vemos que é por aí que o demônio começa. É o caminho mais fácil que o inimigo de nossa alma encontra para perdê-la. 
  Infelizmente, não vemos católicos, alguns que se dizem praticantes e comungam frequentemente, e, no entanto, cometem injustiças, têm ódio daqueles que os lesaram nos seus haveres? Quantos ódios nas famílias por causa de heranças! É coisa muito triste!!! 
    Ó Jesus, concedei-nos a graça de procurar, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, para que, usando retamente dos bens da terra, cheguemos, pela prática das virtudes, ao Reino dos Céus. Amém!
   

sábado, 14 de setembro de 2019

FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

   De grande veneração goza a Cruz que serviu de altar no grande sacrifício que Jesus Cristo ofereceu no monte Calvário ao Pai Celestial. Daí a Santa Liturgia chama-a Santa Cruz ou Santo Lenho. E celebra-a em duas datas: no dia 03 de maio é a Festa da Invenção (=encontro da Santa Cruz); e no dia 14 de setembro, celebra-se a Festa da Exaltação da Santa Cruz. 

   Eis um resumo histórico: Era o ano de 610. Era rei da Pérsia o bárbaro Chosroes II. Fizera guerra contra o império oriental romano. Heráclio, então governador da África, fez proposta de paz a Chosroes. Este não aceitou, e, orgulhosamente disse: "Os Romanos não terão paz, enquanto não adorarem o sol, em vez de um homem crucificado". Heráclio, no entanto, colocando toda confiança em Deus, em 622 marchou contra a Pérsia. Saiu vitorioso.  Chosroes foi morto pelo próprio filho, Este celebrou a paz com o rei Heráclio. E uma da primeiras condições desta paz foi a restituição do Santo Lenho, que anteriormente havia sido roubado e levado para a Pérsia. 

   Uma vez livre do jugo dos Persas, Heráclio resolveu a solene transladação do Santo Lenho para Jerusalém. Na primavera do ano de 629, com grande comitiva, foi a Cidade Santa, levando consigo a preciosa relíquia. Foi uma grandíssima festa! Em procissão soleníssima foi levada a Santa Cruz, para ser depositada na Igreja do Santo Sepulcro, no monte Calvário. O Imperador tinha reservado para si a honra de a carregar. Chegado que foi à porta da cidade que conduz ao Gólgota, como retido por forças invisíveis, Heráclio não pôde dar mais um passo adiante. O Patriarca Zacarias, que presidia à Procissão, como por inspiração divina, disse ao Imperador "Senhor! Lembrai-vos de que Jesus Cristo era pobre, quando vós andais vestido de púrpura; Jesus Cristo levava uma coroa de espinhos, quando na vossa cabeça vejo brilhar uma coroa preciosíssima; Jesus Cristo andava descalço, quando vós usais calçado finíssimo". Heráclio, com humildade aceitou o aviso do patriarca. Tirou a coroa, trocou o manto imperial  por uma túnica pobre, substituiu o rico calçado por sandálias e, tomando novamente o Santo Lenho, sem dificuldade o levou até a última estação. Lá chegado, todo o povo se acercou da grande relíquia, venerando-a com muita fé. Muitos doentes recuperaram a saúde. O dia 14 de setembro de 629 foi de triunfo e da mais santa alegria. 

São Paulo dizia: "Prego a Cristo Crucificado,  que é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos"  (1Cor. I, 23). Nada mais salutar para a alma do que a meditação da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus. Três coisas, no entanto, nos impedem de compreender esta verdade: o orgulho, a distração, a imortificação. O orgulho porque obscurece a fé: não queremos que Deus tenha mais bondade do que podemos compreender. a distração: porque nos impede aprofundar coisa alguma; a imortificação: porque admite-se dificilmente o que é incompatível com uma vida tíbia e sensual que não se quer deixar. 

   Senhor! Vós dignai-Vos inspirar-me a resolução de meditar muitas vezes a vossa Paixão e Morte, e eu tomo-a, com a Vossa graça. Na meditação da Vossa Cruz, ó Divino Salvador, poderei santificar a minha vida e acharei ali o motivo e modelo de todas as virtudes; acharei ali as mais sólidas consolações, e amando-Vos. acharei a incomparável alegria de Vos ganhar almas. Amém!

   

domingo, 8 de setembro de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 13º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo aos Gálatas, 3, 16-22.

   Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas, 17, 11-19:
   

 Aconteceu que, indo Jesus para Jerusalém, atravessava o país da Samaria e da Galileia. Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos que pararam à distância, e puseram-se a gritar: "Jesus, nosso Mestre, tende compaixão de nós"! Assim que os viu, disse-lhes Jesus: "Ide mostrar-vos aos sacerdotes". E aconteceu que enquanto eles iam, ficaram curados. Um deles, vendo-se curado, voltou atrás, e glorificou a Deus em alta voz; e prostrando-se por terra, aos pés de Jesus, deu-Lhe graças; e este era samaritano. Então, Jesus perguntou: Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão, pois, os outros nove? Não houve quem voltasse e viesse dar glória a Deus, senão este estrangeiro. E disse-lhe: Levanta-te a vai: tua fé te salvou.

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Como nota o Santo Evangelista, Jesus estava em viagem. Mesmo em viagem, o Salvador espalha o bem por toda a parte. Aprendamos a praticar, como o Divino Mestre, o bem e a caridade, o nosso dever enfim, em todas as circunstâncias da vida, nesta viagem para a eternidade.
   Estes leprosos são a imagem dos pecadores, como a lepra é a imagem do pecado. Como eles, não deixemos que Jesus passe ao nosso lado, indiferentes aos seus benefícios. Corramos ao Seu encontro para que nos livre da lepra do pecado; não percamos o momento da graça que não sabemos se voltará outra vez. Santo Agostinho dizia: "Temo a Jesus que passa e não volta mais". 
Hoje: a aldeia de Genin. Foi aqui que os dez leprosos se
encontraram com Jesus, pedindo-Lhe, em altos brados
a cura. 
   Estes leprosos estavam à porta da cidade, e pararam à certa distância de Jesus, porque lhes era vedado o convívio com os outros homens, a fim de os não contaminarem. (Naquela época, esta doença horrível não tinha cura e era contagiosa. Hoje, graças a Deus, a medicina oferece tratamento, e a doença não progride e deixa de ser contagiosa). Assim o homem vicioso, atingido pela lepra espiritual, deve ser cuidadosamente evitado, pois não somente o seu exemplo, mas ainda as suas próprias palavras nos trazem o contágio do pecado.
   Caríssimos, observemos que Jesus não curou os leprosos imediatamente, mas ordenou que eles fossem mostrar-se aos sacerdotes. O Salvador quer experimentar a sua fé, obediência e humildade. Segundo a Lei, os sacerdotes deviam verificar e autenticar os casos de cura de um leproso, para lhes restituir os direitos perdidos pela enfermidade. 
    Ora, aqueles homens não estavam ainda curados; mas, porque tiveram fé, receberam a graça desejada, antes mesmo de se apresentarem aos sacerdotes. Também , a todos nós que contraímos a lepra do pecado, diz  Nosso Senhor Jesus Cristo: "Ide mostrar-vos ao sacerdote". Ide, confessar-lhe as vossas faltas, mostrar-lhe a vossa consciência em todo o seu lastimável estado, ou seja, mostrar realmente a alma ao sacerdote com uma confissão sincera, humilde e íntegra. Mas o padre da Nova Lei, não somente verifica os casos de cura, como ainda purifica realmente, pelo poder que lhe foi transmitido pelo Divino Mestre. E muitas vezes acontece que, mesmo antes de ajoelhar-se aos pés do confessor, já o pecador está realmente perdoado, porque a contrição perfeita unida ao desejo sincero de confessar-se, só por si é bastante para nos alcançar o perdão.
   E aconteceu que, enquanto eles iam, ficaram curados. Mas apenas um deles, por sinal um samaritano, voltou para agradecer a Jesus. Este homem, habitante dos confins da Samaria, tinha-se juntado aos leprosos de Israel, vencendo as repugnâncias de raça e de religião. A desgraça tinha-os unido, tinha derrubado o muro que existia entre eles. Mas, desde que se viram livres daquele açoite, os nove judeus já não viram no samaritano mais que o inimigo de seu povo. Separaram-se dele e seguiram o seu caminho. Ele, entretanto, vinha agradecer ao seu benfeitor. "Como? - exclamou Jesus. "Então não foram dez os curados? Não houve quem voltasse para dar graças a Deus a não ser este estrangeiro?" Esta reflexão respira profunda tristeza, que as palavras "este estrangeiro" ainda mais acentuam. Aquele incidente era como que o resumo de toda a Sua missão. Prodigalizara a mãos cheias os seus benefícios a Israel, e seu povo o escorraçava. Uns dias depois, talvez os mesmos que tinham sido curados figurassem entre a turba frenética que reclamava a sua morte. Consola-O o samaritano, símbolo de todos os filhos da gentilidade, que haveriam de receber com fé e reconhecimento o benefício da redenção. Basta lermos o que o mesmo São Lucas escreve nos Atos dos Apóstolos. 
   Disse Jesus ao samaritano adorador agradecido: "Levanta-te e vai: que a tua fé te salvou". Também os outros nove deveram a sua cura à fé com que obedeceram à determinação do Divino Mestre, ma só este estrangeiro agiu conforme a sua fé e segundo as suas inspirações; só este voltou a dar graças e a proclamar bem alto o nome do seu Salvador. Por isso só foi louvada a fé deste samaritano. Os Santos Padres dão ainda uma outra explicação a estas palavras de Jesus: A tua fé te salvou: A sua fé valeu-lhe, ao mesmo tempo, a cura do corpo e a justificação espiritual. Além disso, esta gratidão mereceu-lhe a graça especial, não só de renunciar ao cisma dos Samaritanos, mas também de abraçar a religião de Nosso Senhor Jesus Cristo e de publicar as maravilhas de misericórdia de que acabava de ser objeto. Entretanto, os outros nove, como comenta São Beda, depois de também, pela sua fé, terem obtido a cura, perderam-se contudo pela sua ingratidão. 
   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, tenhamos fé nas palavras do Divino Mestre: "A quem perdoardes os pecados, serão perdoados... Ide, mostrai-vos ao sacerdote". Façamos com humildade, sinceridade e fé as nossas confissões e saibamos dar ações de graças à Misericórdia infinita de Nosso Divino Salvador. Amém!.
   

SERMÃO: NOSSA SENHORA, CONSOLADORA DOS AFLITOS

Consolatrix aflictorum! Ora pro nobis!
Consoladora dos aflitos! Rogai por nós!

   Consoladora dos aflitos! A quem não arrebata este título que soa tão bem e sempre soará aos ouvidos humanos! Porque na verdade, caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, quem há que não precise de consolação ou que presuma que não há de vir a precisar dela um dia? A aflição, a dor, o sofrimento apresentam-se-nos a todas as horas e debaixo de mil formas e é este o apanágio mais seguro e certo da humanidade. Desde que pelo pecado original se converteu em vale de lágrimas para o homem a terra que devia começar a ser o seu paraíso de flores, os espinhos são a primeira coisa que o infeliz colhe durante sua breve passagem por ela. Calca -os picantes e dolorosos, o potentado como o mendigo, o sábio como o rude, sem que nesse ponto haja condição de pessoas que possam considerar-se privilegiadas.
   Quem não buscar na Religião a sua única consolação e alívio, em vão os procurará noutra parte. Vejamos, então, segundo o ensinamento das Sagradas Escrituras a origem e a razão de ser do sofrimento. Desde o momento em que da fronte do primeiro homem rolou o diadema da justiça original com o primeiro pecado, entrou o sofrimento no mundo. A grande sentença da justiça eterna de Deus retumbou pelos horizontes do Éden: "De ora em diante, disse Deus a Adão, comerás com o suor de teu rosto o pão de cada dia. A dor misturar-se-á com todos os dias da tua existência. Tu és pó, e em pó tu hás de tornar".
   A dor! Eis a estranha palavra que de agora em diante ressoará na vida de todos os homens. Eis a origem universal da dor - o pecado. O homem que recebeu de Deus a liberdade para ser mais feliz merecendo para o céu, abusou desta liberdade e tornou-se infeliz pelo pecado. Mas Deus, como Pai amoroso que se inclina sobre seus filhos para derramar-lhes bálsamo nos corações dilacerados, ofereceu logo remédio para a dor, não eliminando-a da face da terra, mas transformando-a em meio de purificação e consecução da felicidade eterna. Logo depois da culpa de nossos primeiros pais, prometera um Salvador, que veio ao mundo não para eliminar a dor, mas Ele mesmo sofreu e morreu antes de entrar na Glória e assim nos deu a possibilidade, de sofrendo juntamente com Ele, podermos entrar também no céu.
   Caríssimos e amados irmãos, a dor tem, portanto, a sua razão de ser: É meio de purificação, é meio de conversão, é meio de aperfeiçoamento pela semelhança que nos dá com Jesus Cristo, e outrossim, é graça de predileção. Consideremos estes vários pontos.
   Primeiramente, o sofrimento, as doenças, as aflições, podem ser um castigo de pecados pessoais, e um meio de purificação e conversão. Eis um fato evangélico: o paralítico da piscina Probática. Subiu Jesus a Jerusalém. E lá ao lado do Templo havia uma piscina probática, chamada Betsaida, que quer dizer "das ovelhas", porque era aí que se lavavam as ovelhas e demais vítimas destinadas ao sacrifício. Era cercada de cinco pórticos e sob estes pórticos jazia uma grande multidão de enfermos, cegos, coxos e paralíticos que esperavam o movimento das águas, porque um anjo do Senhor descia a esta piscina em certos tempos e a água se agitava. Aquele que nela entrasse primeiro, depois do movimento da água, ficava curado de qualquer enfermidade que padecesse. Ali se achava um homem que estava enfermo havia 38 anos. Jesus vendo-o disse-lhe: "Queres ficar são?" "Senhor, respondeu-Lhe o enfermo, não tenho ninguém que me lance na piscina quando a água se agita, e enquanto eu vou indo, desce outro antes de mim". Disse-lhe Jesus: "Levanta-te, toma o teu leito e anda". E este homem ficou curado no mesmo instante. O paralítico vai depois ao templo dar graças a Deus por ter sido curado e recebido o perdão de seus pecados. Jesus o encontrou lá no templo e disse-lhe: "Eis que estás curado, mas não tornes a pecar, para que te não suceda alguma coisa pior". Estas palavras de Jesus provam que a longa enfermidade daquele homem era um castigo de seus pecados precedentes. Aliás, a Sagrada Escritura no livro do Eclesiástico capítulo XXXVIII, 15 diz:"Aquele que peca na presença de quem o criou,  virá a cair nas mãos do médico".
   Todavia, nem sempre se pode dizer que a doença é um castigo, mas é uma provação, uma ocasião para Deus Nosso Senhor mostrar o seu poder, sua bondade e por conseguinte sua Glória como aconteceu a Jó, Tobias e ao cego de nascimento. Sobre este último, lemos no Evangelho de São João IX, 1 e seguintes: Passando Jesus, viu um homem cego de nascimento. Perguntaram os discípulos: "Mestre quem pecou? Este homem ou os seu pais, para nascer cego?" Uma pergunta meio sem pé e sem cabeça. Mas Jesus bondosamente como sempre, respondeu: "Não nasceu cego porque ele ou seus pais tivessem pecado, mas para que se manifestassem nele as obras de Deus".
   Na verdade, para todos os homens, o sofrimento não deixa de ser uma graça de purificação. Quem pode gabar-se de ser inocente? Todos nós deveríamos dizer com Santo Agostinho: "Aqui, Senhor, na terra, queimai, cortai, mas poupai-me na eternidade".
   Nas provações devemos ver não a mão dos homens que nos afligem mas a mão de Deus que se serve deles para nos afligir. Vede Jó, a perda dos bens, a morte dos filhos, a doença, foram a consequência da malícia do demônio. No entanto, Jó não diz: o demônio me tirou tudo, mas Deus me despojou de tudo. Lemos na Bíblia que um servo do Rei Davi, chamado Semei, atirou-lhe pedras e o insultou. Abissai outro servo de Davi, indignado disse: "Eu irei e matarei este cão morto, qu insulta o meu rei. Davi respondeu: "Deixai-o maldizer conforme a permissão do Senhor, talvez o Senhor olhe para minha aflição e me dê bens pelas maldições que sofri neste dia".
   Deus, caríssimos irmãos, condena a malícia da má obra, mas reverte o efeito desta malícia em benefício de seus escolhidos.
   O sofrimento é também muitas vezes uma graça de conversão. Há realmente muitos que se convertem na doença. Para muitos pecadores, é o último recurso da misericórdia divina para dobrá-los.
   O sofrimento é também uma graça de aperfeiçoamento. "A tribulação, diz São Paulo, produz a paciência, a paciência produz a constância, e a constância produza a  fé e a caridade". (Rom. V, 3).
   Para ser justo e por ser justo Deus manda sofrimento. É o que Deus declara ao santo homem Tobias através do anjo São Rafael: " Porque eras agradável a aceito do Senhor, foi preciso seres provado pela aflição."
   Donde o sofrimento é uma graça de predileção. Que herança Deus preparou neste mundo a seu amantíssimo Filho? A pobreza, a humilhação, a morte mais cruel. Que herança Nosso Senhor deixou aos Apóstolos? "Sereis perseguidos e chorareis. Felizes sereis quando vos perseguirem, vos caluniarem. Alegrai-vos porque será grande a vossa recompensa no céu". Por uma curta e passageira tribulação um peso imenso de glória e felicidade por toda a eternidade.
   Que herança deixa Jesus à Sua Mãe Santíssima? Ele deixou os momentos tristes do Calvário. Reserva para ela esta hora de supremas amarguras. Ah! compreendemos: É porque Ele desejava dar muito maior glória à sua Mãe no seio da eternidade!.
  
   Deus como Pai cheio de misericórdia e bondade que é, mesmo permitindo os sofrimentos para nosso bem, não deixa de nos prodigalizar um consolo para nossas aflições. Como um pai que se sente forçado a castigar o filho para o seu bem, mas depois, sente pena e procura, de alguma maneira, suavizar o castigo, recorrendo ao carinho da mãe, assim, comparando dentro das devidas proporções, Deus age para conosco. E como está tão alto, infinitamente acima de nós, seu coração misericordioso dá-nos a Virgem Mãe, para consolação de nossas almas. E o provamos pelas Sagradas Escrituras e a experiência no-lo confirma.
   Abramos as primeiras páginas da Bíblia: Sobre aquele quadro fatídico e tenebroso em que Deus castigou nossos primeiros pais e amaldiçoou a serpente infernal, causadora do pecado, Deus lançou um raio de luz e de esperança. "Porei inimizades, disse Deus à serpente, entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. E ela te esmagará a cabeça". (Gen. III, 15). E quem poderá ser esta mulher privilegiada, vencedora eterna da serpente e do pecado, senão Aquela que trouxe à terra o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo!
    Consideremos outra passagem da Sagrada Escritura (Is. VII, 1 e seg.): Quando Acaz, rei de Jerusalém, e todo o seu povo ficou com o coração agitado como se agitam as árvores das selvas com o ímpeto do vento por causa da ameaça de  guerra dos reis de Israel aliados com o rei da Síria, Deus, através do profeta Isaías, mandou dizer a Acaz que ele com o seu povo não se afligisse porque os inimigos seriam vencidos. E Deus mandou Acaz pedir um sinal como prova desta vitória e da paz. Algo extraordinário que lhe garantisse a tranquilidade. Por causa de sua incredulidade Acaz não quis pedir. Então, Deus mesmo lhe deu o grande sinal, algo extraordinário: "Eis que uma Virgem conceberá e dará a luz um filho e o seu nome será Emanuel". Quem é esta Virgem que deu a luz ao Príncipe da paz, senão a Sempre Virgem Maria Santíssima como atesta o próprio Evangelista São Mateus, I, 22. É a consoladora dos aflitos.
    Há outra passagem da Sagrada Escritura muito conhecida dos todos os carmelitas: 1 Reis, XVIII, 41 e segs. Houve em Israel uma terrível seca de três anos e meio e a consequente fome. O profeta Elias sobe o monte Carmelo e lobriga ao longe uma nuvenzinha, nuvem esta que vai crescendo e logo se desfaz em copiosa chuva. De quem esta nuvem é figura? Senão de Maria Santíssima, pois que os santos patriarcas da Antiga Lei, na aflição em que viviam entre o paganismo pediam ansiosamente a Deus, que as nuvens chovessem o justo, o Salvador: "Rorate coeli desuper, et nubes pluant justum". ( Isaias, XLV, 8): "Derramai, ó céus, lá dessas alturas o vosso orvalho, e as nuvens façam chover o Justo". Qual é esta benéfica nuvem que nos trouxe o Salvador: Maria Santíssima. Nossa Senhora do Monte Carmelo! Consoladora dos aflitos! Rogai por nós!
   Mas esta mística nuvem se desfez em uma chuva de lágrimas no alto de um outro monte: no Monte Calvário. Foi ali que Maria mereceu em toda plenitude o título de consoladora das nossas dores. Ninguém poderá consolar realmente aos que sofrem se não houver provado o cálice das amarguras humanas. Não houve decepção humana, não houve angústia humana, não houve ingratidão humana, não houve incompreensão humana, não houve sofrimento que a Virgem não provasse desde Belém até o alto do Calvário. As coroas todas que cingiram a sua fronte augusta a colocaram imensamente acima de nós, mas a coroa de espinhos que o Calvário lhe teceu a aproximou imensamente de nós. Fez com que ela fosse nossa Mãe pelo dom do sofrimento. Vendo extinguir-se a Vida que ela gerou sem dor, deu-nos a vida, gerando-nos na dor.
   Ah! caríssimos e amados irmãos, como é real o papel de Nossa Senhora na missão augusta de lenir os sofrimentos e consolar as aflições. Todos nós que sofremos, podemos abrir o coração como um livro de testemunhos e ler o depoimento de nossa alma escrito com a tinta das próprias lágrimas. Ter Nossa   querida Mãezinha do Céu no fundo do coração é rasgar o manto tenebroso do próprio infortúnio para que o seu olhar materno derrame bálsamo nas feridas mais ocultas e pungentes das nossas almas.
   Há quase 63 anos uma senhora   muito devota da Virgem Mãe de Deus teve o seu segundo filhinho quando o primogênito ainda não tinha  completado 11 meses. Sentiu grande aflição em ver a criança tão pequena e fraquinha. E mais aflição ainda ao ver que suas orelhinhas eram sem nenhuma consistência e portanto caídas. Fez de uma meia uma toquinha bem apertada. Mas qual não era sua angústia em ver que, ao tirar a toquinha, as orelhinhas do filho caím novamente. Foi aos médicos. Hoje não teriam dificuldade nenhuma; mas há  60 anos atrás a medicina neste ponto não tinha muito recurso. Disseram, para grande tristeza daquela angustiada mãe, que não havia jeito. Confiando em Nossa Senhora, Consoladora dos aflitos, fez uma novena a Nossa Senhora das Graças. No último dia da novena o menino estava curado, com as orelhinhas normais. Este menino, 26 anos depois, foi ordenado padre. E não teria podido sê-lo se Nossa Senhora não o tivesse curado. Hoje, pela graça de Deus este padre é usuário de dois blogs onde procura fazer o maior bem possível às almas. E este padre, é  o  mesmo que vos escreve. Ó minha Mãe do Céu, puxai minhas orelhas por eu não corresponder devidamente a tantos benefícios, ajudai-me e protegei-me!
   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Navegamos num grande e tenebroso mar, que é o mundo, à procura do novo mundo que é o céu, a pátria do repouso eterno. Mas não esqueçamos nunca que Maria Santíssima é a ponte mística por Deus mesmo estendida entre o paraíso que perdemos e o Paraíso que esperamos. Na verdade a viagem é longa e penosa. Quantas tempestades, quantos naufrágios. Caríssimos fiéis, no meio dos perigos, das angústias, consoante o conselho de São Bernardo, recorramos sempre à Maria.
   Se as tempestades das tentações se levantarem, se os escolhos das tribulações vos ameaçarem, erguei os olhos para a Estrela do Mar.
Digamos, inspirados em S. Bernardo:
   Se as vagas da soberba, da cólera, da inveja vos sacudirem, se os prazeres da carne agitarem o barco de vossa alma, se a enormidade de vossos pecados vos perturbar, pensai em Maria, ou antes, lançai-vos em seus braços. Levados e protegidos por Ela, triunfareis de todos os perigos, vencereis todos os obstáculos, saireis incólumes de todas as tentações, e chegareis seguramente às praias de Eterna Bem-aventurança. Assim seja!