SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 23 de setembro de 2018

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 18º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



S. Mateus IX, 1-8

"Tem confiança, filho, os teus pecados te são perdoados"

 Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

O santo Evangelho oferece-nos ensejo de refletirmos sobre muitos assuntos. Quero falar sobre o poder de perdoar pecados, ou seja, sobre o sacramento da Penitência ou Confissão.

O poder de perdoar pecados é, na verdade, um poder divino, isto é, só Deus pode perdoar pecados. Jesus Cristo perdoava pecados justamente porque Ele era Deus. Mas quem tem o poder, pode delegá-lo a outrem. Foi o que Nosso Senhor Jesus Cristo fez. Assim como deu aos Apóstolos o poder de batizar, celebrar o Santo Sacrifício da Missa, o poder de pregar, deu-lhes também a eles e aos seus sucessores o poder de perdoar pecados. Por isso é que Jesus disse: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (S. João XX, 21-23).

Todos reconhecem que os reis da terra têm o poder de mandar administrar a justiça em seu nome, quer dizer, de confiar a magistrados o direito de absolver e de condenar os culpados. Por que recusar a Deus o mesmo direito? O Rei do Céu terá menos poderes do que suas criaturas? Evidentemente Deus pode confiar a homens o poder de perdoar os pecados em seu nome. Ora, é um artigo de fé que Jesus Cristo comunicou este poder aos padres quando lhes disse: os pecados serão perdoados a quem vós os perdoardes. O Salvador não disse: os pecados serão perdoados a quem anunciardes que lhes são perdoados; não; pois, absolvendo, o padre perdoa verdadeiramente os pecados na qualidade de substituto de Jesus Cristo, em virtude do poder que lhe foi dado por Nosso Senhor, que é o principal ministro do Sacramento.

Caríssimos, é mesmo impossível que haja um outro meio de perdão. Com efeito, se houvesse na religião outro meio além da confissão, para se restabelecer na graça de Deus; se bastasse, por ex., humilhar-se em sua presença, jejuar, orar, dar esmolas, declarar-lhe sua falta no íntimo do coração, que aconteceria? Que ninguém mais se confessava. Pois quem seria bastante simples para ir solicitar, com um tom suplicante, aos pés de um homem, uma graça que poderia facilmente obter sem ele, e contra a sua vontade? Então que seria da confissão estabelecida pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo (Cf. S. João, XX, 21 a 23).  - Cairia em desuso e ficaria sem efeito no mundo. Que seria do magnífico poder que Ele deu aos seus ministros de perdoar ou reter os pecados? Não é evidente que este poder tão admirável e divino tornar-se-ia um poder ridículo e completamente irrisório visto que nunca teriam de exercê-lo? Assim, ou há obrigação para todos os pecadores confessarem seus pecados ao padre, ou então Jesus Cristo zombou de seus ministros dizendo-lhes: os pecados serão perdoados a quem os perdoardes, etcE teria igualmente zombado deles quando lhes disse: dar-vos-ei as chaves do reino dos céus (S. Mateus, XVI, 19). De que lhes serviria ter as chaves do céu se nele se pudesse entrar sem que fosse aberto pelo seu ministério?

Os grandes adversários do Sacramento da Penitência são os protestantes. Estes, seguindo Calvino, e também os ímpios modernos ousam dizer que a confissão era desconhecida nos primeiros séculos do Cristianismo. Sustentam que a confissão data do 4º Concílio de Latrão em 1215, época em que o Papa Inocêncio III tê-la-ia inventado. Caríssimos, isto constitui um grave erro que denota a mais grosseira ignorância, ou, pior ainda,  uma demonstração da mais insolente má fé. Vamos ouvir Santo Afonso: este grande Doutor da Santa Igreja diz que o Papa Inocêncio III, não fez senão determinar o tempo em que a confissão deve ser feita pelos fiéis, isto é, ao menos uma vez por ano, como já haviam prescrevido os papas Inocêncio I (+ 417), Leão I (+ 474), Zeferino (+218). Além disso, sabemos que a Tradição e a História da Igreja se apóiam no Santo Evangelho de S. João XX, 21 a 23, para provar que a confissão foi instituída por Jesus Cristo. Suponhamos os Sacramento da Penitência como a Igreja o administra, realmente estabelecido por Nosso Senhor Jesus Cristo: Eis aqui os fatos que se devem produzir e dos quais a História Eclesiástica dá, sem dúvida, testemunho; os Padres da Igreja falarão da Confissão em seus escritos, e dirão que ela vem de Jesus Cristo; hão de afirmar que é necessária à salvação, que deve ser feita com sinceridade e com contrição; que só os sacerdotes podem absolver, etc. Os Concílios traçarão as regras aos confessores, para remediar os abusos que nascerão em diversas épocas da história. Conservar-se-ão muitos nomes de confessores que prestaram o socorro de seu ministério a personagens históricos. Talvez se encontre nas mais antigas igrejas o lugar dos tribunais da penitência; enfim, as seitas separadas da Igreja de Jesus Cristo, desde os primeiros séculos, terão provavelmente conservado alguns vestígios dessa salutar instituição.

Consultando as antiguidades eclesiásticas obteremos precisamente estes resultados que acabamos de enumerar. Até historiadores protestantes, devendo ser sinceros diante da evidência, declararam que a Confissão entre os Católicos já era exercida nos quatro primeiros séculos. Por exemplo, o historiador protestante Gibbon diz: "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que estabeleceu a Confissão como um dos principais pontos da doutrina católica em todo o período dos quatro primeiros séculos".

Entre outras seitas heréticas encontramos também quem dá testemunho histórico da existência da Confissão já nos primeiros séculos da Igreja Católica. Por exemplo: os eutiquianos, os jacobitas, os armênios, os nestorianos, em um palavra, as Seitas do Oriente, separadas da Igreja Romana desde o 4º e o 5º séculos, praticavam a confissão como necessária. Muitos sábios autores atestam que se vêem nas catacumbas de Roma os confessionários próximos aos altares, cujas pinturas, semelhantes às de Pompéia, remontam aos primeiros séculos do Cristianismo.

Em Teologia usam-se os argumentos tirados das Sagradas Escrituras e depois os argumentos da Tradição. Frequentemente, usam-se também os argumentos da reta razão humana.  Assim, em se tratando da origem divina do Sacramento da Penitência, vamos, com a graça de Deus, apresentar também os argumentos da reta razão, ou também chamados argumentos do bom senso.

Pois bem! O mais simples bom senso nos mostra que a confissão não pode ter senão uma origem divina. Suponhamos que seja uma invenção humana; certamente, uma tal invenção é bastante notável para que se conhecesse o seu autor. Sabe-se o primeiro cultor da ciência: foi Thales. Arquimedes inventou as espelhos-ustórios; Nilton descobriu a lei da gravidade; Gutemberg descobriu a arte de imprimir. Pedro Álvares Cabral descobriu o nosso querido Brasil; Colombo descobriu a América etc. etc., ... quem é, pois,o inventor da confissão? Foi, acaso, um grande santo? Mas  os santos Padres desde os mais próximos dos Apóstolos já supõem a confissão como um fato existente e conhecido. Logo, não foram eles que inventaram a confissão. Se os padres, os bispos e os papas fossem isentos da confissão, aquela afirmação teria alguma aparência de verdade; eles, porém, estão sujeitos a ela como os simples fiéis. Onde, pois, a razão que os induziria a impor-se uma obrigação tão humilhante? Por que força secreta teriam eles podido constranger os reis a irem ajoelhar-se ante um pobre padre para lhe fazer acusação de suas fraquezas, a submeter-se sem réplica às suas decisões, e receber dele, com respeito, uma penitência proporcionada às suas faltas? Se os padres tivessem inventado a confissão, teriam sido levados por um motivo qualquer. Qual seria este motivo? O interesse? Evidentemente que não; pois o confessor não recebe remuneração alguma pela confissão. O prazer? Mas sabeis o que é ser confessor?   - Ser confessor é ser escravo de todos - depender dos outros desde a manhã até à noite  -  a qualquer hora do dia e da noite. O confessor tem que sondar as chagas mais repugnantes, sem tremer, ouvir os crimes por maiores que sejam, sem arrepiar-se.

É sobretudo à cabeceira dos doentes e moribundos que os padres devem estar presentes. O padre deve administrar os sacramentos aos pestíferos com risco de contaminar-se do mal. Sua vida é uma vida de sacrifícios, de prisão e de fadiga, sobretudo no confessionário e junto aos leitos dos doentes.Quem teria inventado a confissão? Talvez os fiéis? Mas esta segunda suposição é tão absurda como a primeira. A confissão é um constrangimento, um ato de humildade. Ora, o homem, em lugar de submeter-se de boa vontade a uma coisa que o constrange e humilha, é ao contrário levado a repelir tudo que o contraria. Quando alguns do Anglicanismo quiseram introduzir a confissão na Inglaterra; que resultou? As revoltas populares, os gritos sediciosos levantaram-se ao mesmo tempo em todos os pontos do país. Uma tal imposição por parte de fiéis só merece a irrisão pública. Só Deus tem autoridade para impor este ato de humilhação como condição para se receber o perdão dos pecados. Portanto, o homem não podia inventar a confissão; ela é obra de Deus. Só Ele, o soberano Mestre, a poderia impor ao homem; e o homem, qualquer que seja, rei ou súdito, rico ou pobre, é obrigado a submeter-se a essa lei divina, sob a terrível pena de condenação eterna para os que, depois do Batismo, tenham cometido pecado mortal. 

 Quero terminar com a advertência de S. Pio V: "Sejam os confessores como eles devem ser [pai, médico, juiz, mediador, diretor das almas], ver-se-á para logo inteira reforma de todos os cristãos". Amém!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

A PALAVRA DE DEUS

A PALAVRA DE DEUS 
                                                                                                                                        Dom Fernando Arêas Rifan*

        Setembro é o mês da Bíblia e, no próximo domingo, dia 23, celebraremos o dia nacional da Bíblia, dedicado a despertar e promover entre os fiéis o conhecimento e o amor dos Livros Sagrados, a Palavra de Deus escrita, redigida sob a moção do Divino Espírito Santo, motivando-os para sua leitura cotidiana, atenta e piedosa e, ao mesmo tempo, premunindo-os contra os erros correntes com relação à Bíblia mal interpretada.
       “Na Igreja, veneramos extremamente as Sagradas Escrituras, apesar da fé cristã não ser uma ‘religião do Livro’: o cristianismo é a ‘religião da Palavra de Deus’, não de ‘uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo’” (Bento XVI - Verbum Domini, 7)
       É de São Jerônimo, o grande tradutor dos Livros Santos, a célebre frase: “Ignorar a Sagrada Escritura é ignorar o próprio Cristo”. Portanto, o conhecimento e o amor às Escrituras decorrem do conhecimento e do amor que todos devemos a Nosso Senhor.
       O ponto central da Bíblia, convergência de todas as profecias, é Jesus Cristo. O Antigo Testamento é preparação para a sua vinda e o Novo, a realização do seu Reino. “O Novo estava latente no Antigo e o Antigo se esclarece no Novo” (Santo Agostinho).
       Dizemos que a Bíblia é um livro divino e humano: inspirada por Deus, mas escrita por homens, por Deus movidos e assistidos enquanto escreviam.  
       A Bíblia não é um livro só, mas um conjunto de 73 livros, redigidos por autores diferentes, em épocas, línguas, estilos e locais diversos, num espaço de tempo de cerca de mil e quinhentos anos. Sua unidade se deve ao fato de terem sido todos eles inspirados por Deus, seu autor principal e garantia da sua inerrância.
      Mas a Bíblia não é um livro de ciências humanas. Por isso a Igreja Católica reprova a leitura fundamentalista da Bíblia, que teve sua origem na época da Reforma Protestante e que pretende dar a ela uma interpretação literal em todos os seus detalhes, o que não é correto.

      Além disso, a Bíblia não é um livro fácil de ser lido e interpretado. São Pedro, falando das Epístolas de São Paulo, nos diz que “nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras” (II Pd 3, 16).
        Por isso, o mesmo São Pedro nos adverte: “Sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal.Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2Pd 1, 20-21).  Assim, o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita (a Bíblia Sagrada) ou transmitida oralmente (a Sagrada Tradição) foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo, que disse aos Apóstolos e seus sucessores “até a consumação dos séculos”: “Ide e ensinai a todos os povos tudo o que vos ensinei... quem vos ouve a mim ouve”.

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/
 

domingo, 16 de setembro de 2018

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 17º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



S. Mateus XXII, 34-46

"Amar o próximo como a nós mesmos"

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!


Sabemos que os mandamentos de Deus são dez. E todos os problemas das sociedades estariam resolvidos se as leis de Deus fossem cumpridas. Os três primeiros, que se referem a Deus, encerram-se nesta fórmula: Amar a Deus sobre todas as coisas. Isto significa a vontade de amar a Deus, não em grau infinito, mas sobre todas as coisas, de preferência a tudo o que Lhe seja contrário. Os outros sete mandamentos se reduzem ao amor do próximo, mas a um amor sincero e eficaz. Nosso Senhor Jesus Cristo diz que o amor do próximo é semelhante ao amor de Deus, no sentido que a caridade é uma virtude única que tem dois aspectos: Deus e o próximo por amor de Deus. Devemos notar que a Lei  manda amar o próximo por amor de Deus.  

Na explicação do evangelho do 12º domingo depois de Pentecostes já tivemos ensejo de fazer algumas reflexões sobre o amor de Deus e do próximo (S. Luc. X, 23-34). Vamos nos deter mais um pouco sobre o amor do próximo considerando este detalhe: COMO A NÓS MESMOS.

Nosso amor tem três objetos: Deus, o próximo e nós mesmos. Jesus Cristo manda-nos amar a Deus e ao próximo. É óbvio que Jesus supõe que naturalmente e sem sermos para isto compelidos, nos portemos de tal modo que cumpramos este dever para conosco. Com efeito, o amor de si é essencial ao homem; ele faz parte de sua natureza e é inseparável de seu ser. A Providência divina colocou em nós este sentimento precioso para nos fazer tender à felicidade a que Deus nos destinou. Não podemos nem deturpar nem destruir este sentimento.

Santo Agostinho observa que, embora Jesus não fale da obrigação do amor a nós mesmos, Ele, no entanto, não o omite; supõe-no, porque ordena que amemos o próximo como a nós mesmos. Mas este sentimento do amor a nós mesmos tem necessidade de ser dirigido, e, às vezes, até reprimido, raramente tem necessidade de ser estimulado. Temos a tendência de nos amarmos além dos limites em detrimento do amor que devemos aos outros. É justamente este amor fora dos limites que S. Paulo condena: "A caridade não busca [somente] os seus próprios interesses" (1 Cor. XIII, 5). É este amor excessivo de si que a impossível, e por conseguinte não nos é mandado que sintamos pela totalidade de nossos irmãos, o que nós sentimos por nos mesmos. Amar o próximo como a nós mesmos, é tratá-lo como nós desejamos que os outros nos tratem; fazer ao próximo o que desejamos que nos façam, e não fazer o que não desejamos que nos façam. Por exemplo: desejamos ser felizes, e assim linguagem humana estigmatiza com o nome de EGOÍSMO.  É evidente, porém, que Jesus prescreve uma igualdade não de sentimentos, mas de deveres. Pois, é-nos devemos desejar a felicidade dos outros. É este o conselho que o velho Tobias deu ao seu filho Tobias: "Acautela-te, não faças nunca a outro o que não quererias que outro te fizesse". O mesmo ensinou o Divino Mestre: "Assim, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a lei e os profetas" (S. Mateus VII, 12).

Devemos observar, outrossim, que esta igualdade de dever não é de tal modo absoluta que não sofra modificação. Não há circunstâncias em que o amor a nós mesmos deva ser exclusivo; mas pode haver casos em que ele seja preponderante. Na impossibilidade de procurar o bem próprio e o do próximo, deve o amor de si prevalecer. Em se tratando de bens temporais, podemos dar a nós mesmos a preferência; e, em se tratando de bens espirituais, temos o dever. Por mais sagrado que seja o dever de fazer bem a nossos irmãos, o de nossa salvação eterna é-lhe superior, porque é para nos salvar que devemos fazer bem ao próximo. A mesma lei que nos ordena trabalhar em sua salvação, nos proíbe  trabalhar em prejuízo da nossa.

Quando se trata de bens temporais, em caso de conflito dos nossos  interesses com os de outrem, se, de ordinário, podemos preferir os nossos, há, no entanto, casos em que por dever de estado e em virtude dum contrato tácito ou formal entre nós e a sociedade, nós somos obrigados a nos sacrificarmos em prol dos nossos irmãos e a procurarmos seu bem temporal às expensas do nosso. Estes casos não são raros, por exemplo, na vida do militar, do médico, do magistrado e do padre. E esta obrigação é bem mais grave ainda quando se trata de lhes procurar a salvação eterna, como é o caso do padre. Quantas vezes, nós padres nos expomos a contrair uma doença contagiosa na administração dos últimos sacramentos?!

É mister também no exercício da caridade fraterna distinguir duas espécies de deveres, uns interiores, outros exteriores. Podem haver motivos legítimos que dispensem destes últimos, mas jamais haverá razão que impeça de cumprir os primeiros. Exemplifiquemos: você é pobre e, por conseguinte, não podes dar esmola. Você está enfermo, por isso mesmo estás dispensado de prestar serviços mais pesados. Mas os deveres interiores são sempre praticáveis. Se alguém não pode fazer bem a seus irmãos, pode e deve ao menos desejar-lhes o bem. Se alguém não pode prestar ajuda material aos seus irmãos, pode, ao menos, ajudá-los com suas orações.

Amar o próximo efetivamente e em verdade e não só de boca, mas na medida de nossas possibilidades e enquanto o permitem nossos recursos. "Meus filhinhos não amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade"  (1 João III, 18). Aqui está o lado positivo da máxima do Divino Mestre: "Assim, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles". Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, visitar e consolar os doentes e aflitos, dar vestes boas aos maltrapilhos, cobertas aos que estão passando frio etc.

Vejamos agora o lado negativo: "Não fazer a outrem o que não gostaríamos que os outros nos fizessem". Daí, ficam aqui proibidas todas as maldades: a inveja, a ira, a discórdia, a dissensão,  as querelas, as inimizades etc. São enfim as obras da carne enumeradas por S. Paulo  na sua Epístola aos Gálatas V, 19-21. E o Apóstolo após a enumeração destas obras que vêm da carne, termina com esta terrível advertência: "Os que as praticam, não possuirão o reino de Deus".

Meditemos, outrossim, nestas outras palavras do Apóstolo dos gentios: "Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros por caridade, solícitos em conservar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocação. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e atua por todas as coisas e reside em todos nós" (Efésios IV, 1-6). Somo todos irmãos, por natureza, de Adão e por adoção, de Deus. Assim, como os primeiros cristãos, todos deveriam viver realmente como irmãos, como se em todos batesse um só coração e os animasse uma só alma. Nosso divino Salvador deseja que todos nós cumpramos o seu mandamento novo: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei". Amém!

domingo, 9 de setembro de 2018

EXPLICAÇÃO DO 16º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



S. Lucas, XIV, 1-11

"Quem se humilha será exaltado".

 Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!


O Santo Evangelho de hoje oferece-nos dois pontos de meditação: a cura do homem hidrópico em dia de sábado; e a parábola para ensinar a humildade. Consideremos este último.

Para estarmos enraizados na caridade, é indispensável que o estejamos igualmente na humildade, pois só quem é humilde é capaz de amar verdadeiramente a Deus e ao próximo. Nosso Senhor Jesus Cristo dá-nos uma lição prática de humildade, condenando a caça aos primeiros lugares.

 Não se sabia então o que era a humildade. Jesus mostra aos fariseus as humilhações do orgulho e as vantagens da humildade. No céu, como na terra, os humildes terão sempre o primeiro lugar. Os verdadeiros humildes não se enganam sobre o sentido desta parábola. Chamados ao primeiro lugar no banquete que Deus dá aos seus futuros eleitos, no grande vestíbulo da Igreja, eles vão, de si mesmos, colocar-se no último, onde se acham mais a vontade para cuidar da sua salvação eterna. À hora da morte, virá então dizer-lhe o Pai de família - "Amigo, assenta-te mais para cima".

   Ouçamos o comentário de São Bernardo: "Coloquemo-nos no último lugar, pois nenhum prejuízo nos pode vir pelo fato de nos humilharmos e nos julgarmos inferiores ao que na realidade somos. Todavia é um dano terrível e um mal enorme querermos nos elevar nem que seja uma só polegada acima do que somos, e preferir-nos a uma só pessoa. Assim como para passar por uma porta muito baixa não nos prejudica inclinarmo-nos demasiadamente, mas prejudica-nos muitíssimo levantarmo-nos um só dedo acima da trave; de igual modo não há motivo para temermos humilhar-nos demasiado, mas devemos temer e aborrecer o mais pequeno movimento de presunção". 
   
A humildade reside propriamente no coração, isto é, na vontade. Jesus exorta-nos a aprender d'Ele que é humilde de coração. Santa Teresa d'Ávila diz  que a humildade é a verdade. Sem dúvida, porque ela nos faz ver o nosso nada e a nossa profunda abjeção, ou seja, o que realmente corresponde à realidade. O conhecimento próprio é, na verdade, uma preparação para a humildade propriamente dita. Para haver a VIRTUDE DA HUMILDADE, é necessário, além da verdade (adequação de uma coisa com a razão) que haja justiça comutativa, que manda dar, ou atribuir  a cada um o que realmente lhe é devido. Portanto, além da razão humana é mister entrar a fé. Para que alguém seja humilde de coração é preciso que aceite como devidas a si, que é um nada pecador, as humilhações. Assim desprezamos a nós mesmos com toda sinceridade de nosso coração. Somos dignos de desprezo e devemos amar a nossa abjeção para que sobressaia mais a grandeza de Deus. Ademais, devemos desejar que todo mundo entre nos mesmos sentimentos a nosso respeito, e nos julgue como nos julgamos a nós mesmos. E a humildade em sumo grau só existe quando nos alegramos de que todos os homens se comportam para conosco, segundo o desprezo que lhes inspiramos. Quem chega a este grau de humildade, não se contenta de sofrer com paciência os opróbrios, mas recebe-os com alegria, e até os busca com o ardor que os mundanos empregam em buscar as honras e o renome. Os santos (porque os que possuem este grau de humildade são santos) amam as humilhações evidentemente não porque são em si amáveis, mas porque os tornam semelhantes ao Filho de Deus aniquilado por amor de nós. O outro motivo: é porque as humilhações nos dão o meio de testemunharmos a Jesus o nosso amor e de merecer o seu amor.

Deus antes da Encarnação não podia se humilhar: porque a verdade é que Ele é o Sumo Bem, é a própria Perfeição, é a própria Santidade. Daí, Lhe é devida toda honra e glória. Mas, fazendo-se homem como que se aniquilou, e além disso tomou a forma de servo, e fez-se obediente até à morte e morte de cruz. E cada um dos mistérios da vida de Jesus é uma prova de seu amor à abjeção: nascimento, circuncisão, fuga para o Egito, trinta anos passados na obscuridade. E na sua Paixão mostrou que o Seu desejo de humilhações não tinha limites.

Caríssimos, vejamos a excelência da humildade: considerada em si mesma e considerada em seus frutos.

EM SI MESMA A HUMILDADE É EXCELENTE: Basta explicarmos um pouco mais as noções sobre a humildade que acima demos. A humildade é a verdade, mas não já a verdade puramente especulativa, mas a que passa da inteligência para o coração. A inteligência mostra o que realmente somos e o coração dirige e santifica os afetos do coração. E assim, se reinar em mim a verdade, nunca entrará em mim a vaidade. Depois, a humildade é a justiça, pela qual se deve dar a cada um o que lhe pertence, "cuique suum". A pessoa humilde compreende este oráculo do Senhor: "Isto diz o Senhor: Não se glorie o sábio no seu saber, nem se glorie o forte na sua força, nem se glorie o rico nas suas riquezas; porém, aquele se gloria glorie-se em me conhecer e em saber que eu sou o Senhor" (Jeremias. IX, 23 e 24). Se a pessoa humilde obteve algum sucesso, e praticou algum bem, atribui-o Àquele que dá a vontade e o poder. Quanto a ela, só fez o que devia fazer, e ainda se examina se o fez bem. Sabe, também, o que lhe é devido por tantas faltas que cometeu, e que comete ainda todos os dias; sabe de quantos crimes seria capaz, se a mão do Senhor a não amparasse.
A humildade é, outrossim, toda a religião. Pois é por ela que a pessoa humilde adora e ora, esperando tudo só de Deus. É a humildade que obedece, sujeitando a vontade. A castidade é a humildade da carne que ela sujeita ao espírito; a mortificação exterior é a humildade dos sentidos; a penitência é a humildade de todas as paixões, que ela sacrifica. A fé é a humildade da razão, que renuncia aos seus próprios pensamentos e se inclina ante os pensamentos de Deus.

A EXCELÊNCIA DA HUMILDADE CONSIDERADA EM SEUS FRUTOS: a graça, a paz, a glória presente e a eterna.

 A GRAÇA: Deus dá a sua graça aos humildes. A oração do humilde penetra as nuvens e chega até o trono do Altíssimo. Assim como o ímã atrai o ferro, assim a humildade atrai a graça.
 A PAZ: Primeiramente, a paz com Deus. Se o humilde pecou, consegue logo o perdão e torna Deus propício a ele, já que a humildade tem este privilégio de tudo reparar. Diz Davi no Salmo L, 19: "Deus nunca despreza um coração contrito e humilhado". Temos um exemplo muito claro disto no Livro  I Reis XXI, 29: "O Senhor dirigiu sua palavra a Elias tesbita, dizendo: Não viste Acab humilhado diante de mim? Porque ele, pois, se humilhou, em atenção a mim, não farei vir aquele mal enquanto ele viver". A paz com o próximo: Pois o humilde procura sempre o último lugar, esquece-se de si para só pensar nos outros. Sendo filha da caridade, a humildade suaviza e une os corações. A paz consigo mesmo: É o que Jesus disse: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas". Segundo Santo Agostinho, a paz é a tranquilidade da ordem; ora, nada há mais em ordem do que uma alma humilde. Há, pois, ordem quando cada coisa está em seu devido lugar. Donde, o humilde não conhece as perturbações provocadas pela soberba.

A GLÓRIA PRESENTE E A ETERNA: "Quem se humilha será exaltado", garantiu o Divino Mestre. Sim, o homem mais verdadeiramente grande é aquele que cumpre melhor o seu fim, que é glorificar a Deus. Poderá haver maior glória do que ser semelhante a Nosso Senhor Jesus Cristo?! E não há melhor meio de ser semelhante a Ele, do que sendo humilde, e como Jesus, amar as humilhações. Temos tanta inclinação para a grandeza, e aqui está, caríssimos, a nossa verdadeira grandeza: imitarmos a Jesus. JESUS, MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO". Amém!

HOMILIA DOMINICAL - 16º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Efésios 3, 13-21.
                 
                Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 14, 1-11


  Naquele tempo, quando Jesus, num sábado, entrou em casa de um dos principais fariseus, para aí tomar a refeição, estes O observavam. Apresentou-se-lhe, então, um homem que era hidrópico. E Jesus tomou a palavra, e perguntou aos doutores da lei e aos fariseus: É permitido curar em dia de sábado? Eles, porém, ficaram calados. Então, Jesus tocou no homem, curou-o e mandou-o embora. Depois, dirigiu-se aos outros e disse: Quem de vós, se lhe cair um jumento ou um boi num poço, não o retira logo, ainda que em dia de sábado? A isto eles nada podiam replicar. Notando como os convidados escolhiam os primeiros lugares à mesa, disse-lhes ainda esta parábola: Quando fores convidado a núpcias, não te assentes no primeiro lugar, porque pode ser que um outro, de mais consideração do que tu, tenha sido convidado pelo dono da casa, e que tu, vindo este que convidou a ti e a ele, te diga: Cede o lugar a este, e tu, envergonhado, vás ficar no último lugar. Antes, quando fores convidado, vai ocupar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, vem mais par cima. Então, terás glória perante os convivas. Porque, todo o que se eleva, será humilhado; e o que se humilha será exaltado. 

  Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

  O Santo Evangelho de hoje oferece-nos dois pontos de meditação: a cura do homem hidrópico em dia de sábado; e a parábola para ensinar a humildade. 
  Vemos, em primeiro lugar, a bondade de Jesus em aceitar o convite, ainda que conhecesse as intenções malévolas dos fariseus a seu respeito. Jesus, com suas palavras e milagres, queria ser útil aos presentes. Os fariseus observam a Jesus tendo no coração intenções malévolas. Nós devemos observá-Lo também, mas para admirar as suas instruções divinas, e procurar imitar as suas virtudes. 
  São Paulo na Epístola de hoje diz que devemos estar arraigados na caridade, e devemos conhecer o amor de Cristo. 
  Apesar da tácita desaprovação dos fariseus, Jesus cura o pobre hidrópico em dia de sábado, ensinando-nos assim a grande importância do amor do próximo. Em vão julgaremos estar enraizados no amor de Deus se o não estivermos também no amor do próximo.
Rio Jordão. De um lado: Judeia, Samaria, Galileia;
do outro lado: Transjordânia ou Peréia, e quase
toda a Decápole. Havia duas aldeias chamadas
BETÂNEA: do lado da Judeia é a Betânea onde
morava Lázaro, perto de Jerusalém.
Do lado da Peréia é a Betânea às margens do
 Jordão onde João batizava. Fugindo da
 perseguição dos judeus que queriam prender
Jesus, este se retirou para esta região da Peréia
e foi aí que Jesus morou por algum tempo, e aí  se
deram os incidentes de que fala o Evangelho
deste 16º Domingo depois de Pentecostes.
  Mas, depois de curar o homem hidrópico, dirigindo-se aos doutores da Lei e aos fariseus, Jesus disse: "Quem de vós, se o seu jumento ou o seu boi cair num poço, não há de logo tirá-lo, mesmo num dia de sábado?" E eles nada puderam responder a isto.
  Para estarmos, porém, enraizados na caridade, é indispensável que o estejamos igualmente na humildade, pois só quem é humilde é capaz de amar verdadeiramente a Deus e ao próximo. Nosso Senhor Jesus Cristo dá-nos uma lição prática de humildade, condenando a caça aos primeiros lugares. E observemos, caríssimos, que, enquanto os fariseus observam a Jesus com intenções malévolas, Nosso Senhor os observa para corrigi-los e o faz com toda bondade. Jesus se dirige aos presentes, na intenção de lhes dar uma instrução de humildade e de procedimento cristão. Todavia sempre manso, delicado e prudente, não diz - quando fores convidados a uma refeição - porque a alusão seria por demais transparente, e iria direta ao dono da casa. Dizendo, porém,  - a umas núpcias - parece não dirigir-se aos presentes, e assim lhes fala com mais segurança e liberdade. 
  Não se sabia então o que era a humildade. Jesus mostra aos fariseus as humilhações do orgulho e as vantagens da humildade. No céu, como na terra, os humildes terão sempre o primeiro lugar. Os verdadeiros humildes não se enganam sobre o sentido desta parábola. Chamados ao primeiro lugar no banquete que Deus dá aos seus futuros eleitos, no grande vestíbulo da Igreja, eles vão, de si mesmos, colocar-se no último, onde se acham mais a vontade para cuidar da sua salvação eterna. À hora da morte, virá então dizer-lhe o Pai de família - "Amigo, assenta-te mais para cima".
   Ouçamos o comentário de São Bernardo: "Coloquemo-nos no último lugar, pois nenhum prejuízo nos pode vir pelo fato de nos humilharmos e nos julgarmos inferiores ao que na realidade somos. Todavia é um dano terrível e um mal enorme querermos nos elevar nem que seja uma só polegada acima do que somos, e preferir-nos a uma só pessoa. Assim como para passar por uma porta muito baixa não nos prejudica inclinarmo-nos demasiadamente, mas prejudica-nos muitíssimo levantarmo-nos um só dedo acima da trave porque podemos bater e ferir a cabeça; de igual modo não há motivo para temermos humilhar-nos demasiado, mas devemos temer e aborrecer o mais pequeno movimento de presunção". 
   Fundados na humildade, também o estaremos na caridade e possuiremos assim as duas características fundamentais da alma cristã. É a humildade, diz São João Crisóstomo, que abre as portas do céu. Se lá quisermos ser exaltados, saibamos fazer-nos pequenos aqui: os mais desprezados da terra serão os mais honrados no Céu.
  Portanto, retenhamos bem e meditemos muitas vezes a grande lição de humildade, que aqui nos dá Nosso Senhor: "O que se eleva, será humilhado; e o que se humilha será exaltado." Amém!

domingo, 15 de julho de 2018

EVANGELHO DO 8º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



S. Lucas XVI, 1-9

PREPARAÇÃO PARA DAR CONTAS A DEUS

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

A Santa Igreja neste domingo coloca para nossa meditação a parábola do "Mau Administrador". O HOMEM RICO é figura de Deus, senhor de todas as riquezas que possuem os anjos no céu, e os homens na terra. O ADMINISTRADOR é todo homem que está neste mundo. Se aqui na terra o homem é considerado proprietário diante dos outros homens (por isso Deus proíbe o roubo), não o é diante de Deus, mas apenas um administrador, um simples ecônomo. Tudo o que possuímos, na ordem da natureza e da graça, de fato, não nos pertence, pois tudo nos foi confiado por Deus, a quem um dia havemos de prestar contas. À hora da nossa morte, encontraremos um livro onde se acha notado, com rigorosa precisão, todos os nossos créditos e todos os nossos débitos. Como o ecônomo infiel, seremos também acusados, diante de Deus, pelo demônio e por nossos próprios pecados. Nosso saldo será positivo ou negativo?!

Caríssimos, a vida inteira nos é concedida para regular as nossas contas, e podemos fazê-lo pelo exame de consciência e pela confissão sacramental. A cada instante posso ser chamado à presença de meu Juiz; acho-me em estado de responder às acusações que poderá fazer-me? "PRESTA CONTA DE TUA ADMINISTRAÇÃO". Esta intimação será feita, um dia, a cada um de nós, à hora da morte. Então todas as fontes da salvação estarão esgotadas para mim, porque me será tirado o tempo. Esta intimação logo após a morte, para uns será terrível, como o prelúdio do castigo; para outros será cheia de consolação, como o anúncio da recompensa. Depois da morte já não podemos exercer a nossa administração, é já passado o tempo de expiar os nossos pecados. É agora, enquanto temos vida, tempo e saúde, que devemos refletir: QUE HEI DE FAZER? Agora não nos faltam os meios, e se refletirmos seriamente, logo encontraremos a resposta: "JÁ SEI O QUE DEVO FAZER". No dia do Juízo o pecador dirá também, "que hei de fazer?" mas será um grito de desespero, a sua perda é irremediável.

TRABALHAR CAVANDO A TERRA, exposto ao sol e à chuva, é o penoso trabalho da penitência e da mortificação. MENDIGAR é orar, é suplicar o necessário para alimento da nossa alma. Se, porém não temos força ou coragem para as duras penitências da vida cristã, se não temos tempo e vagar para longas orações, podemos sempre praticar outras boas obras, fazer esmolas ainda mesmo do pouco que possuímos. Qual o pobre que não pode dar a outro pobre o óbolo da viúva ou ainda um copo d'água? A ESMOLA é, pois, um grande meio de salvação, sem excluir, todavia, a penitência e a oração que, segundo as circunstâncias, nos for permitido fazer.

Caríssimos, lendo com atenção esta parábola do divino Mestre, vemos bem a astúcia daquele mau ecônomo. Perdoando a uns mais do que a outros, toma precauções para que não seja descoberta a sua fraude. Além disso, ele conhecia talvez as disposições de cada um, e procede com toda a prudência. O Senhor louvou não a injustiça do seu mordomo, mas a sua prudência, habilidade e espírito de previdência. Enquanto o ecônomo não tinha o direito de dispor dos bens de seu amo, nós, caríssimos, recebemos de Deus, não somente uma permissão, mas ainda uma ordem formal de distribuir com largueza e liberalidade, os bens corporais e espirituais que ele nos confiou. Quis o Divino Mestre  fazer-nos compreender, diz Santo Agostinho, que se aquele mau servo é elogiado por saber acautelar os seus interesses, com mais razão seremos nós agradáveis a Deus se, conformando-nos com a lei divina, praticarmos as obras de misericórdia.

Em uma instrução, na qual se tratava também de nos preparar para sermos julgados, o Salvador exigira duas coisas para esta preparação: paixões mortificadas e obras santas: "Estejam cingidos os vossos rins, e acesas as vossas lâmpadas" (S. Lucas XII, 35). A fuga do mal e a prática do bem. Aqui Jesus só fala da esmola, considerando-a tão capaz de comover o Coração de Deus, que nos obterá todas as disposições necessárias para nos reconciliar com Ele, e nos restituir os nossos direitos à celeste herança. Com efeito, na Sagrada Escritura tudo é prometido à esmola. Ela livra-nos de todo o pecado e da morte, e não deixará cair a alma na trevas eternas: "A esmola livra de todo pecado e da morte e não deixará cair a alma nas trevas" (Tobias IV, 11). "A água apaga o fogo ardente, e a esmola resiste aos pecados". A esmola alcança-nos os dois maiores bens que pode desejar um homem prudente: a misericórdia neste mundo, e uma vida de felicidades no outro: "A esmola livra da morte, é a que apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna" (Tobias XII, 9). Quanto aos pecados veniais, apaga-os diretamente; quanto aos mortais, faz o pecador encontrar misericórdia enquanto Deus concede ao que a pratica, ou a graça do arrependimento (perfeito ou imperfeito) e a recepção da absolvição sacramental; ou, na hora da morte, o arrependimento perfeito com o desejo da confissão, ou a graça do arrependimento  imperfeito com a recepção da absolvição e, em alguns casos, "per accidens" também pelo sacramento da Extrema Unção.

"A esmola, diz Santo Agostinho, é a consolação da nossa fé, o amparo da nossa esperança, o remédio contra o pecado; ganha-nos a afeição do nosso Juiz, torna-nos credores de Deus. Oh! poder da esmola! Aqueles a quem tivermos socorrido, introduzir-nos-ão nos tabernáculos eternos: 'Quando chegar a vossa hora, eles vos recebam nos tabernáculos eternos'". Caríssimos, que suave luz difunde na nossa alma esta consoladora palavra! Agora sei o que hei de fazer, para encontrar o meu Juiz propício, quando comparecer no Seu tribunal: granjearei perante a Nosso Senhor Jesus Cristo intercessores e amigos, que falarão em meu favor. Cobrirei a multidão dos meus pecados, multiplicando as minhas obras de misericórdia, dando esmolas; se tiver muito, dando muito; se tiver pouco, dando pouco.

O ensinamento moral da parábola se resume nestas palavras: "OS FILHOS DO SÉCULO (os mundanos) SÃO MAIS PRUDENTES EM SEUS NEGÓCIOS DO QUE OS FILHOS DA LUZ" (o homem esclarecido pelas luzes da fé). Enquanto aqueles trabalham e se esforçam, e suam, e não medem dificuldades para satisfazer as suas paixões, estes adormecem imprudentemente sem nada fazer para Deus e para o céu.

Uma outra consideração sobe à nossa mente: Como chegou este homem a tornar-se um ladrão? Foi aos poucos, lentamente e de degrau em degrau. Por isso, Nosso Senhor, depois de nos ter recomendado a prudência, recomenda também a fidelidade nas pequeninas coisas. A delicadeza de consciência é a honra do cristão, que não quer ser justo somente diante dos homens, mas ainda diante de Deus, que é a Justiça por essência.

Por que Jesus fala de "RIQUEZAS INJUSTAS?" Porque enganadoras, mentirosas e também porque ou são, às vezes mal adquiridas, ou porque  mal empregadas, e, neste sentido, são a fonte de muitas injustiças. Em si mesma, a fortuna é um dom de Deus, é uma graça que convém aproveitar para a nossa salvação, proporcionado-nos a amizade dos pobres, conquistando-nos o coração de Jesus que neles se encarna e representa. Se um homem administrar mal as riquezas deste mundo, nega-lhe Deus os bens da graça; se não respeitar os bens alheios, que pertencem a Deus, perderá também o que lhe pertence, as graças a que tinha direito pelo sacramento do Batismo.

Ó misericordioso Jesus, dai-nos um coração sempre mais sensível às diversas necessidades do próximo. Descobri-nos todo o mistério do necessitado e do pobre, na ordem espiritual e temporal, para que no dia terrível do juízo sejais para nós o onipotente libertador: "Bem-aventurado o que cuida do necessitado e do pobre; o Senhor o livrará no dia mau" (Salmo 40, 2). Amém!

domingo, 8 de julho de 2018

HOMILIA DOMINICAL - 7º Domingo depois de Pentecostes

Extraído do   Livro "INTIMIDADE DIVINA" do P. Gabriel de S.ta M.  Madalena,O. C. D.

   No Evangelho de hoje, Jesus chama a nossa atenção para os "falsos profetas" que se apresentam "vestidos de ovelhas e por dentro são lobos rapaces". Muitos apresentam-se como mestres de moral ou mestres espirituais, porém são mestres falsos porque as suas obras não correspondem às suas palavras; aliás, é fácil falar bem, mas não é fácil viver bem. Às vezes as doutrinas propostas são falsas em si mesmas, embora à primeira vista o não pareçam, visto que se revestem de certos aspectos de verdade; é falsa a doutrina que, em nome de um princípio evangélico, ofende um outro, por exemplo, que em nome da compaixão para com uma pessoa lesa o bem comum, que em nome da caridade ofende a justiça ou esquece a obediência aos legítimos superiores. É falsa a doutrina que é causa do relaxamento, que perturba a paz e a união, que, sob pretexto de um bem melhor, separa os súditos dos superiores, que não se subordina à voz da autoridade. Jesus quer-nos "simples como pombas", alheios à crítica e ao juízo severo do próximo, mas quer-nos também "prudentes como as serpentes" (Mt. 10, 16), a fim de nos não deixarmos enganar pelas falsas aparências do bem que escondem perigosas insídias.
   Porém, ser mestre não é para todos, nem a todos se exige; mas a todos - sábios e ignorantes, mestres e discípulos - pede o Senhor a prática concreta da vida cristã. De que nos serviria possuir uma doutrina profunda e elevada, se depois não vivêssemos segundo essa doutrina? Portanto, em vez de querermos ser mestres dos outros, procuremos sê-lo de nós mesmos, empenhando-nos em viver integralmente as lições do Evangelho, imitando Jesus que primeiro "começou a fazer e depois a ensinar" (At.1, 1). O fruto genuíno que há-de comprovar a bondade da nossa doutrina e da nossa vida é sempre o que Jesus nos indicou: o cumprimento da Sua vontade. Cumprimento que significa adesão plena às leis divinas e eclesiásticas, obediência leal aos legítimos superiores, fidelidade aos deveres de estado, e tudo isto em todas as circunstâncias, mesmo quando exige de nós a renúncia à nossa maneira de ver e à nossa vontade.
   "Ó meu Deus, a Vossa suprema e eterna vontade não quer senão a nossa santificação, por isso a alma que deseja santificar-se despoja-se da sua vontade e reveste-se da Vossa. Ó dulcíssimo Amor, parece-me ser este o verdadeiro sinal dos que estão enxertados em Vós: que sigam a Vossa vontade à Vossa maneira e não à sua, que sejam revestidos da Vossa vontade" (cfr. Santa Catarina de Sena).