SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

quarta-feira, 9 de maio de 2018

PAIXÕES E MAUS HÁBITOS


"O ímpio, depois de ter caído no abismo dos pecados, tudo despreza" (Provérbios XVIII, 3).

Nada mais perigoso na luta pela salvação eterna do que a nossa propensão ao pecado. Basta pensarmos nestas palavras do Espírito Santo pela boca do Apóstolo São Paulo: "Vejo nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito, e que me faz escravo da lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz de mim! quem me livrará deste corpo de morte? somente a graça de Deus por Jesus Cristo nosso Senhor" (Rom. VII, 23 e 24). "Mas pela graça de Deus sou o que sou, e a sua graça, que está em mim, não foi vã. (1 Cor. XV, 10). É a terrível concupiscência, consequência do pecado original. Este é tirado da alma pelo santo Batismo, mas a concupiscência permanece, para termos campo de luta, pela qual devemos merecer o céu. O Apóstolo diz tudo: temos dentro de nós mesmos esta lei do pecado e é pela graça de Jesus Cristo que podemos vencê-la, mas é necessário que correspondamos a esta graça para que ela não fique estéril em nossa vida.

Caríssimos, justamente por não corresponder à graça de Deus, é que pode acontecer de o pecador adquirir uma atração para mal ainda maior, que é o hábito do pecado. Não correspondendo à graça, o pecador é levado pelas suas paixões, que além  de si mesmas já serem muito fortes, tornam-se dominantes pelo hábito dos pecados provocados por elas. E pior ainda, estas paixões podem se tornar verdadeiros ÍDOLOS.

Caríssimos, é evidente, que quem luta generosamente, pondo em Deus toda a esperança, alcança infalivelmente o triunfo. A luta poderá prolongar-se, tornar-se renhida, mas acabará por uma vitória. Quem cede, porém, sem se incomodar, aquele cuja vida é assinalada por capitulações contínuas, será finalmente derrotado e cairá na escravidão do pecado e de suas paixões. E, longe de gemer sob este terrível jugo, aceita-o, ama-o, e se recusa a fazer esforços para dele se libertar. Oh! estado terrível da alma que se torna assim escrava dos sentidos, prostrando-se até diante das criaturas e alienando sua liberdade para deixar o vício dominar-lhe o coração como senhor absoluto! É portanto, um idólatra. Dando o exemplo do vício capital da gula diz São Paulo: "Falo com lágrimas, muitos procedem como inimigos da cruz de Cristo: o fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre; e fazem consistir a sua glória na sua própria confusão, gostando somente das coisas terrenas" (Filipenses III, 18 e 19).

Os homens não adoram mais, é verdade, ídolos de madeira ou metal; não dobram os joelhos para adorar imagens inanimadas como se elas fossem deuses ou deusas. Os homens haviam de corar de tal loucura. Mas será menor a culpa de quem se entrega às paixões? Na verdade, quem se abandona ao pecado mortal, rejeita a soberania de Deus e adora a sua paixão. Deus Nosso Senhor não pode assim reinar em corações que prestam homenagem e adoração a falsas divindades.

Quando começamos a ceder a uma tendência culpável, somos inclinados a iludir-nos; julgamo-nos ainda livres. O demônio pode até fazer a pessoa se orgulhar como se estivesse dando provas de energia. E aí esta pobre alma por fim, não conseguirá mais resistir. É escrava do pecado e este é o seu deus! Coisa terrível!!! Quando uma melodia suave nos encanta os ouvidos, (estou ouvindo uma destas) estes sentimentos nos impressionam fortemente e caímos em uma espécie de êxtase, que nos faz esquecer todos os seres, que deixam, por assim dizer, de existir para nós (estava digitando sem pensar no que escrevia, tal o atrativo da música, e aí desliguei-a). Assim, caríssimos, também a alma que, atraída por um objeto criado, que lhe parece fascinante, não se obriga a afastá-lo, será seduzida sem demora e perderá a noção de tudo; sua vida então se concentrará na contemplação do objeto que lhe prende os pensamentos, como se fosse para ela o único necessário. Tal é o estado da alma idólatra. O que as almas santas sentem por Deus e pelas coisas de Deus, a alma idólatra sente pelas criaturas às quais se apegou como se fosse o seu fim último.

E Deus não castigará esta idolatria de muitos cristãos ou que se dizem tais? Claro que sim! Ouçamos o que diz Santo Afonso Maria de Ligório: "É difícil que tais pecadores se salvem, porque os maus hábitos cegam o espírito, endurecem o coração e ocasionam provavelmente a obstinação completa na hora da morte.

Primeiramente, o mau hábito nos CEGA. Qual o motivo que faziam os Santos implorar incessantemente a luz divina, temendo converter-se nos pecadores mais abomináveis do mundo? É porque sabiam que, se chegassem a perder a luz divina, poderiam cometer culpas horrendas. E como se explica que tantos cristãos vivem obstinadamente em pecados, até que irremediavelmente se condenam? Porque o pecado os cega, e por isso se perdem: "Assim pensaram, mas enganaram-se, porque a sua malícia os cegou" (Sabedoria II, 23). "O costume de pecar não deixa o pecador reconhecer o mal que pratica" diz Santo Agostinho.

Além disso, os maus hábitos ENDURECEM O CORAÇÃO, permitindo-o Deus justamente em castigo da resistência que se opõe a seu convites. Pode haver castigo maior?!... São Paulo diz que Nosso Senhor "tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer" (Rom. IX, 18). Santo Agostinho explica este texto, dizendo que Deus não endurece de um modo imediato o coração daquele que peca habitualmente, mas que o priva da graça em castigo da ingratidão e obstinação com que repeliu a que antes lhe havia concedido; e em tal estado o coração do pecador se endurece como se fosse de pedra: "O seu coração é duro como a pedra, e apertado com a bigorna do ferreiro" (Jó XLI, 15).

Teme, pois, meu irmão caríssimo, que não te suceda esta desgraça. Se tens algum mau hábito, procura libertar-te agora que Deus te chama. Enquanto sentes remorso na consciência, regozija-te, porque é indício de que Deus ainda não te abandonou. Mas você pode garantir-te que Deus está longe de o fazer? Urge, pois, corrigir-te e sair o mais breve possível desse estado, doutra maneira gangrenar-se-á a ferida e te verás perdido. Eis o que é mais terrível! O que explicarei a seguir:

Os maus hábitos ocasionam provavelmente a obstinação completa na hora da morte. Só escrevo baseado que estou na incontestável autoridade de um Santo Afonso Maria de Ligório. Ouçamo-lo: "Privado da luz que nos guia e endurecido o coração, que admira que o pecador tenha mau fim e morra obstinado em suas culpas? "O coração duro será oprimido de males no fim; e aquele que ama o perigo perecerá nele" (Eclesiástico III, 27). Os justos andam sempre pelo caminho reto. "A senda do justo é direita" (Isaías XXVI, 7). Ao contrário, aqueles que pecam habitualmente caminham sempre em linhas tortuosas. Se deixam o pecado por algum tempo, voltam de novo a ele; pelo que São Bernardo os ameaça com a condenação no sermão sobre o Salmo 90. Talvez algum deles queira emendar-se antes que lhe chegue a morte. Mas é precisamente nisto que está a dificuldade: o pecador por hábito, ainda que chegue à velhice, não se emenda. "O homem, segundo o caminho que tomou sendo jovem, não se afastará dele, mesmo quando velho" (Provérbios XXII, 6). "Se um etíope pode mudar a sua pele, ou um leopardo as suas malhas, poderás vós também fazer o bem, vós que não aprendestes senão fazer o mal?" (Jeremias XIII, 23). "Bem-aventurado o homem que está sempre com temor; mas o de coração duro cairá no mal" (Provérbios XXVIII, 14).

Estou, portanto, condenado e sem esperança?  -  perguntará, talvez, algum destes infelizes pecadores ... Não, se deveras quiseres emendar-te. Mas os males gravíssimos requerem remédios heroicos. Não deves esperar um milagre da graça. Impende evitar resolutamente as ocasiões perigosas, fugir das más companhias e resistir às tentações, recomendando-te a Deus. É preciso que te confesses a miúdo, que faças cada dia leitura espiritual e te entregues à devoção da Virgem Santíssima, pedindo-lhe continuamente que te alcance forças para não recair. É necessário que te domines e empregues violência. Se não aplicares agora o remédio, quando Deus te ilumina, mais tarde dificilmente poderás remediá-lo. Teme que não seja este o último apelo que Deus te faz. "Temo a Jesus que passa e não volta mais", dizia Santo Agostinho.
Ó Senhor, quero mudar de vida e entregar-me a Vós. Dizei-me o que devo fazer, pois quero pô-lo em prática. Sangue de Jesus Cristo, ajudai-me! Virgem Maria, advogada dos pecadores, socorrei-me! Amém!


quinta-feira, 3 de maio de 2018

O TRABALHO DIGNIFICADO

O TRABALHO DIGNIFICADO

                                                                                                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*


            Hoje, dia 1º de maio, celebramos a festa de São José operário, patrono dos trabalhadores. Desejoso de ajudar os trabalhadores a santificar o seu dia, já mundialmente comemorado, o Papa Pio XII instituiu esta festa de São José, modelo do trabalhador. De origem nobre da Casa de Davi, ganhando a vida como simples carpinteiro, São José harmoniza bem a união de classes que deve existir em uma sociedade cristã.
         O trabalho é obra de Deus. Deus, ao criar o homem, colocou-o no jardim do Éden para nele trabalhar. O trabalho existe, portanto, antes do pecado. Depois deste, passou a ter a conotação de penitência, pois adquiriu uma nota de dificuldade e o necessário esforço para desempenhá-lo: “Comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gn 3,19). 
          Assim, o trabalho tem o aspecto natural necessário para o nosso sustento e o aspecto adicional de penitência, pois ele contraria nossa tendência, exacerbada pelo pecado, à preguiça e ao relaxamento. O trabalho é algo muito digno e nobre, seja ele qual for, desde que seja honesto e nos encaminhe para Deus, seu autor. 
        O trabalho é também expressão do amor.  “A expressão quotidiana deste amor na vida da Família de Nazaré é o trabalho. O texto evangélico especifica o tipo de trabalho mediante o qual José procurava garantir a sustentação da Família: o trabalho de carpinteiro. Esta simples palavra envolve toda a extensão da vida de José. Para Jesus este período abrange os anos da vida oculta, de que fala o Evangelista, a seguir ao episódio que sucedeu no templo: “Depois, desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso” (Lc 2, 51). Esta submissão, ou seja, a obediência de Jesus na casa de Nazaré é entendida também como participação no trabalho de José. Aquele que era designado como o ‘filho do carpinteiro’, tinha aprendido o ofício de seu ‘pai’ adotivo. Se a Família de Nazaré, na ordem da salvação e da santidade, é exemplo e modelo para as famílias humanas, é-o analogamente também o trabalho de Jesus ao lado de José carpinteiro. Na nossa época, a Igreja pôs em realce isto mesmo, também com a memória de São José Operário, fixada no primeiro de maio. O trabalho humano, em particular o trabalho manual, tem no Evangelho uma acentuação especial. Juntamente com a humanidade do Filho de Deus, ele foi acolhido no mistério da Encarnação, como também foi redimido de maneira particular. Graças ao seu banco de trabalho, junto do qual exercitava o próprio ofício juntamente com Jesus, José aproximou o trabalho humano do mistério da Redenção” (S. João Paulo II, Ex. Apost. Redemptoris Custos).  
        Para uma sadia economia, são necessários o trabalho e o capital, como ensina o Papa Leão XIII na sua clássica formulação: “Elas (as duas classes – a dos detentores do capital e a dos que oferecem a mão-de-obra) têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital” (Rerum Novarum 28). E fundamenta o “direito de propriedade mobiliária e imobiliária” (incluídos os bens de produção) no fato de ela, a propriedade, nada mais ser do que “o salário transformado” (Rerum Novarum 9).  
  
*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

sexta-feira, 30 de março de 2018

A VIRGEM NO CALVÁRIO

Por D. Antônio de Almeida Morais Júnior.
(São apenas alguns excertos do Sermão)
   NB: D. Antônio de Almeida Morais Júnior foi Arcebispo de Niterói. Era grande amigo de D. Antônio de Castro Mayer. Foi o maior orador sacro do seu tempo. Foi um luminar da Santa Igreja e fez parte da Academia Mineira de Letras. Este sermão do qual apresento alguns trechos hoje, foi feito em 1964.

   Sobre o Gólgota , Maria está no posto de honra, de amor e de martírio: "Stabat Mater dolorosa". "Ó vos que passais, exclama o Profeta da antiga desolação, parai e vede se há dor semelhante à minha dor!" As agonias da Virgem são mais vastas que o Oceano: "velut mare contritio tua!" Rios de lágrimas correm ali. O raio lança, ali, clarões vermelhos como sangue; mas o oceano conserva, na imensidade de suas águas, espelho dos céus sem limite, o mistério de uma paz tão opulenta que a tempestade das cóleras divinas não lhe pode perturbar as silenciosas profundezas. O sofrimento dos homens lamenta-se: "que fiz eu para que Deus me ferisse assim?" Eis o eterno queixume, a fórmula de revolta, a blasfêmia sempre renascente da dor vulgar. Ela recrimina, ela se desanima, ela se cansa!
   "No Gólgota, a Virgem em lágrimas, ferida, conserva-se em pé, num silêncio adorável!" "Stabat Mater" - nesta atitude reconhecemos a nobreza e a sublimidade daquela dor. Ela vem de Deus, ela é para Deus, ela glorifica a Deus.
   "Stabat" - De pé, a nova Eva, a maravilha da criação. De pé, lírio mesto, ereto no seio dos espínhos, farol inabalável no seio das ondas em cólera, sob a demagogia das nuvens. De pé, como a prece e a esperança! De pé, a mulher forte, a rainha dos mártires, a correndentora na salvação das almas. De pé, na resignação augusta e santa da dor".
   "Jesus e Maria tinham sofrido juntos, os dois lírios tinham crescido no meio dos espinhos da tribulação; ao mesmo tempo transplantados de Belém para Nazaré, de Nazaré para o Calvário; as duas flores inundadas de um orvalho de lágrimas e de sangue entregavam aos ventos dos séculos seus perfumes purificadores, os germes de uma fecundidade que encheu o universo".
   "Stabat Mater". Ó fecundidade do maravilhoso coração da mulher traspassada por sete espadas! ...Esmagando o coração da Virgem, a prova a faz crescer diante do Senhor; seu triunfo se completa. A Imaculada, contemplada por São João, no exílio de Patmos, coroada de estrelas, revestida de sol, de pé sobre o crescente argentino das noites, encontra nas lágrimas que brilham nos seus olhos, nos gládios que traspassam sua alma, a suprema perfeição de sua glória.
   ...Os protestantes se escandalizam com os testemunhos de nossa piedade filial diante do altar da Virgem. Eles não compreendem a nossa veneração. Ah! se eles conhecessem o dom de Deus!
   A Santíssima Virgem é medianeira de todas as graças. É consoladora de nossas penas. É refúgio dos pecadores. Para ela se agitam todos os braços desesperados, para ela sobem os brados da fraqueza e os gritos dos infelizes.
   Ela aparece sempre ao lado de Jesus, de pé, sob a árvore da Redenção para ajudar-nos a colher o fruto do perdão, da salvação e da imortalidade. Maria é a razão de toda a nossa esperança.
   Ela oferece ao Pai a vítima que deverá salvar-nos. Ao Filho, o Pai não dá senão a grandeza e o triunfo de toda a eternidade. Maria dá-lhe a mortalidade, o poder de se imolar, no tempo, à glória de Deus, em colaboração com a Trindade augusta. Ela colabora ativamente na obra-prima da Encarnação e da Redenção. Ela nutre a vítima. Ela o prepara para o sacrifício.
   A majestade e a fecundidade da dor de Maria Santíssima tem sua fonte naquela profundeza do abismo: "Stabat Mater dolorosa!" Que eram os três dias da perda no Templo, os três anos de vida laboriosa, ao lado das três horas de agonia do Calvário?
   Mãe delicada e pura, indizivelmente amante, ela viu cravado no madeiro, o mais amável, o mais santo dos filhos, ao mesmo tempo, seu Filho e seu Deus".
   

quinta-feira, 22 de março de 2018

OS DOGMAS SÃO IMUTÁVEIS

Há homens de coração reto que têm sede de uma luz infinita. E esta sede do infinito, só Deus pode saciá-la. E Deus se fez Homem para lhes dar a segurança dizendo: Eu sou a Verdade. E o grande foco da luz divina é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Divino Mestre cingiu a fronte de sua Esposa mística com o diadema visível de Rainha da Verdade. A unidade, a indefectibilidade, a santidade e a infalibilidade refulgem na coroa da Igreja, quais gemas preciosas, prendas que são deste Divino Esposo e que distinguirão a Igreja das rugas das adulterações humanas e das manchas das sociedades heréticas ou cismáticas. Dado o orgulho humano, estas últimas infelizmente sempre existirão. Daí as exortações do Apóstolo  ao seu discípulo e bispo Timóteo, exortações estas sobre as quais vamos ora refletir.

São Paulo, num tom pleno de solene gravidade, conjura o seu discípulo caríssimo, o Bispo Timóteo, a ser fiel à sua missão de pregar a doutrina imutável de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, portanto, deverá insistir, quer agrade quer desagrade, e repreender aqueles que dela se afastarem. O Apóstolo dos Gentios, exorta o seu discípulo a ter sempre firmeza em defender a verdade, a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo que não muda, e, ao mesmo tempo, mostra que é mister fazê-lo sempre com bondade e paciência, isto é, sem discussões e altercações.

Não há a mínima dúvida de que São Paulo faz aqui uma profecia: "virá tempo" afirma ele. Já na primeira carta ao mesmo Bispo Timóteo, o Apóstolo São Paulo já alertava: "O Espírito (Santo) diz claramente que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvido a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios..." (I Tim., IV, 1). E ao terminar esta mesma carta, faz esta exortação: "Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as novidades profanas de palavras e as contradições de uma ciência de falso nome, professando a qual, alguns se desviaram da fé" (I Tim. VI, 20 e 21).

A lídima Palavra de Deus da qual os bons têm sede, causa náuseas aos orgulhos. Não suportam ouvir a sã doutrina. Almejam uma multidão de pregadores que adulem suas paixões. Por isso São Paulo já na primeira epístola, havia dito a Timóteo: "Se alguém ensina, de modo diferente e não abraça as sãs palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo e aquela doutrina que é conforme à piedade, é um soberbo..." (I Tim., VI, 3 e 4). Não suportam ouvir sempre a mesma coisa; desejam ardentemente ouvir novidades. Em lugar do Evangelho, da verdade confirmada com tantos milagres, e assim tornada a mais evidente e incontestável, abraçarão fabulosas, estranhas e inacreditáveis doutrinas. Assim agiram os gnósticos, maniqueus e outros hereges.

Em verdade, esta profecia de São Paulo vem se realizando desde os primeiros séculos; mas, com certeza se realizará plenamente nos últimos tempos, na época do Anti-Cristo. Mas não resta a mínima dúvida de que ela se cumpre ao pé da letra em relação aos modernistas. São Pio X dizia que o Modernismo é a reunião de todas as heresias, e a sua origem está no orgulho humano que procura novidades que agradam. Agravando-se o espírito de contestação contra a Tradição e os dogmas, compreende-se que os modernistas não suportem mais ouvir a verdade. Daí vem a apostasia da fé, e passam a pregar abertamente doutrinas diabólicas. Os modernistas são pessoas ávidas de popularidade, que lançam a divisão na Igreja e nas famílias. Organizam conciliábulos e preparam os cismas dentro da Igreja. Procuram ensinar outras coisas diferentes e rejeitam a linguagem escolástica tradicional. Cabe aqui perfeitamente seguirmos a mesma exortação que S. Paulo fez a Tito: "Foge do homem herege, depois da primeira e da segunda correção, sabendo que tal homem está pervertido e peca, como quem é condenado pelo seu próprio juízo" (Tito, III, 10 e 11).

Seguindo o conselho de São Paulo, devemos fugir, portanto, de Hans-Kung que quer eliminar o dogma da Infalibilidade Pontifícia. Eis trecho de sua carta ao Papa Francisco: Imploro Papa Francisco, que sempre me respondeu de uma forma fraternal: receba essa extensa documentação e consinta em nossa Igreja uma discussão livre, aberta e sem preconceitos sobre todas as questões pendentes e removidas relacionadas com o dogma. Não se trata de um relativismo banal que mina os fundamentos éticos da Igreja e da sociedade. E nem mesmo de um dogmatismo rígido e tolo amarrado a uma interpretação literal. Está em jogo o bem da Igreja e do ecumenismo”.

Caríssimos, um só é o código que liga nossas almas aos destinos eternos: o Evangelho genuíno sem alterações e acomodações humanas. Guardemo-lo com toda fidelidade e amor.  A graça de Deus seja com todos vós. Amém!

domingo, 11 de março de 2018

EUCARISTIA: Se cabe só aos sacerdotes a dispensação deste sacramento

   Questão esta tratada por Santo Tomás de Aquino na "Suma Teológica, Parte 3ª,  q. LXXXII, a. III.

   "Videtur quod non": Parece que não cabe só aos sacerdotes a dispensação deste sacramento. (O santo Doutor apresenta três objeções; vamos transcrever apenas a segunda), que assim reza:

   2. Os sacerdotes são constituídos ministros dos sacramentos. Ora, este sacramento se consuma na consagração da matéria, e não no uso, que é o objeto da dispensação. Logo, parece que não cabe ao sacerdote dispensar o corpo do Senhor. 

   "Sed contra": Mas, em contrário, dispõe um cânone (De Consecr. dist. II): Chegou ao nosso conhecimento que certos presbíteros entregam o corpo do Senhor a um leigo ou a uma mulher, para o levarem aos enfermos. Por isso o Sínodo interdiz que não se ouse mais proceder assim para o futuro; mas o próprio presbítero é quem deve, por mãos próprias, dar a comunhão aos doentes.


 "RESPONDEO" - SOLUÇÃO: Ao sacerdote pertence a dispensação do corpo de Cristo, por três razões. - Primeiro, porque, como dissemos, ele consagra em nome de Cristo (In persona Christi= Na pessoa de Cristo). Ora, o próprio Cristo, assim como consagrou o seu corpo na Ceia, assim o deu a tomar aos outros. Por onde, assim como ao sacerdote pertence a consagração do corpo de Cristo, assim também lhe cabe dispensá-lo. - Segundo, porque o sacerdote é constituído mediatário (medius) entre Deus e o povo. Portanto, assim como lhe cabe oferecer a Deus os dons do povo, assim também lhe pertence dispensar ao povo os dons santificados por Deus. - Terceiro - porque a reverência devida a este sacramento requer que não seja tocado senão pelo que é consagrado; por isso é consagrado o corporal e o cálice e consagradas são as mãos do sacerdote, para tocá-lo. E ninguém o pode tocar senão em caso de necessidade; por exemplo, se caísse no chão ou em algum outro caso de necessidade. 

   "Ad secundum ergo": RESPOSTA a esta SEGUNDA objeção: - Ao mesmo que pertence dispensar este sacramento pertence também consagrá-lo, pela razão aduzida acima. 

domingo, 4 de março de 2018

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA



O DEMÔNIO MUDO

S. Lucas XI, 14-28

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Muitos são os pontos de meditação que nos oferece o Evangelho deste domingo; mas, como a consideração de todos eles nos levaria muito longe, excedendo demasiadamente os limites de um artigo, limitar-me-ei em falar sobre o "demônio mudo".

Caríssimos, sabemos que os anjos são  puros espíritos criados por Deus para sua glória e seu serviço. Mas muitos deles, levados pelo mau exemplo de Lúcifer, se rebelaram contra Deus e se tornaram ESPÍRITOS MAUS. Tornaram-se demônios e todos são maus. Podemos concluir, no entanto, por palavras do próprio Jesus Cristo (... volta com sete espíritos PIORES que o primeiro; ... há uma espécie de demônio que só se expulsa com jejum e oração), que há uns piores. E certamente este "demônio mudo" é um destes piores.

"Expulsou Jesus um demônio, e ele era mudo". É chamado MUDO  porque ele é que causa a mudez espiritual, que é um mal terrível. O que tornava mudo aquele infeliz homem, era a presença e a ação deste demônio que o possuía. Tanto assim, que, expulso que foi este demônio, o homem recobrou o uso da palavra. Os Judeus não contestaram o milagre: mas atribuíram-no à Beelzebub, príncipe dos demônios. Mas, Jesus tritura tão indigna interpretação, interpretação esta que só podia nascer da má-fé.

Caríssimos, o que, no entanto, queremos ressaltar aqui é o sentido moral escondido neste prodígio. A finalidade direta que Jesus tinha em vista ao fazer milagres era confirmar sua missão de Messias e manifestar sua bondade. Mas, é óbvio que o divino Mestre visava, outrossim, um ensinamento moral e alegórico. Assim, este homem que o demônio tornava mudo, nos mostra um dos efeitos que o pecado produz em nossas almas. O pecado nos torna mudos, prendendo nossa língua naqueles usos para os quais Deus no-la deu como meios de ganharmos o Céu: orar, dar testemunho da verdade e confessar nossos faltas no Sacramento da Penitência. Quão terrível é este demônio mudo! pois nos pode tirar os grandes meios de salvação: pois, quem não reza se condena, sem confissão não há salvação (mesmo no arrependimento perfeito deve haver o desejo da Confissão) e quem não confessa a verdade e não dá testemunho de Jesus Cristo, no dia do Juízo será igualmente rejeitado pelo Supremo Juiz.   

O primeiro e principal uso que Deus quer que façamos da palavra em relação a Ele, é a ORAÇÃO. Quer que por ela primeiramente O glorifiquemos e O adoremos. Deus quer que nos sirvamos da palavra para falarmos com Ele mesmo, Criador de todas as coisas, Mestre soberano do universo, o Ser eterno, a própria Sabedoria, a própria Bondade, o Onipotente. Deus quer que nos dirijamos a Ele como Pai: "Pater Noster". E além do culto de latria só devido a Deus, a língua é- nos dada também para, na oração, agradecermos as graças recebidas, pedir novas graças e pedir perdão dos nossos pecados. Caríssimos, devemos nos sentir singularmente honrados em poder entrar em conversação com Deus, com o Ser tão grande, sendo nós tão pequenos! Este era o pensamento de Abraão quando dizia do fundo de sua pequenez: "Falarei ao meu Senhor, ainda que eu seja pó e cinza" (Gen. XVIII, 27).

Pois bem, o demônio mudo, quando reina numa alma pelo pecado, fecha-lhe a boca, torna-a muda em relação a Deus. A oração, que faz as delícias dos justos, torna-se uma como carga pesada para tais pecadores dominados pelo demônio mudo. Para eles a oração é causa de desgosto e enjoo; e, a medida que se afundam na iniquidade, eles negligenciam mais e mais a oração e terminam mesmo abandonando-a completamente. Mais do que ninguém precisavam usar a língua para implorar misericórdia, mas o demônio mudo, à exemplo do lobo, lança-se na garganta destes infelizes impedindo-os de pedir o socorro divino. 

Outro uso para o qual a palavra nos foi dada por Deus, é a de DAR TESTEMUNHO DA VERDADE. Fazer conhecer Deus a nossos semelhantes, de o louvarmos nas reuniões dos fiéis, sustentar e defender a religião quando ela é atacada, confessar, então,  nossa fé por nossos discursos bem como o devemos fazer por nossos atos. Tudo isto é um dever para todos nós, e, caríssimos, poderíamos melhor testemunhar a Deus nosso reconhecimento por este dom magnífico da palavra do que empregando-o para a glória de Deus?

Quero, no entanto, salientar a obrigação dos Eclesiásticos. Na verdade, é o respeito e os interesses humanos que impedem que os superiores eclesiásticos se declarem publicamente por Deus, por Jesus realmente presente na Hóstia Consagrada. Lamentam talvez internamente os sacrilégios, mas não falam contra eles. Mantêm a verdade cativa, e não ousam confessar publicamente a sua fé, ainda mesmo quando o silêncio é uma espécie de apostasia. Os estragos do demônio mudo nunca são tão deploráveis como quando exerce a sua tirania sobre os mesmos Pastores. O maior triunfo deste demônio terrível é encadear a palavra sacerdotal. Ou fecha a boca aos ministros do Senhor, ou não lhes permite que falem senão com timidez, quando deviam falar com energia. Pastores, "cães mudos", quando não corrigis, com prudência é verdade, mas também com a santa liberdade que vos convém, os pecadores escandalosos que pervertem o povo, os libertinos, os blasfemos, os profanadores do Santíssimo Sacramento; quando, na administração dos sacramentos, não ousais advertir quanto seria necessário, para que os recebam com respeito e fruto; quando no sagrado tribunal poupais a delicadeza dos culpados, à custa da sua salvação, deixando-os na ignorância das graves obrigações que só vós podeis ensinar-lhes, então concedeis ao demônio mudo um funesto triunfo; e mereceis esta censura de São Cipriano: "Que cruel misericórdia é essa, que consiste, não em curar o ferido, mas em esconder a sua ferida, para nela, encerrar a morte? O Pastor de almas deve ser prudente e circunspecto, mas ao mesmo tempo deve ser firme e animoso. "Deus dissipará os ossos daqueles que procuram agradar aos homens" (Sl. LII, 6). "Deus castigará os tímidos tanto como os mais criminosos" ( Apoc. XXI, 8).

Um terceiro uso que devemos fazer da palavra é  CONFESSAR NOSSAS FALTAS no Sacramento da Penitência. Na verdade Deus não se recusa a nos dar o perdão de nossos pecados. Mas como condição deste perdão Ele exige expressamente que o homem reconheça sua falta; e, pela confissão o homem reconhece seu pecado, e reconhece-o pelo meio mais solene, mais autêntico que está em seu poder, pela palavra que lhe foi dada para manifestar seu pensamento, isto é, pela palavra que não é, ou pelo menos, não deve ser senão a expressão, a manifestação, a veste do pensamento e assim podemos dizer que a alma mesma se torna de alguma maneira visível.
 Mas, caríssimos e amados irmãos, em se tratando do mutismo em relação a confissão, podemos dizer que é aqui que o demônio mudo triunfa. Vejam: uma pessoa desejava aliviar-se do peso que a oprimia; sentia-se vivamente incitada  a ser sincera; tinha começado bem; uma palavra mais, e tem o Céu seguro, e na vida presente uma paz que sobrepuja todo o entendimento; uma palavra menos, e merece o inferno, e desde já o remorso que a dilacera. Que poder oculto fez morrer em seus lábios essa palavra indispensável? - O demônio mudo - .Ah! quantas almas o demônio mudo conserva encadeada pelo mutismo! Um grande número de almas, por tentação do demônio, por falta de humildade, ocultam os seus pecados em confissão ou porque se envergonham deles ou porque não querem corrigir-se.

 O Sacerdote que ouve os pecados faz as vezes de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele tem para os penitentes um coração de pai; não se admira porque sabe as misérias em que o homem pode cair; não os envergonha nem despreza, mas ama-os, ajuda-os, consola-os e cura-os. Sente uma alegria celestial, mas que levará para o túmulo. Oh! almas remidas com o Sangue de Jesus Cristo, por amor de Deus, não consintais por mais tempo sobre vós o jugo deste demônio mudo, se é que tendes feito confissões sacrílegas. Mas também não vos lanceis no desespero como Judas. Vinde, antes como Pedro e Madalena lançar-vos aos pés de Jesus Cristo, vosso doce Salvador, que vos chama, vos espera e vos receberá como ao filho pródigo.

   Caríssimos, pedi a Deus luz e força para que, livres da escravidão do demônio, sejais fiéis a Deus em tudo, servindo-O e amando-O como filhos queridos e esperando a eterna recompensa na Pátria do repouso eterno. Amém!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

PECADO VENIAL


""Abstende-vos de toda aparência do mal" (Tessal. V, 22)

Há um erro popular, e não é só de hoje, que consiste em persuadir-se falsamente de que o pecado venial é coisa de somenos importância, como se a palavra venial significasse bagatela, coisa de nada. Talvez este erro venha da palavra "leve" também empregada para designar pecado venial. Na verdade, "leve" aqui é um termo relativo, assim, por exemplo, comparando, quando a gente diz que a Terra é pequena em relação ao Sol. É claro que em si mesma a Terra não é pequena. Assim, fazendo a aplicação, dizemos que o pecado venial é leve em comparação com o mortal, mas em si mesmo é o maior mal que existe sobre a terra depois do pecado mortal. Não é difícil entendermos, pois, se é pecado, ofende a Deus que é de uma dignidade, perfeição e majestade infinitas. Daí dizer São Jerônimo: "Não é falta leve desprezar a Deus nas coisas pequenas". É chamado venial (de venia em latim que significa perdão)porque significa coisa perdoável, ou, melhor dizendo "coisa mais facilmente perdoável", porque o pecado mortal também é perdoável. Mas não esqueçamos que para os pecados (mortais e veniais) poderem ser perdoados, Jesus Cristo sofreu e morreu numa Cruz.

Mas o que é pecado venial? Bom! se é pecado é porque tem os três elementos que constitui um pecado: transgressão da lei de Deus, advertência sobre esta transgressão e apesar disto há o consentimento da vontade. Quando se dá o pecado venial? Nestes casos: Quando a matéria da transgressão é de si mesma leve; ou é grave mas a advertência sobre esta malícia não é total e o consentimento da vontade não é pleno. É, portanto, qualquer pensamento, palavra, ação ou omissão contra a lei de Deus, mas que não  é tão grave, que nos faça perder a amizade do Senhor e dê a morte à alma. Acha-se neste gênero de faltas, tudo o que constitui o pecado: Deus que manda, o homem que recusa obedecer. A única diferença que há entre o pecado mortal e o venial, é o consentimento mais ou menos completo, matéria mais ou menos grave. Quanto ao mais, em um e outro há uma indigna preferência dada à vontade do homem sobre a de Deus; é uma ofensa de Deus; e feita por quem, e porque? Por uma vil criatura, por um desprezível motivo. Há portanto no pecado venial um verdadeiro desprezo de Deus, uma verdadeira injúria feita a todas as perfeições de Deus; injúria leve comparativamente com a que resulta do pecado mortal, mas de uma gravidade como que infinita, já que ofende a dignidade infinita de Deus.

Vamos dar alguns exemplos de pecados veniais: pequenas iras passageiras, ligeiras intemperança no  comer ou beber, falar mal dos outros em coisas que não causam graves danos a reputação do próximo, mentiras oficiosas, manifestações de amor próprio, distrações e curiosidades que me alheiam de mim mesmo e me perturbam o coração, negligências nos exercícios espirituais e religiosos, donde resultam tantas faltas contra o respeito devido ao Senhor. Se não vigiarmos, quantas faltas cometemos pelo mau humor, pela liberdade da língua etc.

Os teólogos e também autores espirituais fazem algumas suposições hipotéticas para se fazer compreender melhor o mal que é o pecado venial. Eis alguns exemplos: Seria um grande mal aquele que não pudesse ser reparado com todas as lágrimas do gênero humano, com os tormentos dos mártires, as austeridades dos anacoretas, os sofrimentos, a caridade de todos os Santos, e com todas as boas obras que se têm feito desde o princípio, e se farão até ao fim do mundo. E todavia, todas estas satisfações, se não se lhes ajuntassem as satisfações infinitas do Verbo encarnado, não bastariam para reparar a ofensa que faz a Deus um só pecado venial. Outro exemplo: a mentira quando não prejudica gravemente o próximo é sempre de si mesma um pecado venial. Pois bem! Se fosse para tirar todos os condenados do inferno ou evitar que fossem expulsos do Céu todos os Santos, não se poderia cometer tal mentira, que é um pecado venial. Será que haverá alguém ainda afirmando com tanta desenvoltura que o pecado venial é coisa de nada, e que se pode fazê-lo com a mesma facilidade com que se bebe um copo d'água? Se houver, por ventura algum pecador que ouse afirmá-lo, ouça também o que diz os santos dos quais citarei apenas alguns: Santa Catarina de Gênova: "Lançar-me-ia em um oceano de chamas, sendo preciso, para evitar a ocasião do menor pecado, e ali ficaria sempre, antes do que sair de lá por um pecado venial";  Santa Catarina de Sena: "Se a alma que é imortal, pudesse morrer, a vista de um só pecado venial, que manchasse a sua beleza, seria capaz de lhe dar a morte"; Santo Inácio de Loiola dizia: "Todo o homem que é zeloso da pureza da sua consciência, deve humilhar-se diante de Deus pelos pecados mais leves, considerando que aquele Senhor contra quem são cometidos, é infinito em todo o gênero de perfeições, o que lhes agrava infinitamente a malícia" ; Dizia Santo Tomás de Aquino: "Antes morrer que pecar venialmente". Eis mais um exemplo: "O Santo Cura d'Ars tinha recebido  uma cédula de mil francos, para as suas obras. Quando foi acender a vela, não tendo fósforo, tirou do bolso sem olhar um pedaço de papel e o chegou ao fogo. O padre coadjutor deu um grito: "Senhor Vigário, é uma nota de mil francos que queimais". "Antes isso, disse o Santo, que um pecado venial".


E, caríssimos, quem pode contar a multidão dos pecados veniais. Santo Agostinho dizia; "Se não temes os pecados veniais, quando pensas na sua gravidade, temei-os quando o contas". Milhares de pecados veniais somados não constitui um mortal, a não ser quanto àqueles mandamentos em que a matéria se soma, como é o caso do 7º mandamento (pode chegar a uma soma que já passe a constituir pecado mortal). Fora disto não. Mas se não se combate os pecados veniais e estes se tornam um hábito, a alma se torna tíbia e aí vai aos poucos escorregando para o abismo do pecado mortal. E uma circunstância que nos deve atemorizar: é mais difícil sair do pecado mortal, quando se chegou a ele aos poucos através de pecados veniais não combatidos. Os pecados veniais diminuem as luzes e as forças da alma. Num naufrágio pouco importa se ele acontece por uma furiosa tempestade ou pelo fato de a água entrar por um fenda gota a gota. Se muitos pecados mortais não constitui um mortal, é, no entanto, certo que dispõem para o mortal. Depois, se Deus quiser, falaremos sobre a tibieza, e, então explicaremos isto melhor.