SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 1 de outubro de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 17º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Efésios 4, 1-6: "Irmãos: Eu, que me acho preso pelo amor do Senhor, vos rogo que andeis como é digno da vocação a que fostes chamados; em toda humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros na caridade e procurando guardar a união do Espírito, no vínculo da paz. Um só corpo e um só Espírito, como também sois chamados a uma só esperança por vossa vocação. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um Deus e Pai de todos, que está acima de todos e age em tudo e em todos nós. Seja Ele bendito pelos séculos dos séculos. Amém. 

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 22, 34-46: "Naquele tempo, chegaram-se a Jesus os fariseus, e um deles, que era doutor da lei perguntou-Lhe para O tentar: Mestre, qual é o grande mandamento da Lei? Disse-lhe Jesus: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei, e os profetas. E estando juntos os fariseus, interrogou-os Jesus, dizendo: Que vos parece de Cristo? De quem Ele é Filho? Responderam-lhe: de Davi. Jesus lhes disse: Como, pois, em espírito, Davi o chama Senhor, dizendo: O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos como escabelo de teus pés? Se, pois, Davi O chama Senhor, como é Ele o seu filho? E ninguém, pôde responder-Lhe uma só palavra; e desde aquele dia ninguém ousou mais fazer-Lhe perguntas".

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

A prática de hoje é extraída do Livro "INTIMIDADE DIVINA" do P. Gabriel de Santa M. Madalena, O. C. D.

1 - "Como Jesus, no curso da Sua vida terrena, não cessou de recomendar a caridade e a união fraterna, assim a Igreja, nas Missas dominicais, continua a inculcar-nos esta virtude. Hoje fá-lo servindo-se de um trecho da carta de S. Paulo aos Efésios (4, 1-6): 'Rogo-vos que andeis dum modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros por caridade, solícitos em conservar a unidade do espírito pelo vínculo da paz'. O chamamento que recebemos foi a vocação ao cristianismo, a vocação ao amor. Deus, caridade infinita, adota-nos como Seus filhos afim de que rivalizemos com a Sua caridade a tal ponto que seja o amor o vínculo que nos una a todos num só coração, como o Pai e o Filho estão unidos numa só Divindade pelo vínculo do Espírito Santo. 'Como Tu, Pai, o és em mim e eu em ti, que também eles sejam um em nós', pediu Jesus para nós (S.Jo. 17, 21).
   "Conservar a unidade pelo vínculo da paz": eis uma coisa fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil porque , quando o coração é verdadeiramente humilde, manso e paciente, tudo suporta com amor, tendo maior cuidado em se adaptar à mentalidade e aos gostos alheios do que em fazer valer os seus. Difícil porque, enquanto estivermos no mundo, o amor próprio, apesar de mortificado, tenta sempre ressurgir e afirmar os seus direitos, criando constantes ocasiões de choques recíprocos. Para os evitar é preciso muita renúncia de si mesmo e muita delicadeza para com os outros. Devemos persuadir-nos de que tudo o que perturba, enfraquece ou, o que é pior, destrói a união, não pode agradar a Deus, mesmo que o façamos sob pretexto de zelo. EXCETUANDO O CUMPRIMENTO DO DEVER E O RESPEITO PELA LEI DE DEUS, (os destaques são meus), devemos preferir sempre renunciar às nossas idéias, embora boas, a discutir com o próximo. Dá muito mais glória a Deus um ato de renúncia humilde a favor da união, dá muito mais glória a Deus a paz entre os irmãos, do que uma obra grandiosa que possa causar discórdia e desentendimento.

2 - "O excesso de personalismo, o grande desejo de agir cada um a seu modo são muitas vezes causa de divisões entre os bons. Dada a nossa limitação, as nossas ideias não podem ser de tal modo absolutas que não admitam as ideias dos outros. Se o nosso modo de ver é bom, reto, luminoso, pode haver outros igualmente bons e até melhores; por isso, em vez de o rejeitarmos por não sabermos renunciar a opiniões demasiado pessoais, é mais prudente, humilde e caritativo aceitar o modo de ver alheio, procurando conciliá-lo com o nosso. Este personalismo é inimigo da união, é um obstáculo para o maior êxito das obras e mesmo para o nosso progresso espiritual.
Jesus estava no Templo de Jerusalém. Tinha vindo
de Betânea: eis na foto um trecho da estrada. Era 2ª Feira
Santa. Jesus amaldiçoou uma figueira por não ter frutos:
Ação simbólica, isto é, uma parábola representada, invés
de contada.  Se fosse hoje, Jesus teria sido preso, porque
a árvore que Ele amaldiçoou, no dia seguinte já estava
seca. 
   "Na Epístola de hoje S. Paulo apresenta-nos todos os motivos que temos para nos mantermos unidos: '[sede] um só corpo e um só espírito como fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos'. Se Deus quis salvar-nos e santificar-nos unidos a Cristo e formando com Ele um só corpo, dando-nos uma única vocação, uma única fé, uma única esperança e sendo Ele o Pai de todos, como pretenderemos salvar-nos e santificar-nos separando-nos uns dos outros? Se não queremos frustrar o plano de Deus e pôr em perigo a nossa santificação e salvação, temos de estar prontos para qualquer união. Lembremo-nos de que Jesus pediu para nós não só a união, mas a união perfeita: 'que sejam consumados na unidade' (S. Jo. 17, 23).
   "Também o Evangelho de hoje (S. Mt. 22, 34-46) vem reforçar este incitamento à união, visto Jesus repetir que o mandamento do amor do próximo é, juntamente com o do amor a Deus, o fundamento de 'toda a lei', de todo o cristianismo. Não desprezemos estes chamamentos contínuos à caridade e à união; a Igreja insiste neste ponto, pois nele insistiu Jesus, porque a caridade 'é o mandamento do Senhor e se ele é observado, basta' (S. João Evangelista).
   "(...) Terminemos com as palavras da Liturgia: "Onde há amor e caridade, aí habitais Vós, Senhor! O Vosso amor, o Cristo, congregou-nos num só corpo e num só coração; concedei-nos, pois, amarmo-nos com um coração sincero. Afastai de nós as dissenções e contendas; fazei que os nossos corações estejam sempre unidos em Vós e Vós sempre no meio de nós". Amém!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

FESTA DE SÃO MIGUEL ARCANJO

 
 São Miguel Arcanjo é um dos sete espíritos que assistem ao trono do Altíssimo. É o Príncipe da Milícia Celeste a quem Deus conferiu poderes extraordinários para proteger as almas.
  São Miguel defendeu vitoriosamente os direitos de Deus contra as arrogâncias de Lúcifer e de seus companheiros. 
   Consta pela Sagrada Escritura, que a soberba foi a causa da queda de Lúcifer; mas não se pode dizer com tanta certeza em que consistiu esta soberba. Crê-se geralmente (e Santo Tomás é desta opinião) que, como os Anjos foram criados na graça e justiça, Deus quis que eles merecessem a felicidade eterna pelo uso da sua liberdade. Durante este tempo de prova, Deus descobriu-lhes alguns desígnios da sua Providência, especialmente a Encarnação do Verbo, e ordenou-lhes que O adorassem, em sua união hipostática com a natureza humana. 
   Cativado da sua própria excelência, Lúcifer ressente-se com semelhante ordem. É-lhe penoso humilhar-se diante de um homem. Pensa que, se a Divindade deve unir-se intimamente a uma de suas criaturas, nenhuma pode haver que mereça essa honra tanto como ele. O profeta Ezequiel fala na verdade da soberba do rei de Tiro, mas a Santa Igreja aplica a passagem também a Lúcifer: "O teu coração se elevou no teu esplendor; perdeste a tua sabedoria por causa do teu brilho" (Ezequiel XXVIII, 17). O dragão, diz São João, arrastou com a sua cauda a terça parte das estrelas do céu... (Apocalipse XII, 4). 
   O grande Arcanjo Miguel indigna-se com a ofensa feita ao supremo Senhor. "Quis ut Deus?" exclama ele; quem é comparável a Deus? Quem pode desobedecer , quando Ele manda? A sua fidelidade consolida a dos Anjos bons; com ele declaram-se a favor de Deus, repetindo: "Quem como Deus?" Combatem contra Lúcifer, e vencem-no. A sua prova acaba e São Miguel  com os Anjos fiéis são confirmados em graça. A partir de então Deus descobre-lhes toda a magnificência dos seus encantos; veem-No face a face; possuem-No. 
   Como não ser devoto de São Miguel! É nosso protetor! Para tanto, Deus lhe deu grande poder e bondade. Quando o demônio quer arrastar o povo de Israel à idolatria, a pretexto de honrar o corpo de Moisés, ele opõe-se-lhe escondendo esse corpo num lugar desconhecido. Quando Faraó persegue o povo de Deus, ele afoga no mar Vermelho o príncipe infiel e todo o seu exército. É outrossim, reservada a São Miguel, a missão de exterminar o Anti-Cristo nos últimos dias do mundo. Assim, São Miguel, primeiro ministro da Providência, protege todos os fiéis que o honram com um culto especial. Debaixo das suas ordens, todos os Anjos, participando do seu poder e bondade, trabalham na salvação dos homens e combatem juntos o inimigo do gênero humano. Dirigidos por ele, os nove coros dos Anjos cumprem cada um a missão ligada ao nome que o Espírito Santo lhe deu na Sagrada Escritura. Cada um dos Anjos nos assiste em particular; os Arcanjos prestam-nos uma proteção mais alta e em casos extraordinários; as Virtudes obram os prodígios que entram nos desígnios de Deus a respeito da nossa salvação; as Potestades amparam-nos nos combates da vida; os Principados governam os reinos para bem da religião; as Dominações defendem o supremo domínio de Deus sobre a Terra; os Tronos vigiam o reino de Deus nas almas; os Serafins e Querubins procuram infundir nos nossos corações as ardentes chamas da caridade. 
   
   Inimigo do orgulho e da mentira à exemplo de São Miguel, a Santa Madre Igreja quer que o católico seja militante; que coopere diretamente nesta luta contra o mal e o erro. Na verdade, Deus não carece da criatura para sua defesa. Com um ato de vontade podia esmagar os seus inimigos. Mas como na grande revolução que houve no mundo invisível, entre os anjos, não entrou na liça pessoalmente, mas confiou na ação dos anjos bons, assim agora sabe Ele muito bem porque nos entrega à luta e permite que de todos os lados soframos vitupérios, descomposturas e injúrias por causa da Santa Religião. Diz São Paulo: "Os que querem viver piedosamente com Jesus Cristo, hão de sofrer perseguições". Nós não podemos ser do mundo cujo príncipe é o Maligno, por isso o mundo nos odiará. Este é o sinal dado pelo próprio Divino Mestre. E ai daquele que se envergonhar de Nosso Senhor Jesus Cristo! A luta que São Miguel teve de sustentar, em tudo se iguala à nossa. Seus adversários eram os anjos revoltosos, que não mais queriam prestar homenagem a Deus. Hoje são os homens que desenrolam a bandeira da guerra contra Deus, contra os seus mandamentos, mandamentos estes que nunca mudam porque foram feitos na justiça e equidade. São perfeitas as Leis de Deus. Temos que defendê-las: "Quem como Deus?"?
   Caríssimos, a revolução de hoje também chefiada por Lúcifer e seus asseclas - espíritas, maçons, comunistas,  maometanos, modernistas etc. - esta revolução, digo, trabalha aberta e distintamente, atrás da máscara, com mentiras, seduções, calúnias e mil artifícios diabólicos para arrancar  as Leis de Deus dos corações dos homens. A destruição da família, pelo divórcio, pelas uniões homossexuais, pela legalização de abortos, pelo afastamento das práticas de religião de muitos católicos em virtude de escândalos de novos Iscariotes, o relaxamento da moral, a propaganda franca de ideias comunistas - TL - não é tudo isto uma nova investida furiosa e decidida do inferno contra o trono de Deus? 
   Caríssimos, nós católicos estamos colocados no meio deste mundo anticristão que cobiça nossa solidariedade. Dia por dia, nos vemos diante da decisão: ou Cristo ou Satanás. Fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo ou abandoná-Lo. A luta é terrível!!! Pois bem, caríssimos, na indecisão, na tentação é o exemplo de São Miguel que nos deve orientar. 

   Gloriosíssimo Príncipe da Milícia celeste, São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate contra o Demônio e os seus asseclas. Vinde em socorro dos homens que Deus criou à Sua imagem e semelhança e resgatou a enorme preço da tirania do demônio. Grande defensor da Santa Igreja, extingui as heresias, exterminai os cismas e confundi a incredulidade. Prendei o dragão, a antiga serpente, que é o demônio e satanás, e precipitai-o acorrentado no abismo, para que não mais seduza as nações. Defendei-nos no combate, a fim de que não pereçamos no dia do juízo tremendo. Preservai-nos das tentações do demônio e  firmai nossos passos vacilantes e não permitais que nós abandonemos a senda que conduz ao céu. Amém!


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A PAIXÃO DE JESUS NOS SANTIFICA


"Embora fosse Filho de Deus, aprendeu (por experiência própria) a obediência pelas coisas que sofreu; consumado (em perfeição), tornou-se a causa da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, sendo chamado por Deus pontífice segundo a ordem de Melquisedeque" (Hebreus, V, 8 e 9).

Jesus Cristo é o novo Adão e representava toda a humanidade. Destruiu o pecado e restituiu-nos a graça. Filho de Deus, uniu-se a uma raça pecadora, embora o pecado O não tenha atingido pessoalmente. Mas tomou sobre Si os pecados de todos os homens, como, aliás, profetizara Isaías: "(Deus) colocou sobre Ele a iniquidade de todos nós" (Is. 53, 6). Jesus representa a todos, e, por isso mesmo, satisfaz por todos nós. Tornou-se, por amor, solidário dos nossos pecados, e nós, pela graça merecida por Ele na Cruz, tornamo-nos solidários das suas satisfações.

E, caríssimos, o valor dos merecimentos de Jesus, é infinito, porque Ele é um Deus. Sofreu como homem, isto é, na sua natureza humana, no entanto, essas dores e o mérito que trazem é dum Deus. Donde, conclui-se na Teologia que Jesus mereceu para nós, todas as graças e todas as luzes. Eis o que diz S. Paulo: "...Dando graças a Deus Pai,[q. nos deu seu Filho]que nos fez dignos de participar da sorte dos santos na luz, o qual nos livrou do poder das trevas, e nos transferiu para o reino do Filho do seu amor, no qual, pelo seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados"  (Colossenses I, 12-14). Nosso Senhor Jesus Cristo é a causa de nossa santidade e salvação. A força de santificação dos sacramentos vem da Cruz; só têm eficácia em continuidade com a Paixão de Jesus. E assim n'Ele possuímos tudo; nada n'Ele falta do que precisamos para a nossa santificação. "Sua redenção é copiosa". como fora predito pelo profeta Rei no Salmo 139, vers. sétimo. O sacrifício de Jesus Cristo, oferecido em prol de todos, deu-Lhe o direito de nos comunicar tudo quanto mereceu. O próprio Jesus declarou que quando fosse levantado na cruz, seria tão grande o Seu poder, que atrairia a Ele todos aqueles que n'Ele tivessem fé (cf. João. XII, 32 ). E, caríssimos, quando fitarmos o Crucifixo, pensemos nesta promessa infalível do Nosso Pontífice Supremo; ela é a fonte da mais absoluta confiança. Como argumenta São Paulo: Se morreu por nós, sendo como éramos, seus inimigos, que graça de perdão, de santificação, poderá recusar-nos agora que detestamos o pecado, que procuramos desapegar-nos das criaturas e de nós mesmos para só a Ele agradar?

Mas, talvez alguém, um tanto envenenado por teorias protestantes, pense que agora, basta crer que o Senhor Jesus nos salvou. Para desfazer tal engano é suficiente refletirmos nestas palavras de São Paulo, palavras estas profundas, embora aparentemente estranhas: "Eu que, agora, me alegro nos sofrimentos por vós e que completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja..." (Colossenses I, 24). Há uma verdade capital que devemos meditar: O Verbo Encarnado, Chefe da Igreja, tomou a Sua parte das dores, a maior; mas quis deixar à Igreja, que é o Seu Corpo Místico, uma parte de sofrimento. Dissemos palavras "estranhas": porventura falta alguma coisa aos sofrimentos de Cristo? Evidentemente que não, e Santo Agostinho responde: "O Cristo total, é formado pela Igreja unida ao seu Chefe, à sua Cabeça, que é Jesus Cristo. O Chefe sofreu tudo quanto devia sofrer. Só falta que os membros se quiserem ser dignos do Chefe, suportem a sua parte de dores". Temos, pois, como membros de Cristo, de nos unir aos Seus sofrimentos. Cristo reservou-nos uma participação na Sua Paixão, mas, ao mesmo tempo, colocou ao lado da Cruz a força necessária para a levar. É que, diz S. Paulo, Jesus Cristo, "tendo experimentado o sofrimento, tornou-se para nós um Pontífice cheio de compaixão" (Hebr. II, 17 e 18; IV, 15; V, 2).

Na Cruz Jesus Cristo representava a todos; mas, se sofreu por todos nós, não nos aplica os frutos da sua imolação, se não nos associarmos ao Seu sacrifício. E isto fazemos de três modos: 1º - Contemplando com fé e amor a Jesus nos diferentes passos da Sua Paixão. Este deve ser o tema principal de nossas meditações. Aliás ao rezarmos o Santo Rosário, fazemo-lo todos os dias. Quem reza quotidianamente o Terço, nas terças e sextas-feiras, faz esta meditação. Outro exercício muito benéfico às almas é a Via Sacra. E é óbvio, devemos todos os anos participar com fé e muita devoção as Cerimônias da Semana Santa.

2º - Participando com fé e grande devoção do Santo Sacrifício da Missa. O próprio Jesus Cristo instituiu-o para perpetuar  até ao fim do mundo, a memória e os frutos de Sua oblação no Calvário. No Altar reproduz-se a mesma imolação que no Calvário. É o mesmo Pontífice, Jesus Cristo, que se oferece ao Pai pelas mãos do sacerdote. É a mesma vítima. A única diferença é a maneira de oferecer: no Calvário foi cruenta, na Missa é incruenta. Caríssimos, participaremos de maneira mais perfeita e completa se nos unirmos a Jesus também pela comunhão sacramental.

3º - Associando-nos a Paixão de Jesus: fazemos isto na medida em que suportamos por amor d'Ele, os sofrimentos e adversidades, que nos desígnios de Sua Providência nos envia. A cada um de nós dá Deus também uma cruz para levar. Devemos aceitá-la sem discutir, sem dizer: "Deus podia mudar tal ou tal circunstância de minha vida". Nosso Senhor diz-nos: "Se alguém quer ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me". Nesta aceitação generosa da nossa cruz, encontramos a união com Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque, notai bem, levando a nossa cruz, levamos realmente uma parte da de Jesus. Jesus Cristo, que quis ser ajudado pelo Cirineu, diz-nos: "Aceitai esta parte dos meus sofrimentos que, na minha divina presciência, vos reservei no dia de minha Paixão". Digamos-Lhe com todo amor: "Sim, divino Mestre, aceito esta parte de todo o coração, porque vem de Vós". Tomemo-la por amor d'Ele e em união com Ele.

Caríssimos, as pessoas pouco espirituais e mais ainda, as que seguem as máximas do mundo, não são capazes de entender esta linguagem da cruz. Devem pensar que estamos aqui, mas a nossa Pátria definitiva é o Céu. Jesus disse: "Foi necessário o Filho do Homem sofrer antes de entrar na Glória"; e vamos pretender nós merecer o Paraíso, sem sofrer em união com Jesus Cristo? Meditemos, então nesta palavra do Apóstolo: "O mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito, de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também somos herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; mas isto, se sofremos com Ele, para ser com Ele glorificados. Efetivamente, eu tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória vindoura, que se manifestará em nós" (Rom. VIII, 16-18). É isto que os santos tinham sempre em mente e é com esta meditação  que os mundanos devem se converter. Dia virá, mais cedo do que pensamos, em que a morte estará próxima; estaremos deitados no leito, sem movimento; os que nos rodeiam fitar-nos-ão em silêncio, na impossibilidade de nos ajudarem; deixaremos de ter contato com o mundo exterior; a alma estará a sós com Jesus. Saberemos então o que é ter  "estado com Ele em suas provações"; ouvi-Lo-emos dizer, nesta agonia que é agora a nossa, suprema e decisiva: "Não me deixaste na minha agonia, acompanhaste-Me quando Eu ia para o Calvário, para morrer por ti; aqui estou Eu agora; estou ao teu lado para te ajudar, para ti levar comigo; não temas, tem confiança, sou Eu!" Poderemos, então, repetir com confiança a palavra do Salmista: "Por isso, ainda que ande nos meio da sombra da morte, não temerei males, porque estás comigo. Tua vara e teu báculo me consolaram" (Salmo XXII, 4).

Caríssimos, aprendamos as lições da Paixão de Jesus Cristo. Contemplando a Jesus na Sua Paixão, perguntemo-nos se há em nós honra, estima humana que defender, quando Ele sacrificou a sua pelos homens. Recorramos a Ele, confiemos n'Ele tão cheio de humilhações, e consideremos como inestimável vantagem ter parte nelas. Como beijar a cruz se não queremos honrá-la com o nosso próprio sacrifício? Jesus rechaçou tudo que pudesse suavizar seus tormentos. Sem dúvida foi plano Seu permitir que todos seus membros sucessivamente ou em conjunto, fossem maltratados, de tal sorte que na cruz era uma vítima perfeita e completa. Suficientemente sua vontade e máximas são manifestas por nós em sacrifício: não somente sua honra senão também seu corpo. Como ser discípulo de Jesus sem conformarmo-nos a estas máximas? Sem pô-las em prática? O divino Salvador entregou seu corpo a todo sacrifício e todo ultraje e nós queremos resguardar nosso corpo e tratá-lo com mais cuidado e veneração do que se fosse uma relíquia. Queremos, por assim dizer, trazê-lo dentro de uma caixa de algodão. "Fica bem, diz S. Bernardo, membros assim tão delicados, debaixo de uma Cabeça coroada de espinhos? Os santos sim, são tradução fiel da doutrina, sentimentos e exemplos de Jesus Cristo. São Francisco de Assis dizia: "Devemos aceitar o Evangelho sem interpretações e adaptações humanas". E sabemos como assim fez o "Poverello"!

Caríssimos, não imitemos a Barrabás que passando diante da Cruz, diria talvez: "Eu devia estar crucificado no lugar deste homem; eu estou livre e ele ... que se vire! Tais seriam em essência, nossos sentimentos se não quiséssemos sofrer nada. Mas, pelo contrário, nunca devemos esquecer que uma cruz que sabemos conservar secreta ou de que só falamos a Deus no fervor da oração, é fonte de muitas graças. No espelho do Crucifixo procuremos ver o abismo da divina misericórdia, a grandeza do divino Amor e o valor de uma alma. Um Deus dá sua vida pelas almas!!! Vemos o excesso do amor de Deus em nos dando todos os bens e vemos muito mais excessivo ainda este amor em tomar para Si todos os nossos males.


Ó Jesus, ó meu Deus, não compreenderei eu que sois o único Senhor cuja estima devo desejar e cujo vitupério devo temer? Ó doce Jesus, sede a única e total paixão de minha vida, meu tudo, todo meu amor! Senhor, que eu tenha não meras veleidades, mas que, por amor a Vós e em união convosco, eu trabalhe, lute, faça penitência e carregue a cruz. Amém! 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A PAIXÃO DE JESUS CRISTO


"Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas, ele mesmo carregou com as nossas dores; nós o reputamos como um leproso, como um homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa das nossas iniquidades, foi despedaçado por causa de nossos crimes; o castigo que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele, e nós fomos sarados com as suas chagas... e o Senhor carregou sobre ele a iniquidade de todos nós" (Isaías 53, 4-6).

De todas as meditações que possamos fazer, esta é, sem sombra de dúvida, a que maior bem pode fazer às nossas almas!

A Paixão de Jesus Cristo marca o ponto culminante da obra que vem realizar neste mundo, obra esta para qual todas as outras convergem ou da qual tiram seu valor e eficácia. Para Nosso Senhor Jesus Cristo é a hora em que consuma o sacrifício que deve dar ao Pai glória infinita, redimir a humanidade e reabrir aos homens as fontes da vida eterna. Jesus chama "a sua hora"! "Devo ser batizado com um batismo  -   o batismo de sangue  -  e quão grande é a minha ansiedade até que ele se conclua!" (S. Lucas XII, 50). E quando chega esta hora, Jesus entrega-se com o maior ardor, apesar de conhecer de antemão todos os sofrimentos que devem despedaçar-Lhe o corpo e a alma: "Desejei com o maior ardor comer esta Páscoa convosco, antes de sofrer a minha Paixão" (S. Lucas XXII, 15). Diz S. Paulo: "Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo" (Efésios V, 25). A Igreja aqui significa o reino daqueles que devem formar o Corpo Místico de Jesus (cf. 1 Cor. XII, 27). Jesus amou esta Igreja, e foi por a ter amado que se entregou por ela. Eis o que moveu Jesus a sofrer e morrer: o amor. Sem dúvida, antes e acima de tudo, foi por amor ao Pai que Jesus Cristo quis sofrer a morte na Cruz, como Ele mesmo diz expressamente: "Mas é preciso que o mundo conheça que eu amo o Pai e que faço como Ele me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui"  (S. João XIV, 31), e foi para o Horto das Oliveiras (cf. S. João XVIII, 1). Mas é também o seu amor para conosco. Aliás esta era a vontade do Pai, como disse a Pedro: "Não hei de beber o cálice que o Pai me deu?" (S. João XVII, 11).

Na ultima Ceia, que diz aos Apóstolos, congregados em volta d'Ele? "Não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos" (S. João XV, 17). Demais, entregou-se à morte livremente: "Oblatus est quia ipse voluit" (Isaías 53, 7)= "Foi oferecido (em sacrifício) porque ele mesmo quis". E, caríssimos, esta liberdade com que Jesus Cristo dá a sua vida por nós, é absoluta. Meditemos: "Deus amou o mundo a ponto de lhe dar o Seu Filho único", e Jesus Cristo, por sua vez, amou os seus irmãos a ponto de se entregar a si mesmo total e espontaneamente para os salvar. Sua alma e seu corpo, em verdade, são dilacerados, esmagados pelos sofrimentos. Não há nenhum sofrimento que Jesus não experimente. Já no Getsêmani dissera: "A minha alma está triste até a morte!" Que abismo! Um Deus, Poder e Beatitude infinita, "acabrunhado pela tristeza, pelo pavor e pelo tédio". O Verbo Encarnado conhecia todos os sofrimentos que iam cair sobre Ele durante as longas horas de sua Paixão. Esta visão fazia nascer na Sua natureza sensível toda a repulsa que teria sentido uma simples criatura. Na Divindade a que estava unida a Sua alma via claramente todos os pecados dos homens, todos os ultrajes feitos à santidade e ao amor infinito de Deus. Via a inutilidade de Seu Sangue para muitos, para os quais Jesus seria ruína, como predissera o Velho Simeão. Tomou sobre si todas estas iniquidades e sentia pesar sobre sua cabeça toda a Justiça divina. Mas Jesus tudo aceita. Sai do Jardim e vai ao encontro dos seus inimigos. Traído pelo beijo de um dos Seus apóstolos, acorrentado pela soldadesca como um malfeitor, é levado ao Sumo Sacerdote. Ali cala-se no meio das falsas acusações. Fala apenas para proclamara que é o Filho de Deus. Jesus, Rei dos mártires, morre por haver confessado a Sua divindade, e todos os mártires darão a vida pela mesma causa.

Pedro, Chefe dos Apóstolos, por três vezes renegou a Jesus. Foi esse, sem dúvida, para o nosso divino Salvador um dos mais profundos sofrimentos daquela terrível noite.

Os soldados guardam Jesus e cobrem-No de injúrias e maus tratos. Vendam-Lhe os olhos e dão-Lhe bofetadas. Homens perversos, mancham com nojentos escarros aquela face adorável que arrebata os Anjos! 

Logo de manhã foi conduzido ao Sumo Sacerdote, depois arrastado de tribunal a tribunal; tratado por Herodes como louco e insensato, Ele, a Sabedoria eterna; açoitado por ordem de Pilatos; os algozes ferem sem dó a vítima inocente, cujo corpo se torna logo uma chaga viva. Enterram na cabeça de Jesus uma coroa de espinhos, e cobrem-No de escárnios.

O covarde governador romano imagina que o ódio dos judeus ficará satisfeito vendo Jesus Cristo naquele triste estado; apresenta-O à multidão: "Ecce homo", Eis aqui o homem! Contemplemos neste momento o divino Mestre mergulhado nesse abismo de sofrimentos e humilhações, e pensemos que o Eterno Pai também no-Lo apresenta, dizendo: "Eis aqui o meu Filho, o esplendor da minha glória, ferido por causa dos crimes do meu povo: "Eu o feri por causa dos crimes do meu povo" (Isaías 53, 8).

Jesus ouve os gritos daquela populaça enfurecida que Lhe prefere um bandido e em paga de todos os benefícios que d'Ele recebeu, reclama a Sua morte: "Crucifica-o, crucifica-o!" É, pois, pronunciada a sentença de morte; e Jesus Cristo tomando em seus ombros feridos a pesada cruz, dirige-se para o Calvário. À vista de Sua Mãe tão ternamente amada e cuja dolorosa aflição compreende melhor do que ninguém! A aflita Mãe vê quando o despojam das suas vestes, sente em seu Imaculado Coração o eco sinistro das cruéis marteladas que prendem-no na Cruz com pontiagudos cravos. Como Maria Santíssima deve ter sentido quando ouve Seu Filho dizer: "Tenho sede!" e não poder mitigá-la. Ouve os odiosos sarcasmos dos seus piores inimigos. Enfim, o abandono por parte do Pai Eterno: "Pai, por que me abandonaste?".

Jesus bebeu o cálice da amarguras até a última gota; realizou tudo o que fora predito: "Consummatum est" , sim tudo está consumado, só Lhe resta entregar a alma ao Pai: "E inclinando a cabeça, entregou o espírito" (S. João XIX, 30).

Ajoelhemo-nos e cada um diga do fundo da alma: "Ó Divino Salvador que tanto sofrestes por amor de nós, prometo-Vos fazer o possível por não mais pecar. Fazei pela Vossa graça, ó Mestre adorável, fazei com que morramos para tudo quanto é pecado, apego do pecado ou à criatura, e que só vivamos para Vós!" "O AMOR DE QUE JESUS CRISTO NOS DEU PROVA MORRENDO POR NÓS DEVE FAZER COM QUE AQUELES QUE VIVEM JÁ NÃO VIVAM PARA SI, MAS PARA AQULE QUE MORREU POR ELES" (2 Cor. V, 15).


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


"Tirai as águas com alegria das fontes do Salvador" (Isaías XII, 3).

Ouçamos em primeiro lugar, duas almas privilegiadas do Sagrado Coração de Jesus, almas as quais Nosso Senhor Jesus Cristo fez revelações importantíssimas sobretudo referentes aos sacerdotes. Penso não ser supérfluo lembrar que estas revelações foram aprovadas pela Igreja e são citadas frequentemente por escritores sábios e santos, e até mesmo por santos canonizados pela Santa Igreja.

Por uma óbvia razão, cito primeiramente Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa da Visitação: "Oh!  - exclama ela  -  não poder eu dizer a todo mundo o que sei desta amável devoção! Não sei de exercício mais próprio na vida espiritual para elevar uma alma à mais alta perfeição. Nosso Senhor me descobriu os tesouros de caridade e de graças para as pessoas que se consagrarem a honrá-Lo e amá-Lo, e são tesouros tão grandes que dizer me é impossível. Deu-me a conhecer que os que trabalham na salvação das almas, alcançarão êxito maravilhoso e possuirão o segredo de tocar os corações mais endurecidos, se estiverem penetrados de uma terna devoção a este Coração divino. Jesus Cristo me assegurou que sentia um prazer todo especial em ser honrado sob a figura deste coração de carne, e queria a sua imagem exposta em público afim de tocar os corações insensíveis dos homens. Declarou-me que derramaria em abundância no coração dos que O honrarem todos os tesouros de graças de que está cheio, e que lá onde a sua imagem fosse particularmente honrada atrairia toda sorte de bênçãos. O Sagrado Coração de Jesus é o tesouro de todas as graças e a nossa confiança n'Ele é a chave deste tesouro. Ah! como é doce morrer depois de ter tido uma devoção constante ao Coração daquele que nos deve julgar".

Outra alma privilegiada do Sagrado Coração foi sem dúvida a Madre Luisa Margarida Claret de La Touche. Fundou a "Aliança Sacerdotal Universal dos Amigos do Sagrado Coração" e, sob os auspícios de S. Pio X, fundou o novo instituto de "Betânia do Sagrado Coração", com a finalidade de servir a Jesus Sacerdote nos seus sacerdotes. É fruto de suas devotas contemplações o livro: "Le Sacré Coeur et le Sacerdote". Esta piedosa religiosa, que foi dirigida do Padre Charier, faleceu em 1915 em odor de santidade.

Em 1902, diz Mons. Ascânio Brandão, esta alma privilegiada ouviu a doce voz de Jesus no sacramento do amor: "Se o sacerdote soubesse que tesouros de amor lhe estão reservados no meu Coração! ... Que venha ao meu Coração, e beba desta fonte e encha-se de amor, até transbordar e derramá-lo sobre o mundo. Margarida Maria, continua Jesus, mostrou meu Coração aos homens, tu mostra-O aos meus sacerdotes, atrai-os todos ao meu Coração..., quero dar-lhes a conhecer um segredo todo particular do meu Coração ... Eu preciso deles, para coroar minha obra ... Meu Coração é o cálice do meu Sangue; se há alguém que tenha direito e obrigação de achegar-lhe os lábios, não é porventura o sacerdote que bebe todos os dias do cálice do Altar? Venha, portanto, ele ao meu Coração e beba" (Livro: Au service de Jésus Prêtre). E no outro livro: "Le Sacré Coeur et le Sacerdote" diz: "É principalmente aos sacerdotes que este Sagrado Coração quer manifestar-se, a esses chamados por Ele para reacender e vivificar sobre a terra o fogo da caridade. Por sua bondade inefável Ele quer ter necessidade deles, para completar seus desígnios, e o que poderia operar diretamente nas almas, por meio da graça, não o faz  -  por via de regra  -  senão mediante o concurso deles. Oh! se o sacerdote soubesse que tesouros de ternura encerra para ele o Coração de Jesus! Com que ardor se atiraria àquela fonte divina, para encher-se de amor, até transbordar".

"Oh! diz o piedoso e sábio Mons. Ascânio Brandão, bebamos o amor no Coração de Jesus e transbordemos em amor para as almas. A missão do padre é acender nos corações o fogo divino do amor que abrasa o Coração de Jesus! Não sejamos ingratos. Como ferem o divino Coração de Jesus, a indiferença, a tibieza, a ingratidão dos seus padres! "Os outros, disse Nosso Senhor a Santa Margarida, se contentam com açoitar o meu corpo, mas os sacerdotes dirigem seus golpes diretamente ao meu Coração".

Assim, amados irmãos no sacerdócio, celebremos com muito zelo as nove primeiras sextas-feiras para merecermos a promessa do Sagrado Coração de Jesus. Propaguemos o culto do Coração de Jesus. "Aí ,  -  diz Mons. Ascânio Brandão, de santa memória,  - está o segredo  do padre fervoroso e das paróquias reformadas e afervoradas em pouco tempo. A tibieza é o flagelo de muitos padres. Há um meio seguro para sair de um estado tão lastimável: a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. É difícil, é um milagre sair da tibieza um sacerdote que abusou tanto da graça, mas este milagre o tem realizado centenas de vezes o Sagrado Coração de Jesus!"

"Oh! - exclama o Padre Santini, se todos os sacerdotes soubessem conduzir com fé, para este tesouro, para este oceano de felicidade, todos quantos sentem fome e sede de justiça! Como as almas fugiriam de boa vontade dos manjares mortíferos! Como se negariam a beber junto das mil  "cisternas rotas" (Jer. II, 3) que não sabem matar a sede! Como, unido ao Sagrado Coração de Deus, encontraria o coração completa satisfação na torrente de suas delícias (Salmo 35, 9), na paz profunda que o mundo não pode dar! "Quem beber da água que Eu lhe der, não terá mais sede" (S. João, IV, 13). E que fontes de méritos, caríssimos colegas no sacerdócio, encontramos neste sublime apostolado, nós os ministros do infinito Amor! Porque  -  notai bem  -  se um alimento material, se um copo d'água fresca oferecido por amor de Jesus, é digno de um prêmio eterno, que recompensa deverá esperar aquele que concorre com Jesus, por seu amor, para saciar a fome das almas, para extinguir a sede de Deus? Quem poderá descrever o agradecimento do Redentor para com os sacerdotes que souberam verdadeiramente conduzir as almas ao seu Coração, como o quer a Igreja, que é a coluna e o fundamento da verdade!

"Mas, diz o Padre Santini, é na verdade uma dolorosa contestação, fruto de uma longa experiência: dizei-me, quantas são as almas sacerdotais que tomam a sério e verdadeiramente praticam uma sólida e constante devoção ao Sagrado Coração? Quantos há que a propagam com zelo entre o povo?" Diz o célebre e piedoso Mons. D'Hulst: "O mistério não consiste tanto no fato de que existem almas nas quais Deus reina pelo amor, desde o momento em que Deus é amor, e que se revela ao coração humano. O profundo mistério consiste em que estas almas sejam tão raras e que a revelação do amor encontre tão pouco acolhimento da parte da humanidade. Este mistério, sim, faz passar a fé por uma dura prova! Como é possível que entre todos os patrões, seja o Onipotente o menos bem servido?"
Precisamos, mais do que nunca, do grande apostolado da Padroeira das Missões, Santa Teresinha do Menino Jesus: Rezar pelos padres!!! E, caríssimos, como precisamos do Coração de Jesus, para nós padres debelarmos esta crise terrível tanto na sociedade, como dentro da própria Igreja! Fenômeno impressionante, pavoroso: a ignorância, a incredulidade, o ódio e a corrupção atual, e pouco fagueiras as previsões do futuro. Os padres, infelizmente na sua grande maioria, não propagam com zelo entre o povo, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. E não procuremos, portanto, somente em outras fontes, a origem  de tantas defecções públicas e particulares, de tantos deploráveis escândalos, desta lepra de impureza que contagia, desta enxurrada de impiedade que tudo envolve e afoga, desta leviandade insana, que leva sem motivo ao suicídio, como a um remédio radical, deste ceticismo que se propaga sempre mais e sacrifica todo o ideal mais santo ao instinto brutal e ao capricho, desta atmosfera paganizante que nos oprime pelas modas e pornografia oferecidas pela televisão e Internet (usada para o mal), saturada com os bacilos do pecado, impregnada de germens deletérios provindos de depósitos em putrefação, deste vento de insensatez que sopra implacável sobre o mundo, deste aborrecimento eterno, imenso, que se obstina em considerar a vida sem valor, vive-se um paganismo: "Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". Talvez mais do que nunca, Satanás é o príncipe deste mundo. Pobre mundo que vai em procura de adivinhos, consulta os astros, as mãos, os médiuns, os ciganos, os astrólogos e chega mesmo a consultar diretamente os demônios, evoca os mortos, entra nos templos da teosofia, do espiritismo, do ocultismo, da satanismo. Desconhece que tudo deve ser restaurado em Jesus Cristo. Ignora os tesouros do Sagrado Coração de Jesus. No Concílio Vaticano II, respirou-se ecumenismo, os Padres do Concílio (com poucas exceções) acharam que a solução seria elogiar as falsas religiões, inclusive o Islamismo. Agora, sofremos o castigo! Parece que os Padres do Concílio Vaticano II responderiam às revelações do Sagrado Coração de Jesus em Paray (pelo menos na prática): "Não entendemos nada, não Vos acreditamos, não nos interessa, não queremos saber... nada compreendemos desta cruz, destes espinhos, deste sangue, destas chamas!" Ah! caríssimos, como foi triste! E depois de mais de meio século colhemos os frutos que mostram claramente que a árvore não era boa. Poderia haver na própria Hierarquia da Igreja irreverência maior, insipiência mais deplorável e mais injustificada?

Será que os Padres no Concílio Vaticano II, pelo menos em sua grande parte, pensaram assim: vamos tomar como modelo o nosso Patrono, o Santo Cura d"Ars? Infelizmente não, com certeza!. E o que S. João Batista Maria Vianney dizia do Sagrado Coração? Exclama soluçando na sua lírica tão simples e eficaz: "Oh! Coração cheio de amor, flor do amor! e a quem amaremos nós, se não amamos o Coração de Jesus? Naquele Coração adorável não há outra coisa senão amor: como é possível esquecer que está tão cheio de amabilidade?"

O beato Pio IX dizia: "Pregai por toda parte a devoção ao Sagrado Coração: ela deve salvar o mundo!"

O célebre jesuíta (jesuíta dos seus bons tempos) o padre Quintana dizia assim: "A devoção ao Sagrado Coração é à Pessoa de Jesus que ama e não é amado; honra-se nela não um Cristo fantástico e idealizado, mas o mesmo Jesus do Evangelho e da Eucaristia, e considera-se a Pessoa de Jesus real, naquilo que Ele nos oferece de mais nobre e de mais atraente, isto é, seu amor. É ridículo, portanto, dizer: sou devoto de Jesus, mas não de seu Coração; porque o Sagrado Coração é Jesus todo inteiro, Jesus que nos ama; é seu amor expresso como em símbolo eficaz e natural, é seu amor centro de sua vida, e o motor principal, antes único, de todas as suas ações; é seu amor considerado em si mesmo, no seu complexo e na sua totalidade".

Caríssimos, daquele Coração divino saíram a Igreja, os sacramentos e as graças todas de que dispomos. O Coração aberto de Jesus é a fonte das águas da salvação. Tal é a doutrina dos Santos Padres: Como Eva saiu do lado de Adão, assim a Igreja saiu do lado de Jesus, A água é símbolo da batismo e o sangue é símbolo da Eucaristia.

Maria Santíssima e o escasso grupo que A rodeia: S. João Evangelista, e as Santas Mulheres, ali no alto do Calvário, contemplam este mistério, com sentimentos de dor, de compaixão, de adoração, de amor e reparação e nos oferecem um modelo a imitar. É a primeira homenagem de amor e reparação oferecida ao Sagrado Coração e o primeiro ato de sua devoção. Assim se revelou e se estabeleceu pela primeira vez a devoção ao Sagrado Coração de Jesus com seu objeto próprio, que é o mesmo Coração do Salvador, sede e símbolo do amor com os motivos e atos que constituem esta devoção que são fundamentalmente amor e reparação.


Eu Vos adoro, amoroso Coração de Jesus, que estás no Céu e na SS. Eucaristia junto conosco! Com a suavidade de Vosso Coração, minhas dores se dulcificam. Ó ferida feliz, aberta pela lança, fonte de graças que com ela se nos abriu e não se fecha mais. Sagrado Coração de Jesus, eu confio em Vós. Amém!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O AMOR DAS CRUZES


"Bem-aventurados os que choram... Bem-aventurados sois quando vos insultarem e vos perseguirem, e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim" (S. Mateus V, 5 e 11).


Além da paciência nos sofrimentos, Nosso Senhor Jesus Cristo quer que os amemos. Quer que tenhamos amor às cruzes, como aliás Ele teve e ardentíssimo: "Eu tenho de ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua! (S. Luc. XII, 50). Jesus sabia que sua morte seria a vitória sobre o pecado, o demônio e o mundo. "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Dizia isto para designar de que morte havia de morrer) (S. João XII, 32 e 33).

Inicialmente já devemos deixar claro que se trata de algo na vida espiritual por poucos compreendido. Alegria nos sofrimentos e amor verdadeiro às cruzes, na verdade, é um dom que Deus concede às almas generosas. E para recebê-lo, tiveram  que se preparar, dominando a natureza. Assim, na aquisição deste dom faz-se mister primeiramente, dominando a natureza, tão ávida de gozos, desenvolver em si um ardente amor, por meio de uma vida de intima união e de corajosos sacrifícios. Como diz a Imitação de Cristo, "o desejo de sofrer para assemelhar-se a Jesus inspira tanta coragem, que a alma não deseja ficar isenta de tribulações e dores, porque compreende que é tanto mais agradável a Deus, quanto mais sofre por Ele" (L. II.c. XII, n. 8). A alma, que se preparou e assim recebeu este dom, pensa mais ao menos assim: "Sofro, mas é por Deus, é por Jesus que tanto sofreu por mim; reparo minhas faltas, consolo Deus das penas que Lhe causei. Sofro, portanto amo; e, sofrendo, dou provas de meu amor. Sofro, por conseguinte meu amor vai se dilatar; na eternidade será sempre maior e eu hei de amar eternamente e cada vez mais a Deus justamente na medida em que aqui na terra cada vez mais sofrer por amor a Jesus. Sofro, e sofrendo, estou unida a Jesus, continuo-lhe a obra, ou, antes, Ele mesmo a continua em mim, essa obra de dor e de salvação, segundo aquela afirmação do Apóstolo: Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo". Sofro, portanto, com Jesus pelas almas; como Ele, por Ele e com Ele alcançarei para mim e muitíssimos outros pecadores a felicidade eterna". 

Jesus quisera ver, também nos seus seguidores os sentimentos que animavam o seu Coração. Daí dizer já no início de seu sermão da Montanha: "bem-aventurados os pobres; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos; sereis felizes quando vos insultarem e disserem todo mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (S. Mat. V, 10). E os Apóstolos, a exemplo de seu Mestre, regozijaram-se de terem sido condenados e flagelados pelo nome de Jesus (Atos V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (Atos XIV, 21). Eis o que diz S. Paulo: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria..." (Colossenses I, 11). Igualmente S. Tiago escreve aos fiéis: "Tomais, irmãos, por modelo no suportar os males e os trabalhos, e na paciência, os profetas, que falaram em nome do Senhor. Vede que proclamamos bem-aventurados aqueles que sofreram" (Tiago V, 10 e 11).   

Mesmo nas coisas da terra, nada se faz de belo ou de grande, sem sofrimento, sem esforço que custa, sem a perseverança que, na verdade, é uma longa paciência. Nas coisas de Deus, caríssimos, o sofrimento é ainda mais necessário, e muito mais fecundo, segundo o que Jesus disse aos seus discípulos depois de lhes profetizar os sofrimentos: "Alegrai-vos, porque será grande a vossa recompensa no Céu!".  O sofrimento aceito de boa vontade por amor a Jesus Crucificado, triunfa do pecado e do demônio, que reina no mundo pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Que é o pecado? Na verdade, não é outra coisa senão o desdém de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Portanto, a vacina contra o pecado é o sofrimento, as privações,  a renúncia de nós mesmos e do que agrada a nossa natureza. Assim vemos como a Providência divina permite com frequência, grandes males para tirar bens maiores: guerras que terminam suscitando heroicos sacrifícios, perseguições (como nos três primeiros séculos da Igreja) para produzir mártires e santos.

Os sofrimentos, as privações, as cruzes, tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, os triunfos fáceis, o repouso e as doçuras da vida boêmia a amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz vendo-a acrisolada pela dor. Concede-lhe, então, uma abundância de graças. O sofrimento alimenta e mantém o amor. Constata-se que quem pouco sofre, pouco ama.  Mas, por outro lado, Deus, que não se deixa vencer em generosidade, concede doçura às almas que sofrem por amor a Ele. Dizia São Paulo: "Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar os que estão em qualquer angústia, pelo conforto com que também nós somos confortados por Deus. Porque, à medida que crescem em nós os sofrimentos de Cristo, cresce também por Cristo a nossa consolação." (2 Cor. I, 3-5). Davi havia experimentado os mesmos efeitos da ternura divina: "À proporção das muitas dores que atormentaram o meu coração, tuas consolações (dizia ele a Deus Nosso Senhor) alegraram-me a alma" (Salmo 93, 19). Vemos como Deus, Pai de Bondade, recompensa as almas generosas. Fá-las amar a cruz e encontrar sempre uma grande paz, uma felicidade calma e sólida, e, muitas vezes, alegrias profundas, ali, onde os cristãos pouco generosos para com Deus, não encontram senão tristezas e desolação. Mesmo quando essas almas dedicadas estão imersas na dor, não desejariam deixar de sofrer, porque sentem que assim amam melhor ao Senhor.

Não poderia terminar este assunto sem antes transcrever algo do que escreveu São Luiz Grignon de Montfort em sua admirável "CARTA CIRCULAR AOS AMIGOS DA CRUZ":

NUNCA SE QUEIXAR DAS CRIATURAS

   "Nunca vos queixeis voluntariamente e entre murmurações, das criaturas de que Deus se serve para vos afligir. Distingui, para tanto, três espécies de queixas nos sofrimentos. - A primeira é involuntária e natural: é a do corpo que geme, suspira, se queixa, chora e se lamenta. Quando a alma está resignada com a vontade de Deus, em sua parte superior, não há nenhum pecado. -  A segunda é razoável; é quando alguém se queixa e descobre seu mal aos que podem e devem tratá-lo, como um superior ou o médico. Esta queixa pode ser imperfeita, quando for muito insistente; mas não é pecado.
   A terceira é criminosa: é quando alguém se queixa do próximo para se isentar do mal que ele nos faz sofrer, ou para se vingar; ou quando alguém se queixa da dor que sofre, consentindo nessa queixa e juntando a ela a impaciência e a murmuração. 

RECEBER SEMPRE A CRUZ COM RECONHECIMENTO

   "Nunca recebais nenhum cruz sem beijá-la humildemente e com reconhecimento; e quando Deus, todo bondade, vos houver favorecido com alguma cruz um pouco considerável, agradecei-Lhe de maneira especial e fazei-o agradecer por outros, a exemplo daquela pobre mulher, que, tendo perdido todos os seus bens em virtude de um processo injusto que lhe moveram, fez celebrar imediatamente uma Missa, com o dinheiro que lhe restava, a fim de agradecer a Deus a ventura que lhe era concedida.

CARREGAR CRUZES VOLUNTÁRIAS

   "Se quereis tornar-vos dignos de receber as cruzes que vos hão de vir sem vossa participação e que são as melhores, carregar outras voluntárias, seguindo os conselhos de um bom diretor. 
    Por exemplo: Tendes em casa algum móvel inútil pelo qual tendes afeição? Dai-o aos pobres, dizendo: quererias o supérfluo quando Jesus é tão pobre?

   Tendes horror a algum alimento? A algum ato de virtude? A algum mau odor? Provai-o, praticai-o, aspirai-o. Vencei-vos. 
    
   Amais alguém ou algum objeto um pouco terna e insistentemente demais? Ausentai-vos, privai-vos, afastai-vos do que vos lisonjeia.

   Tendes uma natureza muito inclinada a ver? A agir? A aparecer? A ir a algum lugar? Parai, calai, escondei-vos, desviai os olhos. 

    Odiais naturalmente algum objeto? Alguma pessoa? Procurai-a frequentemente. Dominai-vos. 

    Se sois verdadeiramente Amigos da Cruz, o amor, que é sempre industrioso, vos fará assim encontrar mil pequenas cruzes, com que vos enriquecereis insensivelmente, sem temor da vaidade, que se mistura tão frequentemente à paciência com que suportamos as cruzes muito visíveis; e porque fostes assim fiéis em pouca coisa, o Senhor vos estabelecerá em muito, como o prometeu (Mt. XXI, 21 e 23); isto é, em muitas graças que vos dará, em muitas cruzes que vos enviará, em muita glória que vos preparará". 


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TU QUE DESCANSO BUSCAS COM CUIDADO,
NESTE MAR DO MUNDO TEMPESTUOSO
NÃO ESPERES DE ACHAR NENHUM REPOUSO,
SENÃO EM CRISTO JESUS CRUCIFICADO.
                      Camões


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

OS SOFRIMENTOS


"Então um dos anciãos, tomando a palavra, disse-me: Estes que estão revestidos de vestimentas brancas, quem são? e donde vieram? Respondi-lhe: Meu Senhor, tu o sabes. E ele disse-me: estes são aqueles que vieram da grande tribulação, lavaram os seus vestidos e os embranqueceram no sangue do Cordeiro" (Apocalipse VII, 13 e 14).

Deus o sumo Bem, criou o homem para ser feliz, já neste mundo. E de onde vêm os sofrimentos? A dor é filha do pecado. A finalidade, pois, dos sofrimentos é primeiramente reparar a honra divina ultrajada pelo pecado, e, portanto é uma punição. Tem, outrossim, como finalidade, destruir as consequentes corrupções que vieram do pecado. Na verdade, só  fora introduzida a dor no mundo, em seguida ao pecado. O pecado desmoronou toda a ordem da natureza. Agora, as rosas que tanto nos encantam, estão cercadas de espinhos, aptos a ferir quem as quiser colher.

Aqui, caríssimos, sob o termo "SOFRIMENTOS",  queremos incluir também os interiores que, por vezes, ficam ocultos no mais íntimo da alma, mas não menos pungentes que os exteriores, e até mais do que estes! Pois bem, o fogo da dor visa igualmente punir o pecado e, ao mesmo tempo, depurar a alma dessas impurezas. Deus quer consumir em nós o que Lhe ofende a pureza do olhar, e, sobre as cinzas dos nossos defeitos, fazer germinar belas virtudes. "Contraria contrariis curantur": os nossos defeitos serão curados pelas virtudes contrárias a eles. A sensualidade será destruída pela dor física; a avareza, pela perda ou diminuição dos bens; o orgulho, pelos desprezos, pelas críticas, ou até pelas calúnias; o egoísmo, pelo abandono, pela indiferença do próximo etc.. Assim, naturalmente, a dor é terrivelmente pungente e viva nas almas cheias ainda de imperfeições. Quanto às almas já mais purificadas e livres de apegos terrenos, e, consequentemente cheias de amor de Deus, estão bem dispostas a tudo aceitar de suas mãos paternais aquilo que outrora lhes fazia sofrer. Não quero dizer que não sofram tais almas, mas que nelas a dor é geralmente suscitada por causas mais nobres e assim sofrem pelas ofensas feitas a Deus. Demais, a esses sofrimentos une-se uma paz cheia de doçura, uma resignação total que alivia, que torna amáveis as próprias dores.

Já que em Deus a Justiça e a Misericórdia se osculam e ambas andam de perto, depois do pecado, a dor não é somente fruto da Justiça divina, mas também de sua misericórdia: Deus, enviando a dor aos homens, se esses souberem aproveitar, podem dela  auferir inapreciáveis vantagens. Vamos, pois, com a graça de Deus, considerar aqui os grandes benefícios dos sofrimentos:

1º - Desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu e torná-lo apto a receber a graça divina:

Sem o sofrimento preparado pela Providência, ninguém seria bastante corajoso para aplicar a si mesmo o ferro e o fogo que suprimem e consomem os apegos imperfeitos, as afeições puramente naturais, esses inúmeros laços que encadeiam as almas, impedindo-as de voar para as alturas da perfeição que leva ao Céu. Assim, o Divino Espírito Santo, através de cruzes e tribulações procura desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu, e torná-lo apto a receber a graça divina. Deus, que é infinitamente bondoso, está sempre disposto a derramar com profusão Suas graças entre os homens, as quais são semelhantes a um líquido sumamente precioso. Deus tem um reservatório inesgotável em que conserva suas graças e bênçãos: é a sua infinita liberalidade. Nossos corações são como vasilhas nas quais Deus deseja derramar as torrentes de suas graças. Podemos, comparando, dizer que três são as classes de pessoas que se aproximam de Deus no intuito de receber em seus corações o líquido preciosíssimo de suas graças: as primeiras vão a Nosso Senhor com o coração verdadeiramente desprendido, ou seja, vazio de todas as coisas terrenas. Deus, então, enche estes corações de Suas graças. Outras pessoas apresentam corações quem têm uma boa vontade, mas entulhados de afetos e apegos ao mundo, isto é, com vaidade, vanglória, comodidade, caprichos e vontade própria. Tais corações não possuem senão pequeno espaço para receber e conservar a graça divina. Deus só pode derramar neles muito pouco. Finalmente, a terceira espécie de pessoas são aqueles que apresentam a Deus o coração cheio inteiramente das coisas deste mundo, completamente mundanizado e terreno. Tais pessoas nada podem receber. Jesus quer comunicar-lhes Suas graças, mas não há lugar para Ele no albergue de seus corações.

2º - Servem para nossa santificação, devem ser meios para nos unir mais intimamente a Deus:

Sabemos que a essência da santidade consiste na mais perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus. Deus tem todo direito de exigir de nós, Suas criaturas, nos submetamos e subordinemos, sem restrição, à Sua santíssima vontade. Mas esta submissão em todas as coisas torna-se extremamente difícil. Temos mais facilidade em renunciar as coisas que temos, mas grande dificuldade em renunciar o que somos, ou seja, à nossa vontade. Pois bem! Nada mais próprio para submeter a nossa vontade à vontade divina do que as provações e contrariedades que por permissão de Deus vêm sobre nós. Estas provações são quase sempre contra a nossa vontade e o nosso gosto. E também constatamos que em tempo de sofrimentos não podemos compreender que a cruz nos possa ser proveitosa; de modo que, para não sucumbir debaixo do seu peso, devemos empregar todas as energias da nossa fé e todas as forças da nossa vontade para nos curvarmos humildemente e beijarmos a mão que nos fere, dizendo com toda sinceridade: "Senhor, seja feita a vossa vontade". Ademais, se na escola do sofrimento chegarmos a ponto de aceitar a cruz inteiramente resignados, isso será para nós um meio preciosíssimo de santificação. Então o sofrimento nos elevará mais alto na virtude e santidade em um só dia, do que muitas semanas e, talvez meses, quando tudo nos corria às mil maravilhas, sem cruz nem dores quer externas quer internas.

3º - As cruzes e os sofrimentos nos garantem um grau elevado na eterna glória:

São João Evangelista escreve no Apocalipse que um dia viu o céu aberto e, contemplando os bem-aventurados, chamou-lhe a atenção uma multidão que se distinguia entre os demais, por sua beleza e glória. "Então um dos anciãos falou e me disse: quem são estes que estão trajados de vestes alvas? e donde vieram? Eu lhe respondi: Senhor meu, tu o sabes. E volveu-me: Estes são os que vieram de uma grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as puseram alvas com o Sangue do Cordeiro" (Apoc. VII, 13 e 14). Eis a glória e recompensa dos sofrimentos suportados com paciência. Todas as vezes que aceitamos sem revolta uma cruz, por amor de Jesus, oferecemos um sacrifício a Deus; e todo sacrifício feito em estado de graça santificante aumenta também essa graça. Ora, quanto maior, for em nós a graça santificante, tanto maior também a glória eterna no Céu. Portanto, toda cruz que alegremente abraçamos e suportamos em união com o divino Salvador aumenta a nossa glória celeste.

Caríssimos, quando as ondas revoltosas de um mar de sofrimentos nos assaltarem, para onde devemos correr? Para diante de Jesus Crucificado, e, melhor ainda, do Sacrário. O amorosíssimo Salvador ou vos tirará a cruz ou, o que muito melhor, fortalecerá os vossos fracos ombros, para que possam carregá-la com alegria e amor. Na verdade, a cruz é a nossa esperança porque será a chave de ouro que nos abrirá as portas do Céu.

"Na cruz está a salvação; na cruz, a vida; na cruz, amparo contra os inimigos; na cruz, a abundância da divina suavidade; na cruz, a fortaleza da alma; na cruz, o gozo do coração; na cruz, o compêndio das virtudes; na cruz, a perfeição e santidade" (Livro da Imitação de Cristo).

Não poderia terminar este artigo sobre o sofrimento sem salientar um detalhe importantíssimo: a dor é a pedra de toque das virtudes. A provação ilumina a alma sincera, desvenda-lhe o mal oculto nas dobras de seu coração. Faz mais, porém, que revelar o mal, ataca-o, contanto que saibamos tirar proveito de sua ação benfazeja. A dor, humilhando-nos, torna-nos melhores. Faz-nos sentir mais vivamente nossa incapacidade e nosso nada. Quantas vezes a dor aproximou de Deus homens que a prosperidade d'Ele afastara? Abençoado o sofrimento que leva o filho pródigo ao lar paterno! E as almas já fervorosas são ainda mais santificadas pelos sofrimentos. No sofrimento, a fé se ilumina, a esperança se torna ardente e inabalável, o amor se fortifica e se dilata. E muitas outras virtudes acompanham estas três virtudes teologais: a paciência, a renúncia, a suavidade etc..

Senhor Jesus Crucificado, fazei que eu leve a cruz de boa vontade para que ela possa me conduzir ao termo desejado que é a Pátria do Repouso Eterno! Amém!