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LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

sábado, 6 de maio de 2017

SANTA MISSA DE SEMPRE: Explicação feita por Santo Tomás de Aquino


   Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, questão LXXXIII, artigo IV e V.
ART. IV. - Se foram convenientemente ordenadas as palavras proferidas neste sacramento.
ART. V.  - Se as cerimônias usadas na celebração deste mistério são convenientes.
Nota: Alterei a ordem da matéria, colocando as objeções para o fim. 
  ARTIGO IV - Explicação das palavras da Santa Missa
   Um documento denominado: "De Consecratione, dist. 1º" (ndt - é um documento extraído dum livro antiquíssimo: "Constituições Apostólicas") diz: "Tiago, irmão(primo) do Senhor e (S.) Basílio Cesariense Bispo, regularam a celebração da missa". Dada a autoridade destes homens (São Tiago, Apóstolo e São Basílio, Bispo) devemos dizer que nada se diz na Missa que não seja apropriado.
    EXPLICAÇÃO para solução de qualquer dúvida: Este sacramento compreende todo o mistério da nossa salvação. Por isso, é celebrado com mais solenidade que todos os outros. E porque lemos nas Sagradas Escrituras, Eclesiástico IV, 17: "Vê onde põe o teu pé quando entras na casa de Deus"; e Eclesiástico, XVIII, 23: "Prepara a tua alma antes da oração". Por isso, antes da celebração deste mistério, vem em primeiro lugar a preparação, para se bem fazer o que se segue. - Desta preparação, a primeira parte é o louvor a Deus, que se faz no Intróito, segundo aquilo das Sagradas Escrituras: "Sacrifício de louvor me honrará; e ali o caminho por onde lhe mostrarei a salvação de Deus" (Salmo XLIX, 23). E este louvor de Deus é tirado, no mais das vezes, dos salmos, ou pelo menos é cantado com um Salmo, porque, como diz (S.) Dionísio, os salmos como louvores, abrangem tudo o que está contido nas Sagradas Escrituras. - A segunda parte (Santo Tomás, mais na frente, vai se referir ao Confiteor). contém a confissão de nossa miséria presente, quando o sacerdote implora misericórdia, dizendo Kyrie eleison, três vezes pela pessoa do Pai; três pela pessoa do Filho, quando diz Christe eleison; e três pela pessoa do Espírito Santo, quando acrescenta Kyrie eleison. Três súplicas contra a nossa tríplice miséria - da ignorância, da culpa e da pena; ou para significar também que as três pessoas divinas estão reciprocamente uma na outra. - A terceira parte comemora a Glória Celeste, a que tendemos depois da miséria presente, quando se diz: Gloria in excelsis Deo; o que se canta nas festas em que se comemora a glória celeste, e se omite nos ofícios fúnebres e de penitência que só comemoram a miséria da vida presente. - A quarta parte contém a oração que o sacerdote faz pelo povo, para que ele (=o povo) seja digno de tão grandes mistérios. 

   Em segundo lugar vem a instrução do povo fiel, porque este sacramento é  o mistério de fé. E essa instrução dispositivamente se faz pela doutrina dos Profetas e dos Apóstolos, lida na Igreja pelos leitores e subdiáconos. É a Epístola. E depois desta lição o coro canta o Gradual, que significa o progresso na vida espiritual; o Alleluia, símbolo da exultação espiritual; ou o Tractus, nos ofícios fúnebres e de penitências, que significa os gemidos espirituais. Porque de tudo isso o povo deve dar mostras. - Pela doutrina de Cristo, contida no Evangelho o povo é perfeitamente instruído; e é lida pelos diáconos, ministros do grau mais elevado. E por crermos em Cristo, como na Verdade divina, segundo aquilo do Evangelho: "Se eu vos digo a verdade, porque me não credes? (São João, VIII, 46). - Lido o Evangelho, canta-se  o Símbolo da Fé, (o Credo) pelo qual todo o povo mostra o seu assentimento à fé na doutrina de Cristo. O Símbolo se canta nas festas de que se faz nele alguma menção, como nas de Cristo e da Santíssima Virgem. E nas dos Apóstolos que fundaram esta fé, e em outras semelhantes.

   Assim, pois, preparado e instruído o povo, passa o sacerdote à celebração do mistério. E este é oferecido como sacrifício, e consagrado  e tomado como sacramento. E então, primeiro, se realiza a oblação; segundo, a consagração da matéria oferecida; terceiro, a recepção dela. 

   A oblação se compõe de duas partes: o louvor do povo no canto do ofertório, símbolo da alegria dos oferentes; e a oração do sacerdote, que pede seja aceita de Deus a oblação do povo. Por isso disse David: "Eu te ofereci alegre todas estas coisas na simplicidade do meu coração; e eu vi que o teu povo, que aqui está junto, te ofereceu os seus presentes com grande alegria"(Paralipômenos [hoje= CRÔNICAS], XXIX, 17 e 18).

   E depois vem a Consagração já com o prefácio onde a Igreja procura despertar a devoção do povo; por isso adverte-o a ter os corações elevados para o Senhor - "Sursum corda; habemus ad Dominum = Corações ao alto! Já os temos para o Senhor!". Donde, acabado o prefácio, a Igreja louva devotamente a divindade de Cristo, dizendo com os anjos: "Sanctus, Sanctus, Sanctus" (Isaías, VI, 3). E louva igualmente a humanidade de Cristo dizendo com os meninos: "Benedictus qui venit" (Mateus, XXI, 9,15). Depois o sacerdote comemora, em secreto, aqueles por quem oferece o sacrifício, isto é, pela Igreja universal e pelos que estão elevados em dignidade (1 Tim. II, 2); e especialmente certos que oferecem ou por quem é oferecido. - Em segundo lugar, comemora os santos, quando lhes implora o patrocínio pelo que acabou de recomendar, ao dizer: "Communicantes e memoriam venerantes,etc" (="Unidos numa mesma comunhão, honremos a memória"... ).  Enfim, em terceiro lugar, conclui a petição, quando diz: "Hanc igitur oblationem etc." (=Assim, pois, esta oblação"...) para que se faça a oblação por aqueles por quem é oferecido o sacramento. 

    Em seguida passa propriamente à consagração, na qual, - primeiro - pede o efeito dela, quando diz: "Quam oblationem tu, Deus..." (=Cuja oblação, ó Deus...). Segundo, faz a consagração, pronunciando as palavras do Senhor, quando disse: "Qui pridie quam pateretur..." (=O qual na véspera de sua Paixão...). - Terceiro - escusa-se da sua ousadia por obediência ao mandado de Cristo, quando diz: "Unde et memores..." (=É porque, lembrando-nos...). - Quarto - pede que seja aceito de Deus o sacrifício celebrado, quando diz: "Supra quae propitio..." (=Sobre os quais com propício...). - Quinto - pede o efeito deste sacrifício e sacramento: 1º - para os que o receberem, quando diz: "Suplices te rogamus..." (=Nós Vos suplicamos, humildemente...); 2º - para os mortos que já não podem receber, quando diz: "Memento etiam, Domine..." (=Lembrai-vos também, Senhor... ); 3º - especialmente pelos sacerdotes mesmos que o oferecem, quando diz: "Nobis quoque peccatoribus..." (=A nós também, pecadores...".

    A seguir vem a recepção do sacramento. - E primeiro o povo é preparado para o receber -primeiramente, pela oração comum de todo o povo, que é a oração dominical, na qual pedimos: o pão nosso de cada dia nos dai hoje; e também pela oração particular, que o sacerdote especialmente oferece pelo povo, quando diz: "Libera nos, quaesumus, Domine..." (=Livrai-nos, Senhor, nós volo pedimos...). - Segundo - o povo é preparado pela paz, que é dada quando reza o Agnus Dei: pois este é o sacramento da unidade e da paz. Mas nas missas dos defuntos, nas quais o sacrifício é oferecido, não pela paz presente, mas pelo descanço dos mortos, omite-se a paz. 

    Segue-se depois a recepção do sacramento, pelo sacerdote primeiro, que o distrubui depois aos outros; porque, como diz (S.) Dionísio, quem dispensa o sacrifício aos outros deve, primeiro, participar dele.

    E por último, a celebração completa da missa termina pela ação de graças - o povo exultando pela recepção deste mistério, como o significam os cânticos depois da comunhão; e o sacerdote, dando graças pela oração, assim como Cristo, celebrada a Ceia com os discípulos, disse o hino, como referem  os Evangelhos de São Mateus, XXVI, 30 e São Marcos, XIV, 26. 

  Por tudo que acabamos de explicar, temos a solução das dificuldades: 



RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES
    1ª Objeção: Parece que foram inconvenientemente ordenadas as palavras proferidas neste sacramento, porque este sacramento é consagrado pelas palavras de Cristo, como diz (Santo) Ambrósio. Logo, nele não se deve proferir nada mais senão as palavras de Cristo.
     RESPOSTA: A consagração se opera pelas sós palavras de Cristo. Mas é necessário fazer-lhes acréscimos para a preparação do povo, que recebe o sacramento, como dissemos.

    2ª Objeção: As palavra de Cristo nós as conhecemos pelo Evangelho. Ora, na consagração deste sacramento, os Evangelhos referem que Cristo disse: Tomai e comei, sem dizer - todos. Mas na celebração deste sacramento diz-se: "Accipite, et manducate ex hoc omnes", isto é, "Tomai e comei dele todos". Logo, esta palavra (=todos) não devia ser proferida na celebração deste sacramento.
    RESPOSTA: O vocábulo - todos - subentende-se entre as palavras do Evengelho, embora não esteja nele expresso. Pois, Cristo disse: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem, não tereis a vida em vós" (São João, VI, 54). Além disso: estas palavras não fazem parte da forma da Consagração.

    3ª Objeção: Os demais sacramentos se ordenam à salvação de todos os fiéis. Ora, na celebração destes sacramentos não se faz oração comum pela salvação de todos os fiéis e dos defuntos. Logo, também não se devia assim proceder neste sacramento.
    RESPOSTA: A Eucaristia é o sacramento de toda a unidade eclesiástica. Por isso, mais especialmente neste que nos outros sacramentos, deve-se fazer menção de tudo aquilo que se refere à salvação de toda a Igreja.

    4ª Objeção: O batismo é especialmente chamado o sacramento da fé. Logo, o que se refere à instrução da fé deve ser conferido antes no batismo que neste sacramento.; assim a doutrina Apostólica e a dos Santos Evangelhos. 
    RESPOSTA: Há duas espécies de instrução na fé. - Uma é a dos catecúmenos, que acabam de receber a fé. E esta instrução é dada no batismo. - Outra é a recebida pelo povo fiel, que participa deste mistério. E esta é dada neste sacramento. Contudo, dela não ficam privados também os catecúmenos e os infiéis. Por isso dispõe um cânone: "O bispo não proíba a ninguém entrar na Igreja e ouvir a palavra de Deus, quer se trate de gentio, quer de herético ou Judeu, até a missa dos catecúmenos, na qual está contida a instrução da fé".

   5ª Objeção: Todo sacramento supõe a devoção dos fiéis. Logo, não se deve, mais por este sacramento que pelos outros, despertar-lhes a devoção mediante louvores divinos e advertências; p.ex., quando se diz: "Sursum corda" - "Habemus ad Dominum" (=Corações ao alto! - Já os temos para o Sehor!).
    RESPOSTA: Este sacramento requer maior devoção que os outros, porque nele está contido todo Cristo. É também mais geral: porque exige a devoção de todo o povo a favor do qual é oferecido, e não só dos que o recebem, como se dá com os outros sacramentos. Por isso, no dizer de (S.) Cipriano, o sacerdote, recitado o prefácio, prepara as almas dos seus irmãos, exclamando- "Sursum corda! e respondendo o povo: "Habemus ad Dominum", é advertido a pôr todos os seus pensamentos em Deus.

    6ª Objeção: O ministro deste sacramento é o sacerdote, como se disse na q,72,a1. Logo tudo quanto nele se reza devia ser proferido pelo sacerdote e não, certas coisas pelos ministros e certas outras pelo coro.
    RESPOSTA: Neste sacramento menciona-se, como se disse, o concernente a toda a Igreja. Por isso, o coro recita certas partes atinentes ao povo. - Dessas, umas o coro as continua até ao fim; e esses são os sugeridos a todo o povo. - Outros o sacerdote, que faz as vezes de Deus, começa e o povo continua; em sinal de que tais coisas, como a fé na glória celeste, chegavam ao povo por divina revelação. Por isso, o sacerdote começa a recitar o Credo in unum Deum (Símbolo da fé) e o Gloria in excelsis Deo. Outros são recitados pelos ministros, como a doutrina do Velho e do Novo Testamento; como sinal que ela foi anunciada aos povos pelos ministros mandados por Deus.
    Outras partes, porém, só o sacerdote é quem as recita; e são as que lhe concerne ao ofício próprio, que é oferecer dons e sacrifícios pelo povo, como diz São Paulo em Hebreus, V, I. Mas, aí, o concernente ao sacerdote e ao povo, o sacerdote o recita em voz alta, e tais são as orações comuns. - Mas certas outras, como a oblação e a consagração, concernem só ao sacerdote. Por isso reza em voz submissa o que a constitui. Mas antes, porém, o sacerdote desperta a atenção do povo, dizendo Per omnia saecula saeculorum, e esperando o assentimento do povo com o Amen; e depois diz Dominus vobiscum. 
    O que reza secretamente é também sinal de que , na Paixão de Cristo, só às ocultas os discípulos O confessavam. 

    7ª Objeção: Este sacramento é certamente obra do poder divino. Logo, é supérfluo o pedido do sacerdote para que essa obra se cumpra: "Quam oblationem tu, Deus, in omnibus... facere digneris..." (=Esta oblação, ó Deus, nós pedimos, dignai-Vos abençoá-la, recebê--la e aprová-la plenamente..."
    RESPOSTA: Primeiro devemos estar lembrados que a eficácia das palavras sacramentais pode ficar impedida pela intenção do sacerdote. - Nem há inconveniente em pedirmos a Deus o que sabemos com certeza Ele o fará; assim Cristo pediu a sua glorificação (São João, XVII). - Aqui, no entanto, o sacerdote não ora para que se faça a consagração, mas para nos ser ela frutuosa; donde dizer sinaladamente que ela se torne para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. E isto significam as palavras que proferiu antes: Dignai-Vos tornar esta oblação bendita,isto é, como o explica (Santo) Agostinho, pela qual sejamos abençoados, pela graça; aprovada,isto é, pela qual sejamos recebidos no céu; ratificada, isto é, que por ela sejamos unidos ao coração de Cristo; racionável, isto é, pela qual sejamos livres do senso animal; aceitável, isto é, a fim de que, descontentes de nós mesmos, por meio dela sejamos aceitáveis ao Seu Filho único. 

    8ª Objeção: O sacrifício da Lei Nova é muito mais excelente  que o dos antigos Patriarcas. Logo, o sacerdote não devia pedir a aceitação desse sacrifício, como o de Abel, Abraão e Melquisedech.
    RESPOSTA: Embora este sacramento seja, em si mesmo, superior a todos os antigos sacrifícios, contudo os sacrifícios dos antigos foram muito aceitos de Deus, por causa da devoção deles. Por isso o sacerdote pede que este sacrifício seja aceito de Deus, pela devoção dos oferentes, como o foram aqueles outros do A. T.
    9ª Objeção: O corpo de Cristo, assim como não começa a estar neste sacramento por mudança de lugar ( como antes q. 75,a 2 foi dito), assim também nem, por este modo, deixa de nele estar. Logo, não é apropriada a petição do sacerdote: ("Suplices te rogamus, omnipotens Deus): jube  haec perferri per manus sancti Angeli tui... (Nós Vos suplicamos, humildemente, ó Deus onipotente, que, pelas mãos de vosso Santo Anjo, mandeis levar estas ofertas ...).
    RESPOSTA: O sacerdote não pede nem que as espécies sacramentais sejam levadas ao céu; nem que o seja o verdadeiro corpo de Cristo, que aí não deixa de estar presente. Mas o pede para o corpo místico, simbolizado neste sacramento; isto é, que as orações, tanto do povo como do sacerdote, os apresente a Deus o anjo assistente aos divinos mistérios, segundo aquilo do Apocalipse, VIII, 4: "Subiu o fumo dos perfumes das orações dos santos da mão do anjo. Quanto à expressão - sublime altar de Deus - significa ou a própria Igreja triunfante, a que pedimos sejamos trasferidos; ou Deus mesmo, do qual pedimos participar. Pois, deste altar diz a Escritura em Êxodo, XX, 26: "Non ascendes per gradus ad altare meum, isto é, in Trinitate gradus non facies". ("Não subirás por degraus ao meu altar, isto é, não introduzirás graus na Trindade"). - Ou, pelo anjo entende-se o próprio Cristo, o Anjo do grande conselho, que uniu o seu corpo místico a Deus Pai e à Igreja triunfante. Donde também a denominação de missa; porque pelo anjo o sacerdote emite (mittit) as suas preces a Deus, como o povo, mediante o sacerdote. Por isso, no fim da missa  o diácono diz nos dias festivos- Ite, missa est (= Ide, foi oferecida) isto é, a hóstia  a Deus pelo anjo, de modo a ser de Deus aceita.





ARTIGO V: Se as cerimônias usadas na celebração deste mistério são convenientes.
   Parece que as cerimônias usadas na celebração deste sacramento não são convenientes. 
   Mas devemos dizer o contrário, porque estas cerimônias fazem parte do costume legitimo (consuetudo) da Igreja, que não pode errar, dado que é inspirada pelo Espírito Santo.
   EXPLICAÇÃO que dá a SOLUÇÃO para todas as dificuldades ou objeções.
   Como dissemos, para ser mais perfeita a significação, tudo o que se faz nos sacramentos é significado duplamente por palavras e por atos. Ora, certos passos da Paixão de Cristo, representados na celebração deste sacramento, são significados por palavras. Ou ainda certas coisas concernentes ao corpo místico, que esse sacramento representa; e outras referentes ao uso do mesmo, que deve ser com devoção e reverência. Por isso, na celebração deste mistério, certas práticas representam a Paixão de Cristo; ou ainda, a disposição do corpo místico; e certas outras dizem respeito à devoção e reverência devidas a este sacramento.
    OBJEÇÕES
    E assim podemos responder às objeções:
    1ª Objeção: Este sacramento pertence ao Novo Testamento, como o mostra a sua própria forma. Ora, na vigência do Novo Testamento não se devem observar as cerimônias do Velho, nas quais o sacerdote e os ministros lavavam-se com água quando iam oferecer o sacrifício. Assim, lemos em Êxodo, XXX, 19: "Aarão e seus filhos lavarão as suas mãos e os pés, quando tiverem de se aproximar do altar...". Logo, não é conveniente o sacerdote lavar as mãos na solenidade da missa.
    RESPOSTA: A ablução das mãos se faz na celebração da missa, pela reverência devida a este sacramento. E isto por duas rações: 1º - Por ser costume geral tocarmos em coisas preciosas com as mãos lavadas. Por onde, faltaria à decência quem se achegasse a tão grande sacramento com as mãos sujas, mesmo no sentido material. - 2º - Pelo significado da ablução. Pois, como diz (S.) Dionísio, o lavarmos as extremidades significa a purificação, ainda dos mínimos pecados, segundo aquilo do Evangelho de S. João, XIII, 10: "Aquele que está lavado não tem necessidade de lavar senão os pés". E esta purificação é necessária a quem se achega a este sacramento. O que também é significado pela confissão que se faz antes do começo da missa. E o mesmo significava a ablução dos sacerdotes na Lei Velha, conforme o ensina (S.) Dionísio no mesmo lugar. - Mas a Igreja não o observa como preceito cerimonial da Lei Velha, senão como instituído por ela, e na prática em si mesma conveniente. Por isso, não é observado do mesmo modo por que o era antigamente. Também se omite a ablução dos pés, conservando-se só a das mãos, por poder fazer mais facilmente e por bastar a significar a perfeita purificação. Pois, sendo as mãos o órgão dos órgãos, na expressão de Aristóteles, todas as obras se lhes atribuem a elas. Donde o dizer o Salmo XXV, 6: "Lavarei as minhas mãos entre os inocentes".

    2ª Objeção: O Senhor mandou que o sacerdote queimasse incenso de suave fragrância sobre o altar que estava diante do propiciatório (Êxodo, XXX, 7). O que também era uma das cerimônias do Antigo Testamento. Logo, não deve o sacerdote oferecer incenso, durante a missa. 
    RESPOSTA: Não usamos incenso como se fosse um preceito cerimonial da lei, mas por uma determinação da Igreja. Por isso não oferecemos do mesmo modo pelo qual o estatuía a Lei no Velho Testamento. - E o fazemos por duas razões - Primeiro, para reverenciar este sacramento: para que o bom cheiro do incenso, expulse algum mau odor do local, que pudesse provocar repugnância. Segundo, para representar o efeito da graça da qual, como de bom odor, Cristo tinha a plenitude, segundo aquilo da Escritura Gênesis XXVII, 27: "Eis o cheiro de meu filho como o cheiro de um campo cheio." E o qual deriva de Cristo para os fiéis, por meio dos ministros, segundo aquilo do Apóstolo em 2 Corintios II, 14: "Por nosso meio difunde o odor do conhecimento de si mesmo em todo lugar." Por isso , depois de incensado todo o altar, que designa a Cristo, incensam-se os demais, numa certa ordem.

   3ª Objeção: a) Transferimos para aqui a primeira parte da 2ª objeção do artigo anterior.
   Os atos de Cristo nós os conhecemos pelo Evangelho. Ora, na consagração deste sacramento se alude a ato que não está no Evangelho. Assim, aí não lemos que Cristo, na consagração deste sacramento, elevasse os olhos para o céu. Pois, na celebração deste sacramento se diz: Tendo elevado os olhos ao céu". Logo,  isto não deveria ser feito na celebração deste sacramento. 
RESPOSTA: Como diz o Evangelho de São João XXI,  25 , muitas coisas fez  e disse o Senhor pelos Evangelistas não referidas. Entre elas está que o Senhor, na Ceia, elevou os olhos para o céu, o que a Igreja o recebeu pela tradição dos Apóstolos. Pois é racional, que quem, na ressurreição de Lázaro  e na oração que fez pelos discípulos, levantou os olhos para o Pai, como o narra o evangelista, com maior razão o fizesse ao instituir este sacramento, coisa mais importante.

   3ª Objeção: b) As cerimônias realizadas nos sacramentos da Igreja não devem reiterar-se. Logo, não deve o sacerdote repetir tantas vezes os sinais da cruz sobre este sacramento.
   RESPOSTA: O sacerdote, na celebração da Missa, faz o sinal da cruz para exprimir a Paixão de Cristo, que na cruz se consumou. A Paixão de Cristo, porém, realizou-se como por alguns graus.(=por etapas). 
Assim, primeiroteve lugar a entrega de Cristo, feita por Deus, efetuada por Judas e pelos Judeus. E isto significam os três sinais da cruz acompanhados das palavras: Haec dona +, haec munera + haec sancta sacrificia illibata +. Em português: "Estes dons, estes presentes, estes santos sacrifícios sem mancha." Segundo, depois foi Cristo vendido. Ele foi vendido, porém, pelos sacerdotes, escribas e fariseus. Para o significar, o sacerdote faz de novo por três vezes o sinal da cruz, dizendo: "Benedictam, +  adscriptam, +  ratam" + . Em português: "Bendita, aprovada, ratificada". Ou para mostrar o preço da venda, que foram os trinta dinheiros. E acrescenta duplo sinal da cruz às palavras: "ut nobis corpus + et sanguis +... Em português: "Afim de que para nós o corpo e o sangue..." a fim de designar a pessoa de Judas, o vendedor, e de Cristo, o vendido. - Terceiro, a Paixão de Cristo foi prenunciada na ceia. Para designá-lo o sacerdote faz em terceiro lugar, o sinal da cruz por duas vezes - uma ao consagrar o corpo; outra, ao consagrar o sangue, dizendo em ambas as vezes: "benedixit"=abençoou. Quarto: em quarto lugar, consumou-se a Paixão mesma de Cristo. E para representar as cinco chagas de Cristo o sacerdote faz pela quarta vez cinco sinais da cruz, dizendo: "hostiam + puram, hostiam+sanctam,  hostiam+ immaculatam,  panem +sanctum  vitae aeternae,  et calicem+ salutis perpetuae."  Em português: "a Hóstia pura, a Hóstia santa, a Hóstia imaculada. o Pão santo da vida eterna e o Cálice da salvação perpétua". Quinto: em quinto lugar é representada a extensão do corpo na cruz, a efusão do sangue e o fruto da paixão. Daí mais três sinais da cruz acompanhados das palavras: "Filii tui + Corpus, et + Sanguinem sumpserimus, omni + benedictione" ... Em português: "participando deste altar, recebermos o sacrossanto Corpo e o Sangue de vosso Filho, sejamos repletos de toda bênção celeste"... Sexto: em sexto lugar é representada a tríplice oração que Cristo fez na cruz: - uma pelos seus perseguidores, quando disse: "Pai, perdoai-lhes"... a segunda para libertar-se da morte, quando disse: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste"? a terceira para alcançar a glória quando exclamou: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". E para significá-lo o sacerdote faz três sinais da cruz, dizendo: "sanctificas,+  vivificas, + benedicis"+... = santificais, vivificais, abençoais... Sétimo: em sétimo lugar, representa as três horas durante as quais ficou suspenso na cruz, isto é, desde a sexta até a nona hora. E para significá-lo, faz de novo o sacerdote por três vezes o sinal de cruz, pronunciando as palavras: "Per + ipsum, et cum + ipso, et in + ipso". = "Por Ele, com Ele e n'Ele". Oitavo: em oitavo lugar, representa-se a separação entre a alma e o corpo, por dois sinais da cruz subsequentes, fora do cálice.  Nono: Enfim, em nono lugar, é representada a ressurreição, operada no terceiro dia, por três cruzes, acompanhadas da palavras: "Paz + Domini sit  + semper +  vobiscum". = "A paz do Senhor esteja sempre convosco." 
   - Mas, podemos dizer, mais brevemente, que a consagração deste sacramento e a aceitação deste sacrifício, bem como o seu fruto, procedem da virtude (=força ou eficácia)  da cruz de Cristo. Por isso, sempre que o sacerdote faz menção de alguma dessas três coisas(=consagração deste sacramento, aceitação deste sacrifício e o seu fruto) faz o sinal da cruz. 

   4ª Objeção: O Apóstolo  diz em Hebreus, VII, 7: "Sem nenhuma contradição, o que é inferior recebe a bênção do que é superior". Ora, Cristo, que está neste sacramento, depois da consagração, é muito maior que o sacerdote. Logo, inconvenientemente o sacerdote benze, depois da consagração, este sacramento, fazendo sobre Ele o sinal da cruz.
   RESPOSTA: O sacerdote, depois da consagração, não faz o sinal da cruz para benzer e consagrar, mas só para comemorar o sinal da cruz e o modo da Paixão de Cristo, o que ficou claro pelo que foi dito acima ao responder à terceira objeção. (cinco cruzes sobre Nosso Senhor para significar as cinco chagas feitas em Jesus na Sua Paixão).

   5ª Objeção: Nos sacramentos da Igreja não deve haver nada que seja ridículo. Ora, é ridículo fazer gesticulações, como quando o sacerdote estende os braços, põe as mãos, junta os dedos e se inclina. Logo, tais coisas se não deviam fazer neste sacramento.
   RESPOSTA: Nenhum dos gestos do sacerdote, na missa, constitui gesticulação ridícula , pois têm o fim de representar alguma coisa. - Assim, o estender os braços depois da consagração significa o Cristo com os braços estendidos na cruz. - Também levanta as mãos ao orar, para significar que a sua oração se dirige  a Deus, pelo povo, segundo aquilo da Escritura Tren., III, 41: "Levantemos ao Senhor os nossos corações com as mãos para os céus.". E Êxodo, XVII, 11 diz: "Quando Moisés tinha as mãos levantadas vencia Israel". - Quando põe as mãos, inclina-se, orando súplice e humildemente, designa assim a humildade e a obediência com que Cristo sofreu. - Junta os dedos polegar e indicador, com que tocou o corpo consagrado de Cristo a fim de que não se disperse alguma partícula que a eles se tivesse apegado. O que constitui reverência para com o sacramento.

   6ª Objeção: Também é ridículo o sacerdote voltar-se tantas vezes para o povo, tantas vezes saudá-lo. Logo, nada disso devia fazer-se na celebração deste sacramento. 
   RESPOSTA: O sacerdote volta-se cinco vezes para o povo, para significar que o Senhor se manifestou cinco vezes no dia da ressurreição, como dissemos quando tratamos da ressurreição de Cristo. - Saúda sete vezes o povo, isto é, cinco vezes quando se volta para ele; e duas, em que não se volta, isto é, quando antes do prefácio diz: "Dominus vobiscum". E quando diz: "Pax Domini sit semper vobiscum" = "A paz do Senhor esteja sempre convosco" para designar a septiforme graça do Espírito Santo. Quanto ao bispo, quando celebra nos dias festivos, diz, na primeira saudação: "Pax vobis", o que depois da ressurreição o Senhor o disse aos discípulos, cujas pessoas sobretudo as representa o bispo. 

   7ª Objeção: O Apóstolo em 1ª Cor. I, 13  diz que Cristo não deve ser dividido. Ora, depois da consagração Cristo está neste sacramento. Logo, o sacerdote não devia fracionar a hóstia. 
   RESPOSTA: A fração da hóstia significa três coisas. Primeiro, a divisão mesma do corpo de Cristo, que se operou na Paixão. - Segundo, a distinção do corpo místico em diversos estados. - Terceiro, a distribuição das graças procedentes da Paixão de Cristo, com diz (S.) Dionísio. Por onde, tal fracção não induz divisão em Cristo. 

   8ª Objeção: As cerimônias deste sacramento representam a Paixão de Cristo. Ora, na Paixão, o corpo de Cristo foi dividido nos lugares das cinco chagas.  Logo, o  corpo de Cristo devia ser dividido antes em cinco que em três partes. 
   RESPOSTA: Como diz o Papa Sérgio (em De consecr., didt. II): "Triforme é o corpo do Senhor. A parte oferecida, posta no cálice, representa o corpo de Cristo já ressuscitado. Isto  é, o próprio Cristo e a Santa Virgem, que já estão na glória com os seus corpos. A parte que se come significa os que ainda vivem nesta terra. pois os peregrinos neste mundo se unem com Cristo pelo sacramento; e ficam alquebrados pelo sofrimento como o pão comido é triturado. - A parte remanescente no altar até o fim da missa significa o corpo jacente no sepulcro; porque até o fim dos séculos os corpos dos santos estarão nos sepulcros; mas as almas estão no purgatório ou no céu. Este rito porém não se observa atualmente, isto é, o de conservar uma parte até ao fim da missa. Mas permanece a mesma significação das partes. O que certos exprimiram em versos, dizendo: A hóstia se divide em partes; molhada (=a que fica dentro do cálice com o precioso sangue) significa os que gozam da plena beatitude; seca, significa os vivos; conservada, significa os sepultos. 
   Certos, porém, dizem, que a parte posta no cálice significa os viventes neste mundo; a conservada fora do cálice significa os plenamente bem-aventurados, isto é, em corpo e alma; a parte comida significa os outros. 

   9ª Objeção: O corpo de Cristo é totalmente consagrado neste sacramento, em separado do sangue. Logo, não se devia misturar com o sangue uma parte dele.
   RESPOSTA: O cálice pode ter dupla significação. - Numa é a Paixão mesma, representada neste sacramento. E então, a parte posta no cálice significa os ainda participantes dos sofrimentos de Cristo. - Noutra significação pode simbolizar o gozo dos bem-aventurados, também prefigurado neste sacramento. Por onde, aqueles cujos corpos já gozam da plena beatitude são simbolizados pela parte posta no cálice. - E devemos  notar, que a parte posta no cálice não deve ser dada ao povo como complemento da comunhão, porque o pão molhado Cristo não o deu senão ao traidor Judas. 

   10ª Objeção: Assim como o corpo de Cristo é dado neste sacramento  como comida, assim o sangue de Cristo, como bebida. Ora, à recepção do corpo de Cristo, ao celebrar a missa, não se lhe acrescenta nenhum outro alimento para o corpo. Logo, não devia o sacerdote, depois de ter bebido o sangue de Cristo, tomar vinho não consagrado. (Se refere ao vinho das abluções)
   RESPOSTA: O vinho, em razão da sua humildade, serve para lavar. Por isso, é tomado depois da suscepção deste sacramento, para lavar a boca, para que nenhuma partícula nela fique; o que constitui reverência para com este sacramento. Por isso, uma disposição canônica determina: o sacerdote deve sempre lavar a boca com o vinho, depois de ter recebido completamente o sacramento da Eucaristia; salvo de dever no mesmo dia (Isto porque o jejum eucarístico era de 12 horas e só se celebrava de manhã) celebrar outra missa; a fim de que o vinho tomado para lavar a boca não impedisse celebrar outra vez. E pela mesma razão lava com vinho os dedos, com que tocou o corpo de Cristo. 

   11ª Objeção: O verdadeiro deve corresponder ao figurado. Ora, do cordeiro pascal, que foi a figura deste sacramento, a lei ordenava que nada se conservasse para o dia seguinte. Logo, não se deviam conservar hóstias consagradas, mas consumi-las logo.
   RESPOSTA: A verdade deve, de certo modo, corresponder à figura; assim não deveria realmente a parte da hóstia consagrada, da qual o sacerdote e os ministros ou também o povo comungam, ser conservada para o dia seguinte. Mas devendo este sacramento ser recebido todos os dias, o que não se dava com o cordeiro pascal, por isso é necessário conservar outras hóstias consagradas para os enfermos. Por onde na legislação da Igreja dada pelo Papa (S.) Clemente se estabelece: "O prebítero tenha sempre preparada a Eucaristia de modo que quando alguém adoecer, dê-lhe logo a comunhão, não vá morrer sem ela."

   12ª Objeção: O sacerdote fala aos ouvintes no plural; por   exemplo, quando diz: "Dominus vobiscum" (= O Senhor esteja convosco), e, "Gratias agamus" (= Demos graças). Ora, não devemos falar no plural quando nos dirigimos a um só, sobretudo inferior. Logo, não devia o sacerdote celebrar a missa, estando presente só um ministro.
   RESPOSTA: Na celebração solene da missa, vários devem estar presentes. Donde o dizer o Papa Sotero: "Também isto foi estabelecido, que nenhum sacerdote ouse celebrar solenemente a missa sem dois ministros presentes, que lhes respondam, a ele como terceiro; porque quando diz no plural "Dominus vobiscum"; e a oração secreta "Orate pro me", é necessário evidentemente que lhe alguém responda à saudação".  Por isso, para maior solenidade, lemos no mesmo lugar como estatuído ( De Consecr. dist. I , papa Soter) que o bispo celebre, com vários ministros, a solenidade da missa. - Mas, nas missas privadas, basta haver um ministro, representante de todo o povo católico, em nome do qual responde no plural ao sacerdote. 



quinta-feira, 13 de abril de 2017

A COMUNHÃO : Fé e Reverência

   "Sem a fé - diz São Paulo - é impossível a pessoa agradar a Deus". Assim devemos dizer que sem a fé é impossível a pessoa ter a devida reverência a Jesus imolado na Cruz e ressuscitado glorioso, mas que está oculto sob as humildes aparências do pão e do vinho. A fé é a base de toda a justificação e é outrossim a condição fundamental de todo progresso na vida sobrenatural. A fé é a primeira das disposições para receber o fruto da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo: renascer para a vida divina da graça e tornar-nos participantes da adoção eterna. É o que o celebrante reza no fim da Missa: "Quotquot autem receperunt eum, dedit eis potestatem filios Dei fieri, HIS QUI CREDUNT IN NOMINE EJUS... qui ex Deo nati sunt" - "Mas a todos os que O receberam, deu poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no seu nome... os quais nasceram de Deus" (S. João I, 12 e 13). 

   A Comunhão une-nos primeiramente à santa Humanidade de Cristo; e esta união opera-se pela fé. Caríssimos, quando credes que a Humanidade de Jesus é a Humanidade do Filho de Deus, e que n'Ele há só uma pessoa DIVINA, quando com muita fé, adorais esta santa Humanidade, por ela entrais em contato com o Verbo, o Filho Unigênito do Pai, pois é ela o caminho que vos leva à própria Divindade. Se na hora da Comunhão ouvíssemos Jesus perguntar: Quem julgais que eu sou? Deveríamos repetir com toda segurança de uma fé viva, as palavras de São Pedro: "Vós sois o Cristo, o Filho do Deus vivo". Deveríamos ainda dizer: Ó Jesus, vejo apenas um pedaço de pão; mas Vós, que sois o Verbo, a Sabedoria Eterna e a Verdade infinita, dissestes: "Isto é o meu corpo"; e justamente por isso que o dissestes, creio que estais presente sob esta humilde e ínfima aparência de pão. Ó Jesus, os sentidos nos enganam, eles nada nos dizem além dos acidentes, mas creio porque Vós, a própria Verdade, o dissestes". O que certamente Jesus nos responderia? O que disse ao Centurião: "Faça-se conforme a tua fé" (S. Mateus VIII-13). Então - continuaria Jesus - porque acreditais que sou Deus, dou-me a vós com todos os tesouros da minha Divindade, para vos cumular e transformar em mim; dou-me a vós com as inefáveis relações da minha vida íntima de Deus. Caríssimos, na verdade, pela santa Comunhão, nos unimos a toda Santíssima Trindade. Porque Cristo é um só com o Pai, na unidade do Espírito Santo. Quando comungamos, Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, toma conta de nós, une-nos ao Pai como Ele mesmo Lhe está unido. Mas o Verbo une-nos também ao Espirito Santo. Assim, podemos dizer que depois da santa Comunhão, somos  santuário da Santíssima Trindade. 

   A Santíssima Eucaristia é um mistério de fé por excelência, como já tivemos oportunidade de demonstrar. Portanto, só a fé nos pode fazer compreender estas maravilhas e penetrar nestes abismos de amor de Deus. Só quem tem fé, por conseguinte, terá o devido respeito, veneração, reverência e adoração ao Santíssimo Sacramento. Esta reverência nasce e alimenta-se unicamente da fé.

A revolução litúrgica grandemente implantada na Igreja latina pós-conciliar está diminuindo visivelmente a fé nos corações. A falta de reverência, para não dizer desrespeito sacrílego  para com a Santíssima Eucaristia é demonstração insofismável do que acabo de dizer. É uma verdadeira desordem que ocasiona um horrendo retrocesso na vida espiritual. Abriu-se o caminho para as mais desastrosas experiências litúrgicas, para sacrílegas profanações! 

   Senhor, aumentai a minha fé e eu terei todo respeito e reverência possíveis diante de Vós oculto sob as aparências do pão e do vinho!. Senhor, eu creio, mas aumentai a minha fé! Amém!

COMUNHÃO FRUTUOSA

   Caríssimos, sabeis muito bem que este divino Sacramento produz os seus frutos na alma que o recebe em estado de graça e com reta intenção. Mas sabeis também que a abundância dos seus frutos é proporcional ao grau de fervor de cada um. Aproximemo-nos, portanto deste banquete eucarístico com as melhores disposições possíveis. Já tive oportunidade neste blog em mostrar quais estas disposições. Aqui quero apenas ressaltar uma: A VENERAÇÃO. Ela é, pois, indicada pela própria Igreja na Oração do Santíssimo Sacramento: "Dai-nos, Senhor, uma tal veneração pelos sagrados mistérios do Vosso Corpo e Sangue, que possamos sentir constantemente em nós os frutos da Vossa Redenção". 

   Jesus Cristo é Deus. Esta a primeira razão desta "veneração" de adoração no sentido próprio. Só a Deus podemos honrar com adoração no sentido próprio. Só Ele é o Senhor, a Perfeição infinita, o Criador. A Igreja fala de "sagrados mistérios". A palavra "mistérios" indica que sob as espécies eucarísticas se oculta uma realidade; ao acrescentar "sagrados", dá-nos a entender que esta realidade é santa e divina. Na verdade, Aquele que se oculta na Eucaristia é Aquele que, com o Pai e o Espírito Santo, é o Ser infinito, o Todo-poderoso, o princípio de todas as coisas. Se Nosso Senhor nos aparecesse no esplendor da Sua glória, a nossa vista não poderia suportar aquele esplendor. Para se dar a nós, oculta-se, não sob a fraqueza duma carne passível, como no mistério da Encarnação, mas sob as espécies do pão e do vinho. Caríssimos, quanto mais, Jesus, por amor de nós, para nos atrair a Ele, para Se tornar nosso alimento, Ele vela a Sua Majestade, mais devemos cercá-lo de toda veneração e adorá-lo com grande respeito e amor. 

   Jesus se humilhou e entregou-se por nós: Esta a segunda razão para amar a Jesus e adorá-Lo. Jesus disse que a quem se humilha, Ele o exalta. Pois bem, quando vemos o Ser infinito se humilhando por nosso amor, vamos humilhá-lo ainda mais (colocando-O por ex. em copos de plásticos, como aconteceu na JMJ no Rio de Janeiro)? Claro que não. Não é pelos fato de o Papa Francisco ter preferência pelos pobres que os organizadores da JMJ iriam colocar  copos de plásticos descartáveis em sua mesa! 

   A Igreja lembra-nos que "este admirável Sacramento é o memorial por excelência da Paixão de Jesus Cristo". Ora, durante a Sua santa Paixão, Jesus Cristo sofreu humilhações inauditas e ignomínias sem nome. Mas, diz São Paulo, por isso mesmo que Jesus Cristo se aniquilou e desceu a tais humilhações, o Pai O exaltou e Lhe deu um nome acima de todo o nome, a fim de que diante d'Ele se dobrasse todo o joelho e toda a língua proclamasse que Jesus Cristo, Filho de Deus, reina para sempre na glória do Pai. Assim, quanto mais Nosso Senhor Jesus Cristo se humilhou e aniquilou, mais devemos nós, como o Pai, exaltá-Lo neste sacramento que nos recorda a Sua Paixão; mais Lhe devemos prestar as nossas homenagens. A justiça e sobretudo o amor assim nos levam a agir. Mas para isto é preciso fé. Sobretudo neste mistério, devemos botar o máximo de fé. Sem a fé, não se respeita a Eucaristia. 

domingo, 2 de abril de 2017

HOMILIA DO PRIMEIRO DOMINGO DA PAIXÃO

   Leituras: Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Hebreus, 9, 11-14.
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 8, 40-59:


Tempo da Paixão: Em espírito ao pé
da Cruz, passemos este tempo mais
recolhidos, meditando a Paixão e
Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
   "Naquele tempo, disse Jesus às turbas dos judeus: Qual de vós me arguirá de pecado? Se vos digo a verdade, por que não me credes? Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus. Por isto não as ouvis: porque não sois de Deus. Responderam-Lhe, pois, os judeus: Não dizemos bem nós, que és Samaritano, e que estás possesso do demônio? Respondeu Jesus: Eu não estou possesso do demônio; mas honro a meu Pai, e vós me desonrais. Eu não procuro a minha glória; há quem a procure e faça justiça. Em verdade, em verdade, eu vos digo que se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte para sempre. Disseram-Lhe, então, os judeus: Agora conhecemos que estás possesso do demônio. Abraão morreu assim como os Profetas. E tu dizes: Se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte para sempre. És, porventura, maior que o nosso Pai Abraão, que morreu? Ou maior que os Profetas que morreram? Por quem pretendes passar? Respondeu Jesus: Se eu me glorifico a mim mesmo, nula é minha glória. Quem me glorifica é meu Pai, Aquele que dizeis que é vosso Deus. E vós não O conheceis, porém, O conheço; e, se dissesse que não O conheço, seria mentiroso como vós. Eu, porém, O conheço e guardo a sua palavra. Abraão, vosso pai, sentiu júbilo porque havia de ver meu dia; ele o viu e alegrou-se. Disseram-Lhe então os judeus: Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade, eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu sou. Apanharam eles, então, pedras para Lhe atirar; mas Jesus escondeu-se e abandonou o templo". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Dirijo-me a todos vós, amados leitores, mas especialmente aos meus caríssimos colegas de sacerdócio.

   Se alguém merecia absoluta admiração e afeição universal, era por certo Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é  o Caminho, a Verdade e a Vida. É nosso Salvador, Mestre e nosso Exemplo: "Aprendei de mim, diz Jesus, que sou manso e humilde de coração". A doçura, a mansidão, a humildade, a amabilidade, a multidão e natureza de seus milagres, que mostravam sua bondade e seu poder, deviam ganhar-Lhe todos os corações. E, todavia, homem algum foi objeto de mais implacáveis ódios. 

   Caríssimos, que lemos neste Evangelho do 1º Domingo da Paixão? Conhecendo que os fariseus se obstinavam em maquinar contra a sua vida, Jesus procura abrir-lhes os olhos sobre a enormidade de um tal atentado: "Mas, por fim, lhes diz, de que me acusais vós? Apontai um fato e provai-o: qual de vós me arguirá de pecado?" Caríssimos, era necessário estar muito seguro de si, para falar assim a inimigos tão perversos e sagazes.

   Mas que pode a verdade sobre homens que não querem ouvir senão a paixão? Depois deste desafio tão simples e modesto, não replicar era reconhecer que Jesus era irrepreensível. "É, pois um justo, um profeta, talvez, o Messias, concluiria qualquer homem sensato. Mas a inveja diz: "É um samaritano, um inimigo de Deus e de seu povo, é um possesso: "Não dizemos bem nós, que és Samaritano, e que estás possesso do demônio?" Quê? sou inimigo de Deus e um endemoniado, porque não tenho pecado?... É que o ódio quando confundido, enfurece-se; já não sabe senão insultar e blasfemar. Toda paixão cega. 

   Caríssimos colegas de sacerdócio, se nós ministros de Nosso Senhor Jesus Cristo, cumprirmos fielmente nossos deveres, participaremos sempre da sorte de nosso Divino Mestre: "Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque vós não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece. Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: Não é o servo maior do que o senhor. Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós"... Portanto, tudo foi predito pelo próprio Jesus. Nós sacerdotes devemos ser a luz do mundo e o sal da terra: a luz fere os olhos doentes e a virtude desagrada ao vício: "Se eu vos digo a verdade, por que não me credes?"  Na verdade, caríssimos, aqueles orgulhosos não acreditaram em Jesus precisamente porque Ele lhes dizia a VERDADE. Lisonjeemos o soberbo, falemos o que está de acordo com seus desejos mundanos, dirijamo-nos a ele com agradáveis mentiras, e ele nos acreditará sem custo; mas, instruamo-lo com verdades que contrariam suas inclinações, e será uma felicidade, se não empregar violência contra nós: "Apanharam, então, eles pedras para Lhe atirar".

   Caríssimos, a contradição virá algumas vezes daqueles que tínhamos por amigos. São Paulo queixa-se disto de um modo especial. Escrevendo aos Gálatas, diz-lhes: "Vós recebestes-me como um Anjo de Deus, como Cristo Jesus. Era tão grande a vossa afeição para comigo, que arrancaríeis os olhos, para mos dar! Tornei-me eu logo vosso inimigo, porque vos disse a verdade?" (Cf. Gálatas IV, 16). Não há  meio termo: ou faltar aos deveres do meu ministério, sacrificando a minha consciência, ou sujeitar-me a ser estorvado nos meus desígnios, combatido, perseguido. Se quero ser bem visto do mundo, devo submeter-me aos seus erros e paixões. Ó meu Deus, preservai-me de tão culpável fraqueza! Ó meu doce Jesus, fazei que eu só procure agradar a Vós!

   No sacerdócio colegas caríssimos, aprendamos do próprio Jesus como devemos proceder para com os nossos perseguidores.

   Para um judeu, chamar-se samaritano, era um grande insulto; é-o para qualquer pessoa, chamar-se endemoniado; quanto mais para o Filho de Deus! Nosso Senhor Jesus não responde à primeira invectiva, porque não passava de um insulto; à segunda, que devia desconsiderá-Lo diante o povo, e não podia conciliar-se com o zelo da glória de seu Pai, Jesus repele-a expondo simplesmente a verdade: "Não, Eu não tenho demônio; mas honro o meu Pai, e vós em paga desonrais-Me". Que domínio sobre si mesmo! Que divina calma! Quando repreendia os vícios, diz São Jerônimo, sua voz era áspera; mas, quando se defendia de alguma afronta, usava maior mansidão. Negou que fosse possesso, afirmou que honrava o seu Pai: foi a sua única justificação.

   Caríssimos, eis o nosso modelo. Vinguemos com energia as injúrias que se referem a Deus, e desprezemos as que só a nós se referem. Trabalhemos por poder dizer como Jesus, sem que o coração desminta os lábios: "Eu, porém, não procuro a minha glória; há quem a procure e faça justiça". Sim, outro cuidará da nossa honra: Deus que vê tudo, dirige tudo, julga e manifestará tudo.

   Caríssimos, a exemplo do divino Salvador, reservemos para o juízo de seu Pai as injúrias que nos fazem. Entreguemos-Lhe a nossa reputação; a nossa causa é a sua, fá-la-á triunfar com certeza, no dia do juízo, e talvez na vida presente. Amaldiçoados pelos homens, seremos abençoados por Deus, que proporcionará a alegria dos seus servos às tribulações que tiverem padecido por ele. Sobretudo nesta conjuntura tão triste em que se encontra a Santa Madre Igreja, sofremos muitas incompreensões! O importante é que Nosso Senhor sabe que estas acusações não são verdadeiras. E é Ele quem vai nos julgar.

   A bondade de Jesus não faz mais que exasperar esses endurecidos; pegam em pedras, e querem condená-Lo, ao suplício dos blasfemos. Mas o amor que nos tem, fizera-O escolher um tormento ainda mais ignominioso e cruel. Mas, não tinha Ele poder e direito para os punir? Sim, mas quer ensinar-nos, que o poder deve muitas vezes ceder à paciência, o direito à caridade, e que há mais verdadeira grandeza em padecer do que em vingar, em não querer o que se pode, do que em poder o que se quer.

   Caríssimos colegas no sacerdócio, não esqueçamos que somos enviados como cordeiros para o meio dos lobos, e tenhamos sempre tanta paciência, que nem sequer os mais indignos tratamentos nos arranquem nunca uma palavra ofensiva. Retribuamos mal com bem e ódio com amor. O Cordeiro de Deus, que oferecemos em sacrifício no Altar, e que recebemos todos os dias como alimento da nossa alma, nos comunique estas santas disposições. Amém!   

   

terça-feira, 28 de março de 2017

A IGREJA E O MUNDO ( I )


"Não ameis o mundo nem as coisas do mundo" (1 João, II, 15).


Escrevi este artigo quando ainda seminarista, ou mais precisamente, há 45 anos atrás. Mostrei-o à S. Ex.cia Rev.ma D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória, que, então,  bondosamente o leu e deu a sua aprovação.

 Hoje, vemos como os modernistas, mais do que nunca, dominando na Igreja, fazem uma mistura das coisas sagradas com as mundanas, como foi o fato sacrílego acontecido no carnaval deste ano em São Paulo, quando o Cardeal Odilo Pedro Scherer permitiu que o bloco carnavalesco União de Vila Maria, sob pretexto de homenagear os 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora Aparecida, misturasse samba com cânticos religiosos, e colocasse a imagem de Nossa Senhora Aparecida, inclusive com o manto e coroa bentos por um padre do Santuário de Aparecida, colocasse, digo, num ambiente o mais mundano e pecaminoso possível, que é o carnaval, máxime o do Brasil. Assim sendo, achei por bem publicar este artigo. Oxalá as almas possam ver onde está a verdadeira doutrina de Nosso Senhor, e, outrossim, vejam como os modernistas são realmente os maiores inimigos da Igreja.

Feita que foi esta introdução, vamos iniciar as nossas reflexões sobre este texto das Sagradas Escrituras, acima enunciado.

Demos, em primeiro lugar, a noção correta de MUNDO, sentido este expresso no texto em apreço e nos muitos outros que aqui citaremos.

Tomamos aqui o termo MUNDO  não enquanto significa as obras da criação ou o conjunto das pessoas que vivem na terra (bons e maus), mas enquanto significa o complexo daqueles que são escravos da tríplice concupiscência e cujas máximas são contrárias às de Jesus Cristo. Mundo neste último sentido é explicado pelo Apóstolo São João na sua Primeira Epístola: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo. Ora o mundo passa, e a sua concupiscência com ele, mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente" (1 João, II, 15-17).  

Baseados sempre nas Sagradas Escrituras e na Tradição, vamos explicar esta definição do mundo dada por S. João Evangelista.

1. CONCUPISCÊNCIA DA CARNE: Sobre ela eis o que diz São Paulo: Caminhemos como de dia, honestamente; não caindo em glutonarias e na embriaguez, não em desonestidades e dissoluções; não em contendas e emulações, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não vos ocupeis da carne em suas concupiscências" (Rom. XIII, 13 e 14). "Caminhemos como de dia, honestamente". As obras dos filhos das trevas são feitas comumente à noite. São todas as desonestidades provenientes da concupiscência da carne. É o amor desordenado dos prazeres dos sentidos. Em primeiro lugar o amor sensual ou luxúria, espalhado por todo o corpo: ver, ouvir, falar, fazer tudo aquilo que acende e alimenta as chamas do amor impuro. Também os excessos no comer e beber e a moleza da vida.

Em outras passagens, o Apóstolo mostra como devem agir os "filhos da luz": Aqueles que são de Jesus Cristo, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências" (Gálatas, V, 24). Caríssimos, vede que S. Paulo não diz: "crucificaram seus vícios e concupiscências", mas "sua carne com seus vícios e concupiscências". O bom médico vai à raiz do mal. A carne, depois do pecado original, é a raiz dos males.

Ouçamos ainda S. Pedro, o primeiro Papa: "O Senhor sabe livrar os justos da tentação e reservar os maus para o dia do juízo a fim de serem atormentados, principalmente aqueles que vão atrás da carne na imunda concupiscência" (1 Pedro, II, 9 e 10).

2. CONCUPISCÊNCIA DOS OLHOS: Compreende duas coisas: a) a curiosidade doentia ou seja o desejo imoderado de ver, ouvir e conhecer o que se passa no mundo, alimentando e excitando assim a sensualidade. Neste sentido eis o que diz o Espírito Santo nas Sagradas Escrituras: "Ooliba [figura da corrupção de Jerusalém] foi aumentando sempre a fornicação porque tendo visto alguns homens pintados na parede, umas imagens dos caldeus delineadas com cores... pela concupiscência dos seus olhos concebeu por eles uma paixão louca"  (Ezequiel, XXIII, 14 e 16). "Os olhos não se fartam de ver..." (Eclesiastes I, 8). "Eu(Jesus), porém, digo-vos que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a já cometeu adultério com ela no seu coração" ( S. Mateus V, 28). 

Como a concupiscência vem do mundo, este promove tudo aquilo que provoca e fomenta a concupiscência dos olhos, e através desta, a concupiscência da carne, como por exemplo: revistas pornográficas, filmes, novelas e espetáculos imorais, bailes, imodéstia no vestir, sobretudo em certos ambientes como praias, piscinas, e festas mundanas, sobressaindo entre elas o Carnaval (máxime aqui no Brasil), namoros indecentes mesmo em público, (assim eu escrevia há 45 anos, e hoje? nem preciso dizer o que são!). Entra ainda o papel da televisão, do cinema, da maioria dos jornais e hoje máxime da Internet usada para o mal, como veículos de propagação destas imoralidades.
b) A concupiscência dos olhos pode ser interpretada também como o amor desordenado do dinheiro, ou avareza. Com efeito, o dinheiro, ou apegando o homem a terra e afastando seu pensamento de Deus ou provocando o luxo e o comodismo, oferece maior facilidade para tudo aquilo que fomenta a concupiscência dos olhos e promove a concupiscência da carne. Aliás é por aí que o demônio começa como ensina S. Paulo: "Os que querem enriquecer caem na tentação e no laço do demônio e em muitos desejos inúteis e perniciosos que submergem os homens na morte e na perdição. Com efeito a raiz de todos os males é o amor do dinheiro" (1 Timóteo, VI, 9 e 10). Jesus disse: "Não procureis (com cuidados excessivos) o que haveis de comer e beber e não andeis com espírito preocupado. Porque são os homens do mundo que buscam todas estas coisas" (S. Lucas, XII, 29). E explicando a parábola do semeador diz ainda: "A semente que caiu entre espinhos, representa aqueles que ouviram a palavra, porém, vão e ficam sufocados pelos cuidados do mundo, pelas riquezas e prazeres desta vida e não dão fruto" (S. Lucas, VIII, 14).

Eis como a Sagrada Escritura fala da concupiscência dos olhos tomada no sentido de AVAREZA: "O olho do avaro não se sacia com uma porção injusta; não se fartará, enquanto não tiver consumido e secado a sua vida. O olho mau tende para o mal, e não se saciará de pão, mas estará faminto e melancólico à mesa" (Eclesiástico, XIV, 9 e 10).

3. A SOBERBA DA VIDA: É o orgulho. É primeiramente a vaidade mais vulgar que gosta da ostentação e do luxo. O dinheiro ajuda a soberba. Esquecido de Deus e entregue a si mesmo, o homem considera-se o seu próprio deus. Daí vêm: avareza, espírito de independência, egoísmo, vã complacência, vanglória, jactância, ostentação, hipocrisia etc.. O homem orgulhoso confia em si mesmo; por isso se expõe aos perigos, aos ambientes mundanos, não aceita uma norma de vida, um moral fora e acima dele. Ele mesmo é o árbitro de suas ações, ele é que determina a sua moral, o seu modo de agir. Em uma palavra: ele faz a sua religião. Compreende-se assim facilmente com o orgulhoso, que, na verdade, é rejeitado por Deus, tem o caminho aberto para toda concupiscência, entregando-se aos pecados e baixezas da carne, o que aliás constitui um castigo de seu próprio orgulho.

Vejamos apenas alguns textos da Sagrada Escritura sobre a soberba da vida: "Mas vós, pelo contrário, elevai-vos na vossa soberba" (S. Tiago, IV, 16). "O princípio da soberba do homem é afastar-se de Deus" (Eclesiástico, X, 14). "Não há coisa mais detestável do que o avarento. Por que se ensoberbece a terra e a cinza? "Tua arrogância enganou-te, assim como a soberba do teu coração" (Jeremias, CLIX, 16).

O mundo, que tem como príncipe o demônio (Cf. S. João, XII,31; XIV, 30; XVI, 11).  ) e por estandarte a tríplice concupiscência, como age? Caríssimos, depois da queda original a natureza humana é inclinada para a concupiscência que atrai e alicia, e esta é alimentada pelo mundo que por sua vez é governado pelo demônio. Estes são os três inimigos das nossas almas: o mundo, a carne, e o demônio. Eis a explicação dada pelo próprio Espírito Santo através de S. Tiago: " Cada um é tentado pela sua própria concupiscência que atrai e alicia. Depois a concupiscência quando concebeu dá à luz o pecado" (S. Tiago, I, 14). S. João diz por sua vez: "Aquele que comete o pecado é filho do demônio, porque o demônio peca desde o princípio" (1 S. João, III, 8). E no capítulo V, 19 diz: "Sabemos que somos de Deus, mas o mundo está sob o maligno". Nosso Senhor Jesus Cristo na parábola do joio explicou que é o demônio o homem inimigo que suscita os maus sobre a terra (Cf. S. Mateus, XIII, 39).

O mundo então através da tríplice concupiscência e excitado pelo demônio persegue os bons de duas maneiras:

 1 - Seduzindo-os através de suas vaidades e prazeres; promove, como vimos acima, tudo aquilo que favorece os olhares lascivos e enlaces sensuais, mas apresenta tudo isso como coisas necessárias para fomentar o amor; como úteis para a saúde, recreações, higiene, etc.. E assim, procura enganar as consciências. Depois o mundo elogia os que sabem gozar a vida. Prega o amor desordenado do prazer: "Coroemo-nos de rosas antes que elas murchem" (Sab. II, 8). É um dever sagrado, dizem os mundanos, aproveitar a mocidade, gozar a vida. O mundo seduz ainda pelos seus maus exemplos. Com mostra a trilhar o caminho largo, apresenta como argumento supremo a maioria. Todos os mandamentos se resumem neste: todo mundo faz assim; é a moda, etc..

2 - Quando não pode seduzir os bons, o mundo trata de os aterrar movendo-lhes perseguições: Assim, desviam-se da prática da religião os tímidos, metendo a riso os devotos, os que fazem penitência, os "ingênuos" que acreditam em dogmas imutáveis, motejam das mães que têm muitos filhos, e que vestem modestamente suas filhas, zombam daqueles que fogem dos ambientes perigosos: como bailes, praias, piscinas, carnaval, etc..

Já disse a Sagrada Escritura: "Aqueles que querem viver piedosamente sofrerão perseguição" (2 Timóteo, III, 11).

Diante da opressão que o mundo lhes faz, consolem-se com o diz a Sagrada Escritura: Em realidade se Deus não perdoou ao mundo antigo; mas somente salvou com outros sete a Noé, pregador da justiça, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo dos ímpios, e se condenou a uma total ruína as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as as cinzas para servir de exemplo aqueles que venham a viver impiamente, se, enfim, livrou o justo Lot oprimido pelas injúrias e pelo viver luxurioso destes infames (esse justo que habitava entre eles sentia diariamente a sua alma atormentada, vendo e ouvindo as suas obras iníquas), é porque o Senhor sabe livrar os justos da tentação e reservar os maus para o dia do juízo, a fim de serem atormentados, principalmente aqueles que vão atrás da carne na imunda concupiscência e desprezam a soberania (de Cristo)" (2 S. Pedro, II, 4-10).


Caríssimos, desculpem-me por eu ter me estendido demais. Mas, na verdade, o artigo ainda continua. No próximo sábado, se Deus quiser, continuarei tratando da mesma matéria: Veremos, se Deus quiser, o modo de agir dos modernistas e o da Tradição em relação ao mundo. Faremos um terceiro artigo sobre A MODÉSTIA NO VESTIR. Sempre me baseando nas Sagradas Escrituras. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

SÃO JOSÉ PATRONO E MODELO DOS OPERÁRIOS
17 DE MARÇO

MODELO DOS OPERÁRIOS.

Foi pobre e humilde carpinteiro. Viveu José na oficina. Teve as mãos calejadas no rude labor. Sustentou a Família Sagrada com o suor da sua fronte. Viveu na luta e no sacrifício do operário pobre, desprotegido e sofredor. Nenhum operário, no entanto, teve como José uma honra: trabalhar, para sustentar com o suor de sua fronte, Aquele que de ninguém tem necessidade e no entanto quis ter fome, quis sofrer como pobre para ser alimentado e vestido e sustentado por São José, seu Pai nutrício. Lá, na santa casa de Nazaré, se realizava à letra o que disse Nosso Senhor: Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber. O trabalho era desprezado e humilhante. A oficina pobre de José, o carpinteiro santíssimo, e do operário divino, Jesus Cristo, aquela oficina trouxe uma renovação do mundo pela dignificação do trabalho e do operário cristão.

Daí, compreendemos perfeitamente porque vários Papas, como Leão XIII, Bento XV, Pio XI, apresentaram como modelo dos operários, e a Santa Igreja com toda justiça, colocou São José como Patrono dos operários.

EXEMPLO

O velho José

   As irmãzinhas dos Pobres fundaram, em Barcelona, a sua primeira casa na Espanha. Num casarão pobre estabeleceram um Asilo de Velhos. A princípio recebiam só mulheres. Um dia, lhes aparece um velho em andrajos, trêmulo, em estado de extrema miséria. Pedia um abrigo. De há muito vagava pelas ruas, sem teto e sem pão. Com cerca de oitenta anos, o infeliz só esperava a morte num recanto onde pudesse se abrigar.
   -  Não há lugar aqui, diz-lhe a Madre Superiora; só recebemos mulheres. Como se chama?
   -  Meu nome é José.
   -  José! José! murmura a boa Madre, e toma logo uma resolução: pois receberei o velho, custe-me os maiores sacrifícios. Seja tudo por amor de São José. Como hei de abandonar um miserável que traz o nome de nosso Santo Patrono? E dá ordem a uma das Irmãs:
   -  Minha Irmã, saia já e compre roupa e o necessário para este velhinho.
   Imediatamente soa a campainha da portaria. Entregam um pacote enorme. Abrem-no. É um terno de roupa nova para homem e muitas outras peças necessárias de vestuário, cama, etc.. O bom velhinho sorria, feliz. E nunca mais São José deixou faltar coisa alguma no Asilo. Dentro em breve levantam o pavilhão dos homens e a Instituição se torna uma das maiores e mais famosas.

   Nasceu e se desenvolveu sob a proteção de São José. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

AS SANTAS E PIEDOSAS MULHERES

   Se é certo pelas Sagradas Escrituras que tanto no Antigo Testamento como no Novo as mulheres nunca foram escolhidas para exercer o sacerdócio ministerial, também não é menos certo que Deus no Antigo Testamento e Deus Filho, feito Homem, Nosso Senhor Jesus Cristo no Novo Testamento não dispensaram a ajuda dedicada e carinhosa de piedosas mulheres. 

   Eis o que relata São Lucas no capítulo 8º, versículos de 1 a 3: "Depois disto, Jesus percorria cidades e aldeias pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus. Acompanhavam-nO os doze apóstolos e algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de doenças. Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios, Joana, esposa de Cusa, intendente de Herodes, Susana e muitas outras, que os serviam com seus haveres".

   Já havia entre os judeus o costume de senhoras piedosas proverem à subsistência de rabinos, ou doutores que se dedicavam exclusivamente ao ensino da lei. Como Jesus não se fixava em lugar algum, mas percorria contantemente as diversas regiões do país, elas o acompanhavam. 
   São Lucas, depois de citar Maria Madalena, Joana e Susana, acrescenta que muitas outras também acompanhavam a Jesus. Sabemos por São Mateus 27, 56 e por São Marcos 15, 40, que, entre estas muitas, estavam Salomé, mãe de Tiago e de João, e esposa de Zebedeu, e também Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José.

   Quanto a Maria, chamada Madalena, parece que este nome "Madalena" deriva de Mádala, pequena localidade situada à margem ocidental do logo de Genesaré. Diversos intérpretes, entre eles alguns santos doutores da Igreja, seguindo a Liturgia da Igreja (Breviário na sua festa, dia 23 de julho) supõem que esta Maria Madalena seja a mesma pecadora que ungiu os pés de Jesus e que mais tarde Lhe ungiu a cabeça em Betânia. Seria, portanto, irmã de Marta e de Lázaro. 

   Quanto a Joana, sabemos que seu nome aparece mais tarde entre aquelas que foram ao sepulcro de Jesus, na manhã da ressurreição. 

   São Lucas diz que estas piedosas mulheres acompanhavam a Jesus e os Apóstolos para os servirem com seus haveres. Portanto, não só ofereciam seu trabalho como também custeavam despesas. É interessante observarmos que entre estas piedosas e dedicadas mulheres havia algumas que eram casadas. Seus esposos, portanto, têm o merecimento de haverem consentido que suas esposas ajudassem a Jesus e aos Apóstolos. Hoje, infelizmente há muitos homens que não ajudam nem permitem que suas esposas ajudem à Igreja.

   Limitar-me-ei a fazer apenas mais uma citação, que é de São Paulo na sua Epístola aos Efésios 4, 2 e 3: "Rogo a Evódia e suplico a Síntique que tenham os mesmos sentimentos no Senhor. Também, te rogo a ti, fiel companheiro, que as ajudes a elas que COMBATERAM COMIGO PELO EVANGELHO".

   Na verdade, caríssimos, como comenta o Padre Lincoln Ramos, o Cristianismo trouxe duas grandes prerrogativas à mulher: a) Elevou-a socialmente à altura do homem, pois antes era relegada a posição social inferior, sendo até, em certos países, considerada como escrava. b) Abriu mais largos horizontes para a influência benéfica de seu espírito de caridade e de dedicação. As que seguiam a Jesus, faziam-no também por gratidão, por haverem sido ou libertadas do demônio ou curadas de enfermidades.

   Nós padres, que abandonamos tudo por amor a Jesus, verificamos como a Providência Divina em todos os lugares que trabalhamos, suscita  assim piedosas e dedicadas mulheres que tanto nos ajudam. Que Deus lhes pague! E, de minha parte, deixo aqui o meu mais cordial e profundo agradecimento.