SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

DOUTRINA SOBRE O SANTÍSSIMO SACRIFÍCIO DA MISSA SEGUNDO O CONCÍLIO DE TRENTO

   "Para que se mantenha íntegra na Igreja Católica a antiga fé e doutrina do grande mistério eucarístico, e, debelados os erros e heresias, se conserve em sua pureza, o sacrossanto Concílio Ecumênico e Geral de Trento, instruído pela ilustração do Espírito Santo..., ensina, declara e determina no que segue o que deve ser pregado aos povos fiéis a respeito [da Eucaristia] enquanto é um verdadeiro e singular sacrifício.

CAPÍTULO PRIMEIRO

   "Já que no Antigo Testamento, segundo testifica o Apóstolo São Paulo, por causa da fraqueza do sacerdócio levítico não havia perfeição, convinha, por disposição de Deus, Pai da misericórdia, se levantasse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec (Gn 14, 18; Sl 109, 4; Heb 7, 11), Nosso Senhor Jesus Cristo, que pudesse consumar (Heb. 10, 14) e levar a perfeição todos os que se houvessem de santificar (Heb. 10, 14). Assim este Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo, embora por sua morte se houvesse de oferecer uma só vez ao Eterno Pai no Altar da cruz, para nele obrar a redenção eterna, contudo, já que pela morte não se devia extinguir o seu sacerdócio (Heb. 24, 27), na última ceia, na noite em que ia ser entregue, querendo deixar à Igreja, sua amada Esposa, como pede a natureza humana, um sacrifício visível que representasse o sacrifício cruento a realizar uma só vez na Cruz, e para que a sua memória durasse até a consumação dos séculos e a sua salutar virtude fosse aplicada para remissão dos nossos pecados cotidianos, declarando-se sacerdote perpétuo segundo a ordem de Melquisedec (Sl 100, 4), ofereceu a Deus Pai o seu corpo e sangue sob as espécies do pão e do vinho e, sob as mesmas espécies, entregou Corpo e Sangue aos Apóstolos que então constituiu sacerdotes do Novo Testamento para que o recebessem, mandando-lhes, e aos sucessores deles no sacerdócio, que fizessem a mesma oblação: Fazei isto em memória de mim (Luc 22, 19; 1 Cor 11, 24), como a Igreja Católica sempre entendeu e ensinou. E assim, celebrada a antiga Páscoa, que a multidão dos filhos de Israel imolava em memória da saída do Egito (Ex 12, 1 ss), instituiu a nova Páscoa, imolando-se a si mesmo pela Igreja por mão dos sacerdotes, debaixo de sinais visíveis, em memória do seu trânsito deste mundo para o Pai, quando nos remiu pela efusão do seu sangue e nos tirou do poder das trevas, transferindo-nos ao seu reino (Col 1, 13). 

   "Esta é a oblação pura que se não pode manchar com indignidade ou malícia alguma dos que a oferecem, que o Senhor predisse por Malaquias se haveria de oferecer, em todo lugar, pura ao seu nome (Mal 1, 11), que havia de ser grande entre as gentes. A esta oblação alude claramente São Paulo escrevendo aos Coríntios que não podem aqueles que estão manchados com a participação da mesa dos demônios fazer-se participante da mesa do Senhor (1 Cor 10, 21), entendendo por mesa o altar, em um e outro lugar. Finalmente, este é aquele sacrifício figurado por várias semelhanças de sacrifícios na lei natural e na escrita (Gn 4, 4; 8, 20; 8, 22), pois encerra todos os bens significados por aqueles sacrifícios como consumação e perfeição que é de todos eles". 

   Veremos os outros capítulos nos posts próximos seguintes. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Páginas Históricas do Concílio Vaticano II - ( 26ª )

O ESQUEMA SOBRE A IGREJA NO MUNDO MODERNO

   No Concílio, nenhum esquema foi assunto de tantas conversações como o esquema sobre a Igreja no mundo moderno. (...)

   (...) O novo esquema estava inteiramente nas mãos dos que determinavam a política da Aliança Europeia. 

   Eles tinham escolhido para secretário um liberal, o Padre Häring C.SS.R., professor de teologia moral. (...).

   (...) Mons. Heenan, Arcebispo de Westminster, que na época já tinha fundado o grupo de oposição conhecido pelo nome de "Conferências de São Paulo", declarou que o esquema era "indigno de um Concílio Ecumênico da Igreja". Ele propôs que o esquema fosse retirado da Comissão que se ocupara dele e confiado a outra comissão a ser constituída imediatamente. "Posteriormente", disse, "após três ou quatro anos, a quarta e última sessão do Concílio poderia ser convocada para a discussão de todos os problemas sociais". Predisse que o Concílio, que tinha passado tanto tempo a discutir "subtilezas teológicas", se tornaria "objeto de chacota do mundo se se atirasse agora, de olhos fechados, a um debate sobre a fome no mundo, a guerra nuclear e a vida de família". Também chamou a atenção para o fato de que, conforme as instruções, enquanto se deveria discutir o esquema, o suplemento não deveria sê-lo. "Mas" disse, "se não examinarmos cuidadosamente os dois documentos, a intenção do Concílio deverá ser interpretada perante o mundo pelos peritos que ajudaram os padres da comissão a redigir os documentos. Deus nos livre que isto aconteça! Tenho muito medo dos peritos, quando se deixa que eles expliquem o que os bispos querem dizer (...) Não adianta nada falar de um Colégio de Bispos se peritos, em artigos, livros e conferências, contradizem e ridicularizam o que grupo de bispos ensina (...) As teorias de um ou dois teólogos não devem ser confundidas com o consenso geral dos teólogos (...) Somente um "consenso geral", disse, tinha uma autoridade particular. (...)

   O Patriarca maronita Meouchi considerou que a estrutura do esquema carecia de lógica, que seu estilo era incerto e continha repetições. Segundo ele, o esquema dava impressão de que a Igreja havia sido instituída para se ocupar de boas obras e assuntos sociais, econômicos e políticos, e, de mais a mais, parecia pressupor uma concepção da História onde não havia lugar para a Providência. Ele insistia por uma revisão radical do texto.

   (...) Em 30 de dezembro a Comissão de Coordenação decidiu que o suplemento, ao menos no essencial, seria incluído no esquema. (...)

   A batalha tinha sido longa e dura, porém, mais uma vez os liberais, com a assistência dos Moderadores, tinham conseguido obter o que queriam. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Páginas Históricas do Concílio Vaticano II - ( 25ª )

O ESQUEMA SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

   (...) Mons. Compagnone, Bispo de Anagni, disse que era preciso não se afastar da doutrina do Concílio de Trento e do primeiro Concílio do Vaticano, que esclareciam ser a Tradição mais "extensiva" que a Sagrada Escritura, e que a Revelação estava contida não somente na Sagrada Escritura mas também na Tradição. (...)

   O Coetus Internationalis Patrum dirigiu a seus componentes uma crítica de dez páginas ao esquema, como uma carta de esclarecimento, declarando que, em consciência, se poderia votar em favor do esquema na quarta sessão, contanto que fossem feitas as correções indicadas. O Grupo insistia para que as correções fossem apresentadas antes de 31 de janeiro, prazo máximo, pois a experiência demonstrava que "as sugestões e correções enviadas às Comissões conciliares não tinham quase peso algum quando não eram apoiadas pelo maior número possível de assinaturas".

   Mas este esforço foi vão, pois, apesar do anúncio ter sido feito na aula conciliar, a Comissão de Teologia não procedeu a revisão alguma. 

   (...) As restrições diziam respeito sobretudo às relações entre Escritura e Tradição(art. 9), à inerrância da Escritura (art. 11) e à historicidade dos Evangelhos (art. 19). Desde o começo, estes três pontos tinham se revelado particularmente espinhosos, por causa da diversidade das escolas de pensamento teológico, da variedade de posições indicadas pelos estudos bíblicos modernos e das ocorrências ecumênicas. (...)

   (...) Uma emenda preparada pelo Coetus Internationalis Patrum tinha sido apresentada por 158 Padres Conciliares, visando substituir as palavras em litígio por "a história verídica e sincera", ou "uma narração histórica verdadeira". Os autores desta emenda sustentavam que um escritor pode ser sincero mesmo escrevendo um conto ou romance, e que o esquema limitava a verdade dos Evangelhos ao que se dizia de "Jesus", ao passo que deveria estar dito claramente que o que os Evangelhos traziam de outras pessoas era igualmente, sob o aspecto histórico, verídico e sincero. Oitenta e cinco outros Padres Conciliares haviam sugerido substituir as palavras "sobre Jesus, fatos verdadeiros e sinceros", por "verdades objetivas quanto à exatidão histórica dos fatos".

   No entanto, mais uma vez a Comissão de Teologia decidiu nada mudar no texto. (...)

   Como era de se esperar, tais decisões suscitaram grande decepção nos grupos minoritários interessados, tanto dentro quanto fora da Comissão. Protestos não demoraram a chegar ao Sumo Pontífice por diversas vias. Alguns especialistas sustentavam que o esquema continha graves erros doutrinários. Bispos reclamavam com insistência uma intervenção por parte da autoridade do Papa.(...)

   (...) Em 8 de outubro o Sumo Pontífice tinha recebido do Coetus Internationalis Patrum um memorando sobre o artigo 11. Diziam os autores que as palavras "a verdade relativa à salvação" tinham sido deliberadamente introduzidas para limitar a inerrância da Escritura às questões sobrenaturais concernentes à fé e à moral, o que estava em aberta oposição ao ensino constante da Igreja e estimulava os exegetas a se tornarem cada vez mais audaciosos. Outras reações provocadas por este artigo, representando os mais variados matizes de opinião, chegaram ao Papa tanto espontaneamente quanto por solicitação dele próprio. (...)

   (...) Em 18 de outubro, em carta dirigida ao Cardeal Ottaviani, presidente da Comissão de Teologia, o Cardeal Cicognani, Secretário de Estado, incluía outras observações do Sumo Pontífice sobre os três artigos em litígio, e informava ao Cardeal da intenção que tinha o Papa de reunir novamente a Comissão . Explicava ele que essas observações não tinham por objeto "alterar substancialmente o próprio esquema ou o trabalho da Comissão, mas antes melhorá-lo em certos pontos de grande importância doutrinal". 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Páginas Históricas do Concílio Vaticano II - ( 24ª )

   "Nenhum texto foi submetido a tantas revisões pelo Concílio como o esquema sobre a liberdade religiosa. Antes de sua promulgação (sob forma de declaração) em 7 de dezembro de 1965, véspera do encerramento do Concílio, seis diferentes projetos tinham sido propostos, e um dos bispos americanos disse que sem seu apoio 'este documento nunca teria chegado à aula'. (...)

   O Cardeal Silva Henríquez, Arcebispo de Santiago do Chile, falando em nome de 58 bispos da América Latina, disse que o grande valor da declaração 'vinha de que ela era apresentada não como capitulo de um esquema, mas como uma declaração independente destinada a toda a humanidade'.'Eis aí,' disse, 'uma das razões particulares para que eles aprovassem o texto'. Não seria possível existir verdadeiro movimento ecumênico na América Latina, acrescentou, enquanto os cristãos não católicos não tomassem consciência do fato de que 'nós reconhecemos e defendemos sinceramente esta liberdade fundamental'.

   O orador seguinte foi o Cardeal Ottaviani. Ele disse que a declaração enunciava um princípio que sempre fora reconhecido, isto é, que ninguém pode ser constrangido em matéria de religião. Mas tinham exagerado em dizer que quem obedecia à consciência 'era digno de honra'. Melhor seria dizer que era digno de tolerância ou de respeito e caridade. Afirmou que 'o princípio segundo o qual todo indivíduo tem o direito de seguir a própria consciência deve pressupor que esta consciência não seja contrária ao direito divino'. Faltava no texto 'uma afirmação explícita e solene do primeiro e autêntico direito à liberdade religiosa, que pertence objetivamente aos que aderem à verdadeira religião revelada'. Seu direito, disse, é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, ao passo que aqueles que estão no erro possuem apenas um direito subjetivo. O Cardeal acrescentou que era 'extremamente grave' declarar que toda espécie de religião era livre de se propagar. 'Disto resultaria um evidente perigo para as nações onde a religião católica é aquela à qual o conjunto da população adere'. Disse, igualmente, que um Concílio Ecumênico não podia ignorar o fato 'de que os direitos da verdadeira religião estão fundamentados não somente em direitos puramente naturais, mas também, em um grau bem mais alto, nos direitos decorrentes da Revelação'.

   O Cardeal Ruffini, Arcebispo de Palermo, observou que, embora existisse uma só verdadeira religião, o mundo estava mergulhado nas trevas e no erro e, como consequência, era preciso praticar a tolerância e a paciência. Era importante estabelecer adequadamente a distinção no texto, para não haver o perigo de o Concílio parecer homologar o indiferentismo religioso e nada dizer além do que disseram as Nações Unidas em sua Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948. Acrescentou que certas frases do texto deixavam entender que o Estado não tinha o direito de favorecer determinada religião; se era assim, as concordatas assinadas entre a Santa Sé e a Itália, Portugal, Espanha e República Dominicana deveriam ser revistas. 

   O Cardeal Quiroga y Palacios, Arcebispo de Santiago de Compostela, pediu que o texto fosse inteiramente revisado. A julgar pelo estilo e linguagem adotados, a preocupação dominante parecia ser a de favorecer a união com os irmãos separados, sem que fossem levados suficientemente em conta os gravíssimos perigos a que, com isto, estariam expostos os fiéis católicos. Afirmou que o texto estava repleto de ambiguidades, que nele se pregava uma nova doutrina em prejuízo da doutrina tradicional, e o Concílio se via convidado a dar sua aprovação àqueles liberalismo que a Igreja tinha tantas vezes condenado.

   O Cardeal Bueno y Monreal, Arcebispo de Sevilha, disse que todo o texto estava penetrado de dupla ambiguidade. Somente a Igreja Católica recebera de Cristo o mandado de pregar a todas as nações. Objetivamente falando, nenhuma outra doutrina religiosa tinha o direito de se propagar. No domínio social, toda liberdade está sujeita a limitações decorrentes dos direitos e liberdades dos outros, bem como das exigências da lei e da ordem. Sustentou que o direito de pregar sua própria religião era válido só na medida em que dizia respeito aos que livremente tinham optado por escutar, mas não para os que não queriam escutar. Aqueles que não estavam dispostos a aceitar a propagação de falsas religiões ou ensinamentos morais nefastos, sem dúvida alguma tinham o direito de requerer que esta propagação pública não fosse autorizada. (...)

   À medida que terminava o primeiro dia de discussão sobre a liberdade religiosa, ficava claro que este não era um assunto de que o Concílio pudesse tratar apressadamente.

   O Cardeal Browne, da Cúria, disse, que a declaração não podia ser aprovada como estava. Ele foi apoiado por Mons. Parente, Arcebispo-membro da Cúria, que se baseou no fato de que no texto os direitos de Deus estavam subordinados aos direitos e à liberdade do homem; seria uma lástima, disse, que a Igreja fizesse uso de seu magistério extraordinário para proclamar a absoluta liberdade religiosa.

   O Padre Fernández, Superior Geral dos Dominicanos, sustentou que o texto devia ser inteiramente corrigido, pois estava contaminado de naturalismo.

   Mons. Carlo Colombo, decano da Faculdade de Teologia do grande Seminário de Milão, disse que a declaração sobre a liberdade religiosa era 'da mais alta importância', não somente em razão de suas consequências práticas, mas também, e talvez sobretudo, em razão do juízo que dela fariam os homens cultos. Eles veriam aí uma chave para abrir a possibilidade de um diálogo entre a doutrina católica e a mentalidade moderna. Pediu que o conteúdo doutrinal do texto fosse mais desenvolvido e mais bem estruturado, principalmente no que dizia respeito às referências feitas aos principais fundamentos do doutrina católica em matéria de liberdade religiosa. Disse ele que, em essência, o texto apresentava 'uma aplicação nova de princípios imutáveis'. O que Mons. Colombo dizia era considerado de grande importância, pois era o teólogo pessoal do Papa. 

  Logo após sua intervenção, votou-se o encerramento do debate. Contudo, na Congregação Geral seguinte, quatro novos oradores tomaram a palavra em nome de setenta e tantos Padres Conciliares. Todos eles falaram de modo enérgico em favor do texto, alegando que uma simples declaração sobre a liberdade religiosa não era suficiente, e que os fundamentos doutrinários deviam ser expostos. 

   Assim terminou a discussão sobre a liberdade religiosa. Mais uma vez o Secretariado para a União dos Cristãos pôs-se a preparar nova revisão. Era o terceiro projeto; seria preciso um quarto, um quinto, depois um sexto, para que o documento estivesse pronto para ser promulgado."

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Páginas Históricas do Concílio Vaticano II - ( 23ª )

   "O Cardeal Siri, Arcebispo de Gênova, trabalhando em colaboração com Mons. Rossi, professor em seu grande seminário, preparou e mandou imprimir numerosos comentários e observações sobre os esquemas; esses documentos foram largamente difundidos entre os elementos conservadores da hierarquia italiana e das hierarquias de língua espanhola e portuguesa, da Europa e da América Latina.

   (...) Mons. Proença Sigaud, Arcebispo de Diamantina, no Brasil, fundou e dirigiu a Coetus Internationalis Patrum (Grupo Internacional de Padres), apresentando - com a Cúria Romana - como o máximo de conservadorismo e como o freio dos elementos progressistas do Concílio, e que foi muito maltratado na imprensa, em revistas e livros, mesmo sendo sua finalidade fazer ouvida a voz das minorias conservadoras. 

   Durante as duas primeiras sessões, Mons. Proença Sigaud organizou conferências semanais, mas os membros italianos se retiraram quando correu o boato de que Mons. Capovilla, Secretário particular de João XXIII, tinha declarado que não consideraria ofensivas ao Papa eventuais críticas dirigidas contra a Cúria Romana. Novo esforço veio do número de votos dos que se pronunciaram contra a fusão do esquema sobre a Santíssima Virgem Maria com o esquema sobre a Igreja, o que provava, segundo Mons. Proença Sigaud, que um número bastante grande de Padres Conciliares 'se esforçava por orientar o Concílio na linha doutrinal tradicionalmente seguida pela Igreja'. Mas não se achou cardeal algum que tivesse a audácia de dar à organização o apoio que lhe era necessário, até que em 29 de setembro de 1964, durante a terceira sessão, o Cardeal Santos, Arcebispo de Manilha, aceitou ser o seu porta-voz no Sacro Colégio.

   O grupo então comprou uma pequena impressora rotativa offset, que foi instalada perto do Vaticano, e recrutou pessoal de escritório. Três dias depois de sua entrevista com o Cardeal Santos, Mons. Proença Sigaud publicou um boletim anunciando que o Coets Internationalis Patrum organizaria, toda terça-feira à noite, uma conferência aberta a todos os Padres Conciliares. Tais reuniões teriam por objetivo 'estudar, com a ajuda de teólogos, os esquemas do Concílio à luz da doutrina tradicional da Igreja e dos ensinamentos dos Sumos Pontífices'. As reuniões eram patrocinadas pelos cardeais Santos, Ruffini, Siri, Larraona e Browne. 

   O Coetus Internationalis Patrum não demorou a se tornar tão ativo e a exercer tal influência que a Aliança Europeia ficou indignada; segundo um dos cardeais da aliança, Mons. Proença Sigaud 'estava bom para ser enviado para a Lua', e a Katholische Nachrichten Agentur, agência de imprensa católica subvencionada pelos bispos alemães, o qualificou de arqui-conservador e o acusou, bem como aos membros de seu grupo, de trabalhar ocultamente contra os objetivos do Concílio. Apesar disto, uma onda quase ininterrupta de circulares, comentários sobre os esquemas, intervenções e emendas afluíam de sua pena e da dos bispos e teólogos que ele tinha reunido. Muito tempo antes de um esquema vir à discussão, já estava definido um programa de ação esclarecendo os aspectos do esquema que convinha apoiar ou combater, nas intervenções orais ou escritas. 

   Em 9 de novembro de 1963, durante a segunda sessão, Mons. Carli, Bispo de Segni, um dos membros mais ativos do grupo, preparou para o Sumo Pontífice uma carta na qual lhe suplicava 'que pedisse aos Cardeais Moderadores que se abstivessem inteiramente de intervir publicamente em seu próprio nome, tanto dentro como fora da aula conciliar'. Dizia que, aos olhos de todos, eles apareciam como 'os intérpretes do pensamento do Sumo Pontífice' e se suspeitava que pendiam 'para certa direção bem precisa'. Mas o Cardeal Ruffini o desaconselhou de enviar a carta, e ele não a remeteu.

   O Padre Ratzinger, teólogo pessoal do Cardeal Frings, estando um dia à mesa com um grupo, disse que os liberais, depois de alcançarem a maioria nas comissões, tinham pensado ter as mãos livres no Concílio, mas que as intervenções e votos começavam a lhes mostrar que suas proposições se chocavam com certa resistências que as Comissões deveriam levar em conta por ocasião das revisões dos esquemas. Ratzinger ignorava que Mons. Proença Sigaud estava sentado a pouca distância dele, rindo disfarçadamente ao perceber um representante da Aliança Europeia reconhecer publicamente o fato". 

   N.B.: Numa conversa que certa vez tive com D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória,  especialmente sobre o Concílio Vaticano II, Sua Excelência deixou bem claro o seguinte (embora não me lembre exatamente das suas próprias palavras): "Pela graça de Deus, nós Padres do Concílio, conservadores, (Coetus Internationalis Patrum) fizemos o que pudemos, e saímos do Concílio com dois sentimentos: primeiro com a consciência tranquila do que fizemos durante o Concílio, e saímos do Concílio com a obrigação em consciência de procurar nos anteciparmos aos progressistas, procurando dar a interpretação tradicional naquilo que fosse possível e afastar os nossos fiéis dos efeitos daquelas coisas que víamos serem perniciosas. Inclusive, diante das ideias progressistas dominantes no Concílio (arredondando os números: eram 2000 liberais contra 200 conservadores) alguns conservadores quiseram simplesmente abandonar o Concílio, mas D. Antônio e D. Lefebvre acharam melhor permanecer e lutar o quanto pudessem durante o Concílio e depois dele, procurar desfazer na medida do possível as interpretações desastrosas encubadas nas inúmeras ambiguidades.  Foi também o que eles aconselharam a alguns que quiseram abandonar o Concílio. 

   

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Páginas Históricas do Concílio Vaticano II - ( 22ª )

   "Em 5 de março, L'Osservatore Romano anunciou a criação de um 'Conselho para a aplicação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia', prometida pelo Papa em seu Motu proprio. O novo órgão compreendia 42 pessoas representando 26 países, e era presidido pelo Cardeal Lercaro. Muitos padres que tinham sido membros da Comissão de Liturgia estavam incluídos; o secretário era o Padre Bugnini, C.M., que tinha assumido a mesma função na Comissão Pre-Conciliar de Liturgia. 

   O nome mais surpreendente na lista de membros era o de Mons. Felici, que tinha revisado tão completamente o Motu proprio, causando forte comoção entre os bispos e colocando o Sumo Pontífice em grande embaraço. Que fizera ele para merecer tomar parte nessa comissão? Era canonista, e não liturgista. A verdade é que sua nomeação era obra do padre Bunigni, que o julgava merecedor de recompensa pelo que fizera em favor do esquema no primeiro estágio de sua elaboração em 1962, quando o Cardeal Gaetano Cicognani , irmão mais velho do Secretário de Estado (tinha 80 anos), e presidente da Comissão Pré-Conciliar de Liturgia, hesitara em dar sua necessária aprovação. Poderosos elementos conservadores da Congregação dos Ritos insistiam para que ele se recusasse a assinar. Mons. Felici, que regularmente prestava contas a João XXIII sobre o estado de avanço dos esquemas e sua difusão, explicara ao Papa a dificuldade em que se encontrava, uma vez que, embora a maioria exigida da Comissão já tivesse aprovado o esquema, ele não podia expedi-lo sem a assinatura do Cardeal Cicognani. Antes que sua audiência tivesse terminado, uma tática tinha sido estabelecida.
   João XXIII chamou seu Secretário de Estado e lhe suplicou que fosse procurar o seu irmão [c.Cicognani] e só voltasse depois que o esquema estivesse devidamente assinado. Em 1º de fevereiro de 1962, o Secretário de Estado foi então procurá-lo no escritório; no corredor encontrou Mons. Felici e o Padre Bunigni, e informou a seu irmão sobre o desejo do Sumo Pontífice. Mais tarde, um especialista da Comissão Pré-Conciliar de Liturgia afirmou que o velho Cardeal estava a ponto de chorar, agitava o documento dizendo 'querem me forçar a assinar isto, não sei o que fazer'. Depois colocou o texto sobre sua mesa, tomou uma caneta e assinou. Quatro dias mais tarde, estava morto. 

   [Pode ter sido coincidência, mas, na verdade, questão de consciência é o que mais afeta uma pessoa convicta e sincera. Acho até que, se o Cardeal Cicognani, que tinha merecido em outros tempos, toda confiança de Pio XII, se pudesse adivinhar o efeito desastroso da reforma litúrgica que estamos presenciando, teria morrido, não 4 dias depois, mas sim naquele mesmo momento em que foi obrigado a assinar]. 
   [O autor Padre Ralph Wiltgen fez esta digressão para contar este caso triste do velho Cardeal Cicognani].  

sábado, 7 de dezembro de 2013

Páginas Históricas do Concílio Vaticano II - ( 21ª )

   "Em 29 de janeiro de 1964, L'Osservatore Romano publicou um Motu Proprio de Paulo VI, onde está dito que em substância não era possível dar efeito imediato a todas as partes da Constituição sobre a Liturgia, uma vez que era preciso preparar novos livros litúrgicos; uma comissão especial seria nomeada para isto. [ndr.: I maginem que até hoje ainda há discussões sobre traduções!!! E não se resolvem! E em se tratando de línguas vivas (o latim é língua morta) estão sempre mudando e sofrendo deturpações]. 

   No dia seguinte, L'Osservatore Romano publicou um comentário de um liturgista beneditino, Dom Marsili. Ele falava da grande decepção que lhe causava o Motu proprio, que 'embora aparentemente pondo fim a vacatio legis, na realidade não fazia senão prolongá-la'. 

   Pouco tempo depois, tive oportunidade de encontrar Dom Marsili, para quem o Motu proprio era um 'desastre'. Enquanto a Constituição sobre a Liturgia era tão ampla, tão liberal, 'eis que o Papa fechou as portas' disse, 'com o seu Motu proprio'. Ele acrescentou que todos os membros da Comissão de Liturgia sabiam que tinham sido preparadas, para o Papa, três versões diferentes do documento. A que finalmente lhe fora apresentada tinha sido inteiramente modificada por Mons. Felici, que em certos pontos chegava a contradizer a Constituição tal como fora promulgada. Infelizmente, confiando no Secretário Geral, Paulo VI autorizara a publicação do texto.

   Durante as vinte e quatro horas que se seguiram à publicação do Motu proprio, houve um pandemônio nos escritórios da Secretaria de Estado. Chamadas telefônicas, telegramas e cabogramas se sucediam ininterruptamente, provindo de bispos e Conferências Episcopais do mundo inteiro, falando de sua perplexidade ou sua irritação. Mons. Dell'Aqua, da Secretaria de Estado, diria mais tarde que jamais esse dicastério conhecera, em toda a sua história, um dia semelhante. A situação se agravou ainda mais, quando, em 31 de janeiro, L'Osservatore Romano publicou, em italiano, uma tradução do Motu proprio que não correspondia ao texto latino publicado dois dias antes. 

   Talvez a maior crítica que se fazia ao Motu proprio era que ele não autorizava a introdução da língua vulgar na liturgia a partir de 16 de fevereiro de 1964. Os jornais não tardaram a relatar que, sem se preocupar com isto, a hierarquia francesa se adiantava. A hierarquia alemã enviou imediatamente a Roma um de seus principais liturgistas, Mons. Wagner, para ver o que tinha acontecido. O Cardeal Lercaro, Arcebispo de Bolonha, não escondeu seu descontentamento e anunciou que viria a Roma para ver o Papa. 

   Enquanto isso, os juristas do Vaticano lutavam para encontrar uma saída para o impasse. A solução que escolheram foi informar a todas as Conferências Episcopais, por meio dos núncios ou delegados apostólicos, que o Motu proprio publicado no L'Osservatore Romano fora revogado, e que outra versão estava sendo preparada para ser publicada nos Acta Apostolicae Sedis, único jornal oficial da Santa Sé. (Sabe-se que, juridicamente um documento só é promulgado oficialmente quando aparece nos Acta Apostolicae Sedis).

   E 2 de março, o texto oficial do Motu proprio, tal como devia aparecer nos Acta Apostolicae Sedis, foi publicado em brochura destinada aos bispos. Ele havia tido pelo menos quinze revisões. Numerosos Padres Conciliares viram nessas poucas folhas de papel o sinal de sua vitória sobre a Cúria Romana".