SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

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domingo, 22 de dezembro de 2019

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 4º DOMINGO DO ADVENTO


S. Lucas III, 1-6

1. No ano décimo quinto do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galileia, Filipe, seu irmão, tetrarca da Itureia e da província da Traconítides e Lisânias tetrarca da Abilínea, 2. sendo pontífices  Anás e Caifás, o Senhor falou a João, filho de Zacarias, no deserto. 3. E ele foi por toda a terra do Jordão, pregando o batismo de penitência para remissão dos pecados, 4.  como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: "Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas: 5.  Todo o vale será terraplanado, e todo o monte e colina serão arrasados; os caminhos tortuosos tornar-se-ão direitos, e os escabrosos planos;  6. e todo o homem verá a salvação de Deus".

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Observamos, em primeiro lugar o cuidado particular que o Evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, tem de precisar a época, os lugares e as pessoas. Sua intenção é colocar os contemporâneos em condições de reconhecer a exatidão da narração evangélica, e assim, também impedir que no futuro os incrédulos  neguem os fatos aí contados. Devemos notar outrossim, que S. Lucas nomeia, não somente os príncipes, os magistrados judeus, mas também os príncipes e governadores pagãos, como Tibério e Pôncio Pilatos. Porque, na verdade a religião deveria ser pregada também aos gentios e não somente aos judeus.

O Senhor falou a João no deserto: Estas palavras significam que S. João Batista recebeu positivamente de Deus, por inspiração ou pelo ministério dum Anjo, a ordem de anunciar o advento do Messias, e de Lhe preparar os caminhos, pregando a penitência. Ninguém, com efeito, pode profetizar e pregar, nem tão pouco exercer o sacerdócio, sem ter recebido de Deus um apelo positivo ou um missão especial: "Nenhum se arroga esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão". Em Jeremias XXIII, 16 e segs; em Ezequiel XIII Deus queixa-se em termos severos dos pregadores sem missão, que ousam, por sua própria e ilegítima autoridade, assumir o ministério da Palavra: "Eu não enviava estes profetas e eles corriam; não lhes dizia nada e eles profetizavam"... "Eis que venho contra os profetas que sonham mentiras, diz o Senhor, que as contam e enganam o meu povo com suas mentiras e os seus milagres" (Jeremias XXXIII, 21 e 32).

João estava então no deserto, para onde se tinha retirado na mais tenra idade: "Ora, o menino crescia e se fortificava no espírito; e habitava nos desertos até ao dia da sua manifestação" (S. Lucas I, 80). Ali se preparou para a missão divina com uma vida de recolhimento, de penitência e de oração. A Santa Igreja  instituiu os Seminários como "desertos" abençoados com esta mesma finalidade de preparar os chamados por Deus para a pregação de Sua palavra e o exercício da administração de Seus Mistérios: "Logo, nós desempenhamos as funções de embaixadores por Cristo, como exortando-vos Deus por meio de nós" (2 Cor. V, 20).

Mas, caríssimos, que prega João Batista? A penitência. Esta é, na verdade, a primeira virtude do Cristianismo. À exemplo do divino Mestre, João primeiramente praticou e só depois ensinou aos outros: "Começou a fazer e a ensinar" (Cf. Atos I, 1). Jesus havia praticado a penitência nas intempéries duma estrebaria, na austeridade da pobreza em Nazaré e no jejum de quarenta dias no monte dentro do deserto. 

Mas, por que a penitência? Qual era afinal a sua necessidade? Ah! caríssimos, nesta época,  o mundo estava cheio de iniquidade. "Toda carne tinha corrompido seu caminho". Os pagãos adoravam em seus deuses os crimes mais revoltantes e as paixões mas ignominiosas. Os próprios Judeus, extraviados pela superstição, uniam a um rigorismo na observação exterior da lei, um extremo relaxamento na prática do bem real. Era necessário lavar estas manchas pela penitência e preparar assim as almas para recepção da graça da Redenção.

Mas que dizer da penitência nos dias atuais? Caríssimos, quem não vê que o pecado inundou o mundo? Assim, as palavras de Jesus: "Se não fizerdes penitência, todos perecereis", valem também para nós. Nossa Senhora em Lourdes e depois em Fátima pediu penitência; e mais de cem anos depois, só vemos mais pecados e menos penitência. A cidade de Nínive teria sido destruída caso o povo não tivesse feito penitência. E esta humanidade adúltera e pecadora se não fizer penitência, será também destruída. A quantidade de crimes: impiedade, blasfêmia, sensualidade, libertinagem, vícios das drogas, doutrinas perversas, ultrajes feitos Nosso Senhor Jesus Cristo, à Santíssima Virgem Maria e aos demais santos, menosprezo pela Sagrada Tradição, deturpação das Sagradas Escrituras, menosprezo pela Santa Madre Igreja. E os crimes mais horrorosos de nosso tempo é o ódio contra Deus e os sacrilégios contra a Santíssima Eucaristia. Têm prevalecido na Igreja doutrinas que negam o queda original do homem, que legitimam os instintos perversos dos homens, que reabilitam a carne, e olham a penitência como uma fraqueza e uma loucura. Portanto, reinam soberanos no mundo o materialismo, o panteísmo, o naturalismo e o subjetivismo. Constatamos em nossos tempos pagãos os vícios, as desordens de que o Cristianismo havia libertado o homem. Se entrarmos nas clausuras dos conventos, será que, pelo menos aí, ainda encontraremos penitência? Não queremos generalizar, mas podemos afirmar sem medo de errar, que, cada dia, dilui-se o espírito de penitência. Então, caríssimos, mais do que nunca, devemos pregar como o Batista: "Fazei dignos frutos de penitência... porque o machado já está posto à raiz das árvores .Toda árvore que não dá bom fruto, será cortada e lançada no fogo" (S. Lucas III, 8 e 9).

"Que todo vale seja enchido": Que significam estas palavras? O vale é símbolo das almas pusilânimes e dos corações relaxados e apegados as coisas baixas do mundo. Portanto, S. João Batista pregava a penitência para que as almas se tornassem corajosas e as vontades, adestradas na renúncia de si mesmas; os corações deveriam se desprender das coisas terrestres e dos sentimentos vis, e se afeiçoarem à coisas nobres e celestiais. "Sursum corda!" Corações ao alto! Os corações abatidos pelas desilusões da terra, devem se elevar para o céu. Os que estão apegados à terra como sapos, para usar a expressão de S. Luiz Grignon de Montfort, se elevem como águias para o Altíssimo. O Céu é nossa Pátria, lá devem estar nossas esperanças; lá sim, encontraremos a nossa eterna felicidade!!!
Caríssimos, aproveitemos o Advento para enchermos nossas deficiências com o amor de Deus e do próximo!

"E toda montanha seja abaixada": Isto é, os espíritos soberbos, os orgulhosos e ambiciosos deverão ser rebaixados e humilhados, porque o Deus que vai descer até a nossa miséria e ao nosso nada, resiste aos soberbos e dá porém, sua graça aos humildes. Na verdade, um coração cheio de amor próprio e de soberba, não pode estar cheio de Deus.

"Os caminhos tortuosos tornar-se-ão retos": Esta comparação é para indicar os corações cheios de desígnios perversos, corações que tenham sido entortados pela injustiça, pela dissimulação, pela hipocrisia, pela mentira e por toda espécie de vícios. Deverão, então, ser endireitados pelas normas da justiça, da verdade, da sinceridade e da pureza.

"Os caminhos ásperos serão aplainados": Isto é, as almas violentas e duras, que se deixam levar da ira, do rancor, da vingança, voltarão à doçura, à mansidão e à caridade pela influência da penitência que, juntamente com a oração, atrai as graças celestes.

"E todo homem verá a salvação de Deus": O homem assim preparado verá o Salvador e participará dos seus méritos e da sua glória.

Caríssimos, se nós queremos que Jesus venha a nós, se manifeste à nossa alma, lhe faça sentir as doces influências da sua divina presença, nos comunique verdadeiramente a sua vida e as suas virtudes, preparemo-nos seriamente para bem O receber, limpemos o nosso coração de tudo o que é indigno d'Ele, de tudo o que poderia contristá-Lo. Despojemo-nos do homem velho, e revistamo-nos do Novo, procurando assim levar uma vida digna de Jesus.

Caríssimos, coisa tristíssima, constatamos hoje: comunhões mal feitas, sem a mínima melhora na vida espiritual. Muitos comungam e temos a impressão de que não sentem Jesus, não recebem os frutos de salvação e de santidade que Ele traz consigo! Por que? É porque a sua preparação deixa a desejar; esses não trabalham na sua conversão, na correção dos seus defeitos, não se importam da recomendação de Isaías e da Santa Madre Igreja: "Preparai o caminho do Senhor..." E vejam que não me refiro aqui a comunhões sacrílegas, que infelizmente são muitas... falo das almas que comungam estando em estado de graça, mas comungam sem a devida preparação, por rotina e com tibieza.

Por isso, terminemos  voltando-nos para Jesus: Ó Jesus, que o vosso amor encha o vale de meu coração; que a humildade aplaine as colinas e os montes de meu orgulho. Destruí, ó Senhor, com a chama ardente do Vosso amor todo o meu orgulho, soberba e vaidade, arrancai toda fibra do meu coração que não seja Vossa ou que esteja envenenada pelo amor próprio. Também eu quero diminuir-me, ó Senhor, para que possais crescer em mim, para que no dia do Vosso nascimento possais encontrar o meu coração completamente vazio e livre e portanto pronto para uma total invasão do Vosso amor. Amém!


domingo, 15 de dezembro de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 3º Domingo do Advento

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Filipenses, 4, 4-7.
                Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, 1, 19-28: 

   "Naquele tempo, os judeus enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas a João, para lhe perguntar: Tu quem és? Ele confessou e não negou. E confessou: Eu não sou o Cristo. E perguntaram-lhe: Então, quem és? És tu Elias? Ele respondeu: Não sou. És tu o Profeta? Ele repetiu: Não. Disseram-lhe, então: Quem és, pois. para respondermos aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo? E respondeu-lhes: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías. Os que tinham sido enviados eram da seita dos fariseus. E interrogaram-no dizendo: Por que, então batizas se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o Profeta? Respondeu-lhes João, dizendo: eu batizo na água, mas, no meio de vós está Um que vós não conheceis. Este é o que virá depois de mim, que existiu antes de mim e de quem não sou digno de desatar a correia dos sapatos. Isto se deu em Betânia, além do Jordão, onde João batizava."

  Caríssimos e amados fiéis em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Vamos, hoje, meditar nestas palavras do Precursor: "Medius vestrum stetit, quem vos nescitis", "No meio de vós está Um que vós não conheceis". É como se São João Batista dissera: eu já vos declarei que sou unicamente o que vai à frente, a voz que anuncia o Cristo, o Messias tão esperado! Ora, Aquele que anuncio, não é necessário esperá-Lo mais, nem ir procurá-Lo mais longe. Já O tendes no meio de vós, como homem e como Deus: e vós não O conheceis, vós que vos vangloriais de conhecer as Escrituras. Pelo que me diz respeito, eu conheço-O e vim adiante d'Ele para vos anunciar a realidade de Sua aparição no meio de vós. Se Ele não vem senão depois de mim, não penseis que seja por motivo de inferioridade; não, é ao contrário, por ser meu Mestre que Ele envia o seu servo a anunciar a sua próxima vinda. Ele existiu antes de mim. Sendo Deus, Ele existiu sempre. Portanto, Ele é infinitamente superior a mim pela sua excelência, pela sua nobreza, pelo seu poder e pela sua autoridade. Eu não sou mais que humilde lâmpada, destinada a mostrar-vos Aquele que se esconde ainda no meio de vós, e que é o Sol da justiça, a verdadeira Luz que ilumina o mundo. Sou tão pouca coisa diante d'Ele, que não me julgo digno de desatar as correias de suas sandálias. 
Trecho do Rio Jordão. Nasce aos pés do
Monte Hermon, a 300 metros acima do nível
do mar, desce até o lago de Tiberíades
(Mar da Galileia) que vem a ser o alargamento
e aprofundamento do rio e que se encontra
210 metros abaixo do nível do mar, daí
voltando a descer até o Mar Morto, cuja
superfície está  412 metros abaixo do nível
do mar.
     João Batista não deixou de fazer aos judeus uma censura, de certo muito merecida: "Ele está no meio de vós, e vós não O conheceis". Aqueles judeus censurados pelo Precursor, eram dignos filhos daqueles que, trinta anos antes, no reinado de Herodes, afetaram despreocupação por aquele Menino maravilhoso procurado pelos Magos. Sabiam as profecias, souberam indicar a esses estrangeiros o lugar exato do nascimento do Messias esperado; e todavia não foram adorá-Lo. Como os orgulhosos estão longe do reino dos céus! É que não são dignos dele. 
    Mas, caríssimos e amados irmãos, quantos cristãos de hoje, apesar de tantas luzes e graças recebidas, são cegos e surdos voluntários como estes fariseus! Ai! se compreendessem a sua desgraça!
     Como a vida de Jesus não correspondia às ideias ambiciosas do povo judeu, eles não fizeram caso de Jesus, embora constatando que n'Ele se realizavam todas as profecias. Hoje, são as mesmas paixões do orgulho, da avareza e da luxúria que impedem muitos de reconhecer a Jesus como seu Mestre e Rei. Muitos, se envergonhariam se não conhecessem os ídolos da Televisão, do Cinema, do futebol etc., mas não se envergonham de desconhecer a Nosso Senhor Jesus Cristo.
     Na verdade, Jesus está no meio de nós de muitos modos: Está na sua Igreja: "Eis que eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos". Está presente no seu Santo Evangelho, que contém suas ações, sua vida, sua doutrina, seu espírito. É a Palavra de Deus. Verbum Dei. Jesus Cristo está presente sobretudo na Santíssima Eucaristia. Está realmente e substancialmente presente. Ele a instituiu para permanecer no meio de nós, noite e dia, até o fim do mundo. Em toda parte em que há um padre, um altar, um tabernáculo, Ele consente em estar ali, como um terno pai no meio de seus filhos, para nos consolar, nos alimentar espiritualmente, para nos cumular de toda sorte de bens. 
Rio Jordão perto de Betânea da Transjordânia. Aí
São João Batista administrava o batismo de
penitência. 
      E por que muitos não conhecem a Jesus e muitos o conhecem mas O desprezam? Como já disse: por causa das paixões humanas, sobretudo, por causa dos vícios capitais. O orgulho que impede a pessoa de submeter sua inteligência aos mistérios de Deus e não creem em Jesus. A procura desenfreada dos bens terrenos impede muitos de meditar a vida de Jesus. Só pensam nas coisas da terra. Não querem conhecer o reino de Deus. A sensualidade impede muitos e muitos de gostar das coisas de Deus, de compreendê-las, pois, diz São Paulo: O homem animal não percebe as coisas que são de Deus. A luxúria impede os mundanos de ver a Deus. Pois, só os limpos de coração é que poderão ver a Deus. E assim Nosso Senhor Jesus Cristo é o grande desconhecido dos nossos tristes tempos.
    Terminemos com as palavras de Santo Agostinho: "Fazei, Senhor, que eu conheça a mim e conheça a Vós. Conheça a mim para me desprezar; conheça a Vós para Vos amar! Amém!
    

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 3º DOMINGO DO ADVENTO


S. João I, 19-28

19. Eis o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a perguntar-lhe: Quem és tu? 20. Ele confessou a verdade e não a negou; e confessou: Eu não sou o Cristo. 21. Eles perguntaram-lhe: Quem és pois? És tu Elias? Ele respondeu: Não sou. És tu o profeta? Respondeu: Não sou. 22. Disseram-lhe então: Quem és, pois, para que possamos dar resposta aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo? 23. Disse-lhes ele: "Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor", como disse o profeta Isaías. 24. Os que tinham sido enviados eram fariseus. 25. Interrogaram-no, dizendo: Como batizas, pois, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? 26. João respondeu-lhes dizendo: Eu batizo em água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. 27. Este é o que há de vir depois de mim, ao qual eu não sou digno de desatar a correia das sandálias. 28. Estas coisas passaram-se em Betânia, do lado de além do Jordão, onde João estava batizando.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Neste domingo, o santo Evangelho mostra-nos o Precursor novamente dando testemunho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quão humilde e desinteressado este testemunho! Os Sacerdotes, os Levitas, enviados de Jerusalém, a cidade santa, vêm  oferecer a João o título de Cristo, de Messias, e colocar aos seus pés as homenagens que este título reclama. O próprio Espírito Santo inspira a S. João Evangelista a frisar enfaticamente a confissão  do Precursor, deixando bem clara a retidão deste homem extraordinário: CONFESSOU A VERDADE E NÃO A NEGOU; E CONFESSOU: EU NÃO SOU O CRISTO.   Quantos hoje, seguramente com menos méritos e virtudes que João Batista, aceitam prazerosamente títulos análogos, ou até a si mesmos os atribuem!  Procuram atrair o povo não para Jesus pela santidade de vida; mas pela popularidade torna os fiéis seus fanáticos seguidores. Isto é uma rapina no Templo. Isto é trair a Jesus Cristo, porque para ser popular não se prega o que o Divino Mestre pregou, mas novidades ao sabor do mundo.  São precursores sim, mas do Anti-Cristo.

João Batista não é nem o Cristo, nem Elias, nem um profeta; ele é senão uma voz que clama no deserto. Sim, mas esta voz tão humilde, tão modesta se fez ouvir no mundo todo e ela aqui ainda ressoa e ressoará até o fim do mundo, enquanto que a voz destes falsos profetas modernos, desses pregadores de novidades e pretensas surpresas divinas, a voz, digo, destes soberbos "libertadores" está prestes a morrer, porque Jesus Cristo sempre vence, reina e impera. Cristo é sempre o mesmo e Seus verdadeiros profetas não pregam novidades ao sabor do mundo, mas sempre a Tradição, procurando levar as almas a Jesus e Jesus às almas.

No início de seu Evangelho, S. João Apóstolo, diz: "Estava no mundo (o Verbo Encarnado) e o mundo fora feito por Ele, e o mundo não o conheceu". E S. João Batista diz: "No meio de vós está quem vós não conheceis". Na verdade Jesus Cristo já estava há 30 anos entre o povo e este não o conhecia e não o recebia como o Messias, Ele, "glória como de Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (S. João I, 14). É uma coisa surpreendente! Mas, caríssimos, não é igualmente incompreensível que Jesus seja hoje também inteiramente desconhecido por muitos? Há vinte séculos, com efeito, que Jesus Cristo está no mundo, o mundo foi feito por Ele, o mundo com suas luzes, com suas grandezas, suas glórias, sua civilização. Tudo o que neste mundo há de santo, de bom, de nobre é obra de Jesus Cristo, é obra de seu sangue, de seus trabalhos, de suas lágrimas, de sua morte, é obra de sua doutrina, obra de sua Igreja, desta Igreja da qual Ele não cessa de ser a alma. E o mundo assim feito por Jesus Cristo não O reconhece, o mundo O ultraja, O blasfema, O rejeita. Cumulados de seus benefícios, esclarecidos por suas luzes, no entanto, rejeitam a vida abundante que Jesus lhes oferece. Os homens de nosso tempo, em grande parte, talvez na maioria, recusam seu Benfeitor, menosprezam o seu único Guia, perseguem-No por toda parte, desprezam Sua Lei nas instituições, nas famílias e nas escolas.

Quem hoje conhece verdadeiramente a Jesus Cristo? Quem estuda Sua doutrina, quem procura se compenetrar de Suas máximas? Quem possui à fundo Sua Moral? E o pior, caríssimos, é que se realiza a palavra de Davi: "O injusto (pecador) disse em si mesmo que queria pecar; não há temor de Deus ante seus olhos. Porque ele procedeu dolosamente na sua presença, de sorte que a sua iniquidade se tornou mais odiosa. As palavras de sua boca são iniquidade e engano; não quis instruir-se para fazer o bem" (Salmo XXXV, 2-4). Hoje a maioria das mentes esta abarrotada de lamas pútridas de novelas e filmes imorais. Há fanatismo para os "ídolos" do futebol, do cinema, da música etc. Sobre eles sabem os mínimos detalhes. Mas não sabem o mínimo sobre Jesus Cristo. Com isto é triste!

Temos que lembrar aos homens modernos que Jesus Cristo é o único nome dado aos homens pelo qual podemos ser salvos (Cf. Atos IV, 12); não podemos encontrar a salvação senão em Jesus Cristo. Para ser salvo por Jesus Cristo é necessário primeiramente conhecê-Lo. "A vida eterna é esta: Que te conheçam a ti como um só Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (S. João, XVII, 3). Embora já transcorridos mais de 2 mil anos, ainda se faz necessário lembrar à humanidade que Jesus é a Porta pela qual é preciso entrar na verdade e na vida: "Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, será salvo" (S. João X, 9). Jesus é porta pela qual entramos na verdade sem limite e na vida sem fim. É preciso conhecer esta porta. Sem isto, choca-se contra a muralha, cansa-se e esgota-se por querer fazer uma passagem onde não há passagem possível; permanece-se do lado de fora, sem a verdade e sem a vida; debate-se nas trevas do erro, e extingue-se nos estertores da morte. Jesus é, pois, o caminho, a porta, a verdade, a vida e a luz!

Caríssimos, seja, pois, nosso maior empenho conhecer sempre melhor a Jesus e amá-Lo sem limite. S. Paulo colocava este conhecimento de Jesus acima de todos os conhecimentos, perto do qual o universo com todos seus tesouros não é nada: "Aquelas coisas que eu considerava como lucro, considerei-as como perdas por amor de Cristo. E na verdade tudo isso tenho por perda perante o eminente conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor, pelo qual renunciei a todas as coisas e as considero como esterco, para ganhar a Cristo" (Filip. III, 7 e 8). O conhecimento de Jesus Cristo, no entanto, não é um conhecimento só especulativo; é acima de tudo um conhecimento prático. Devemos ser o perfume de Jesus na nossa conduta. Jesus é o modelo e nós somos como pintores. Nossa vida é a tela sobre a qual é necessário que reproduzamos traço por traço o protótipo divino que devemos ter sempre diante dos olhos. Se, portanto, conhecermos verdadeiramente a Jesus Cristo, infalivelmente este conhecimento aparecerá nos nossos atos.

O primeiro sinal pelo qual se manifesta o conhecimento de Jesus Cristo é o amor: "Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade" (1 João IV, 8). Deus, com efeito, sendo caridade, e Jesus Cristo não sendo senão a caridade de Deus tornada sensível pela Encarnação e Redenção, segue-se que conhecer a Jesus e não amá-Lo são duas coisas incompatíveis. E se amamos verdadeiramente a Jesus, amamos também os nossos irmãos. Daí S. João dizer neste mesmo capítulo no versículo 11: "Caríssimos, se Deus nos amou assim, devemos nós também amar-nos uns aos outros". Os primeiros cristão conheciam a Jesus Cristo e O amavam de verdade, e por este amor, amavam seus irmãos. Viviam como se fossem "um só coração e uma só alma", de tal modo que muitos pagãos se convertiam e exclamavam: "Vede como eles se amam!"

O segundo sinal pelo qual possamos saber se verdadeiramente conhecemos a Jesus é se nós observamos os seus mandamentos: "E sabemos que O(Jesus) conhecemos por isto: se guardamos os seus mandamentos. Quem diz que O conhece e não guarda os seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está nele" (1 João II, 3 e 4).

Caríssimos, é possível, com efeito, conhecer a Jesus, ter penetrado no misterioso santuário de seu Coração Sagrado, ter medido a altura, a profundidade, a largura e o comprimento de seu amor por nós, sem se sentir animado de um santo zelo por observar seus mandamentos com uma fidelidade inviolável, a tal ponto que nem as ameaças, nem as torturas, nem a morte serão capazes de nos levar a nos afastarmos d'Ele,  de Seus mandamentos, de sua Doutrina, de Sua Igreja!? É o que nos mostra a vida dos santos, dos mártires, das santas virgens, das almas consagradas a Deus nos claustros e também dos leigos fervorosos que desprezam os prazeres que o mundo oferece. Eis o que o grande Apóstolo S. Paulo dizia num arroubo de amor a Jesus: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? ou a angústia? ou a fome? ou a falta de agasalho, ou o perigo? ou a perseguição? ou a espada? ... "Nenhuma criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Jesus Cristo Nosso Senhor" (Rom. VIII, 35 e segs).


Termino com a oração de Sta. Catarina de Sena: "Ó doce e amoroso Verbo, Vós dissestes-me: 'Eis que eu te preparei o caminho e abri a porta com o meu Sangue; não sejas portanto negligente em segui-lo. Toma o caminho traçado por mim, eterna Verdade, e marcado pelo meu Sangue'. Ânimo, pois, alma minha, levanta-te e segue o teu Redentor, porquanto ninguém pode ir ao Pai senão por Ele. Ó doce Cristo, ó Cristo amor , Vós sois o caminho e a porta por onde nos convém entrar para chegar ao Pai". Amém!

domingo, 1 de dezembro de 2019

EVANGELHO DO 1º DOMINGO DO ADVENTO



S. Lucas XXI, 25-33

25. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; na terra, consternação dos povos pela confusão do bramido do mar e das ondas, 26. mirrando-se os homens de susto, na expectação do que virá sobre todo o mundo, porque as virtudes dos céus se abalarão. 27. Então verão o Filho do homem vir sobre uma nuvem com grande poder e majestade. 28. Quando começarem, pois, a suceder estas coisas, erguei-vos e levantai as vossas cabeças, porque está próxima a vossa libertação. 29. Acrescentou esta comparação: Vede a figueira e todas as árvores. 30. Quando começam a desabrochar, conheceis que está perto o estio. 31. Assim, também, quando virdes que acontecem estas coisas, sabei que está próximo o reino de Deus. 32. Em verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas se cumpram. 33. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Hoje é o primeiro domingo do Advento, tempo de preparação para a comemoração do Santo Natal, data esta, como diz São Paulo escrevendo a Tito III, 4, "em que se manifestou a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens, não pelas obras de justiça que tivéssemos feito, mas por sua misericórdia". Assim, à primeira vista, talvez tenhamos dificuldade em compreender porque no início do Advento, a Santa Madre Igreja, nos leva a meditar sobre a segunda vinda de Jesus, que será com grande poder e majestade e para julgar os vivos e os mortos. Na preparação de um mistério de bondade e amor a Igreja quer que meditemos num mistério da Justiça divina no Juízo Universal incutindo-nos temor, e, como diz Jesus no vers. 26: "Mirrando-se os homens de susto". A Santa Madre Igreja assim fazendo, age com sabedoria porque a Sagrada Escritura afirma que: "O temor do Senhor é o início da sabedoria" (Prov.. I, 7) e no Eclesiástico I, 27 diz: "O temor do Senhor expulsa o pecado; quem não tem este temor não poderá ser justo". Ora, caríssimos, a melhor preparação para celebrarmos o Santo Natal, é evitar o pecado, convertermo-nos e começarmos uma vida nova sempre na graça de Deus.
A Santa Igreja, aliás, não só inicia, mas, como vimos no domingo passado, o último do ano litúrgico, também falou-nos do fim do mundo e do Juízo Final. Ela quer que passemos santamente o ano e assim nos leva a meditar sobre os novíssimos, porque segue, outrossim, o conselho do próprio Divino Espírito Santo nas Sagradas Escrituras: "Em todas as tuas obras lembra-te dos teus novíssimos e nunca jamais pecarás" (Eclesiástico VII, 40).

Caríssimos, vamos resumir o que escreveu sobre o Juízo Universal, o grande Doutor da Igreja Santo Afonso M. de Ligório: O Redentor destinou o dia do Juízo Universal (chamado com razão, na Escritura, o dia do Senhor), no qual Jesus Cristo se fará reconhecer por todos como universal e soberano Senhor de todas as coisas (Sl  9, 17). Esse dia não se chama dia de misericórdia e perdão, mas "dia da ira, da tribulação e da angústia, dia de miséria e calamidade" (Sofonias I, 15). Nele o Senhor se ressarcirá justamente da honra e da glória que os pecadores quiseram arrebatar-Lhe neste mundo. Vejamos como há de suceder o juízo nesse grande dia.

A vinda do divino Juiz será precedida de maravilhoso fogo do céu (Salmo 96, 3), que abrasará a terra e tudo quanto nela exista (2 S. Pedro III, 10). Palácios, templos, cidades, povos e reinos, tudo se reduzirá a um montão de cinzas. É mister purificar pelo fogo esta grande casa, contaminada de pecados. Tal é o fim que terão todas as riquezas, pompas e delícias da terra. Mortos os homens, soará a trombeta e todos ressuscitarão (1 Cor. XV, 52). Dizia S. Jerônimo: "Quando considero o dia do juízo, estremeço. Parece-me ouvir a terrível trombeta que chama: Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo". Ao clamor pavoroso dessa voz descerão do céu as almas gloriosas dos bem-aventurados para se unirem a seus corpos, com que serviram a Deus neste mundo. As almas infelizes dos condenados sairão do inferno e se unirão a seus corpos malditos, que foram instrumentos para ofender a Deus.

Que diferença haverá então entre os corpos dos justos e dos condenados! Os justos aparecerão formosos, cândidos, mais resplandecentes que o sol (S. Mateus XIII, 43). Feliz aquele que nesta vida soube mortificar sua carne, recusando-lhe os prazeres proibidos, ou que, para melhor refreá-la, como fizeram os Santos, a macerou e lhe negou também os gozos permitidos dos sentidos! ... Pelo contrário, os corpos dos réprobos serão disformes,  e hediondos. Que suplício então para o condenado ter de unir-se a seu corpo! ... "Corpo maldito  -  dirá a alma   -  foi para te contentar que me perdi!" Responder-lhe-á o corpo: "E tu, alma maldita, tu que estavas dotada da razão, por que me concedeste aqueles deleites, que, por toda a eternidade, fizeram a tua e a minha desgraça?"

Assim que os mortos ressuscitarem, farão os anjos que se reúnam todos no vale de Josafá para serem julgados (Joel III, 14) e separarão ali os justos dos réprobos (S. Mat. XIII, 49). Os justos ficarão à direita; os condenados, à esquerda... Que confusão experimentarão os ímpios, quando, apartados dos justos, se sentirem abandonados! Disse S. João Crisóstomo que, se os condenados não tivessem de sofrer outras penas, essa confusão bastaria para dar-lhes os tormentos do inferno. Caríssimo irmão, abandona  o caminho que conduz à esquerda.

Os eleitos serão colocados à direita, e para maior glória   -  segundo afirma o Apóstolo  -  serão elevados aos ares, acima das nuvens, e esperarão com os anjos a Jesus Cristo, que deve descer do céu (1 Tess IV, 17). Os réprobos, à esquerda, como reses destinadas ao matadouro, aguardarão o Supremo Juiz, que há de tornar pública a condenação de todos os seus inimigos.

Abrem-se, enfim, os céus e aparecem os anjos para assistir ao juízo, trazendo os sinais da Paixão de Cristo, disse Santo Tomás. Singularmente resplandecerá a santa Cruz. "E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e todos os povos da terra chorarão" (S. Mat. XXIV, 30). Os Apóstolos serão assessores e com Jesus Cristo julgarão os povos. Aparecerá, enfim, o Eterno Juiz em luminoso trono de majestade: "E verão o Filho do Homem, que virá nas nuvens do céu, com grande poder e majestade. À sua presença chorarão os povos" (S. Mat. XXIV, 30). A presença de Cristo trará aos eleitos inefável consolo, e aos réprobos aflições maiores que as do próprio inferno, disse S. Jerônimo. Cumprir-se-á, então, a profecia de S. João: "Os condenados pedirão às montanhas que caiam sobre eles e os ocultem à vista do Juiz irritado" (Apoc. VI, 16).

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consciências de todos (Dan. VII, 10). A própria consciência dos homens os acusará depois (Rom. II, 15). A seguir, darão testemunho clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hab. II, 11). Virá enfim, o testemunho do próprio Juiz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jer. XXIX, 23). Disse S. Paulo que naquele momento o Senhor "porá às claras o que se acha escondido nas trevas" (1 Cor. IV, 5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de Davi: "Bem- aventurados aqueles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados" (Salmo 31, 1). Pelo contrário   -  disse S. Basílio  -  as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d'olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama S. Tomás: "Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado no seu trono de Juiz, disser aos condenados: "Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!".

Chegada a hora da  sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: "Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo" (S. Mat. XXV, 34). Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juiz: "Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer. Comigo estais e permanecereis eternamente. Abençoo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade". A virgem Santíssima  abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial, para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus.

Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: "E nós, desgraçados, que será feito de nós?" E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça , apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (S. Mat. XXV, 34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos quero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha bênção..." Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?... Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma..." E por quantos séculos?... Por toda a eternidade, enquanto Deus for Deus.


Depois desta sentença, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônios e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir... Nunca mais durante toda a eternidade!... Ó maldito pecado!... A que triste fim levarás um dia tantas pobres almas!... Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim.

Meu Deus e meu Salvador! Já que declarastes pela boca do vosso Profeta: "Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós" (Zac. I, 3), tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a Vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de Vós... Maria Santíssima, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Amém!

domingo, 17 de novembro de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 23º Domingo depois de Pentecostes

  Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Filipenses, 3, 17-21; 4, 1-3.
                  Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus, 9, 18-26. 

  Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Ruínas da cidade de Cesareia Marítima. Aqui
morava a mulher hemorroíssa, e também o
Historiador Eusébio. Pôncio Pilatos residia
aí, e tive oportunidade de, quando lá estive
(2000) ver um pedaço de um monumento
em que estava gravado o nome de Pôncio
Pilatos. Não confundir com Cesareia de
Filipe. Cesareia Marítima não aparece nos
Evangelhos, mas sim nos Atos dos
Apóstolos: Aí São Pedro batizou
Cornélio (At. 10); São Paulo esteve preso aí
por dois anos (At. 26); aí o Diácono
Filipe exerceu o seu ministério (At. 8, 40).
A construção maior circular que vemos
no centro, são as ruínas do teatro. 
  Jesus Cristo havia acabado de curar um possesso entre os Gerasenos, e, tendo tornado a atravessar o lago de Genesaré, foi rodeado pela multidão acorrida para o ouvir. Foi enquanto ensinava esta multidão que Jairo, chefe da Sinagoga (provavelmente de Cafarnaum) veio procurá-Lo pedindo que fosse à sua casa para tocar e ressuscitar sua filha. 
  O boníssimo Salvador sabia antecipadamente o milagre que, no caminho, ia operar em favor da hemorroíssa. Podia com uma palavra só e sem se mover, dominar a morte como a doença. Mas, por motivos dignos da sua infinita sabedoria, quis ir ressuscitar esta jovem pela sua presença, permitindo-nos assim admirar a sua suprema sabedoria, unida à sua bondade e ao seu poder sem limites.
  Ia Jesus com o chefe da Sinagoga e acompanhava-O uma inumerável multidão, comprimindo-O de todos os lados. E eis que uma pobre mulher, que há doze anos sofria dum fluxo de sangue, se aproximou por detrás e tocou a fimbria da sua túnica, porque ela dizia a si mesma: se eu tocar somente a sua túnica, serei curada. 
  Segundo uma respeitável tradição, seria a piedosa mulher, conhecida pelo nome de Verônica, que na via dolorosa do Calvário (VI estação) enxugou o suor e o sangue de Jesus com um pano de linho no qual ficou miraculosamente impressa a Santa Face. 
  Diz-se também que esta mulher era pagã, muito rica, provavelmente de Cesareia Marítima. Conta o Historiador Eusébio, também de Cesareia, que, em memória do favor imenso que tinha recebido de Jesus, mandara ela colocar, sobre a porta da sua casa, uma imagem do Salvador, a cujos pés estava uma mulher, em atitude suplicante, tocando-lhe a fímbria dos vestidos. Eusébio acrescenta ainda que teve ocasião de ver este monumento e, na sua base, uma planta cuja virtude curava muitas enfermidades. Juliano Apóstata mandou quebrar este grupo substituindo-o pela sua própria estátua que, também, foi derrubada por um raio. Finalmente o Historiador Sozômeno confirma a narração de Eusébio, atestando que os fragmentos desta imagem, recolhidos pelos cristãos, eram ainda conservados no seu tempo , isto é, no século V. 
  Antes de passarmos à consideração do outro milagre, admiremos a bondade do Coração de Jesus! Esta mulher, cheia de confusão à vista da sua enfermidade, merece da parte de Jesus o tratamento de filha. Ainda mais feliz por ter perseverado nos sentimentos de gratidão ao médico de sua alma e do seu corpo, ela é para nós um modelo tanto mais digno de imitação, quanto mais viva é a sua fé, e mais profunda a sua humildade. 

Passemos ao outro milagre. Imaginemos a angústia daquele pai! Sua única filha e com 12 anos está morta. Jesus diz a este angustiado chefe da Sanagoga: "Não temas. Crê somente, e ela será salva! Em face dos nossos mortos queridos, somente a fé pode acalmar a tempestade que se levanta dentro em nós. Não, eles não morreram; dormem apenas, para despertar no seio de Deus.
  Jesus, ordenando que saíssem todos, tomou o pai e a mãe da moça, e os que o acompanhavam, entrou no quarto onde ela jazia e, tomando-a pela mão, disse-lhe: "Talitha cumi", que quer dizer - moça, eu te ordeno, levanta-te". Imediatamente, voltou-lhe a vida, levantou-se e começou a andar, e todos ficaram possuídos de grande admiração.
  Jesus mandou depois que se lhe desse de comer, e proibiu severamente aos pais que contassem o que se tinha passado. Mas a notícia divulgou-se por todo o país. 
   O fato de Jesus mandar que dessem de comer a esta moça há pouco ressuscitada pela sua onipotência e misericórdia, não está destituído também de um belíssimo significado:  Fê-lo para indicar que o pecador ressuscitado para a graça, deve ainda alimentar-se; que depois de ter recebido o sacramento da Penitência, deve ainda comungar para que se firmem os seus bons propósitos, e se fortaleça a sua alma na prática do bem e da virtude. 
  Caríssimos e amados irmãos e irmãs, terminemos com a oração da Santa Missa de hoje: Dignai-Vos, Senhor, perdoar os delitos de vosso povo, a fim de que por vossa benignidade, sejamos livres dos laços dos pecados que por nossa fraqueza contraímos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que, sendo Deus, convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo por todos os séculos dos séculos. Amém!

domingo, 10 de novembro de 2019

EVANGELHO DO 22º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



S. Mateus XXII, 15-21

"Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

 É extremamente oportuno tratar da PAZ SOCIAL.  A priori, podemos afirmar sem a mínima sombra de dúvida, que os comunistas, ateus que são,  nunca trarão a paz, porque sem Deus não há paz.  Há sim luta de classes, um lançar insano de terror na alma simples do povo, divisões e insubmissões nefastas entre filhos e pais. A nossa sociedade acha-se viciada nos seus pilares fundamentais: a família e a moral religiosa. Os comunistas, ou seja, os políticos de partidos de esquerda, querem uma sociedade sem Deus e sem respeito ao direito de propriedade particular. Quando Lula desgovernava o Brasil, e a Lava Jato ainda não existia, estive em Portugal e lá me perguntaram porque no Brasil não era proibido roubar. Não foi difícil responder: infelizmente parece que é isto mesmo e até bem pior do que isto: o direito de propriedade particular é que é ROUBO, segundo os comunistas. Invertem assim o sétimo mandamento da lei de Deus como o vemos exarado em Êxodo XX, 15. Daí, hoje, graças à Lava Jato que ficará exarada imortal nos fastos do Brasil,  quando presos por comprovados roubos, se fazem de vítimas, e dizem que é golpe.

"Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Nesta frase do Divino Mestre está contido o cumprimento exato dos nossos deveres para com Deus e para com o próximo, dando a cada um o que lhe pertence. Na verdade, todo poder vem de Deus: "Não haveria poder algum se não fosse dado do alto" (cfr. Jo. 19, 11). A autoridade política legitimamente constituída provém de Deus e há de ser respeitada como um reflexo da autoridade divina. Por isso, todo o cristão está obrigado a obedecer à autoridade política, desde que esta não ordene coisas contrárias à Lei de Deus, porque neste caso já não representaria a autoridade divina, e, então, como diz São Pedro, "deve-se obedecer antes a Deus que aos homens" (Atos V, 29). 

Ante as sérias ameaças feitas à paz pelos comunistas, o Cristianismo que deverá fazer? O que sempre fez, ou seja,  por meio de seus filhos espalhados por todas as partes do mundo, realizar as obras de caridade e de fé, coisas estas que vêm de Deus. "Deus é o sol das mentes sublimes e dos corações ardentes", dizia Carducci. No amor a Deus e ao próximo encontramos o cumprimento de toda a Lei e os Profetas; e os justos vivem de fé.

Quem, porém, não se detém em considerações apressadas, não pode deixar de chegar a conclusões nimiamente dolorosas. O espetáculo das massas indiferentes e, por vezes, hostis à Religião, os progressos do ódio e do mal no mundo, a afirmação em muitas consciências de doutrinas contrárias à verdade e aos princípios cristãos tradicionais (e quem os defende é vítima de facada), as perseguições desencadeadas em muitos países com métodos e um encarniçamento que não têm paralelo na história, tudo isso dá a impressão de nos encontrarmos no meio daquela crise espiritual predita pela Bíblia para a época do anti-cristo.  Caríssimos, para os comunistas, a religião não se apóia em bases transcendentes certas e sólidas, como sejam, a existência de Deus, a lei eterna e a vida ultra terrena, mas apenas na necessidade que o homem  -  "oprimido pelas forças naturais nos estados primitivos da civilização e pelas forças sociais nos estados superiores"  -  experimentou de criar para si um mundo imaginário e melhor no além, que o compensasse dos sofrimentos, das injustiças e das opressões sofridas neste mundo. Para eles, a Religião, pode, por enquanto, lhes ser útil para tomar o poder (comungando p. ex.) mas, na verdade, está fadada a ser superada e a desaparecer, logo que seja superada e desapareça a miséria presente, graças à revolução social que o comunismo  -  apregoam eles  -   se encarrega de levar a cabo em todo o mundo. Para os comunistas a Religião não é apenas um erro inofensivo, é, outrossim, um mal nefasto sob o ponto de vista social. Os comunistas dizem que a Religião engana as massas e cega-as, de tal modo que as torna presa fácil do capitalismo. Carl Marx dizia que a Religião é o ópio do povo. Ela, dizem os comunistas, corta as asas e elimina as aspirações a qualquer movimento contra as injustiças perpetradas pela classes dominadoras.  O crente que julga assegurado o Paraíso no futuro, pouco se importa com o presente, afirmam... Daqui vem o ódio e o incitamento para abolir a religião; daqui vem a propaganda do ateísmo feita pelo comunismo entre as massas, daqui a luta contra Deus, contra a Igreja, contra a família e contra a moral religiosa. 

Quero, caríssimos, apresentar alguns excertos da imortal Encíclica RERUM NOVARUM  de Leão XIII. Esta encíclica escrita em 1891 marcou uma data na história da Igreja e da Humanidade. Deu princípio a um movimento social católico. Se a Igreja tivesse universalmente sido escutada e obedecida, teríamos assistido a um irresistível impulso à obra de pacificação social, e não teríamos hoje a tristeza de ver o caos do ateísmo comunista grassando-se no mundo todo, inclusive na nossa querida Pátria que já vai caminhando a passos largos rumo à uma nova Venezuela. Esperamos que no próximo dia 28 os verdadeiros brasileiros deem um basta a esta avalanche de lama comunista. E que a Lava Jato continue depois afastando esta lama pútrida da corrupção.  Mas mister também se faz que católicos e cristãos em geral, combatam a sua avareza (quem dela se vê contaminado) e pratiquem  a justiça e a caridade, como as Sagradas Escrituras ensinam e, nelas baseados, ensinam Documentos Pontifícios e como mostra a vida dos santos.

 E demos, então, a palavra ao Papa Leão XIII:
"O homem tem sobre os bens da terra, não somente o simples uso, como os brutos, mas também o direito de propriedade, tanto a respeito das coisas que se consomem com o uso, como das que o uso não consome".
"A propriedade particular, fruto do trabalho ou da indústria, de cessão ou de doação, é um direito indiscutível da natureza, e cada um pode dispor dele a seu arbítrio".
"Para resolver a desarmonia entre os ricos e os proletários é preciso distinguir a justiça da caridade. Só  há direito de reivindicação, quando a justiça for lesada".
"O proletário e o operário têm as seguintes obrigações de justiça: fornecer por inteiro e fielmente todo o trabalho contratado livremente e segundo à equidade; não lesar os bens nem ofender as pessoas dos patrões; abster-se de atos violentos na defesa de seus direitos e não transformar as reivindicações em motins".
"Os capitalistas e os patrões têm as seguintes obrigações de justiça: pagar o justo salário aos operários; não causar prejuízo às suas justas economias, nem por violências, nem por fraudes, nem por usuras evidentes ou dissimuladas; dar-lhes liberdade de cumprir os deveres religiosos; não os expor às seduções corruptoras e aos perigos do escândalo; não os desviar do espírito de família e do amor da economia; não lhes impor trabalhos desproporcionados às suas forças ou pouco convenientes para a idade ou para o sexo".
"Os ricos e os que possuem têm obrigação de caridade de socorrer os pobres e indigentes, segundo o preceito evangélico. Este preceito obriga tão gravemente que dele serão exigidas contas de maneira especial no dia do Juízo, como disse o próprio Jesus Cristo (Mat. 25)".

 Aqui  faço minhas, as palavras do Apóstolo dos gentios: "Deus me é testemunha de que modo vos amo a todos nas entranhas de Jesus Cristo. O que eu lhes peço é que a vossa caridade cresça mais e mais em conhecimento e em todo o discernimento, para que possais distinguir o melhor, para que sejais sinceros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, cheios de frutos de justiça por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus" (Filipenses I, 8-11).

Na oração final quero incluir mais um pensamento: Ó Jesus, fazei que guardemos  pura de toda mancha, a vossa imagem impressa na nossa alma com o Vosso bendito Nome, para merecermos ser reconhecidos por Vós no dia do Juízo e introduzidos no Céu. Amém!

HOMILIA DOMINICAL - 22º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Filipenses I, 1-11.
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 22, 15-21: 

 
 "Naquele tempo, retiraram-se os fariseus para consultarem entre si a ver como apanhariam a Jesus em alguma palavra. E enviaram-Lhe seus discípulos com alguns herodianos, dizendo: Mestre, sabemos que sois amigo da verdade e ensinais o caminho de Deus, segundo a verdade, sem Vos preocupardes com quem quer que seja, porque não julgais o homem segundo a sua carne. Dizei-nos, pois, o vosso parecer. É lícito pagar o tributo a César, ou não? Conheceu-lhes, porém, Jesus a maldade, e disse: Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. Eles Lhe apresentam um dinheiro. E Jesus lhes disse: De quem é esta imagem e esta inscrição? Responderam-Lhe: De César. Então disse-lhes Jesus: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! 

   "Começam pela lisonja, diz Bossuet, porque é por ela que se começa, quando se quer enganar alguém". 
Na verdade, ainda que sob uma forma capciosa e mal intencionada, os fariseus fazem um verdadeiro elogio do Salvador e prestam homenagem a sua doutrina e a sua santidade. Pois, Jesus é a Verdade, o Caminho e a Vida. Como diz São João: Ele é cheio de graça e verdade. Os sacerdotes, a exemplo de Jesus, devem ter um zelo de fogo pela verdade, não procurar e não ensinar senão a verdade, quer agrade, quer desagrade; devem também ser cheios de sinceridade e de retidão em todas as suas palavras e em toda a sua conduta; devem, outrossim, estar acima de todo respeito humano e de considerações pessoais e, portanto, castigar os vícios com santa liberdade. 

   "É ou não permitido pagar o tributo a César?" Que malícia! Achavam que Jesus não teria saída: se dissesse, pois: Sim, ali estavam os Judeus para acusarem a Jesus por aprovar o pagamento de tributo a um pagão, e, se Ele não tem outro Rei e Senhor senão Jeová, não é Ele obrigado a recusá-lo? E, portanto, os Judeus O apresentariam ao povo como um traidor, e um inimigo de Deus. Se Jesus dissesse: Não, ali estavam os herodianos para denunciá-Lo e entregá-Lo ao governador romano como um agitador e um rebelde digno dos maiores castigos. 
   Querendo Jesus fazer-lhes ver que conhecia perfeitamente todos os pensamentos dos seus corações, diz-lhes: hipócritas, por que me tentais? "Considerando antes os seus pérfidos desígnios, comenta São João Crisóstomo, que os seus especiosos discursos, o Senhor responde aos elogios com severas censuras para assim nos ensinar a detestarmos a adulação e a repelirmos aqueles que parecem louvar-nos. Depois chama-os hipócritas, para que reconhecendo a ciência que tinha dos seus corações, não ousassem acabar o que tinham começado. Eles lisonjeiam-No para O perder, Ele confunde-os para os salvar. A cólera de Deus é mais útil que o favor dos homens". 

  Mudando os papéis, como gostava de fazer em tais circunstâncias, Jesus interroga-os por sua vez. Quando Lhe apresentam o dinheiro, pergunta-lhes: "De quem é esta efígie e esta inscrição?" "Porque, diz São Jerônimo, a sabedoria procede sempre sabiamente, de modo a confundir os seus tentadores pelas suas próprias palavras". Eles responderam-Lhe: De César. É apoiado nesta resposta que Nosso Senhor Jesus Cristo vai dar a sua decisão, a doutrina que estabelecerá a distinção dos dois poderes e estabelecerá o princípio da paz e da concórdia entre a autoridade civil e a autoridade religiosa, as quais não deverão nem estar confundidas nem separadas, mas intimamente unidas para, em conjunto, procurarem o bem dos povos. 

"Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Nesta frase do Divino Mestre está contido o cumprimento exato dos nossos deveres para com Deus e para com o próximo, dando a cada um o que lhe pertence. Na verdade, todo poder vem de Deus: "Não haveria poder algum se não fosse dado do alto" (cfr. Jo. 19, 11). A autoridade política legitimamente constituída provém de Deus e há de ser respeitada como um reflexo da autoridade divina. Por isso, todo o cristão está obrigado a obedecer à autoridade política, desde que esta não ordene coisas contrárias à Lei de Deus, porque neste caso já não representaria a autoridade divina, e, então, como diz São Pedro, "deve-se obedecer antes a Deus que aos homens" (Atos V, 29). 

   Na oração final quero incluir mais um pensamento: Ó Jesus, fazei que guardemos  pura de toda mancha, a vossa imagem impressa na nossa alma com o Vosso bendito Nome, para merecermos ser reconhecidos por Vós no dia do Juízo e introduzidos no Céu. Amém!


domingo, 3 de novembro de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 21º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Efésios, 6, 10-17.

Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus, 18, 23-35: 

"Naquele tempo, disse Jesus esta parábola a seus discípulos: O Reino dos céus se compara a um rei, que quis pedir contas a seus servos. Começando a fazer contas, apresentou-se-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Mas não tendo ele com que pagar, mandou o senhor que fossem vendidos ele, sua mulher e seus filhos, e tudo quanto possuía, para pagar a dívida. Então este servo, prostrando-se em terra, disse-lhe suplicante: Tem paciência comigo e pagarei tudo. E compadecendo-se desse servo, o Senhor libertou-o e perdoou-lhe a dívida. Saindo dali, porém, o servo encontrou-se com um de seus companheiros que lhe devia cem dinheiros; e logo o agarrou e, sufocando-o, disse: Paga-me o que me deves. E o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, implorava-lhe: Tem paciência comigo e pagarei tudo. Ele porém não quis; retirou-se e fez com que o metessem na prisão, até pagar a dívida. Vendo os outros servos, seus companheiros, o que se passava, entristeceram-se muito e foram contar a seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então seu senhor o chamou e lhe disse: servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste; não devias tu também ter piedade de teu companheiro, como eu tive de ti? E, enraivecido, seu senhor entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida. Assim também vos fará meu Pai celestial, se do íntimo de vossos corações não perdoar cada um a seu irmão". 


  Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Quando fez esta parábola, Jesus encontrava-se em Cafarnaum, que é
chamada  "A Cidade de Jesus". Da época de Jesus só há ruínas
descobertas nos últimos tempos pelos arqueólogos.  Já tivemos
ocasião de mostrar as ruínas da Casa de São Pedro. A foto mostra
as ruínas de outras casas. 
  A finalidade desta parábola é bem determinada: a necessidade de perdoarmos as ofensas que o próximo nos faz para que sejamos perdoados dos pecados que cometemos diretamente contra Deus nos três primeiros mandamentos; e indiretamente nos outros sete. Dando-nos o exemplo da misericórdia, Deus ensina-nos a usar dela como Ele. As nossas dívidas são os nossos pecados que precisam de ser lavados pelo Sangue de um Deus. Portanto, nossas dívidas para com Deus, devem ser calculadas  segundo o preço do nosso resgate, o preciosíssimo Sangue de Jesus. O Sangue de Cristo é como um mar vermelho em que o exército enorme e terrível dos nossos pecados é inteiramente destruído, como afogado foi na Mar Vermelho o exército do Faraó. Mas é preciso estarmos sinceramente arrependidos, confessar humildemente os nossos pecados e perdoar do fundo do coração as ofensas que o próximo nos faz.

Ruínas da Sinagoga de Cafarnaum. Fora construída no século IV sobre
as ruínas da Sinagoga do tempo de Jesus e na qual Ele fizera o sermão
prometendo a Santíssima Eucaristia. Ainda podemos ver no local algumas
pedras e pedaços de peças da Sinagoga do tempo de Jesus. 
 A segunda parte da parábola fala justamente do nosso perdão. Diz Jesus na parábola que ao voltar a casa aquele afortunado servo que fora absolvido de toda a dívida, encontrou-se com um seu companheiro que lhe devia cem dinheiros, soma verdadeiramente ínfima em comparação com os dez mil talentos que lhe tinham sido perdoados; mas este homem, que fora tratado com tanta piedade, não demonstrou nenhuma para com o seu semelhante, antes fez que o metessem na prisão até pagar a dívida. Não atendeu às suas súplicas e lágrimas.

Caríssimos, embora corando, temos de reconhecer que, tal como a bondade do rei é a imagem da misericórdia de Deus, a crueldade do servo é a imagem da nossa dureza, da nossa mesquinhez em perdoar ao próximo. No entanto, que dívidas poderá ter o próximo para conosco em comparação das que nós temos para com Deus? A gravidade da ofensa se mede pela dignidade da pessoa ofendida. Ora, todo pecado é uma ofensa feita à Majestade infinita de Deus. Quando o próximo nos ofende em alguma coisa, na verdade, ofende a uma miserável criatura. Mas eis o contraste: Deus perdoa, esquece, anula inteiramente as nossas graves ofensas e não cessa de nos amar e de nos favorecer, apesar das nossas contínuas infidelidades; nós, ao contrário, só com grande custo somos capazes de perdoar alguma pequena ofensa e, ainda que perdoemos, não sabemos esquecer inteiramente. Caríssimos, pensemos bem nisto: que seria se o próximo cometesse todos os dias para conosco tantas infidelidades e indelicadezas como nós cometemos para com Deus?

 Assim também vos fará meu Pai celestial se não perdoardes do íntimo dos vossos corações cada um a seu irmão". Na medida em que perdoarmos, seremos perdoados. Isto significa que somos nós próprios a dar a Deus a medida exata da misericórdia que há de usar para conosco. Aliás Jesus ensinou no Padre-Nosso: "Perdoai as nossas dívidas (= pecados, ofensas) assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido". Quem sabe mentimos a esta protestação que repetimos a Deus milhares de vezes. Quem guarda ódio, rancor e vingança, e não perdoa, ao rezar o Padre-Nosso está pedindo a sua própria condenação.
Ma o servo cruel foi castigado: "irado, o rei entregou-o aos algozes até que pagasse toda a dívida". E Nosso Senhor Jesus Cristo dá a conclusão: "

  Na verdade muita gente fica preocupada sem entender como praticar o perdão "Ex cordibus vestris", isto é, de todo coração, do fundo do coração, seriamente. Evitando toda a hipocrisia, nós  devemos estar prontos a testemunhar àquele que nos ofendeu, uma verdadeira caridade e a dar-lhe, por todas as formas, sinais de benevolência. Alguém dirá: é difícil!!! Não há dúvida. Mas Deus não nos exige nada impossível. Neste caso ouçamos o conselho de Santo Agostinho: "É difícil, para mim, perdoar a quem me ofende? Recorrerei à oração. Em vez de repelir injúrias com injúrias, rezarei pelo injuriador. Se tiver vontade de lhe responder duramente, falar-Vos-ei, a Vós, Senhor, em seu favor. E em seguida lembrar-me-ei de que Vós prometeis a vida eterna, mas ordenais que perdoemos ao irmão. É como se me dissésseis: "Tu, que és homem, perdoa a outro homem, a fim de que Eu, que sou Deus, possa vir a ti". Amém!

domingo, 27 de outubro de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 20º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Efésios, 5, 15-21.
"Irmãos: Tende cuidado em andar com circunspecção; não como insensatos, e sim como prudentes. Aproveitai o tempo, porque os dias são maus. Assim, pois, não sejais imprudentes, mas aplicai-vos a conhecer qual seja a vontade de Deus. E não vos embriagueis com vinho, do qual nasce a impureza; mas ficai repletos do Espírito Santo. Entoai salmos, hinos e cânticos espirituais; cantai e salmodiai ao Senhor em vossas orações. Dai sempre e por tudo graças a Deus, nosso Pai, em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo."

Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, 4, 46-53: 
"Naquele tempo havia um oficial do rei cujo filho estava doente em Cafarnaum. Tendo ouvido que Jesus voltara da Judeia para a Galileia, foi ter com Ele, e pediu-lhe que viesse à sua casa e curasse seu filho, que estava à morte. Disse-lhe, então, Jesus: Se não virdes milagres e prodígios, não credes. O oficial do rei respondeu: Senhor, vinde, antes que meu filho morra. Disse-lhe Jesus: Vai, o teu filho vive. Acreditou o homem na palavra de Jesus e partiu. Quando ele já ia para casa, vieram-lhe ao encontro seus criados e deram-lhe a notícia de que o seu filho vivia. Perguntou-lhes, então, a hora em que o doente se achara melhor. Responderam-lhe: Ontem pela sétima hora, a febre o deixou. Reconheceu logo o pai ter sido aquela a mesma hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive. E acreditou ele e toda a sua família."

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!
  
  Deus infinitamente bom e sábio, serve-se, às vezes, da doença como um recurso para salvar a alma. No caso presente do Evangelho, vemos que a doença corporal do filho é motivo para a convalescênça espiritual do pai e conversão de toda aquela família. 
Vista parcial de Caná atual. Aí Jesus fez seu primeiro
milagre; e daí curou o filho do oficial em Cafarnaum,
que fica a alguns Km de Caná e abaixo 500 metros.
Por isso o oficial pediu que Jesus descesse até à
sua casa em Cafarnaum.
Como percebemos pela foto, Caná está construída numa
região montanhosa.
 Na verdade, a fé daquele oficial do rei Herodes era diminuta e imperfeita. Vinha pedir a Jesus a cura do filho, unicamente porque ouvira dizer que aquele homem de Nazaré estava fazendo milagres. Jesus se achava em Caná da Galileia; e ali mesmo havia transformado água em vinho. Este oficial nem sequer pensava na razão e origem de tanto poder, ou seja, não pensava que Jesus Cristo era o Filho de Deus, o Messias. Além disso, julgava que Jesus só podia operar a cura, vindo tocar o próprio doente, ou impor-lhe as mãos. É por isso que o Salvador parece censurá-lo, embora amenize as palavras, dirigindo-as mais aos circunstantes que ao pai aflito: "Se não virdes milagres e prodígios, não credes".  Os milagres são, sem dúvida, necessários. É por eles que o Messias, segundo os Profetas, devia manifestar a sua missão divina e a sua Igreja estender-se pelo mundo. Mas não deixa de ser verdadeira a palavra de Jesus a S. Tomé: "Bem-aventurados os que não viram e creram". Aliás, os milagres, a maior parte das vezes, só convertem os homens de boa fé e de boa vontade. Os Fariseus, na sua maioria, viram, com seus olhos todos os milagres feitos por Jesus e não quiseram crer e crucificaram-No. Tinham olhos mas não viam, por causa do orgulho. 
No fundo vemos a igreja católica construída no local
onde Jesus fez o seu primeiro milagre e "Seus discípulos
creram n'Ele"
. O serviço arqueológico descobriu duas das
seis talhas usadas nas Bodas de Caná: uma está na
igreja católica e a outra na igreja greco-ortodoxa que
vemos em primeiro plano, construída perto da outra. 
  O oficial, parecendo não compreender a censura de Jesus, insistiu: "Senhor, descei, antes que meu filho morra". Vemos que este oficial acredita no poder de Jesus, mas a sua fé continua imperfeita, pois que julga necessária a presença  do taumaturgo e não acredita ainda que Jesus possa curar o seu filho à distância ou ressuscitá-lo, se estiver morto. Devemos observar que Jesus estava na ocasião, no início de sua vida pública, e, portanto, não havia feito ainda muitos milagres. Veremos mais tarde, numa circunstância análoga, o Centurião romano dizer a Jesus com fé e humildade admiráveis, bem superiores às deste oficial do rei: "Senhor, eu não sou digno que vos incomodeis em vir a minha casa; dizei somente uma palavra e o meu servo será curado!" Por isso o Centurião mereceu ouvir de Jesus: "Não encontrei tamanha fé no meu povo de Israel!
  O Divino Mestre, no entanto, não despreza essa fé imperfeita do oficial, mas trata de a robustecer, curando o enfermo ausente. Cumpriu-se mais uma vez a palavra do profeta: "Não quebrará a cana fendida, nem apagará a mecha que ainda fumega".  Disse Jesus àquele pai aflito: "Vai, teu filho vive". 
  Acreditou o homem na palavra de Jesus e partiu. Não instou mais com Jesus: sinal de que acreditou. Sua fé já era bem mais viva e perfeita. 
  A meio do caminho encontrou seus servos que vinham ao seu encontro anunciar-lhe a feliz nova: seu filho  subitamente ficara curado. Perguntou o pai a que hora isto se deu. Se, deste modo quis, por assim dizer, verificar o fato, precisando o momento da sua realização, foi, para confirmar a sua própria fé e poder atribuir a Jesus e só a Jesus a cura do filho e assim se excitar a uma perfeita gratidão. Quis também, sem dúvida, que os seus servos partilhassem da sua admiração e da sua convicção, de que Jesus era o único autor dum tão grande milagre e assim levá-los a felicidade de acreditarem como ele. 

A fé deste oficial estava no começo, quando veio à procura de Jesus e pedir-lhe a cura do filho; aumentou, quando acreditou na palavra do Senhor: Vai, o teu filho vive; atingiu  perfeição, quando soube a boa notícia que os servos lhe traziam. Neste momento ele creu que Jesus era o verdadeiro Messias prometido, o Cristo, o Filho de Deus; e, não contente, de crer ele só, comunicou, pelas suas exortações e pelos seus exemplos, a sua fé, o seu amor e a sua felicidade a toda a sua casa. A partir deste dia, esta casa tornou-se uma espécie de igreja antecipada em que o Salvador recebeu as homenagens que lhe eram devidas. 
  Admiremos a fé ativa, o zelo e o amor deste oficial que, esclarecido pela graça, testemunha a Jesus o seu reconhecimento da maneira que mais lhe agrada, fazendo-o conhecer e amar pelos seus. É um verdadeiro apostolado. Belo exemplo que todos os pais de família e donos de casa verdadeiramente cristãos fariam bem em imitar, que as ocasiões não serão raras. 
  Infelizmente, numerosos cristãos, santificados desde o nascimento pelo Batismo, educados na verdadeira religião, cumulados por Deus de toda a espécie de benefícios, se bem que o não reneguem, contudo vivem de tal forma que, em vez de edificar as suas famílias, algumas vezes as escandalizam duma forma lamentável. Em lugar de se aproximarem dos sacramentos, de recitarem piedosamente as suas orações em comum, de praticarem as virtudes cristãs, vemo-los constantemente afastados de toda a prática religiosa, entregarem-se ao jogo, à bebida, a paixões vergonhosas e culpáveis.
  Concedei, Senhor, benignamente a vossos fiéis o perdão e a paz, para que sejam purificados de toda culpa, e Vos sirvam com firme confiança. Amém!

domingo, 20 de outubro de 2019

HOMILIA DOMINICAL - 19º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Efésios, 4, 23-28.


Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus, 12, 1-14: 


"Naquele tempo, falava Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos fariseus em parábolas, dizendo: O Reino dos céus é semelhante a um rei que quis celebrar as núpcias do seu filho. E mandou seus servos a chamar os convidados para as bodas; estes, porém, não quiseram vir. Novamente enviou outros servos, dizendo: Dizei aos convidados: Eis que já preparei o meu banquete; os meus bois e cevados já estão mortos, e tudo está pronto; vinde às bodas. Eles, porém, não fazendo caso, foram-se, um para sua casa de campo e outro para seu negócio; e ainda outros prenderam-lhe os servos e depois de os terem ultrajado, mataram-nos. Tendo conhecimento disto, o rei encolerizou-se, mandou seus exércitos e exterminou aqueles homicidas. pondo fogo à sua cidade. Então, disse a seus servos: As bodas estão preparadas, mas os convidados não foram dignos. Ide, pois, às encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, chamai para as núpcias. Saindo os servos pelas ruas, reuniram todos os que encontraram, bons e maus. E a sala do festim ficou cheia de convidados. Então entrou o rei para ver os que estavam à mesa e viu ali um homem que não trazia a vestimenta nupcial. E lhe disse: Amigo, como entraste aqui, não tendo a vestimenta nupcial? Ele nada respondeu. Então, disse o rei aos servidores: Amarrai-o de mãos e pés e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos". 

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

  Primeiramente, devemos fazer uma observação: O Evangelista São Lucas relata uma parábola muito semelhante a esta. O fundo e o fim são os mesmos. Diferem, contudo, quanto aos pormenores: a de São Lucas foi exposta em casa dum chefe dos Fariseus, alguns meses antes da outra, que hoje nos ocupa e que foi dita no Templo, na terça-feira antes da Paixão.

  A parábola de hoje compreende duas partes bem distintas: A primeira dirige-se aos Judeus que, tendo sido os primeiros convidados e chamados várias vezes a reconhecer o Messias, Deus feito homem, recusaram vir e chegaram mesmo a matar alguns dos enviados do Senhor e que, por causa da sua obstinação, foram excluídos do reino de Deus. A sua reprovação e a ruína de Jerusalém são claramente anunciados.

  A segunda parte refere-se aos Gentios, convidados em massa para o lugar dos Judeus. Entretanto, Nosso Senhor quer também instrui-los e mostrar-lhes, com o que aconteceu àquele que não tinha a veste nupcial, que não basta, para ser recebido no festim das núpcias divinas, ser batizado e ter fé, mas que é preciso ainda estar revestido da graça santificante. 
Vista parcial de Nazaré. Em primeiro plano, vemos a Basílica da Encarnação,
em estilo moderno, construída em 1968. Nesta Igreja está o local em que se
deu o mistério da Encarnação. "O Anjo anunciou a Maria, e Ela concebeu
do Espírito Santo", "O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós".
  O rei que faz as bodas de seu filho é o Pai celeste. Estas núpcias do Filho de Deus realizam-se de várias maneiras:  Antes de tudo pela Encarnação, ou seja, o Filho de Deus, une-se hipostaticamente à natureza humana no seio da Bem-aventurada Virgem Maria. Há, portanto, a união da natureza divina com a natureza humana na pessoa divina do Verbo, ou seja, do Filho de Deus. 
  Núpcias também no sentido de que o Filho de Deus feito Homem fez uma aliança mística com a sua Igreja. Neste sentido diz São Paulo que o matrimônio é grande em Jesus Cristo e na sua Igreja (Ef. V, 32).
 Em terceiro lugar, podemos dizer que Filho de Deus feito homem como que desposa a alma fiel pela graça, consoante a fórmula do profeta Oséas: "Eu vos desposarei em fidelidade". (Oséas, II, 20). 
  Estas três núpcias santas, só têm por fim preparar as núpcias eternas no Céu.

  Assim, ser convidado para as núpcias do Filho de Deus, é ser chamado ao conhecimento e ao amor de Jesus, a entrar no grêmio da Igreja, a unir-se a Nosso Senhor pela Sagrada Comunhão, para um dia, enfim, entrar no reino dos Céus e lá gozar a eterna felicidade. Diz o Apocalipse XIX, 9: "Bem-aventurados os que foram chamados à ceia das bodas do Cordeiro!"

   E enviou seus servos a chamar os convidados para as bodas: Os judeus, os primeiros convidados, sempre se mostraram de cerviz dura, indócis e rebeldes ao convite divino.Os judeus rejeitaram este primeiro convite que foi feito desde Abraão até Moisés e os Profetas.

   Novamente enviou outros servos: Este novo chamamento, mais instante, representa a missão de João Batista e dos Apóstolos.

  O festim da Igreja de Jesus Cristo está pronto: eis que o Verbo se fez carne; eis também a doutrina de vida; eis os sacramentos, sobretudo a Eucaristia, para alimentar, para regozijar e fortificar as almas. Jesus morrendo na Cruz exclamou: "Tudo está consumado". Sim, tudo está pronto! o mistério da reparação está satisfeito eficazmente; a entrada do reino dos Céus, até então fechada pelo pecado, está aberta; a salvação é oferecida a todos: Vinde às núpcias! 

   Os Judeus recusaram o convite. Uns ocupados unicamente com os seus interesses materiais, ou com os prazeres, negligenciaram tão instantes convites. Outros, mais perversos, prenderam os servos enviados pelo rei. Estes homens ingratos e malvados, depois de terem ultrajado os servos do rei, mataram-nos. Na  parábola dos vinhateiros,  Nosso Senhor Jesus Cristo disse que eles mataram o próprio Filho do Rei, ou seja, o próprio Jesus Cristo.

  O rei encolerizou-se, mandou seus exércitos e exterminou aqueles homicidas, pondo fogo à sua cidade: Isto se cumpriu à letra quando as legiões romanas guiadas por Tito e Vespasiano, investiram contra Jerusalém e, depois do memorável cerco, a destruíram juntamente com o Templo e dispersaram por toda a terra os habitantes que sobreviveram. 

  Agora a segunda parte da parábola: Diz respeito especialmente a todos os cristãos. O rei diz aos seus servos, isto é, aos Apóstolos e a seus sucessores no decorrer dos séculos: O festim das núpcias está pronto, isto é, os mistérios da Encarnação e da Redenção estão consumados. Os judeus, pela sua incredulidade e obstinação, tornaram-se indignos dele. Diz São Paulo: "Pelo seu (dos judeus) delito, veio a salvação aos gentios" (Rom. XI, 12). Deus sabe tirar o bem do mal. Portanto, ide por toda a terra, ao meio dos povos mais remotos e mais bárbaros, e todos aqueles que encontrardes, sem distinção de idade e de sexo, de condição ou de dignidade, sem acepção de pessoas. E os Apóstolos diziam aos Judeus: "Porque vocês foram julgados indignos, nós nos voltaremos para os gentios". Efetivamente, os Apóstolos dispersaram-se e foram pregar por todo o mundo. A sua obra foi continuada através dos séculos.Por isso a Igreja militante está cheia duma multidão inumerável de todas as regiões e de todos os povos.

  Mas nela os justos e os pecadores, estão ainda confundidos: trigo e cizânia, bons e maus, porque, na verdade, todos foram chamados, mas nem todos se converteram sinceramente e são fiéis às obrigações contraídas no Batismo.

  O rei entrou na sala do festim para ver os que estavam à mesa: Esta visita súbita simboliza a que Deus fará a cada um de nós na hora do juízo que se seguirá logo após a morte.

  E o rei viu um homem sem a veste nupcial. Todos recebiam esta veste na entrada da sala do banquete. Todos os cristãos recebem a veste cândida da graça na entrada da Igreja pelo santo Batismo. Não basta, porém, vir assentar-se à mesa do banquete, participar dos sacramentos, praticar os atos exteriores da fé: é preciso ter ainda a veste da graça. É preciso tê-la conservado sempre ou, ao menos, tê-la recuperado pela penitência para participar do banquete da graça e depois do da glória.

   Disse o rei aos servidores: Atai este homem que não traz a veste nupcial. Amarrai-o de pés e mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes. Tudo isto é imagem dos castigos que Deus infligirá ao pecador encontrado sem a veste nupcial da graça na hora do juízo. De pés e mãos ligadas porque sua pena será eterna. As trevas exteriores são a figura das horríveis trevas da privação da visão beatífica de Deus. Choro e ranger de dentes, imagem da aflição indizível, dos remorsos pungentes e do desespero que causarão ao pecador, a lembrança das suas infidelidades e a eternidade do inferno, onde caiu por sua culpa, porque dependia dele só, fazer-se receber no Céu.

  Caríssimos, seremos nós do pequeno número dos eleitos? É segredo de Deus, mas isso depende de nós. São Pedro faz-nos esta recomendação que é, ao mesmo tempo, uma verdade dogmática e um preceito moral para assegurar a nossa salvação: "Portanto, irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais. Desde modo vos será dada largamente a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" ( 2 S. Ped., I, 10 e 11). Amém!